sábado, 15 de junho de 2013

BRINCANDO COM AS PALAVRAS


Encantado, eu brinco com as palavras 
embaralho-as, retorço-as e escrevo
componho poemas, são minhas escravas
uso-as como artesão, sou oleiro

Cultivo sonetos e colho fantasia
Escolho os vocábulos e vou tecendo
às vezes acerto nos versos à revelia
contudo com meus erros vou aprendendo

Destarte eu rabisco, narro, descrevo
Essas garatujas, assim, criam asas
seguindo e voando muito além-mundo

Em quase tudo que redijo me vejo
apago, reescrevo, a mente em brasa
súbito, produzo um texto profundo

Gilbamar de Oliveira Bezerra(Gilbamarpoeta)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

DIA DOS NAMORADOS - 2013

Casal dia dos namorados se beijando

Estrelas brilham mais lindas
mais belo parece o luar
o céu se vira em ternura
quando estamos a namorar
como se contribuíssem
tristezas e dores saíssem
quando um casal vai amar

Já o mar não mais se agita
o vento se espalha brando
o calor do sol ameniza
o casal na cama suando
o firmamento pode cair
nenhum dos dois tá nem aí
estão na cama amando

Tudo em derredor cala
os ruídos silenciam
só seus gemidos ressoam
os gatos, sérios, não miam
apenas as molas gemem
as quatro paredes tremem
mas eles, juntos, nem viam

O suor escorre nos corpos
beijos ardentes trocados
ele beija o corpo dela
com carinhos delicados
é uma guerra sem vencedor
mas ganha com isso o amor
com os dois engalfinhados

Do começo até o final
o arco-íris muda de cor
nessa batalha-ternura
travada com tanto ardor
jardins brincam de esconder
ah se fôssemos eu e você
desfrutando esse amor

São flores com mais perfume
é maravilhoso o sorriso
abraços que não terminam
vão os dois ao paraíso
quando começam não param
em nada eles reparam
nem chão, nem teto, nem piso

Só tem olhos um pro outro
são corpos que se esfregam
centenas de beijos dados
são mãos que tudo afagam
as pernas entrelaçadas
as roupas no chão jogadas
então ambos se entalham

No dia dos namorados
tudo isso acontece
parece que nesse dia
logo o amor reverdece
os erros são esquecidos
todos se tornam queridos
o amor nunca envelhece

Parabéns aos que se amam
votos de felicidade
que sejam muito felizes
que tenham cumplicidade
vão eternos namorados
uns e outros sejam amados
sejam casais-raridade

Gilbamar de Oliveira Bezerra (@Gilbamarpoeta)

NO TEU CÉU - DIA DOS NAMORADOS

Imagine só beija-flores voando
nalgum paraíso de jardins floridos
com borboletas perfumadas planando
num oceano de peixes coloridos



Mágico assim só teu lindo sorriso
deveras tão belo qual estrelas no céu
iluminado como o sol indiviso
destacando teus olhos de favos de mel

Nesse conjunto, teus lábios poéticos
realizam a fascinante fantasia
de meus versos reais e hipotéticos

e teu corpo, como se fosse esse jardim,
eu um simples beija-flor com alegria,
é o céu e tem flores perfumadas para mim


Gilbamar de Oliveira Bezerra (@Gilbamarpoeta)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

MIL ANOS COM VOCÊ - DIA DOS NAMORADOS

Te conheci num momento triste e esquecido, quando o céu estava sombrio e desestrelado, também desprovido de luar, contudo tão melancólico quanto um olhar desiludido. Guardei nas lembranças o teu perfume afável, teus gestos de abandono e saudade, teus olhos nadando em lágrimas, tua voz perdida no desafino, talvez sonhando em fazer tantas coisas, em realizar tantos feitos. Nadavas nas doces e suaves ondas dos devaneios.  Não, nada, nunca, só a brisa em desespero rasgando as ruas, levantando poeira, respirando sobre as folhas, roçando teu rosto cansado, revolvendo sem entusiasmo os teus cabelos finos e negros como uma noite apagada. À frente, tão-somente o vácuo amorfo.

Tua ias sem rumo à procura de quê? Do talvez, decerto, dos senões imiscuídos nas entranhas do porvir, do mutismo angustiante, de algo que provavelmente nem sabias o que fosse, e te perdias nos próprios passos trôpegos, parecias flutuar como se levada somente pelo pensamento solitário perdido no coração do teu cérebro eunuco. Choravas e sorrias ao mesmo tempo, cantavas até, e eram músicas mórbidas como chuva de granizo destruindo telhados e arrancando árvores, como fogueiras chamuscando o ar aparvalhado e devastando o oxigênio vital, como gangurus enlouquecidos saltando sobre brasas ardentes, como crianças inocentes gritando o clamor dos famintos por seios túrgidos, por carinhos inexistentes, por abraços que jamais seriam dados. Abraços que, certamente, nunca recebeste. Nem deste.

Quisera não ter sido assim o nosso encontro, tão imerso nesse amargurante poço sem fundo de incertezas, de inesperada falta de esperança, de repentino lufar de gélido suspiro de dor, de dolorosas lantejoulas flamejantes brilhando sinistras nos pingos lacrimejantes que caíam dos teus olhos e salpicavam o chão seco e empoeirado. Oh, quem dera, quem dera! Quem dera, sim, tivesse sido de outra maneira mais sublime esse nosso encontro desesperado, em que passasse por nós um rio de ternura e nos molhasse todo com seu ar celestial, gorjeassem pássaros felizes sobrevoando nossas cabeças, cantarolassem melodiosos os anjos em festa ao nosso derredor, dançassem as pessoas transbordando e distribuindo felicidade como se fora o primeiro dia de inesgotável paraíso se abrindo aos nossos corações.

Todavia não foi assim, não houve fascinação, não se viram gargalhadas de alegria, ninguém beijou ninguém, afagos não foram feitos, carinhos caíram por terra ressequidos pela falta de desejo, risos se transformaram em choro alucinante, afloraram temores e tremores, corpos não se fundiram na intensidade do gozo, mãos não se pegaram afáveis, não foram trocados cumprimentos afetuosos, a simpatia fugiu dos olhares e se transformou em pesar, em esgar, em incertezas, em loucos vislumbres de ódio destilado sem qualquer razão plausível. E todo mundo chorava, sorrindo um sorriso sórdido, se lamentava mesmo sem haver sentido para isso, corria sem saber aonde ia, abria os braços em cruz e gritava "engula-me solidão!", jogava-se ao chão e rastejava feito serpente famélica ansiando por uma vítima cujo coração estivesse latejando, assustado por causa dela.

Preferi não adentrar o céu da tua boca com um translúcido beijo de língua, não chegar nem perto de ti para não ser contaminado com o lúgubre estampado no teu rosto, afastar-me em desabalada carreira, chorar meu próprio lamento, subir nos telhados úmidos, tentar voar para ficar bem longe de ti. Pois eu também estava mergulhado num turbilhão de melancolia, num oceano de inimagináveis tristezas. Um Norte adequado anelava meu espírito. Por essas razões e em virtude da força da amargura, achei por bem não abrir as portas do meu coração ao apelo de tua lúgubre ansiedade, de teus loucos apelos. Fugi, ou ao menos tentei. E chorei, sim chorei muito, em demasia, como deveras clamam as crianças. Quiçá pelo desespero sobremodo intenso, ou minha incapacidade de sorrir. Sem forças, abatido, desejando o que não me seria justo querer. Minhas lágrimas regaram o travesseiro, a fronha e a cama. Eu me encontrava sozinho em minha angústia, que não se pode unir à tua.

Gilbamar de Oliveira Bezerra

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

MARCHANDO SOB A NEVE


Amanhecemos em Estocolmo, capital da Suécia, e vimos a noite continuar soberana com sua escuridão escondendo o sol e as nuvens jogando bilhões de flocos de neve sobre a cidade e seus habitantes, que despertavam para recomeçar as atividades cotidianas. Nós não queríamos perder a menor fração de tempo enquanto estivéssemos lá, por isso urgia conhecer depressa o que de mais lindo e turístico essa bela megalópolis poderia oferecer aos visitantes sequiosos de novas imagens e novas belezas. E nem bem a claridade do novo dia finalmente conseguiu derrotar a penumbra noturna, após tomarmos o desjejum às carreiras, nos apropriamos das indumentárias necessárias e saímos a conhecer tudo que o tempo permitisse e fosse possível da cidade,  passeando sob os petardos inclementes e intermitentes dos flocos de neve, os ataques furiosos do trânsito, as investidas das bicicletas por sobre o chão escorregadio pela transformação da neve em gelo, as pessoas já apressadas em busca de seus empregos e de suas atividades que recomeçavam.

Atravessamos cuidadosamente as ruas molhadas e geladas onde o manto de neve enregelante formava um lamaçal escorregadio, cruzamos algumas pontes sob um frio intenso e cortante batendo no rosto, aqui e ali quase escorregávamos, e a neve aumentava de intensidade a cada momento que se seguiam os ponteiros dos relógios. Embora soubéssemos para onde queríamos ir, não conhecíamos o caminho, claro, então perguntei em inglês ao motorista de um enorme caminhão em plena atividade no meio de uma rua onde ficava o palácio real. Eu já sabia de antemão que praticamente todos os suecos falam inglês como pude comprovar ao longo desses dias de minha estada na Suécia. Ele, gentil e pressuroso, imediatamente indicou-me como chegar ao local por nós pretendido. Agradeci e lá fomos nós brigando com os farelos de gelo ousados que também atingiam nossos olhos, desciam pelo rosto e nos ensopavam nossa roupa, malgrado estarmos usando gorro, casaco, sobretudo, luvas e incontáveis camisas térmicas para nos proteger de nossa primeira chuva de neve. 

Nós fomos mais que atrevidos adentrando ruelas estreitas, mas tão estreitas que abrindo os braços eu tocava ambos os lados com as pontas dos dedos, e eram ruas feito ladeiras, íngremes, molhadas, na iminência de nos levar ao chão porque escorregávamos em suas pedras lisas. Em pouco, assoberbado pela confiança demasiada, já não sabíamos onde estávamos, perdéramos nossa localização. A neve persistia caindo intensa, e nem por isso pais e mães deixavam de passear com os filhos recém-nascidos por essas ruas minimalistas, imagine só, como se tomassem o banho de neve de todos os dias como no Nordeste brasileiro nossas crianças tomam banho de sol diariamente. A uma dessas mães foi necessário perguntar a direção exata para chegarmos ao palácio real, alvo de nossa jornada. Gentilmente como tem ocorrido desde que chegamos à Suécia, ela nos explicou o caminho certo e, depois de agradecer tal amabilidade, saímos à procura do famoso paço que é ponto de encontro dos turistas do mundo inteiro.

Uma cena inesperada que nos deixou atônitos nos aguardava defronte ao palácio real. Havia um único guarda solitário guardando os portões de entrada do palácio. Hígido, em posição de sentido, calado, debaixo daquela enxurrada de neve sobre sua cabeça e todo o corpo, armado com um fuzil, olhava para frente como e nada visse. Aproximei-me dele e, através de gestos e frses em inglês, indaguei se podia me aproximar a fim de tirar uma foto, e ele respondeu que eu só poderia chegar até ao limite da linha demarcatória que separava o palácio da larga rua onde está situado o portentoso edifício. Minha esposa fotografou-nos duas vezes, agradeci, e ele perguntou-me de que país éramos. Quando disse, ele sorriu e afirmou "Brasil is ver hot!", fazendo-me sorrir e responder "Yes, while here it's so cold!"

Então algo impressionante aconteceu quando nos afastamos dele procurando ontros locais de interesse para conhecer e fotografar: sem mais nem menos, muito mais que de repente, o mencionado guarda do palácio começou a marchar sozinho para lá e para cá todo garboso, apesar da inclemência da nevasca castigando-o. Interessante, ele ia na direção esquerda, marchando com firmeza e imponência, lá na frente parava, apresentava armas, dava meia volta e refazia a marcha na direção contrária, lento, firme, cabeça erguida, fuzil ao ombro, indo até determinado ponto, novamente parando de forma estrtrégica, apresentando armas a alguma autoridade invisível e, logo e de novo, fazendo o retorno em marcha constante e lenta. Permaneceu nessa atividade o tempo todo em que nos dirigíamos a outro local nas proximidades, e certamente ficou marchando a manhã toda por razões inexplicáveis à minha perplexa alma.

Por um desses felizes acasos da vida vi-me bem em frente ao Museu Nobel, homenagem ao idealizador do prêmio Nobel anual que premia escritores, cientistas, pesquisadores, homens e mulheres dedicados à semeadura da paz. Ali, ao lado da foto de Alfred Nobel, todo sorridente, fui fotografado por minha esposa já não me importando com o vento gelado beijando meu rosto nem com os implacáveis flocos de neve enchendo minha roupa de gelo que se acumulava e formava em mim o aspecto dos esquimós habituados às agruras das temperaturas mortais.

Gilbamar de Oliveira Bezerra
                                                          g

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

BEIJOS DE LÍNGUA


À espera pela chegada do trem que nos levaria de Estocolmo para Malmo, sob um frio de gelar a própria alma, ficávamos a observar as figuras humanas e seus trejeitos especiais, a maneira como sorriam, as malas que carregavam, o ar de silêncio presente em muitos, os animais que consigo levavam, pois existe um vagão especial para donos de animais de estimação e seus bichinhos se acomodarem. Um casal jovem e elegante, ela muito bem vestida com seu casaco charmoso, ele usando desenvolto sobretudo e levando nos braços, num aconchego carinhosamente especial, o seu cãozinho, prendeu-me a atenção pela maneira extremamente maternal com que cuidavam deste. Os olhares de ambos, pejados de amor, não desgrudavam do amado pet, a mulher afagando-o a todo instante, pressurosa, atenciosa, gentil, mãezona, e o safadinho do bem cuidado animal, sabendo-se alfa e rei da casa e manda-chuva do casal, quase chegava a ronronar de tão dengoso. 

Só fui vê-los novamente já no interior do trem, no assento bem ao lado do nosso, pois sem perceber eu e minha esposa nos instalamos justamente no local destinado a pessoas com seus estimados bichinhos.
Havia à nossa frente um senhor enorme, alto e rechonchudo, é bem verdade, retirando dum saco algo semelhante ao espetinho brasileiro, o qual ele vorazmente devorou, porém minha toda atenção se fixou mesmo foi no casal e seu filhinho, isto é, seu cãozinho. É que em determinado momento da viagem o acompanhante da mulher entregou-lhe o animal e ela o aconchegou em seu imaculado colo, mimo especial provavelmente dedicado só para ele. Não demorou muito e o cachorrinho começou lânguidamente a lamber o rosto e, como se dono do galinheiro fosse, os lábios dela. Carinhosa e amorosamente. A mulher só faltava subir as paredes de tão feliz, e em determinado intervalo das lambidas ela abriu a boca e puxou a língua dele, beijando-o com beijos novelescos, cinematográficos, depois passou também a lamber o focinho ele, os dentes, os olhos, o pescoço... temi que descesse além do limite suportável, mas graças a Deus parou somente nas imediações.

Sério, achei aquilo bastante exagerado, uma desfaçatez, falta de higiene, asqueroso até, principalmente a coisa me impressionou ainda mais porque o namorado ou marido dela via tudo aquilo sorrindo satisfeito, em verdadeiro êxtase. Por fim, quando a mulher cansou ou talvez estivesse na mais serena paz do nirvana em seu apogeu, entregou o filhinho, digo, o cãozinho a ele e vi, horrorizado, o cara repetir a mesma cena protagonizada por ela. Beijou beijo de língua, abraçou-se ao animal, embalou-o, mimou-o e o encheu de dengos, agora sendo observado atentamente pela mulher em estado de expressa felicidade. Quando se sentiu completo, embrulhou o bichinho em seu próprio corpo e o fez dormir.

Fiquei com torcicolo de tanto assistir à cena, e perplexo, abobalhado, sem entender a razão daquela repentina explosão de amor. Somente o cãozinho percebeu minha indiscrição, contudo ele olhava para mim como se zombasse de meu interesse, talvez a imaginar que eu estivesse com inveja dele e quisesse estar em seu lugar, sabe lá o que esses bichos pensam! Minha esposa também viu tudo, atônita, surpreendida, não conseguindo entender tudo aquilo. Uma mulher sentada na cadeira em frente às deles fingiu dormir, creio, para não ser partícipe testemunhal da inesperada cena de filme. E, mesmo observada com especial atenção pelo bichinho de estimação do casal, minha esposa ousou discretamente tentar fotografar o cachorro e o viu abrir desmesurado os olhos, como a ameaçá-la com um súbito exibir dos enormes dentes. Pensou melhor, guardou a máquina fotográfica e fez de contas que não estava vendo nada.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

NEVE SOBRE OS TELHADOS


Despertei por encanto do silêncio profundo reinando no apartamento, à guisa de minha alma ouvir o som de si mesma e fazer-me abrir suas janelas em plena madrugada vazia de ruídos. Olhei displicente para a janela, de onde resplandecia uma claridade inesperada, quase um banho indiscreto de luz sobre o quarto, a seguir vislumbrei minha amada aconchegada sob nosso edredon aquecido. Ela dormia serenamente linda ao meu lado, o rosto angelical repousando tranquilo sobre o travesseiro macio, seus lábios bem desenhados convidando-me a beijos de amor. E eu aceitei o doce convite, beijando-a suavemente com um frêmito de prazer. Ela sorriu de maneira fascinante como se naquele precioso instante estivesse sonhando comigo a beijá-la e se remexeu graciosa em suas curvas sublimes. 

Levantei-me sem fazer barulho e fui à janela olhar a madrugada, então, surpreso, vi a neve caindo em leves flocos que mais lembravam pedacinhos de papel caindo do céu, como se os anjos brincassem de jogar confete sobre a terra ou, sapecas, estivessem a fazer bolinhas de sabão com as nuvens cheias de espuma. Sorri embevecido, sentindo um frêmito de súbita alegria perpassar-me o rosto, feliz por estar ali assistindo ao belo espetáculo proporcionado pelas poderosas mãos de Deus. O chão se mostrava atapetado de branco, talvez com uma camada de neve próximo dos cinco centímetros, as árvores desfolhadas pelo outono prestes a terminar, as plantas, os telhados, os postes, os carros estacionados, tudo estava coberto pela brancura da neve. Dava para perceber que os carros eram realmente carros somente por seu formato de carro, embora deles não se visse nada além do alvo e grosso manto cobrindo-os inteiramente.

Notei alguns corvos encarapitados nos galhos nus de folhas, porém vestidos de neve, ao lado de outros pássaros para mim desconhecidos sem se mexer, parecendo criaturas mortas e contudo vivas, inertes e ainda assim latentes, pontos perdidos e desencontrados sob o gelo flutuando no espaço e descendo sobre seus corpinhos desagasalhados na proximidade do novo amanhecer. Quase todos os seres vivos dormitavam naquela hora, apenas a natureza e eu nos comunicávamos solenes, ela lá com sua força extraordinária cobrindo tudo com o ar gélido de sua respiração transformada em resquícios de gelo dançando no ar, eu cá atrás da vidraça hermeticamente fechada da janela, protegido do frio causticante através do efeito calefação distribuído por todo o apartamento, o gigante contra o grão de areia, a imensidão do céu contra o amedrontado serzinho escondido atrás da proteção artificial duma construção especialmente preparada para enfrentar e vencer essa diversidade anual tão comum aqui na Suécia.

Deitei meus olhos por sobre a distância das ruas desertas de vida adiante e deixei-me ficar a refletir a respeito da filosofia humana louca e sem desígnios, frágil e inútil, melancólica e desprovida de sentido, pequena e ambiciosa, atrevida como o são todos os que se julgam sábios quando não passam de aprendizes e ignorantes soberbos carentes de sabedoria. A neve lá fora gelada e torturante, eu atrás da janela do apartamento, pelo lado de dentro, aquecido e calmo, ciente de sua força mas zombando dela por me ver na fortaleza de cartas de papelão. A madrugada via-nos na constância de sua infinitude, entregue ao mutismo que lhe é peculiar, nem sendo contra nem a favor, todavia expressando torpe indiferença porque eu nesse cenário não era mais do que um simples risco a mercê do tempo, essa borracha capaz de apagar-me num mero piscar de olhos.

A neve continuou a despencar sobre Malmo, na Suécia, e seus telhados, árvores, carros, chão e bicicletas, eu porém, após gravar essa imagem inesquecível do brasileiro que vê pela primeira vez a neve caindo como se fosse chuva no seu país tropical, retornei ao leito, enfiei-me sob as cobertas, abracei minha amada e procurei dormir novamente à medida que o novo dia, embora escuro pelo inverno europeu, começava a se deixar ver nas horas lentamente passando.

Gilbamar de Oliveira Bezerra

domingo, 20 de janeiro de 2013

CRÔNICAS DA EUROPA 2




Começaram hoje os festejos natalinos em Malmo. Fomos ver as feirinhas espalhadas numa das praças da cidade. Anoiteceu muito cedo, então quando saímos já as luzes dos postes estavam acesas iluminando a escuridão prematura. Uma multidão se arrastava para lá e para cá em meio às barracas onde se vendia de quase tudo, desde cachorro-quente (hot dog) com salsicha, chocolate quente e gelado, flores, enfeites de Natal, roupas, bijuterias, artesanato, até comida chinesa, café com leite e dezenas de outros itens que fazem a festa gastronômica dos suecos. As lojas, cafeterias, bares e outros estabelecimentos comerciais também se achavam de portas abertas ao público. Um fato interessante chamou minha atenção, como das outras vezes em que vimos a esse lugar a passeio: aqui e ali, em vários lugares e pontos estratégicos havia fogo e velas acesas para esquentar os transeuntes, visto que o frio congelava o ar.

                                       

Foi quando, de repente, ouvimos uma gritaria oriunda de grande multidão vindo em nossa direção. Eu imaginei, na hora, que se tratasse de alguns grupos entoando canções ou apresentando desfile de alguma espécie de folclore natalino. Nada disso, tratava-se de manifestação dos palestinos locais contra Israel, onde havia crianças, mulheres e homens novos e velhos, todos gritando contra Israel. Um carro da polícia ia à frente, outro, atrás. Muita gente fotografava e filmava o movimento, eu e Ana também fizemos isso enquanto a turma da gritaria se esgoelava furiosa no seu protesto.

                                          

Depois que os manifestantes se foram desaparecendo em alguma esquina adiante, tudo voltou ao normal, as pessoas retomaram seu passeio pelas ruas e o sorriso retornou aos lábios dos que conversavam. Um casal de jovens, ambos com uma placa nas costas em sueco, claro, distribuía mapa de Malmo aos turistas, já um senhor solitário tocava violão e cantava músicas estranhas aos meus ouvidos, o chapéu de boca aberta para cima esperando donativos de quem apreciasse sua arte. Estranhei muito esse tipo de acontecimento na Suécia, porém ainda mais chocado fiquei quando enxerguei um pobre-coitado sueco apoiado numa bengala e pedindo esmola. Fotografei-o sem querer acreditar que isso fosse realmente verdade, jamais imaginei encontrar mendigos num país tão desenvolvido, riquíssimo e de primeiro mundo como esse onde estamos. Recordo agora que antes de ontem eu já tinha visto outro mendigo sentado no batente duma loja segurando uma placa com frase em sueco, certamente também esmolando, pois seu chapéu igualmente se encontrava aberto no chão à espera de ajuda. Dupla perplexidade para mim. Vejo agora que a perfeição não existe onde há seres humanos, há sempre falhas em seus gestos e atitudes. Olhei para uma rica cafeteria, onde os preços são estratosféricos e me senti envergonhado, porque apesar de serem caros seus preços ela estava cheia, os usuários comendo à farta bem em frente ao mendigo que esmolava.

                                          

A temperatura caiu ainda mais e a sensação térmica causava desconforto quando resolvemos voltar para o apartamento. Como não chovia e não era muito longe, fomos a pé apreciando a paisagem noturna pelo caminho.

sábado, 19 de janeiro de 2013

CRÔNICAS DA EUROPA - 1

Bom dia amigos!! Estive passando uma temporada maravilhosa de sessenta dias na Europa, entre Suécia, Dinamarca e França, resultando desse verdadeiro tour de conhecimento várias crônicas e fotos que, a partir de agora, postarei neste blog. Espero que todos vocês curtam e deixem seus comentários. Divirtam-se com os fatos pitorescos que relato do meu dia a dia na Europa.  




                                          PASSEANDO PELA SUÉCIA 


No restaurante do IKEA o sujeito comprou batatas fritas, almôndegas, purê de batata, geléia de cranberries e um copo de leite cheio até até a borda. Não foi uma surpresa desnorteante porque eu já sabia que os suecos almoçam e jantam tomando leite. Naquele momento quase todos no restaurante bebiam leite, às vezes mais de um copo cheio, enquanto comiam. Mas até eu e Ana chegarmos a esse colosso comercial que é o Ikea passamos por uma verdadeira odisséia digna de romances de aventura. 

O dia estava lindo, quase claro, com previsão de chuva fraca para bem mais tarde, a temperatura se mostrava agradável, por isso decidimos fazer a caminhada de cinco quilômetros até o mundialmente famoso universo comercial chamado IKEA. Afinal de contas seria nossa malhação, nosso exercício físico do qual já nos vemos sentindo falta, habituados que somos aos esforços proporcionados pelas atividades diárias na academia, no Brasil. Pesquisamos o roteiro no Google Maps, traçamos no mapa físico as ruas por onde passaríamos e ligamos o GPS, iniciando então nossa aventura. Sim, foi uma verdadeira. surpreendente e inesperada aventura que nos fez, lá pelas tantas, a meio caminho, perceber que talvez tivesse sido melhor ter ido de ônibus e deixar a caminhada saudável para outros dias. Isso, no entanto, somente muito tempo depois passaria por nossa cabeça.

Vejam só o que faz o destino conosco, pobres viventes: a primeira rua por onde deveríamos começar a jornada impetuosa se encontrava interditada. Resolvemos, assim, ir por uma rua mais distante, pensando que lá na frente retornaríamos à indicada pelos mapas. Ledo engano! Não foi bem assim, tratava-se de enorme avenida e somente lá na frente pudemos retomar o caminho julgado certo. Bom, aí sim notamos que o GPS indicava sempre estreitas ruas por onde apenas pedestres e ciclistas circulavam. O pior de tudo foi ter certeza de que o GPS só nos levava por ali, independente de o mapa em nossas mãos não registrar as tais artérias cada vez menores, apertadas, esquisitas, desertas e aterradoras. Aqui e ali um ciclista solitário, uma ou duas mulheres apressadas, o silêncio e mais silêncio, parecia que deixáramos a cidade e havíamos caído numa espécie de pesadelo real, porém sem nenhum perigo, embora cheio dessa angústia tão característica dos sonhos tristes, das estradas melancólicas, das tristezas abandonadas pelos sorrisos. E o GPS nos mandava seguir em frente na maior indiferença, firme em seu propósito estranho, conduzindo-nos para o que me pareceu, de fato, fantástico labirinto perdido no tempo, no espaço, abandonado pela vida, esquecido até mesmo pelo mais singelo olhar de misericórdia. Apesar de tudo isso, víamos casas e mais casas ombreando com edifícios não muito altos, daqueles tipo caixão, mas caixão sueco, claro, contudo eram casas e apartamentos herméticos, sisudos, circunspectos, silenciosos, sem nenhum rastro de humanidade, com muitos e muitos carros parados ao lado, à frente, atrás, árvores desfolhadas pelo outono e o nada em cada curva, em cada ruela entre eles, no ar sem pássaros, no chão úmido atapetado por folhas mortas pela estação que as faz se desfazerem em adubo. Em todo o trajeto angustiado só tivemos a repentina e atônita surpresa de ver duas crianças, agasalhadas da cabeça aos pés, brincando sozinhas num quintal aberto e triste, rindo aquela espécie de riso desprovido de graça, figuras ingênuas num filme de suspense onde a qualquer momento algo macabro aconteceria. Só que estamos na Suécia, país educado, civilizado, rico, em que coisas desse tipo jamais ocorrem, só em filmes americanos mesmo.

E lá íamos nós em busca de nossos objetivo, o quadro ficando pior de segundo a segundo, o tempo escurecendo, o deserto aumentando, o cenário se tornando sempre o mesmo onde que que estivéssemos. Cada vez que entravávamos em uma daquelas ruazinhas estreitas ela parecia ser maior do que a anterior, como se andássemos sem rumo e não houvesse como chegar a lugar nenhum. Será que andávamos em círculo ou aquelas ruas não teriam fim, como num conto de fadas, na estória de João e Maria? Ainda assim o GPS continuava a dizer-nos para seguir em frente, entrar à esquerda, em frente novamente, entrar à direita e andar, andar sem parar. 

Quando começou a chuviscar, pronto, não deu outra, eu me apavorei, isso porque não havia um abrigo sequer onde pudéssemos permanecer até que a chuvinha terminasse. As casas e prédios perdidos e esquecidos naquele fim de mundo circundado por mato baixo e estradinhas estreitas próprias para pedestres e ciclistas estavam fechadas, aparentemente sem ninguém e não ofereciam condições para nos proteger do chuvisco que caía e começava a molhar nossos casacos, gorros, luvas e sapatos. E agora? Todavia, malgrado todo esse sufoco, o GPS persistia afirmando para irmos "na direção da venta". E fomos, Ana consultando a todo tempo o mapa e o GPS, eu me esforçando para não gritar enlouquecido pelo silêncio, o ambiente deserto e a chuvinha intermitente que fazia o meu nariz se transformar num picolé.

Foi então que começaram a aparecer à nossa frente pequenos túneis, meu Deus onde estávamos? Lembro que de vez em quando uma viv'alma ou outra aparecia no caminho, um que outro ciclista, tanto homem quanto mulher, atravessava nossos passos, porém eu não via perspectiva promissora em nenhum instante à medida que prosseguíamos, a chuvinha insistia em cair, não víamos outra paisagem além das casas e apartamentos fechados e sem vida, o caminho cada vez mais longo, a perder de vista, e a quase certeza de que, reconhecendo ou não, provavelmente nos perdêramos.
Mas o danado do GPS não parava de dizer que continuássemos naquele rumo. Num dos túneis deparamos com três jovens segurando suas bicicletas, talvez aguardando a chuva passar, e Ana, vejam só, receou que eles pudessem ser marginais ou algo semelhante ali à espreita para nos assaltar, sabe-se lá. Outra vez lembrei que estamos é na Suécia, não num país do Terceiro Mundo. Surpreendam-se, eles educadamente saíram de onde estavam para nos dar passagem.

Aonde ia dar aquele labirinto interminável? Às vezes, ao longe, enxergávamos carros, não muitos, indo e vindo, depois tudo voltava ao silêncio, à modorra, ao deserto, ao nada do nada. Sinceramente, o desespero apegava-se a minha alma, embora eu não dissesse a Ana, ela sim otimista, obedecendo aos comandos do GPS, convicta de alcançarmos, finalmente, o lugar para onde íamos. Necessário, a bem da verdade, registrar que, de quando em vez, alguém chegava de carro, estacionava, descia, pegava suas compras, fechava o carro e desaparecia. Mas foi acontecimento tão raro e insignificante, nem valeria a pena lembrar.

Afinal, depois de tudo isso, do cansaço, da fadiga, do temor tomando conta do meu coração, do pesado silêncio em torno de nós, da chuvinha molhadeira, das inúmeras ruazinhas, uma maior do que a outra, mais comprida, mais interminável, Ana avistou, ainda um pouco distante, é certo, mas sobremaneira consolador, o nome IKEA. O ocaso cobria o céu de breve penumbra, o anoitecer se vislumbrava, mas nós dois rimos, meio que dançamos, nos fotografamos, nos abraçamos, nos beijamos felizes porque, graças a Deus, após essas inomináveis vicissitudes, chegáramos, sim, o GPS estava certo o tempo todo e nos levara, enfim, ao nosso objetivo.

Gilbamar de Oliveira Bezerra

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

REFLEXÕES

Escrever e falar corretamente nosso idioma não é querer ser pedante, longe disso, é uma questão de respeito à nossa cultura e à beleza que floresce nas palavras escritas e pronunciadas. Faz gosto ler um texto exaltando o brilho da correição gramatical, assim como é agradável ao ouvido escutar alguém falando sem cometer erros linguísticos.


Se é tenro a ponto de tornar-se frágil e quebradiço, não é amor, é paixão cujo fogo atinge alturas estratosféricas, que no entanto loga se apaga ao primeiro sopro do vento.


Na balança da felicidade uma gota de amor vale mais do que um oceano de lágrimas.


Não existe amor cruel, pois se for amor é benigno, sublime, abençoado, lírico, benevolente, amigo, companheiro, afável, lindo...

Qualidade de vida não é viver no sacrifício da malhação pesada, na falta de uma alimentação gostosa, no renunciar totalmente a determinadas coisas, mas equilibrar tudo isso, saber moderar todo que come, faz e diz.

Muitos vivem clamando por liberdade, mas a maioria esquece que LIBERDADE rima sempre com RESPONSABILIDADE. 

No amor é assim, quem não cuida termina perdendo. 

Casal não é para brigar, casal é para amar. Vamos parar com essa tolice de discussão boba que só cria desavenças, deixando os dois emburrados, ora!

O ontem acabou, é saudade; o hoje vibra e vive; o amanhã ainda dorme.

Vive-se atualmente um momento de desilusão em determinados relacionamentos amorosos, pessoas que amando sem pensar, muitas vezes sem receber a reciprocidade da pessoa amada, terminam desiludidas, abandonadas, tristes, sozinhas. O amor não é assim, e muitas vezes é confundido com paixão repentina, então causa sofrimento, fere, magoa, entristece e faz-se melancólica ilusão.

                  
                                  Gilbamar de Oliveira Bezerra

quarta-feira, 9 de maio de 2012

DIA DAS MÃES - Não é fácil ser mãe


Ser mãe, sem dúvida, é dor e gozo de mãos dadas na estrada da vida, é ansiedade que perdura por toda existência, é temor que atormenta e alívio que se renova, é ter noites de sonhos e pesadelos que se prolongam sem hora para terminar, é a um só tempo a mistura inesperada de sorrisos e lágrimas, é força e fraqueza na indecisão e no instante, é ninar feliz pensando no futuro, mas também é chorar lembrando o inferno atual em que o mundo se encontra e no qual seu filho ou filha estará, sozinho enfrentando os demônios.

Ninguém queira estar na pele de uma mãe, primeiro porque esperou durante nove meses a chegada do seu filho, enjoando, vomitando, engordando e vendo seu corpo se transformar impetuosamente com a geração da vida em seu ventre; segundo, em virtude das inomináveis dores do parto, que homem nenhum conseguiria suportar; terceiro, porque a frágil criatura a quem ela deu a luz vai depender dos cuidados maternos por muitos anos, e isso, se analisarmos bem, não é nada fácil. Imaginem, acordar duas, três vezes durante a madrugada para dar de mamar, trocar fraldas inúmeras vezes ao dia, descobrir a causa dos choros da criança, cuidar, cuidar e cuidar vezes sem fim.

A mãe é vivente tão sublime, que faz do cansaço uma virtude do amor devotado ao filho. Além de tudo e muito mais, a mãe é capaz de permanecer horas diante do berço onde seu bebê dorme pensando, refletindo, analisando, sonhando, desejando um futuro brilhante para ele. Faz planos os mais inusitados,forma-o em medicina ou em física nuclear em dois ternos devaneios, casa-o com a moça mais linda do mundo e emprega-o na empresa multinacional ganhando salário de marajá. Enquanto ele serena tranquilo sob o mosquiteiro, a mãe suspira sorridente imaginando o quanto ele será feliz, rico e bem sucedido, casado e bem casado, com dois filhos no máximo e sendo feliz para sempre.

Qualquer mãe que assume realmente o seu papel com determinação é guerreira, é quixotesca, é rainha preparando seu príncipe para reinar e dominar, lutar e vencer, querer e conquistar, é espada de fogo defendendo sua cria, é voz solitária no deserto causticante a gritar poderosa, é mulher montada num alazão ou dirigindo um carrão para ir buscar o médico onde quer que ele esteja, ou para levar o mais urgente possível o filho ao primeiro pronto-socorro com que se deparar com vistas a curá-lo da dor do dente que nasce.

Pensa que é fácil ser mãe? Realmente não é mesmo. Um pai jamais saberá trilhar esse sentimento tão próprio da maternidade, nunca logrará amar com tamanha intensidade materna. Pois a mãe transporta em si mesma a vida em formação, nutre-a vinte e quatro ininterruptamente, faz as necessidades fisiológicas por ele através desse mistério maravilhoso que só Deus tem o poder de fazer, vive por e para ela. Complexo e difícil, não?

Portanto, compreenda os arroubos súbitos de uma mãe, entenda quando ela, ainda grávida, tece sapatinhos de lã cantando, aceite as garras que ela expõe caso alguém ameace seu filho de alguma maneira, nem que seja de brincadeira, e conclua sabiamente que, é verdade mesmo, não é fácil ser mãe.

                                                  Gilbamar de Oliveira Bezerra

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O AMOR QUE EU VI

Eu vi o amor de uma forma como jamais antes vira! Presenciei-o se manifestando como outrora jamais compreendesse existir. E o vi em altas doses, em robustas ondas tsunâmicas altas como os mais estupendos edifícios. Eu assisti a esse sentimento de êxtase e fulgor que desafia o inesperado e se desloca no ar com o poder de um milhão de megatons fluindo deveras maravilhoso, empolgante, lírico, magnífico, sublime. E vendo-o em incomensurável tamanho, numa amplitude astronômica, mais que encantei-me, como que flutuei, minha alma entrou em orgasmo, meu coração quase explodiu de tanto gozo.

Sim, de fato meus olhos puderam vislumbrar não o simples brotar de algo comum, porque incomum é o amor, embora repentino, mas o continuar dum relampejar que já nascera oriundo do infinito e se enraizara, naquele instante se mostrando a mim da forma mais singela e próxima do divino. Mas estava ali em realidade, bem à minha frente, meu ser completamente atônito pelo misto de complexidade e simplicidade derivando dos gestos, dos sorrisos, do sussurrar de palavras só compreensíveis pelo alvo desse amor tão grandioso.

Eu vi o amor e, sorrindo, chorei, chorando, sorri, pois já não dava conta de mim mesmo nem de minhas atitudes nesse momento de glória, quis subir paredes, desejei ter asas para sobrevoar o céu de minha cidade, andei de um lado para o outro procurando dar vazão ao mar de emoção que jogava vagalhões em meu íntimo e sacolejava-me o corpo como se eu estivesse num turbilhão inexplicável, quiçá rodopiasse num redemoinho e me deixasse levar pela magnitude de sua extraordinária força.

Tamanho amor que me foi dado apreciar e dele usufruir esboçava-se no esmero e nos cuidados de uma jovem e seu denodo para com a criança hidrocefálica cuja boca não fechava, sem controle nos movimentos de sua frágil cabecinha, que não olhava porque não enxergava, não batia palmas em virtude de faltarem dedos na mão esquerda e não vivia por não saber-se vivo, não chorava em razão de desconhecer a emoção, e se deixava ficar inerte numa cadeira esperando o vazio, o nada, o desconhecido, as sombras da escuridão.

A jovem não desgrudava a atenção especial dele, beijava-o vezes seguida no rosto, nas mãos, inclusive naquela sem dedos, nos cabelos revoltos pelo vento fraco que com eles brincavam, nos olhinhos mortos, nas faces rosadas, na barriga envolta numa suéter. Beijava e falava com ele pronunciando carinhosas palavrinhas de dengo, nele despertando a chama da vivacidade, do bem-querer, desse misterioso prazer que as pessoas em desespero parecem sentir quando a mão amiga, a voz doce ou o carinho lhes perpassam o corpo e os tímpanos e alcançam seus delicados e mortiços corações.

´"E seu filho?", eu perguntei. A jovem olhou-me surpresa como se tivesse escutado uma grande barbaridade, mas respondeu toda sorrisos: "Não, não sou a mãe dele!" Surpreso, eu repliquei em êxtase: "Você o trata como se fosse a mãe dele!" E ela me provocou a maior das emoções ao responder com a simplicidade dos anjos: "Eu só cuido dele! A mãe não quer saber dele, inclusive quando ele ainda estava no ventre ela tentou abortá-lo três vezes tomando remédios. Mas ele foi muito forte, lutou contra as armas que tentavam matá-lo e conseguiu, ganhou a batalha, sobreviveu...assim...doentinho...precisando de atenção e cuidados."  Sem minha autorização, de súbito, um soluço gritou-me garganta afora obrigando-me a recostar-me numa parede qualquer para deixar-me chorar.

                                                     Gilbamar de Oliveira Bezerra

quinta-feira, 8 de março de 2012

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Qual flores dum lindo jardim, ou anjos descidos do céu, talvez fadas vindas do sol, ou santas cobertas com véu, vocês mulheres queridas são guerreiras destemidas cumprindo seu lindo papel. Neste mundo conturbado onde a maldade impera, basta que vocês sorriam com sua alma sincera para tudo ficar melhor, homem algum ficará só, no seu ventre o amor gera. Mulheres dão cores à vida, são egressas do paraíso, presentes do Deus bendito, espalham o belo sorriso onde quer que se encontrem, hoje, amanhã ou ontem, nos fazem perder o juízo. São êxtase, são bem-querer, oceanos de carinho, luz forte na escuridão, o doce pedaço do ninho, feitas de uma costela viraram a rima mais bela, ninguém mais fica sozinho.

Vocês trouxeram beleza, inventaram a elegância, botaram charme no mundo com toda exuberância, porém a garra do seu saber
construiu um novo viver bem além da aparência. Nós dependemos de vocês, do poder que se espalha, do amor que já transborda,
do sorriso que embala, da afeição inerente, esse seu olhar ardente, do fascínio que não falha. Eu queria ser ourives, mas sou apenas poeta, não lapido diamantes, versejo sem linha reta, quem dera tratar com ouro, se juntasse um tesouro eu lhes daria na certa.

No entanto, coitado de mim, não tenho tostões furados, nada mesmo para lhes dar, só olhos esbugalhados de grande admiração, mas afirmo de coração são olhos apaixonados. Porque mulheres fascinam na política, cultura, na ciência, no proceder, no caráter, na ternura, com seus cuidados maternos, com seus trejeitos modernos, por elas faço loucuras.

Não é só hoje o dia delas, são delas todos os dias, oito de março é só data, lindas, doces iguarias, mas isso no bom sentido, meu respeito é garantido. Parabéns belas Marias! Nos rabiscos desta prosa-poética, tão pobre na composição, quisera homenagear vocês todas de coração, mas sendo eu pequenino, vate ainda menino, pobre de mim, tem como não!

Contudo sou atrevido, no pingo d'água eu dou nó, das tripas faço coração, melaço flui do meu gogó, juntando estrelas do céu
dou parabéns nessa mensagem às mulheres num verso só. É muito pouco, reconheço, vocês merecem galardões, as melhores recompensas, a admiração dos varões,  todos tesouros do mundo, um mar de rosas profundo, só as mais lindas emoções.


Todas vocês reverencio, para as mulheres tiro o chapéu, concedo-lhes todas honras, mas se pudesse daria o céu, porém só faço poesia,  recebam com alegria o favo de flores com minhas palavras de mel!

                                           Gilbamar de Oliveira Bezerra

sábado, 25 de fevereiro de 2012



Que ninguém sofra em meu lugar 
nem em lugar de ninguém mais, 
desejo muito é que todos 
vivamos nesse oceano 
de imensa da felicidade, 
juntos nos embebedando 
desse oásis maravilhoso 
que é ser feliz.
Hoje não, por favor, chega 
de andar curvado 
sob o peso da tristeza! 
Esse fardo não carrego mais, 
só quero saber de alegria 
e lacrimejar sorrisos, 
vários e lindos sorrisos.
Vim espalhar poesia 
como quem espalha 
as sementes do amor 
nos corações. 
A partir de agora, 
chorar somente de alegria!


Gilbamar de Oliveira Bezerra

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A VIDA É UM SHOW DE ROCK

Hoje quero balbuciar abraços, sussurrar beijos, assobiar poesias, tartamudear minhas mais salientes emoções, fingir que sou feliz, cantar baixinho para mim mesmo as músicas mais românticas, dizer de meus desejos loucos que não podem ser expressos senão em ocasiões inoportunas. Tenho necessidade, hoje, de rasgar minhas mágoas, espantar para bem longe a melancolia, derramar rios de lágrimas, falar à toa coisas sem qualquer sentido, jogar pedras na lua, apagar o sol ao entardecer quando ele estiver se pondo e desenhar estrelas a noite inteira. Anseio riscar o céu e deixá-lo cinzento de nuvens carregados com chuva tempestuosas de desabafos amorosos, escarnecer dos orgulhosos, pintar o maior sete do mundo nos horizontes mais serenos.


Vou atabalhoadamente desenhar sorrisos nos rostos sisudos para que suavizem, distribuir doçura por todas as esquinas tristes, compartilhar meus melhores bemquereres, desiludir a tristeza e imediatamente jogá-la no caudaloso rio da amargura, vê-la desaparecendo nas profundezas do esquecimento me fará enorme bem, decidadamente. Que passem longe de mim os insensíveis e se fundam em estátuas silenciosas, para mim as ruas devem estar cheias de indivíduos transtornados de tanta alegria, de desvairados pelas transformações mágicas dos risos esplendorosos. Abracem-me quantos não me conhecem, demos ao mundo soturno o exemplo de deslumbrante solidariedade repentina, vamos todos sorrir juntos, em uníssono, a vida não pode nunca, jamais, passar em branco, não haverá de findar sem um último êxtase.


Abramos as janelas de nossas almas acabrunhadas e brinquemos de esconde-esconde com a felicidade, joguemos futebol de poeira ao lado da fraternidade deixando-a fazer todos os gols, milhões deles, para intensamente garantir a vitória da vida, esse estonteante momento que tanto pode ser um baile de amor quanto uma ardorosa festa de rock. Fora com as saudades que só deixam mágoas, longe de nós as inúmeras lembranças tristes capazes de apagar nossos sorrisos. Nosso quinhão de alegria está ali, bem ali nas praças engalanadas pelos gemidos dos enamorados ao cair da noite, nas nuvens formando desenhos que embelezam o firmamento, nas folhas farfalhando barulhentas nas copas das árvores frutíferas, nos jardins beijados por beija-flores, na chuva caindo de mansinho e engravidando a terra.

                           Gilbamar de Oliveira Bezerra

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

SABEDORIA


A sabedoria não escolhe a cor da pele, nem pobreza nem riqueza e nem a região onde alguém nasceu para iluminar seu cérebro e torná-lo sábio. Ela não é idiota como o são todos os preconceituosos. De mansinho como lhe convém, desponta quase de súbito e se mostra nas palavras daqueles cuja simplicidade aflora na maneira de falar. Porque ser sábio é perceber quão frágil e insignificante é o viver humano, quão pobre de espírito é o que, imaginando saber algo e por isso se tornando petulante, não passa de um reles ignorante.

Conhecer para aprender, pesquisar para compreender, ler para saber são pilares da inteligência, um sábio não se forma nunca, está sempre e diariamente alcançando novos saberes, é um eterno aprendiz e consciencioso estudante dedicado à curiosidade a respeito do conhecimento. Da mesma forma que um diamante, cuja composição é por demais comum, vai sendo aprimorado ao longo dos anos até que, mesmo que ele mesmo jamais reconheça isso, se torne a pedra mais preciosa de todos os minerais. O sábio é assim mesmo, tem atitudes eivadas de humildade, repudia o egocentrismo, esconde-se dos holofotes e cultiva por onde passa as pérolas de sua sapiência.

É quase impossível reconhecer um sábio, a menos que o ouça falando ou agindo no seu cotidiano. Em meio ao povo ele se mistura e aprende, observa o vai e vem, o ruge-ruge, o suspirar e o sorriso dos circunstantes, entra nas livrarias e sorri apaixonado pelo ambiente onde a cultura impera, compra livros, visita as bibliotecas e se deleita em descobrir e imaginar, sonhar, viajar através do universo silencioso e quieto do aprendizado ali tão propício, tão amplo, tão conveniente. E quanto mais o sábio conhece, aprende e lê ainda mais percebe que realmente não sabe nada, não sabe tanto, precisa de muito mais sabedoria pois tudo é deveras dinâmico e as informações se mostram como correntezas de rios transbordantes seguindo apressadas rumo aos oceanos. Cabe a ele aproveitar a passagem dessas correntezas e dar o máximo de si para lograr absorver o que lhe for possível desse manancial.

Quer tornar-se um sábio? Então provavelmente você não é um deles, porque o sábio já vem à luz do mundo predisposto a essa condição assim como o ouro encontrado nas montanhas e nos rios, brota tal qual acontece com as flores repentinamente surgidas no asfalto quente, nasce à guisa de orquídea onde somente tulipas são semeadas, surpreende, provoca surpresa, deixa todos atônitos. O sábio não procura nem almeja ser um, já que isso realmente não tem querer, ele simplesmente já é e está em franco desenvolvimento com o passar dos anos, mas em hipótese nenhuma se reconhecerá como sábio, nunca se declarará como detentor desse título arrogante na voz de quem se autoproclama, porém aveludado e sutil no comportamento dos que se revelam por meio de seus gestos.

O sábio assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele sim guarda o segredo há milhões de anos perseguido de dar nó em pingo d'água, ordenha as pedras de onde flui leite, cutuca a onça até sem vara, coloca o guizo no gato, arruma as estrelas no céu deixando-as simétricas, desenha a trilha do infinito, mensura o incomensurável, acende o sol ao amanhecer apagando-o no crepúsculo para, em seguida, clicar no botão da lua para iluminar o firmamento com a beleza dum lindo luar. Tudo isso com uma mão só, a outra amarrada às costas, um olho fechado e o outro semicerrado.
       
                                              Gilbamar de Oliveira Bezerra

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

SERVIÇO PÚBLICO ESTADUAL


Todos sabemos da lerdeza e da indiferença de alguns serviços públicos em nosso País e o quanto o mau atendimento aos contribuintes irrita, desconforta e nos aborrece. Uma coisa, contudo, é estar a par disso por ouvir dizer ou por mera teoria, outra é sentir realmente na pele os traumas decorrentes do estresse causado por esse péssimo atendimento na prática em nossa vida. Eu passei por isso ontem e hoje - e ainda preciso voltar na próxima terça-feira para completar um serviço que necessitei, mas não foi completado, simplesmente renovar minha Carteira de Habilitação.


De pronto, ao chegar ao local já encontrei uma verdadeira multidão se acotovelando na pequena salinha onde alguns mal-humorados atendentes nos olhavam como se quisessem lançar dardos venenosos dos seus olhos estressados. Assustei-me, é lógico, pois não esperava ver tanta gente necessitando de algum documento no âmbito do Detran, nem tão poucos funcionários emburrados se achando. Porque quase sempre é assim no serviço público, os serventuários acreditam piamente que estão nos prestando um inestimável favor quando nos atendem, fazem muxoxos, levantam, conversam entre si, atendem às chamadas dos celulares e nos deixam esperando plantados em pé ou nas poucas cadeiras como se fôssemos estátuas às quais ficassem indiferentes. E a morosidade? O tempo passa devagar, o atendimento é precário, as pessoas reclamam e tudo segue sem qualquer mudança no correr dos anos.


Não sei quantas horas esperei, quantas pessoas vi se lamentando, gente chegando, idosos, mulheres grávidas e/ou carregando crianças nos braços, doentes prioritários, suores, odores, sede, fome, necessidades fisiológicas. Diversas vezes vi e escutei um dos funcionários se levantar subitamente e gritar em alto e bom som: "não vou mais atender, não atendo mais enquanto isso não ficar organizado!" Levantou-se da cadeira e saiu desabalado na direção da porta ao lado, terminando por dizer: "vou chamar a gerente para resolver isso!" E se foi. Ele se aborrecera porque idosos, gestantes e pessoas com crianças reclamavam por não serem atendidos logo.


Foi um dos piores dias de minha vida. Esperei, estressei-me, assisti às reclamações populares, aos olhares desolados dos usuários, aos bocejos, às pessoas que enganavam o tempo fechando os olhos, ao enfado de alguns funcionários, às horas que insistiam em não passar. O número de minha ficha estava a quilômetros dos à minha frente, permanecer ali à espera irritava, incomodava, enervava. Não enxerguei um só sorriso nos rostos dos presentes, somente tristeza, suspiros, balançar de cabeças, olhares sôfregos aos painéis de chamada, o vai e vem dos impacientes - todos nós, aliás. 


De tão deveras desencantado com tudo aquilo fiquei sem inspiração para escrever a respeito, tudo se perdeu, o desabafo do funcionário foi a única coisa que achei por bem transcrever, a melancolia dos usuários tornou-se o quadro mais recorrente em meu cérebro, a demora em ser atendido transformou-se na ponta de uma agulha perfurando-me o corpo de instante a instante. Quando, por fim, fui chamado, inclusive justamente por aquele serventuário do desabafo, ele ironizou com um sorriso zombeteiro: " você vai ter que voltar amanhã para capturar a foto e fazer o exame de vista. Não sabe o tamanho da fila que o espera."

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FALSOS SORRISOS?



Anos após anos as luzes coloridas se acendem, as árvores se enfeitam com os mais estranhos complementos, os sorrisos se escancaram nos rostos daqueles que ficaram carrancudos o ano inteiro, as esperanças moribundas rejuvenescem como num passe de magia, todos se abraçam e muitos se tornam solidários oferecendo presentes e/ou cestas básicas a favelados e miseráveis do seu bairro. Todos querem dar e receber presentes, quase como se isso fosse uma obrigação irrefutável da qual ninguém pudesse escapar. Os comerciantes, risonhos de orelha a orelha, não dão importância à singeleza da época, importa-lhes tão-somente vender e vender muito, o máximo possível para lucrar mais do que o ano anterior, anotando dados, coletando estatísticas e apelando para o emocional coletivo. Para eles, é tempo de aumentar intensamente as vendas, pois é apenas esse seu objetivo. E até quem não pode faz o impossível para também integrar esse consumismo desenfreado, de modo a ser parte desse todo que segue os ditames de algo já convencionado e do qual ser membro é regra geral. 


Um espírito, que se diz chamar natalino, se apossa imediatamente dos corações, determina gestos e atitudes e transforma as pessoas. Tudo por instantes, por uns poucos dias, a desaparecer depois como a esmaecente fumaça. Quem ao longo dos meses se mostrou intolerante, malicioso, rude, grosseiro mesmo, subitamente aparenta ser o protótipo do cordeiro, um ser de luz capaz de cometer os atos mais sublimes. Quem não amou nem respeitou, agora se acha um anjo de bondade porque é Natal, pois assim é que deve ser nesse período, mesmo que depois, dia subsequente a 25 de dezembro, volte ao seu normal e exiba sujas garras afiadas e perigosas. A hipocrisia toma conta de inúmeros olhares, de vários recônditos d'alma, de nucleares corações, devidamente disfarçada em sorrisos "natalinos",  escondida em tapinhas nas costas e negros abraços de ursos.


A confraternização é geral e envolvente, os votos de "Feliz Natal" vão se multiplicando entre as pessoas das mais diversas camadas sociais, ninguém se preocupa em ser diferente nessa época. Porque isso seria absurdo, claro, há preceitos não escritos a ser seguidos sem discutir no tocante a esse aspecto. Não se divertir no Natal, não comemorar com exagerada gastronomia e incontáveis garrafas de vinho ou qualquer outra bebida alcoólica seria um "sacrilégio". O comum e usual em dezembro é participar de todos os encontros e festas, dos "amigos secretos", das bebedeiras e dos abraços, ainda que alguns sejam salpicados de falsidade.  


Mas há quem se lembre do sublime aniversariante, de Sua divindade, de Sua entrega total ao sofrimento e à morte em prol de pecadores, de Sua ressurreição gloriosa ao terceiro dia, de que Jesus Cristo é o próprio Deus feito homem, cheio de graça e de verdade? Quantos tem a consciência de agradecer fervorosos por Sua misericórdia, quantos se voltam serena e respeitosamente em Sua direção para, contritos e arrependidos, orar, falar com Ele, ouvi-lO? Parece que Ele é o mais olvidado no momento em que deveria ser mais venerado, deixado de lado quando mais precisaríamos procurar por Ele. Homens e mulheres, embora não todos é bem verdade, só pensam em comprar presentes, os comerciantes, por sua vez, em vender, aguardando com ansiedade a noite de Natal para a grande e farta ceia natalina com os familiares com vistas à inevitável farra de comilança e bebedeira. No aniversário de Jesus, o quase esquecido por causa das diversas coisas oferecidas pelo mundo com seu brilho fantasioso, seus festejos homéricos, suas algazarras, seus motéis ainda mais transbordantes nesses dias de festanças! O aniversariante é o menos lembrado por todos nós que deveríamos, tantas vezes, corar diante dos nossos próprios atos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

EXCITAM-ME



beijos ardentes
corpos complacentes
amores carentes
requebros indecentes
desejos pungentes
sorrisos latentes
carícias maledicentes 
olhares inocentes
afagos incoerentes
pernas atraentes
cafunés indolentes
conquistas recentes
gozo em torrentes
sexos ferventes
verdades patentes
momentos competentes
meneios malemolentes
abraços deveras quentes
instantes contentes
mulheres valentes

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

FLORES NAS RUAS DE BUENOS AIRES


As flores se multiplicam pelos quatro cantos de Buenos Aires, estão por toda parte, nas calçadas, nas cigarreiras, aqui e ali, vendidas em profusão diariamente por suas ruas e avenidas. São várias as espécies, principalmente tulipas vermelhas, copos de leite, jasmins, violetas e um sem número delas provocando encanto e atraindo a atenção de homens e mulheres, muitos dos quais param e escolhem as que mais lhes agradam para levar para alguém decerto muito especial. Vem em pequenos jarros, por unidades, em buquês ou ramalhetes, e já amanhecem cedinho em seus pontos de venda por toda a capital portenha como se fora produto de primeira necessidade e de uso diário. Amontoam-se as pessoas para comprá-las ou simplesmente para vê-las, examiná-las, admirá-las e sentir-lhes o perfume, mas geralmente todos saem sobraçando-as como se levassem consigo um tesouro de inestimável valor.






A beleza inigualável dessas maravilhosas flores enfeita a capital da Argentina os sete dias da semana, vendidas que são diariamente de segunda a segunda. Os argentinos tem grande fascinação pelo frescor que irradiam, pela atração que por óbvio exercem e pelo perfume suavemente delicado e gostoso que se espraia e vai longe por onde estão não apenas para conquistar, atrair e apaixonar, mas também para tornar mais sublime os dias e as horas dos transeuntes tanto turistas quanto, especialmente, os moradores locais. Os diversos vendedores de flores conhecem bem esse fetiche, sabem há muito como elas já caíram no gosto e na ternura dos clientes. Sendo produto perecível, aqueles mesmos compradores de ontem tornarão a adquiri-las hoje e amanhã. Porque flores são alegria inefável para coração, flores são como alimento para a alma, tanto feminina quanto masculina, porque elas não tem gênero, mas ternura.



A oferta de flores pelos muitos vendedores nas ruas e nas calçadas de Buenos Aires, pelo que pude perceber, não é maior do que a demanda dos clientes habituais, geralmente quando anoitece a quantidade vendida equivale quase sempre às incontáveis dúzias trazidas pelos comerciantes ao amanhecer. Todos compram, homens, mulheres, os jovens e os mais maduros, ricos e pobres, é como se as flores já tivessem se tornado parte essencial da existência deles, como se passar um dia sem levar para casa ou para o escritório flores recém-colhidas e exibindo todo seu frescor natural fosse um verdadeiro sacrilégio. Como se sem a presença delas em suas vidas tudo se turvasse, o sol apagasse, o céu deixasse de ser azul, o sorriso fugisse dos seus rostos.




Encantam-me sobremaneira ver esse amor do povo argentino pelas flores, algo não muito comum pelo menos na região do Brasil onde resido. Eu as tenho comprado, a exemplo deles, dia após dia, ofertando-as a minha amada como brinde especial de carinho e amor adicional a nosso passeio em Buenos Aires. Em nossas semanas aqui elas nos tem proporcionado mais ternura, mais encanto, mais alegria contagiante e contribui nesses dias para novas perspectivas, quimeras e reflexões enternecentes, novos horizontes só possíveis se elas estiverem presentes com seu perfume e com sua doçura. Passamos a gostar mais de flores a partir do momento em que, em nossas primeiras andanças pela capital portenha, as vislumbramos enchendo não apenas nossos olhos e coração, mas também dos demais transeuntes que desfrutam o privilégio de encontrá-las pelas ruas e avenidas à disposição dos românticos e sensíveis.