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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
FALSOS SORRISOS?
Anos após anos as luzes coloridas se acendem, as árvores se enfeitam com os mais estranhos complementos, os sorrisos se escancaram nos rostos daqueles que ficaram carrancudos o ano inteiro, as esperanças moribundas rejuvenescem como num passe de magia, todos se abraçam e muitos se tornam solidários oferecendo presentes e/ou cestas básicas a favelados e miseráveis do seu bairro. Todos querem dar e receber presentes, quase como se isso fosse uma obrigação irrefutável da qual ninguém pudesse escapar. Os comerciantes, risonhos de orelha a orelha, não dão importância à singeleza da época, importa-lhes tão-somente vender e vender muito, o máximo possível para lucrar mais do que o ano anterior, anotando dados, coletando estatísticas e apelando para o emocional coletivo. Para eles, é tempo de aumentar intensamente as vendas, pois é apenas esse seu objetivo. E até quem não pode faz o impossível para também integrar esse consumismo desenfreado, de modo a ser parte desse todo que segue os ditames de algo já convencionado e do qual ser membro é regra geral.
Um espírito, que se diz chamar natalino, se apossa imediatamente dos corações, determina gestos e atitudes e transforma as pessoas. Tudo por instantes, por uns poucos dias, a desaparecer depois como a esmaecente fumaça. Quem ao longo dos meses se mostrou intolerante, malicioso, rude, grosseiro mesmo, subitamente aparenta ser o protótipo do cordeiro, um ser de luz capaz de cometer os atos mais sublimes. Quem não amou nem respeitou, agora se acha um anjo de bondade porque é Natal, pois assim é que deve ser nesse período, mesmo que depois, dia subsequente a 25 de dezembro, volte ao seu normal e exiba sujas garras afiadas e perigosas. A hipocrisia toma conta de inúmeros olhares, de vários recônditos d'alma, de nucleares corações, devidamente disfarçada em sorrisos "natalinos", escondida em tapinhas nas costas e negros abraços de ursos.
A confraternização é geral e envolvente, os votos de "Feliz Natal" vão se multiplicando entre as pessoas das mais diversas camadas sociais, ninguém se preocupa em ser diferente nessa época. Porque isso seria absurdo, claro, há preceitos não escritos a ser seguidos sem discutir no tocante a esse aspecto. Não se divertir no Natal, não comemorar com exagerada gastronomia e incontáveis garrafas de vinho ou qualquer outra bebida alcoólica seria um "sacrilégio". O comum e usual em dezembro é participar de todos os encontros e festas, dos "amigos secretos", das bebedeiras e dos abraços, ainda que alguns sejam salpicados de falsidade.
Mas há quem se lembre do sublime aniversariante, de Sua divindade, de Sua entrega total ao sofrimento e à morte em prol de pecadores, de Sua ressurreição gloriosa ao terceiro dia, de que Jesus Cristo é o próprio Deus feito homem, cheio de graça e de verdade? Quantos tem a consciência de agradecer fervorosos por Sua misericórdia, quantos se voltam serena e respeitosamente em Sua direção para, contritos e arrependidos, orar, falar com Ele, ouvi-lO? Parece que Ele é o mais olvidado no momento em que deveria ser mais venerado, deixado de lado quando mais precisaríamos procurar por Ele. Homens e mulheres, embora não todos é bem verdade, só pensam em comprar presentes, os comerciantes, por sua vez, em vender, aguardando com ansiedade a noite de Natal para a grande e farta ceia natalina com os familiares com vistas à inevitável farra de comilança e bebedeira. No aniversário de Jesus, o quase esquecido por causa das diversas coisas oferecidas pelo mundo com seu brilho fantasioso, seus festejos homéricos, suas algazarras, seus motéis ainda mais transbordantes nesses dias de festanças! O aniversariante é o menos lembrado por todos nós que deveríamos, tantas vezes, corar diante dos nossos próprios atos.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
FLORES NAS RUAS DE BUENOS AIRES
As flores se multiplicam pelos quatro cantos de Buenos Aires, estão por toda parte, nas calçadas, nas cigarreiras, aqui e ali, vendidas em profusão diariamente por suas ruas e avenidas. São várias as espécies, principalmente tulipas vermelhas, copos de leite, jasmins, violetas e um sem número delas provocando encanto e atraindo a atenção de homens e mulheres, muitos dos quais param e escolhem as que mais lhes agradam para levar para alguém decerto muito especial. Vem em pequenos jarros, por unidades, em buquês ou ramalhetes, e já amanhecem cedinho em seus pontos de venda por toda a capital portenha como se fora produto de primeira necessidade e de uso diário. Amontoam-se as pessoas para comprá-las ou simplesmente para vê-las, examiná-las, admirá-las e sentir-lhes o perfume, mas geralmente todos saem sobraçando-as como se levassem consigo um tesouro de inestimável valor.
A beleza inigualável dessas maravilhosas flores enfeita a capital da Argentina os sete dias da semana, vendidas que são diariamente de segunda a segunda. Os argentinos tem grande fascinação pelo frescor que irradiam, pela atração que por óbvio exercem e pelo perfume suavemente delicado e gostoso que se espraia e vai longe por onde estão não apenas para conquistar, atrair e apaixonar, mas também para tornar mais sublime os dias e as horas dos transeuntes tanto turistas quanto, especialmente, os moradores locais. Os diversos vendedores de flores conhecem bem esse fetiche, sabem há muito como elas já caíram no gosto e na ternura dos clientes. Sendo produto perecível, aqueles mesmos compradores de ontem tornarão a adquiri-las hoje e amanhã. Porque flores são alegria inefável para coração, flores são como alimento para a alma, tanto feminina quanto masculina, porque elas não tem gênero, mas ternura.
A oferta de flores pelos muitos vendedores nas ruas e nas calçadas de Buenos Aires, pelo que pude perceber, não é maior do que a demanda dos clientes habituais, geralmente quando anoitece a quantidade vendida equivale quase sempre às incontáveis dúzias trazidas pelos comerciantes ao amanhecer. Todos compram, homens, mulheres, os jovens e os mais maduros, ricos e pobres, é como se as flores já tivessem se tornado parte essencial da existência deles, como se passar um dia sem levar para casa ou para o escritório flores recém-colhidas e exibindo todo seu frescor natural fosse um verdadeiro sacrilégio. Como se sem a presença delas em suas vidas tudo se turvasse, o sol apagasse, o céu deixasse de ser azul, o sorriso fugisse dos seus rostos.
Encantam-me sobremaneira ver esse amor do povo argentino pelas flores, algo não muito comum pelo menos na região do Brasil onde resido. Eu as tenho comprado, a exemplo deles, dia após dia, ofertando-as a minha amada como brinde especial de carinho e amor adicional a nosso passeio em Buenos Aires. Em nossas semanas aqui elas nos tem proporcionado mais ternura, mais encanto, mais alegria contagiante e contribui nesses dias para novas perspectivas, quimeras e reflexões enternecentes, novos horizontes só possíveis se elas estiverem presentes com seu perfume e com sua doçura. Passamos a gostar mais de flores a partir do momento em que, em nossas primeiras andanças pela capital portenha, as vislumbramos enchendo não apenas nossos olhos e coração, mas também dos demais transeuntes que desfrutam o privilégio de encontrá-las pelas ruas e avenidas à disposição dos românticos e sensíveis.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
AS CAFETERIAS DE BUENOS AIRES
Buenos Aires, como muita gente sabe, e isso é realmente incontestável, é o paraíso das cafeterias, aquele espaço agradável que proporciona momentos de descontração e sorrisos tanto entre amigos que para lá vão se distrair enquanto tomam um delicioso café expresso, quanto em meio a casais cujo tempo dedicado ao romantismo pode ser passado ali sem interrupções ou perturbações.
Elas, contudo, se multiplicam como coelhos e vão se estabelecendo onde lhes for possível, porque há espaço e mercado amplo para esse comércio já tão popular na Argentina.
Todos os argentinos amam tomar café, amam adentrar numa cafeteria e fazer a festa dos sabores.
E não somente eles, é claro, pois não se pode deixar de lembrar que também os turistas fazem parte dos seus apreciadores mais contumazes.
As cafeterias de Buenos Aires tem quase o mesmo charme parisiense, acredito até que provavelmente não fiquem a dever muito às de Paris, se posso assim afirmar, e geralmente são frequentadas por senhoras e senhores maduros, pessoas da classe média e também das classes acima desse padrão que chegam a todo instante e tomam assento, abrem o jornal, um livro, ou então conversam se estão em grupo e deixam o tempo passar, esquecem a correria.
Quando preferem sentar-se às mesas situadas colocadas na calçada das cafeterias, acendem seus indefectíveis cigarritos e vão soltando as terríveis baforadas que transformam Buenos Aires num imenso e malcheiroso cinzeiro a céu aberto.
É quase impossível, por exemplo, seguir por alguma rua de qualquer bairro buenairense sem topar com várias cafeterias nas esquinas, espremidas entre os prédios residenciais, ao lado de padarias, confeitarias e quiosques de frutas.
São centenas delas distribuídas aleatoriamente pela cidade inteira, quiçá sejam milhares, destinadas a todos os gostos e bolsos, espalhando seus aromas por meio da brisa leve, atraindo os clientes usuais e conquistando muitos outros dia após dia.
As cafeterias, como seria óbvio, já fazem parte, ademais, do cenário dos shoppings centers, sendo fácil e rápido na primeira curva de qualquer um deles topar com um Mac Café, um Brioche Dorée, realmente com centena de outros.
Elas oferecem a tranquilidade tão desejada pela maioria, mormente pelos que buscam um ambiente propício à leitura do jornal ou de um bom livro enquanto o tempo passa, algo impossível de ser vivida no burburinho do cotidiano.
Nesses locais, como de regra ocorre em todas as cafeterias, a frequência é interminável, há sempre um grande número de clientes degustando seu cafezinho expresso puro, latte, machiato, acompanhado de medialunas doces e salgadas, tortas e bolos, deixando no ar o característico e irresistível odor do café que convida olfatos argentinos e estrangeiros para sentar e saborear essa bebida tão conhecida, admirada, procurada, desejada e degustada nas cafeterias do mundo inteiro.
Elas, contudo, se multiplicam como coelhos e vão se estabelecendo onde lhes for possível, porque há espaço e mercado amplo para esse comércio já tão popular na Argentina.
Todos os argentinos amam tomar café, amam adentrar numa cafeteria e fazer a festa dos sabores.
E não somente eles, é claro, pois não se pode deixar de lembrar que também os turistas fazem parte dos seus apreciadores mais contumazes.
Inúmeras delas, além de antigas em suas atividades na capital, alcançaram fama muito além-fronteiras, como La Biela, El Gato negro, Starbucks, Segrefedo Café, Café Tortoni, Café Martinez e tantos outros.
domingo, 30 de outubro de 2011
VELHOS? QUE NADA!
Eu os vejo inesperadamente em todas as ruas por onde transito descontraído, sendo-me impossível não me quedar perplexo e feliz a um só tempo por vê-los, pois os admiro pela coragem e vigor de ultrapassar barreiras e por vê-los como se fossem símbolos da vida, ali sozinhos à mercê do repentino, como que conduzidos por bengalas, claudicando mas ainda assim, destemidos, enfrentando o frio cortante ou o sol ardente, vencendo as dificuldades das manhãs, das tardes e das noites, mais ainda assistindo-os aos tropeções nas calçadas, os semáforos abrindo e fechando mais depressa do que eles conseguem caminhar, o trânsito enlouquecido buzinando às suas costas para que saiam do caminho, as pessoas enlouquecidas pela correria sacolejando-os para lá e para cá como a sugerir que voltem para o conforto de seus lares e aproveitem os últimos anos. Nada disso, não, nenhum argumento os convence de fugir da movimentação ruidosa das ruas e avenidas, ninguém é capaz de prendê-los ao sofá, às camas e à solidão. Embora idosos, enrugados, talvez até mesmo enfermos, preferem viver da forma mais normal que a capacidade física e cerebral lhes permite. São a população da terceira idade de Buenos Aires.
Eles estão em todos os lugares da cidade, nas cafeterias bebericando cafezinhos ao lados dos amigos jogando conversa fora, lendo jornais ou livros, olhando quem passa e quem entra e sai, nas lojas e nos supermercados fazendo compras, nas livrarias, nas farmácias, atravessando de um lado para o outro das largas ruas, nas padarias, nas confeitarias, nas lavanderias, nas praças. Quem como eu os avista mentalmente os respeita e canta louvores à existência, ri emocionado, pára e os contempla imaginando quanto anos teriam. Aquele curvado pelo tempo, teria mais de oitenta? A aparência não nega; e a senhora toda enfeitada com colares, pulseiras, bolsa de marca, cabelos e lábios pintados, a pele do rosto já completamente maracujada, lá vai ela decidida para algum lugar da capital, decerto uma sorveteria, talvez uma cafeteria para encontrar as amigas e papear o dia todo. Como acho belíssimo esse lado dos idosos de Buenos Aires!
Não, em nenhum momento testemunhei hesitação em seus olhares e gestos. Embora caminhem devagar e algumas vezes cansados, seguem intimoratos, vão para onde realmente desejam ir, não demonstram qualquer temor ao impossível, às próximas esquinas, às multidões, não honram o medo. São mais eles, não se preocupam se alguma ameaça sombria do coração lhes perpassa o instante, o amanhã também é deles como foi o ontem e continua sendo o hoje. Parecem personagens de um passado que ainda não passou, que insistem em permanecer se segurando nas pontas, criaturas de um outrora que ousam lutar com o agora, são provavelmente assim, à guisa de folhas agarradas às árvores, malgrado a força do vento que os sacode, da chuva que os castiga e do sol que os escalda.
Tenho-os em conta de titãs destemidos, de guerreiros dispostos a lutar dia após dia a batalha da existência. Por não acreditarem que a velhice é o fim prosseguem, por não aceitarem apoquentar seus dias cuidando de netos insubordinados ou de cães e gatos rebeldes da casa vão em frente, abrem picadas na mata densa, desvirginam veredas e estradas, são vanguarda de uma nova era do viver humano. Parabéns a esses homens e mulheres altivos não subjugados à idade nem às brancas cãs ou à pele engelhada, merecem o reconhecimento geral da sociedade por sua altivez e vontade únicas de continuar semeando a vida, as plantas e a si próprios apesar da ditadura do tempo. Para mim são dóceis e vigorosos exemplos de que não somente os jovens tem direito à liberdade de fazer as próprias rotas, de pisar as próprias trilhas, de sair por aí à toa e sem destino, quem sabe dando uma esticadinha para a próxima cafeteria no intuito de tomar um cafezinho expresso puro ou com leite e ler as últimas notícias do dia porque, afinal de contas, é preciso estar atento aos acontecimentos do mundo tanto para saber mais quanto para se preparar para o porvir. Precisam estar prontos para o futuro, claro.
sábado, 22 de outubro de 2011
ESSES GESTOS VÍVIDOS
Gosto de andar à toa pelas ruas menos movimentadas de Buenos Aires, mormente as localizadas no bairro da Recoleta porque nas grandes avenidas é quase impossível caminhar despreocupado e sem rumo, tamanha é a multidão apressada no vai e vem do cotidiano. Todavia, se bem nas artérias mais estreitas desse bairro ainda possamos passear como se estivéssemos numa praçinha qualquer de algum interior apenas gastando tempo, muita gente também corre por entre elas de um lado para outro, tanto nos dias úteis, na azáfama do trabalho diário, quanto durante os finais de semana. O que não ofusca, por outro lado, a calma com que observo a movimentação das pequenas lojas, dos kioscos, dos mercadinhos, das cafeterias, das casas de chá e muito mais.
Aliás, é justamente esse comércio de pequenas proporções, com seus proprietários hirsutos ou sorridentes à frente, empregados ocupados nas atividades sob o olhar nada complacente dos patrões, fregueses se achegando para comprar ou simplesmente passar o tempo olhando as mercadorias para irem-se em seguida, seus muitos e interessantes gestos e maneirismos, o modo como se expressam e gesticulam, o ar de preocupados ou de boas perspectivas entrevisto em seus olhos, a vida seguindo seu curso na pasmaceira coletiva das pessoas sobrevivendo aos anos.
Por vezes páro sorrindo, pensativo, triste, casmurro, indignado por qualquer razão percebida em meus sentimentos, quase sempre anoto algo, uma atitude, um jeito de ser desse ou daquele homem ou mulher cujo jeito de ser chamou-me a atenção além do normal, tudo para futuras inspirações, para escrever crônicas, contos, redigir pensamentos, mensagens,frases, em outros instantes reflito, faço comparações, imagino como seria tal ou qual grupo de criaturas em determinadas situações e vou prosseguindo meus devaneios enquanto circulo sem pressa, esquecido das horas e dos compromissos.
Cães e gatos, é óbvio, contribuem para avolumar minhas anotações, e certamente os pedintes, os exóticos, os loucos, os apressados, os emburrados, os mal-vestidos. Os animais despertam-me o interesse pela inocência instintiva de seus atos, muitos protagonizando cenas bizarras com seus donos, sejam ambos beijando-se na boca, sejam aqueles inesperadamente defecando nas ruas à medida que estes, indiferentes, não se importam de limpar as calçadas onde os excrementos foram depositados pelos bichos. Já os humanos, entre tantas bizarrices, ainda por cima vão pisando sobre o cocô deixado pelos cachorros em suas passagens. Na verdade, ruas e praças são os melhores locais para inspirar os cronistas do cotidiano. Personagens, acontecimentos, casos engraçados ou surpreendentes, está tudo ai nesses lugares somente esperando para serem registrados pela crônica dos observadores dessa seara hilária e perplexa chamada humanidade.
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Crônica
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
ABENÇOADOS SORRISOS
Nunca deixe terminar o dia sem esboçar ao menos cem sorrisos, isso certamente fará um enorme bem a você e a todos que estiverem ao seu redor. O sorriso é a forma mais simpática e gentil do ser humano, é gesto de carinho à distância que aproxima as pessoas muito mais do que as palavras. Por onde passar espalhe seu riso como quem vai semeando sementes de gentileza num imenso campo arado, você verá que atrás de si começarão a brotar olhares sublimados em rostos iluminados pela ar agraciado e abençoado oriundo de seus olhos sorridentes.
Muitos tem tanto um sorriso brilhante e iluminado quanto um coração pulsando bençãos, e são justamente esses que transformam multidões, apagam ressentimentos e mágoas, acrescentam algo mais aos lugares e aos semelhantes com quem deparam. São decerto iguais a seres de luz ou anjos disfarçados que tem por guia a santa mão de Deus, podemos até afirmar que são aqueles cujo brotar do contagiante sorrir como que faz soar um sininho de felicidade, ou ao menos de alegria, nos corações adjacentes. E deles todos querem se aproximar, ser amigos, com eles conversar, talvez num impulso abraçar emocionados.
Se quem tem por cotidiano ser gentil e, súbito, de uma maneira ou de outra se defronta com a tristeza estampada em faces soturnas aqui e ali, embora sem perceber enfrenta-a com o poderoso escudo de olhos sorridentes e fica protegido das saudades, da melancolia, dos toscos e lúgubres traços agônicos acaso conduzidos pela suavidade da brisa.
O sorriso jamais exige motivos para surgir, não precisa de explicações para existir, nunca requer razões específicas para brotar, é força da natureza humana, é poder incomensurável, é dose de otimismo capaz de penetrar por todos os poros de quem se acha despojado da ternura, ao ser vislumbrado por vítimas de tristonhos momentos, ao se derramar pelas circunvizinhanças das multidões.
Muitos tem tanto um sorriso brilhante e iluminado quanto um coração pulsando bençãos, e são justamente esses que transformam multidões, apagam ressentimentos e mágoas, acrescentam algo mais aos lugares e aos semelhantes com quem deparam. São decerto iguais a seres de luz ou anjos disfarçados que tem por guia a santa mão de Deus, podemos até afirmar que são aqueles cujo brotar do contagiante sorrir como que faz soar um sininho de felicidade, ou ao menos de alegria, nos corações adjacentes. E deles todos querem se aproximar, ser amigos, com eles conversar, talvez num impulso abraçar emocionados.
Se quem tem por cotidiano ser gentil e, súbito, de uma maneira ou de outra se defronta com a tristeza estampada em faces soturnas aqui e ali, embora sem perceber enfrenta-a com o poderoso escudo de olhos sorridentes e fica protegido das saudades, da melancolia, dos toscos e lúgubres traços agônicos acaso conduzidos pela suavidade da brisa.
O sorriso jamais exige motivos para surgir, não precisa de explicações para existir, nunca requer razões específicas para brotar, é força da natureza humana, é poder incomensurável, é dose de otimismo capaz de penetrar por todos os poros de quem se acha despojado da ternura, ao ser vislumbrado por vítimas de tristonhos momentos, ao se derramar pelas circunvizinhanças das multidões.
sábado, 4 de junho de 2011
AS ESTRELAS NO CÉU
Os astros celestiais sempre me fascinaram na universalidade da infância que vivi. Olhava-os admirado, fascinado e distraído, no entanto a um tempo temeroso e transbordando curiosidade, procurando ser revelado de alguma maneira pela transcedência metafísica de sua imensidão desconhecida. Eu queria saber o que fazia aquela imensidão transbordar num céu que cobria a vida, servia de teto ao Cosmos e não passava para mim de um insondável mistério. Tudo permanecia na incógnita, na densa escuridão da ignorância. Assim como havia os mares na Terra tomando conta de um espaço quase inimaginável e também deixando no ar o espírito do insondável, para mim o céu à noite se metamorfoseava num incomensurável oceano habitado por incontáveis milhares de estrelas brilhantes sob o comando severo da lua.
Sim, em minhas divagações a lua estava à frente dessas miríades de pontinhos espantosos e ditava suas ordenanças consoante o próprio desejo místico. Por essa e tantas outras razões, mil indagações gigantescas me assolavam nesses interlúdios de ingenuidade, e entre todas elas a mais perturbadora deixava-me na perplexidade absoluta em virtude do silêncio como resposta: quem será que acendia todas aquelas estrelas e a lua ao anoitecer? Seria o mesmo querubim que apagava o sol quando a tarde acabava? Porque a escuridão noturna ficaria ainda mais aterradora caso não houvesse o luar à frente de seu grandioso exército estelar. Quantos questionamentos sem qualquer possibilidade de resposta permeavam meu cérebro infantil!
Confesso, eu não ousava contar as constelações, temia apontar as estrelas porque as pessoas afirmavam, por absoluta superstição, evidentemente, que nasceriam verrugas. Acreditem, eu tinha o maior respeito por essas afirmações, acreditava piamente tratar-se de uma verdade insofismável. Portanto, eu temia, mas era um temor de criança, esse medo característico das mentes ainda não amadurecidas pelos instantes do cotidiano. E não era somente eu a passar por esse sentimento de receio, como toda a minha geração e demais contemporâneos. Pela ingenuidade do nosso tempo, pela distância da globalização que ainda não havia chegado, pela mentalidade de outrora tão sabidamente diferente do que se preconiza hoje.
As superstições usuais desse período infantil, normalmente fomentadas por adultos igualmente ignorantes e famintos de conhecimentos, colaboravam para o incremento do meu espanto e sensibilidade diante de um céu pejado de tantos mistérios. Qualquer estrela mais brilhante, alguma por acaso cadente, o piscar de um avião sobrevoando a noite, tudo se tornava razão para quase extremo pavor. Temíamos sobremaneira que um repentino brilho no espaço pudesse significar o princípio do fim do mundo, e isso representava nosso maior medo, o mais pavoroso. Por isso o respeito, o fascínio e o temor com que eu olhava na direção do infinito aéreo e me emocionava com tantas icógnitas vivas desafiando-me quando o instante noturno cobria nossa cidade e eu me sentia o menor de todos os átomos diante da grandeza celestial.
domingo, 15 de maio de 2011
NO CORAÇÃO DE PARIS
É cedo e está frio em Paris, temperatura em torno de sete graus, mas ela não se importa com isso, faz parte do seu viver o sofrimento cotidiano. Não tem atenção para a ostentação que se apresenta nas vitrines da Louis Vitton, tampouco da Chanel ou Rolex do outro lado da avenida. Nem ao menos dirige o olhar para as pessoas, não se acha à altura, surge no amanhecer e desaparece cabisbaixa quando o dia termina. Faz o que todos os dias habitou-se fazer, prostra-se completamente, sem cerimônia, sobre uma calçada da Avenue Champs Elysees, nas proximidades do Arco do Triunfo, em frente a uma luxuosa loja de artigos diversos, humilhada e arrebatada pela infâmia da vergonha. Sim, apesar de tudo o constrangimento enchia-lhe a alma envergonhada. Todos a olham atravessado(ela é empecilho no caminho), alguns enojados(será que tem mau cheiro?), outros penalizados(mas não dão esmola). Numa das ruas mais famosas de Paris e onde estão localizadas algumas das grifes mais caras da Europa. O luxo desafiando o contraste da pobreza mais contundente. Não é possível divisar o rosto dela, todo enterrado no chão da calçada. O medo da vergonha. E no entanto a mulher maltrapilha necessita desesperadamente assumir quão miserável e irrevogavelmente pobre é. Não somente para si, seu próprio auto reconhecimento, mas no intuito de mostrar aos que vão e vem essa condição que faz dela uma pária faminta e sem nada, sempre a pedir por extrema e inapelável precisão. Além do mais tudo nela e perceptível pauperrismo, pois a miséria está nos molambos que veste, na sua face melancólica escondida na dureza da terra vestida de pedras e cimento, na tristeza dos seus olhos, nas enrugadas mãos calosas e sujas, no seu olhar desamparado. Todo seu eu se encontra impregnado da imundície da pobreza. A coitada é uma insignificante mendiga deitada de bruços não numa avenida qualquer de um país do Terceiro Mundo, mas ali, bem no coração da Avenida Campos Elísios, em Paris.
A silenciosa posição adquirida pela mendiga é estranha. Ela não fala para pedir esmolas, nem vê os pés dos transeuntes, os olhos estão fechados. Permanece nessa imobilidade por horas. A mão esquerda está enfiada dabaixo do corpo, a direita esticada segurando um copo velho à espera que gestos caridosos joguem lá dentro moedas ou cédulas de euros. Pergunto-me como a indigitada mulher consegue controlar as necessidades fisiológicas, sede, fome, dores musculares, nas juntas, na coluna, no pescoço, nas pernas? Contudo, conjeturo a respeito dos pensamentos perambulando em sua mente e imagino mil coisas diferentes que naquele inusitado instante estariam lhe conturbando, mil desencontros de reflexões, uma tonelada de preocupações, montanhas de amarguras atormentando-lhe os neurônios. Ela é apenas ninguém que quase ninguém enxerga em sua passagem pela calçada onde deitou, indo ou vindo. Um ser humano vivo com todas as implicações que essa assertiva representa e implica. Voltará para seu casebre - ou viverá abrigada sob o piso de uma ou outra ponte alhures, bem longe da luxuosa avenida? - em algum lugar da mais longínqua periferia de Paris levando uns tantos trocados para tentar resolver o mais mínimo dos seus inúmeros problemas? Em qual grau de intensidade a sede e a fome corroem-lhe o debilitado organismo?
Transito apressado pelo local durante a manhã e a mendiga desconhecida já lá se encontra despojada no chão como um saco velho cheio de trastes esquecido por algum descuidado. Por óbvio, choca-me a cena e mexe com minha emoção. Inusitado ver aquilo no ponto mais nobre da capital francesa. À tarde, abismado, vejo-a tal qual estava antes, inalterada na sua inércia burlesca, parecendo um corpo adormecido numa posição imperturbável; à noite ela continua do mesmo jeito, sob a feérica iluminação da Avenue Champs Elysees e o ruge-ruge da multidão barulhenta. Embrulha-se-me o estômago, revolta-se-me o espírito, e algo dentro de mim chora inconsolável. Ninguém se importa, nem parece haver um ser humano de bruços numa calçada por onde centenas de homens e mulheres passam indiferentes. Não, eu não esperava isso em Paris. Pelo menos não dessa maneira tão palpável, visível e chocante. A cidade Luz não esconde a sombra negra da pobreza bem no cerne de seu coração, enorme chaga viva que pensa, fala, tem fome e sede e pede esmolas.
terça-feira, 19 de abril de 2011
A PARIS QUE EU VI
Realmente, a vida é por demais curta para quem, tendo ótima saúde tanto física quanto mental, condições financeiras e sonhos que ultrapassem os meros limites de fronteiras de somenos importância, de pequenina expressão por assim dizer, não pretenda nem se aventure a visitar e descortinar, ao menos uma vez ao longo de sua existência terrena, a exuberância e o fascínio de Paris, a metrópoles que todos, sem qualquer sombra de dúvida, gostariam de conhecer. Porque é bem certo que o esplendor dessa cidade exerce sobre nossos devaneios um fascínio inexplicável, um quê de fantasia e deslumbre que somente as perspectivas mais imponderáveis podem definir. Alguém duvida disso?
Paris é mesmo uma interminável festa, como tão bem definiu o escritor Ernest Hemingway, um diuturno baile onde os pares deslizam flutuando feito borboletas sobre as flores nos jardins. É alegria se espalhando em derredor, aqui, ali e alhures. De modo que qualquer expectativa humana, por mais estonteante e inesperada que seja, se desfaz em milhões de surpresas repentinas diante da realidade exposta aos olhos de quem debuta pelas ruas, avenidas e ruelas da sempre maravilhosa e misteriosa Cidade Luz.
Estar em Paris é concretizar o mais estupendo dos desejos que não se espera realizar, é perambular sem rumo por entre os difusos e inúmeros meandros dos sonhos mais apaixonantes e tresloucados, no melhor sentido que essa afirmação especial possa transmitir, é sentir-se levitando sobre o imponderável e o inexequível, é transcender qualquer súbita explosão de feliz loucura do coração endoidecido, é sentir um rompante de paixão que já estava latente na alma e no espírito de quantos obtém a benção de abraçá-la antes de lá por os pés. Em vontades semeadas por anos, em anseios cultivados dia após dia. É inegável que ninguém, mas realmente ninguém mesmo, escapa à aura e ao brilho que se fazem perceptíveis no estilo, no mistério, na beleza e no esplendor de Paris.
À guisa de quase parâmetro definitivo é factível afirmar que tudo em Paris, essa verdadeira capital do mundo, por obra de algo acima de nossa vã interpretação e de alguma forma incompreensível ao nosso perecível compreender, mas singularmente impressionante, encanta, surpreende e cativa o visitante neófito que ali aporta e sem perceber vai se extasiando com tudo que vislumbra. A começar por seu próprio universo meio mítico e o que esse fantástica cidade representa para o planeta como um todo e a Europa em particular. Então, assim é, porque Paris se destaca em cada minucioso espaço de seus contornos, em cada ponto de suas paragens, em cada referência, esquina, bairro, monumentos, em todos os milhões de fragmento de seu ser. E essa afirmação está muito bem caracterizada na essência de seu povo, de atitudes e gestos peculiares e, por vezes, inusitados, porém de igual forma transmitindo, às vezes por instantes, e a seguir, como por magia, outros momentos de contagiante simpatia traduzida no idioma considerado o mais romântico de todas as linguagens universais.
Contudo, muito além disso Paris é eclética e exibe aos visitantes o esplendor de seu conhecimento de alto nível por intermédio de sua reconhecida cultura universal, tão vasta em todos os sentidos cognitivos, onde se destacam e brilham luminares da estirpe de Voltaire, na filosofia, Monet, na pintura, e Émile Zola, na literatura, entre outras tantas figuras ímpares do saber francês. A História da Humanidade sempre bebeu do conhecimento francês e dele se alimentou e se alimenta ao longo das eras.
Por outro lado, e são tantos para ver, captar e viver, acende e altera a emoção de qualquer vivente sua vibração incomum e constante, também capaz de agitar em alto grau até o mais circunspecto dos turistas, levando-o a transpor barreiras de timidez que de outra maneira seria impossível ultrapassar. Por sua diuturna vivacidade e entusiasmo refletida nos sorrisos e trejeitos de milhões de corações dominados pela força poderosa do romantismo; pelo impacto a nos deixar sem fôlego de suas formidáveis luzes feéricas, intensidade que lhe valeu o merecido título de Cidade Luz, fazendo a noite parecer dia ensolarado e iluminando a abóbada celestial que lhe é teto infinito; por seu rio famoso, o Sena, de tantas histórias e dezenas de pontes, cada uma com seus próprios acontecimentos registrados nos anaisparisienses; por seus inúmeros, cultos, enormes, vetustos e inconfundíveis museus, mormente o monumental Louvre com seus dezesseis quilômetros de galerias, tão garboso na arte de sua arquitetura quanto nas milhares de peças de inestimável valor de seu acervo, entre tantos outros museus, centros históricos e o Pantheon, lugares onde adentramos com reverência e sede de conhecimento; pela elegante, charmosa, bela e de metro quadrado deveras caríssimo, Avenue des Champs Elysees e tudo de extraordinário que ela representa para os parisienses e o mundo; por seus jardins exuberantes, de rara beleza, onde impera uma espécie de ar em que a paz e o romantismo parecem saltar aos olhos e abraçar as pessoas; pela Catedral de Notre Dame, a Sacré Coeur, a Torre Eiffel que se metamorfoseou na alma de Paris, o Arco do Triunfo, outro marco inconfundível da França; e ainda também por sua famosa gastronomia de sabores, temperos e toques pessoais inigualáveis; por tudo enfim que somente em Paris há possibilidade de encontrar, ver, sentir e viver.
Contudo, sendo habitada por uma grande variedade étnica, mistura de raças que transforma a metrópolis parisiense num imenso caldeirão de idiomas, hábitos e costumes diversos, muitos deles certamente inusitados, praticamente é possível testemunhar em Paris cenas as mais absurdas no cotidiano desse multifacetado recanto da terra. Como as mendigas debruçadas sobre as calçadas em posição humilhante, ao rés do chão literalmente, suplicando esmolas; os cantores anônimos tocando instrumentos musicais e soltando a voz esgoelados, os dançarinos saltitando, dançando, sapateando ou rebolando ao som de potentes músicas que se escutam à distância; os mágicos e prestidigitadores, as estátuas vivas em meio ao povo que fotografa ou fica indiferente, todos de tudo fazendo com esforço inumano para ganhar uns trocados.
Nesse semilouco emaranhado incongruente nos deparamos também com os porra-loucas estatelados aqui e ali a conversar consigo mesmos, com seus fantasmas e até com garrafas às quais chamam de filhas; vemos os muito doidões drogados distribuindo sorrisos a troco de nada enquanto seus cães igualmente chapados permanecem numa mesma posição, deitados, sentados ou consoante seus donos os movem de um jeito ou de outro, durante horas; e, assustados, nos afastamos dos marginais golpistas que perambulam de um canto a outro, mormente pelas aglomerações de turistas, tentando aplicar golpes já bastante manjados, mas infelizmente eficazes por vezes, tipo o golpe do anel(o meliante surge na rapidez do vento ao lado do incauto, joga o objeto no chão, diz que o achou afirmando ter caído do bolso da vítima e de tudo faz para provar isso e receber recompensa), e o da jaqueta(o bandido está sempre num carro, chama o turista e, disfarçando a voz com rasgos de tristeza ensaiada, assegura estar em Paris participando de um evento de moda, naquele momento estando perdido e sem dinheiro por alguma razão mentirosa e deseja vender a jaqueta de "marca" para conseguir voltar ao seu país ou cidade).
Além desses há os travestidos de doentes, curvados, rostos angustiados, sempre acompanhados de uma cúmplice segurando-o com um braço e portando um papel sujo rabiscado com algum texto fajuto sobre a "enfermidade" do larápio. Ambos são vistos, depois, nas proximidades, rindo dos infelizes que os ajudaram e andando normalmente com a maior cara de pau. Os mais perigosos, no entanto, são os de Montmartre, nas proximidades da Igreja Sacré Coeur, que agem assim: geralmente são quatro malandrões, um já bastante maduro com ar de velhinho simpático, bonzinho e boa praça, mas que na verdade é uma serpente venenosa, cujo papel é o principal na quadrilha por manipular três peças sobre uma mesinha debaixo das quais esconde algo aos olhos dos passantes, tira, torna a esconder num e outro, embaralhando e trocando tudo de lugar rapidamente para atordoar e enganar quem for idiota bastante para deles se aproximar; dois são enormes guarda-roupas, os seguranças do malfadado "bom velhinho" com seu "jogo inocente"; e o quarto geralmente é uma mulher com notas de cinquenta e cem euros que simula estar jogando e ganhando um dinheirão por descobrir onde o "bom velhinho" escondeu o objeto entre os três por ele manuseados. Quem fizer a bobagem de se achar esperto e, ganancioso, achegar-se para jogar porque acha que sabe onde o velho serpente venenosa escondeu a coisa por ele manipulada, vai ser roubado até o último centavo.
Presenciei por três vezes turistas indianos e americanos e seus familiares gritando irados contra os malfeitores, por terem perdido seu dinheiro, e sendo brutalmente agarrados e empurrados pelos grandalhões da quadrilha. A mulher de um deles se esgoelava dizendo que o marido havia sido enganado e roubado, exigindo seus euros de volta, mas tanto ela quanto o marido e a filha eram grosseiramente empurrados e xingados pelos brutamontes. Na confusão, não sei como nem porque milagre, as vítimas conseguiram reaver duas cédulas de cem euros, dando a impressão de que haviam perdido muitas delas. Isso tudo sob as vistas da multidão e dos comerciantes dos dois lados da estreita rua. Perguntei a um deles por que a polícia não intervinha, e ele respondeu com um sorriso malicioso e indiferente. Portanto, todo cuidado é pouco para não cair nas malhas desses bandidos em Paris.
...cont.
quarta-feira, 9 de março de 2011
SE NÃO POSSO FALAR, ESCREVO
Já que não posso falar, escrevo. E descrevo através da ponta dos dedos o jorro do manancial de emoções desencontradas que me transborda na alma. Teclando, chorando, pensando, sonhando melancólico. Não vejo as letras sobre as quais a sensibilidade de minhas mãos escorrega, guiadas estas decerto pelo instinto literário de ir soletrando e formando frases doidivanas e apaixonadas sem qualquer controle. Eu não as direciono, elas me conduzem para um rumo desconhecido, provavelmente para muito além do imaginado por meu coração.
E se escrevo porque não me é permitido expressar em viva voz os conturbados sentimentos desnorteadores que me angustiam, vou dedilhando as teclas onde as dezenas de letras do alfabeto se contorcem desencontradas numa simetria só compreensível aos familiarizados com essa incoerência. Nem sei como os contornos do contexto se delinearão ao final, se provocarei um dilúvio de disparidades desconexas ou um amontoado de paráfrases sem sentido capaz de dar nó no cérebro do mais competente dos filósofos. Entendo tão-somente ser premente essa minha incontrolával vontade de despejar na folha em branco ou na tela do computador o fluxo verborrágico latente dentro do meu mais profundo recôndito.
Certo, escondo minhas tristezas para mim mesmo, bem lá no porão escuro do meu querer incompreendido, faço isso. Todavia, às escondidas e para não explodir na amargura desse turbilhão fortuito, escrevo. E não precisa que leias, não quero nem pretendo desejar que vejas o despojo das tristes reflexões expostas num texto só destinado aos meus olhos, voltado unicamente para desabafos doravante herméticos. Será meu segredo, quiçá um confessionário onde falarei pelo silêncio das frases que vou anotando desconcertado, sem nem mesmo compreender ou tentar norteá-las nalguma direção.
No meu texto eu grito, lamento, choro, exclamo, abro inteiramente as portas desse coração angustiado, de par em par. Assim não provocarei nenhuma reação de sua parte que certamente me faria sofrer ainda mais. Aqui neste espaço solitário meu clamor não é ouvido senão por mim mesmo e pelo mutismo do céu, o calar do sol, a tranquilidade do instante que segue. A brisa não pode levar meu lamento à tua presença porque nem ela sabe, nem ela ouviu. Bem que as aves diriam a ti, gorjeando, a verdade cá inscrita, mas também elas se calam tamanha a complexidade de meus sentimentos.
Tudo bem, aceito conformado. Se não posso falar, escrevo.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
CÃOZINHO ENCURRALADO NA SELVA DE PEDRAS
Subitamente, em meio à ruidosa apresentação do desfile de Natal na rua paralela à Borges de Medeiros, em Gramado, surgiu um pequenino cachorro desorientado em meio à multidão.
Assustado, visivelmente em pânico, ele olhava de um lado para o outro daquele imenso corredor polonês sem atinar qual direção deveria seguir, prestes a enlouquecer, na iminência de desandar a latir como se perseguido por centenas de predadores. Câmeras da Globo filmando, o povo aplaudindo o show, a música natalina em despudorada altura deixando os tímpanos em polvorosa, o pobre animal certamente entraria em colapso em pouco tempo.
Alguém gritou ao ver o bicho acuado, outros fizeram o mesmo, uma garota jogou nele um pirulito chupado obrigando-o a por o rabo entre as pernas. "Pega ele!", explodiram vozes em algazarra. E quando os fogos de artifício estouraram no céu iluminando a já feérica artéria brilhando de luzes coloridas, o cachorrinho ensaiou correr para a direita, depois, perseguido por pessoas de apoio ao desfile, arrancou no rumo da esquerda, mas aí a multidão aos apupos ensandecidos o desnorteou.
Então, sem nenhuma saída visível, apavorado e convicto de sua situação nada razoável, o bichinho disparou na direção dos camarotes onde se encontravam as autoridades e convidados vips, momento em que, avistado por seguranças trogloditas ameaçadores, espaúdos e gigantescos prontos para, talvez, fazê-lo em picadinho ou dar-lhe qualquer outro destino menos nobre, ele avançou num rumo indeciso à frente do desfile, louco para sair do impasse, desviando-se de todos quantos tentavam agarrá-lo ou conduzí-lo para uma possível saída, completamente deslocado num ambiente hostil.
E lá se foram homens e mulheres vestidos de preto, o referido grupo de apoio aos desfilantes, no seu encalço enquanto o povaréu ora vaiava, ora batia palmas como se diante de um espetáculo diferente, as câmeras Globais gravando a cena toda, o cara da grua atento a cada movimento da correria e tudo acontecendo como se tivesse sido exaustivamente ensaiado para aparecer com perfeição.
Foi nesse momento que algumas jovens participantes do desfile, vestidas de anjo piscando com as dezenas de luzinhas rendilhadas na fantasia toda, incluindo as asas alvas como a neve, passavam em sua apresentação teatral e o animal se esgueirava em meio a elas com uma rapidez incrível, fugindo pelos meios que melhor lhe parecessem, os olhos afogueados, o coração quase a saltar do peito num repente.
Ninguém conseguiu agarrar o cachorrinho intruso, pelo menos até o último momento em que o vi correndo desabalado, à toda mesmo, pelo caminho destinado ao rico e belo desfile de Natal, ainda sob a gritaria e os aplausos em todo seu percurso. Um interessante casal de patos acompanhado de seis patinhos numa coreografia engraçada e emocionante, a mamãe pata usando um chapeuzinho e o papai pato uma boina que lhe dava um ar de seriedade cômico, tomando minha atenção e do público em derredor deu prosseguimento ao espetáculo e não pude mais registrar que fim levou o pobre do cãozinho que estava no lugar errado e na hora evidentemente imprópria. Imagino, por sua destreza e habilidade, que não tenha sido pego por seus perseguidores, e certamente logrou encontrar uma saída em algum lugar para livrar-se da arapuca em que se metera indevidamente.
Esqueci-o completamente ante o cortejo de soldadinhos de chumbo em ritmada marcha cheia de evoluções, fazendo-me voltar por instantes à minha infância sem brinquedos. Soldadinhos de chumbo sempre foram uma parcela dos sonhos lúdicos povoando-me a mente infantil, mas eu só podia brincar com ossos ressecados com os quais criava batalhões. Os de verdade somente povoavam as brincadeiras dos abastados. O cachorrinho encurralado no meio da multidão eufórica me deu pena, os soldadinhos de chumbo, melancolia.
Assustado, visivelmente em pânico, ele olhava de um lado para o outro daquele imenso corredor polonês sem atinar qual direção deveria seguir, prestes a enlouquecer, na iminência de desandar a latir como se perseguido por centenas de predadores. Câmeras da Globo filmando, o povo aplaudindo o show, a música natalina em despudorada altura deixando os tímpanos em polvorosa, o pobre animal certamente entraria em colapso em pouco tempo.
Alguém gritou ao ver o bicho acuado, outros fizeram o mesmo, uma garota jogou nele um pirulito chupado obrigando-o a por o rabo entre as pernas. "Pega ele!", explodiram vozes em algazarra. E quando os fogos de artifício estouraram no céu iluminando a já feérica artéria brilhando de luzes coloridas, o cachorrinho ensaiou correr para a direita, depois, perseguido por pessoas de apoio ao desfile, arrancou no rumo da esquerda, mas aí a multidão aos apupos ensandecidos o desnorteou.
Então, sem nenhuma saída visível, apavorado e convicto de sua situação nada razoável, o bichinho disparou na direção dos camarotes onde se encontravam as autoridades e convidados vips, momento em que, avistado por seguranças trogloditas ameaçadores, espaúdos e gigantescos prontos para, talvez, fazê-lo em picadinho ou dar-lhe qualquer outro destino menos nobre, ele avançou num rumo indeciso à frente do desfile, louco para sair do impasse, desviando-se de todos quantos tentavam agarrá-lo ou conduzí-lo para uma possível saída, completamente deslocado num ambiente hostil.
E lá se foram homens e mulheres vestidos de preto, o referido grupo de apoio aos desfilantes, no seu encalço enquanto o povaréu ora vaiava, ora batia palmas como se diante de um espetáculo diferente, as câmeras Globais gravando a cena toda, o cara da grua atento a cada movimento da correria e tudo acontecendo como se tivesse sido exaustivamente ensaiado para aparecer com perfeição.
Foi nesse momento que algumas jovens participantes do desfile, vestidas de anjo piscando com as dezenas de luzinhas rendilhadas na fantasia toda, incluindo as asas alvas como a neve, passavam em sua apresentação teatral e o animal se esgueirava em meio a elas com uma rapidez incrível, fugindo pelos meios que melhor lhe parecessem, os olhos afogueados, o coração quase a saltar do peito num repente.
Ninguém conseguiu agarrar o cachorrinho intruso, pelo menos até o último momento em que o vi correndo desabalado, à toda mesmo, pelo caminho destinado ao rico e belo desfile de Natal, ainda sob a gritaria e os aplausos em todo seu percurso. Um interessante casal de patos acompanhado de seis patinhos numa coreografia engraçada e emocionante, a mamãe pata usando um chapeuzinho e o papai pato uma boina que lhe dava um ar de seriedade cômico, tomando minha atenção e do público em derredor deu prosseguimento ao espetáculo e não pude mais registrar que fim levou o pobre do cãozinho que estava no lugar errado e na hora evidentemente imprópria. Imagino, por sua destreza e habilidade, que não tenha sido pego por seus perseguidores, e certamente logrou encontrar uma saída em algum lugar para livrar-se da arapuca em que se metera indevidamente.
Esqueci-o completamente ante o cortejo de soldadinhos de chumbo em ritmada marcha cheia de evoluções, fazendo-me voltar por instantes à minha infância sem brinquedos. Soldadinhos de chumbo sempre foram uma parcela dos sonhos lúdicos povoando-me a mente infantil, mas eu só podia brincar com ossos ressecados com os quais criava batalhões. Os de verdade somente povoavam as brincadeiras dos abastados. O cachorrinho encurralado no meio da multidão eufórica me deu pena, os soldadinhos de chumbo, melancolia.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
A ARTE DE ESCREVER
Escrever não é tão-somente uma bela arte especial, mas igualmente sensibilidade e viagem à doce e terna aventura de criar, de desbravar, de ser o primeiro a expor premissas nunca antes reveladas no papel ou no universo virtual. O escritor se esmera em tentar produzir o que de melhor o seu coração expressa, aparando arestas, retirando senões e esculpindo seu trabalho com a precisão de um mestre até formatar por completo a sua obra. E para isso ele se entrega por horas ao labor de talhar e lapidar o emaranhado de frases para compor o seu texto, às intempéries consequentes, e novamente recomeça o garimpo das melhores pepitas, das pedras preciosas mais puras extraídas de seu conhecimento literário, para isso pulando fogueiras e transpondo barreiras altas e íngremes.
Personagens e tramas, situações e perfis psicológicos são confeccionados e idealizados como se reais fossem pelo artesão das palavras com aquele cuidado excepcional de quem monta um quebra-cabeças de intrincadas peças e sabe o lugar adequado para cada uma delas. É árdua porém excitante tarefa a do artesão das letras, essa arte de nobreza indelével e indubitavelmente de grande importância para a cultura dos povos. Sem literatura a inteligência seria atrofiada, amorfa, espécie de cegueira coletiva.
E o escritor é responsável pela revolução mental de seu semelhante. Porque ele, em seu mister, trabalha com os sentimentos de homens e mulheres, retrata a vida, filma com palavras a trajetória humana. Como uma preciosa, dedicada e essencial testemunha da história. As gerações evoluem com os livros e as idéias neles contidas por esses desbravadores criativos e dedicados. Solitários no grandioso instante de criar, esquecidos do tempo enquanto seus dedos, comandados pelo rapidez cerebral, vão digitando as letras e tecendo um conjunto de idéias, a vida segue lá fora à medida que a mensagem proposta por eles vai se configurando linha por linha. E a vida se transforma na literatura, mesclando a dureza da realidade com o lirismo poético ou a ficção fantástica. E milhões de pessoas aprendem, se emocionam e se divertem com eles.
Parecendo, por vezes, um visionário, o escritor até pode fazer inconscientes previsões, como sem dúvida nenhuma foi o caso, entre tantos outros, de Júlio Verne com suas obras A volta ao mundo em oitenta dias, Viagem ao centro da Terra, Vinte mil léguas submarinas e tantas outras. A mente do escritor permanece vinte e quatro horas em constante ebulição. Podemos até afirmar que ele age de maneira compulsiva no ato de escrever, isto é, parece ser impulsionado por uma mola de aço a sentar-se diante do computador e elucubrar os textos que vão fluindo como chuva grossa demorada. Não é de se estranhar sabermos que muitos acordam no meio da noite para continuar a escrever algum texto iniciado ou digitar o gran finale que durante o dia não tinham conseguido elaborar, recebendo o insight enquanto dormiam. Quando isso acontece, o escritor sabe que precisa levantar da cama e escrever o que sua mente lhe dita, sob pena de perder a idéia brotando vívida e frenética naquele exato momento, e que certamente não mais voltará da mesma forma.
Mas o labor da literatura também é um grato prazer para o escritor, porque não poucas vezes ele se envolve na trama que idealiza e tece à guisa de teia pacientemente elaborada e que prossegue paulatina, crescente e explosiva. Em sendo assim, ri e chora com suas mensagens, por força das circunstâncias e do envolvimento emocional deixa-se conduzir por seus personagens, havendo ocasiões em que estes deixam claras as regras a serem seguidas e fazem dele um mero contador de estórias nas quais não pode mais intervir. A não ser que queira mudar todo o curso traçado até aquele instante e transformar radicalmente os rumos de seu trabalho ficcional. A inteligência humana jamais poderá prescindir do escritor. Da cultura timoneiro, das artes mestre, da vida revolucionário, dos sentimentos vanguardista, esse operário das palavras é e continuará sendo o baluarte das batalhas necessárias às mudanças que melhorem o mundo e a qualidade de vida de homens e mulheres.
GILBAMAR DE OLIVEIRA BEZERRA
Personagens e tramas, situações e perfis psicológicos são confeccionados e idealizados como se reais fossem pelo artesão das palavras com aquele cuidado excepcional de quem monta um quebra-cabeças de intrincadas peças e sabe o lugar adequado para cada uma delas. É árdua porém excitante tarefa a do artesão das letras, essa arte de nobreza indelével e indubitavelmente de grande importância para a cultura dos povos. Sem literatura a inteligência seria atrofiada, amorfa, espécie de cegueira coletiva.
E o escritor é responsável pela revolução mental de seu semelhante. Porque ele, em seu mister, trabalha com os sentimentos de homens e mulheres, retrata a vida, filma com palavras a trajetória humana. Como uma preciosa, dedicada e essencial testemunha da história. As gerações evoluem com os livros e as idéias neles contidas por esses desbravadores criativos e dedicados. Solitários no grandioso instante de criar, esquecidos do tempo enquanto seus dedos, comandados pelo rapidez cerebral, vão digitando as letras e tecendo um conjunto de idéias, a vida segue lá fora à medida que a mensagem proposta por eles vai se configurando linha por linha. E a vida se transforma na literatura, mesclando a dureza da realidade com o lirismo poético ou a ficção fantástica. E milhões de pessoas aprendem, se emocionam e se divertem com eles.
Parecendo, por vezes, um visionário, o escritor até pode fazer inconscientes previsões, como sem dúvida nenhuma foi o caso, entre tantos outros, de Júlio Verne com suas obras A volta ao mundo em oitenta dias, Viagem ao centro da Terra, Vinte mil léguas submarinas e tantas outras. A mente do escritor permanece vinte e quatro horas em constante ebulição. Podemos até afirmar que ele age de maneira compulsiva no ato de escrever, isto é, parece ser impulsionado por uma mola de aço a sentar-se diante do computador e elucubrar os textos que vão fluindo como chuva grossa demorada. Não é de se estranhar sabermos que muitos acordam no meio da noite para continuar a escrever algum texto iniciado ou digitar o gran finale que durante o dia não tinham conseguido elaborar, recebendo o insight enquanto dormiam. Quando isso acontece, o escritor sabe que precisa levantar da cama e escrever o que sua mente lhe dita, sob pena de perder a idéia brotando vívida e frenética naquele exato momento, e que certamente não mais voltará da mesma forma.
Mas o labor da literatura também é um grato prazer para o escritor, porque não poucas vezes ele se envolve na trama que idealiza e tece à guisa de teia pacientemente elaborada e que prossegue paulatina, crescente e explosiva. Em sendo assim, ri e chora com suas mensagens, por força das circunstâncias e do envolvimento emocional deixa-se conduzir por seus personagens, havendo ocasiões em que estes deixam claras as regras a serem seguidas e fazem dele um mero contador de estórias nas quais não pode mais intervir. A não ser que queira mudar todo o curso traçado até aquele instante e transformar radicalmente os rumos de seu trabalho ficcional. A inteligência humana jamais poderá prescindir do escritor. Da cultura timoneiro, das artes mestre, da vida revolucionário, dos sentimentos vanguardista, esse operário das palavras é e continuará sendo o baluarte das batalhas necessárias às mudanças que melhorem o mundo e a qualidade de vida de homens e mulheres.
GILBAMAR DE OLIVEIRA BEZERRA
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
DECIDA POR UMA VIDA MELHOR
O corpo humano foi idealizado para o movimento constante e diário, de modo que a inércia sedentária é fator crucial para causar inúmeros problemas que vão desde a hipertensão até diabetes, entre outros males que tiram o bem estar dos nossos dias. Portanto, é primordial que nos mexamos durante todo o tempo no decorrer do dia mesmo quando sentamos para trabalhar, ler ou conversar.
Basta mudar de posição de vez em quando, movimentar os braços e as mãos discretamente se não estivermos a sós, cruzar e descruzar as pernas, mover os pés para cima e para baixo num ritmo suave e agitar cada músculo. Em suma, ninguém pode nem deve ficar parado de maneira nenhuma se quiser ter vida saudável.
O intestino funciona bem melhor se não formos preguiçosos no dia a dia, o sangue circula fluente ao sabor dos nossos movimentos, as gordurinhas indesejáveis acumuladas tanto nos culotes e bumbuns femininos quanto nos abdomens masculinos são queimadas evitando causar indesejáveis situações de perigo futuro para a saúde. E há mais qualidade de vida se fazemos de nosso corpo um instrumento potente que sobe escadas, anda de bicicleta, joga futebol, dança qualquer tipo de música e salta e corre.
Com o passar dos anos a idade vai avançando, a massa muscular definha para quem não faz os exercícios adequados à sua manutenção e/ou aquisição, os ossos enfraquecem e as inúmeras sequelas ditas dos idosos aparecem como formiga no doce abandonado no chão. A consequencia maléfica para os sedentários é dolorosa e desconfortável: pelancas horrorosas penduradas nos braços, fraqueza até para andar ou subir degraus, indisposição, tristeza e possibilidade de quedas a qualquer momento. Principalmente durante o banho.
Se um idoso desprovido da maior parte de sua massa muscular, praticamente só osso e pele devido ao sedentarismo, levar um tombo e quebrar a bacia, é cama ou rede na certa, para sempre. Então vem o sofrimento ainda maior por não ter condições de levantar, e rapidamente ele perece, não sem antes sentir o abandono, o desprezo, o distanciamento tantas vezes. Tudo ao mesmo tempo porque passará a ser um estorvo, a pedra no caminho dos que prosseguem.
Caminhe todos os dias, nem que seja dentro de sua própria casa de um lado para o outro. Vá pela escada até seu apartamento se residir em algum edifício condominial. Ande pela calçada e vença os quarteirões. Deixe o carro em casa e saia mais cedo para o trabalho, a pé, se não for muito longe. Sobretudo, dance e dance muito. Isso tudo se não tiver condições de ir à academia, porque caso possa não deixe para depois.
Tão importante quanto o alimento é o exercício, anaeróbico e aeróbico, ambos de suprema importância para garantir saúde, resistência, músculos ativos e fortes e alegria. Sim, alegria, pois quem está em forma se sente tão bem que sorri à toa. Ter o peso ideal e proporcional à altura é mais que fundamental. É questão de vida com saúde ou morte prematura entre dores e agonia.
Basta mudar de posição de vez em quando, movimentar os braços e as mãos discretamente se não estivermos a sós, cruzar e descruzar as pernas, mover os pés para cima e para baixo num ritmo suave e agitar cada músculo. Em suma, ninguém pode nem deve ficar parado de maneira nenhuma se quiser ter vida saudável.
O intestino funciona bem melhor se não formos preguiçosos no dia a dia, o sangue circula fluente ao sabor dos nossos movimentos, as gordurinhas indesejáveis acumuladas tanto nos culotes e bumbuns femininos quanto nos abdomens masculinos são queimadas evitando causar indesejáveis situações de perigo futuro para a saúde. E há mais qualidade de vida se fazemos de nosso corpo um instrumento potente que sobe escadas, anda de bicicleta, joga futebol, dança qualquer tipo de música e salta e corre.
Com o passar dos anos a idade vai avançando, a massa muscular definha para quem não faz os exercícios adequados à sua manutenção e/ou aquisição, os ossos enfraquecem e as inúmeras sequelas ditas dos idosos aparecem como formiga no doce abandonado no chão. A consequencia maléfica para os sedentários é dolorosa e desconfortável: pelancas horrorosas penduradas nos braços, fraqueza até para andar ou subir degraus, indisposição, tristeza e possibilidade de quedas a qualquer momento. Principalmente durante o banho.
Se um idoso desprovido da maior parte de sua massa muscular, praticamente só osso e pele devido ao sedentarismo, levar um tombo e quebrar a bacia, é cama ou rede na certa, para sempre. Então vem o sofrimento ainda maior por não ter condições de levantar, e rapidamente ele perece, não sem antes sentir o abandono, o desprezo, o distanciamento tantas vezes. Tudo ao mesmo tempo porque passará a ser um estorvo, a pedra no caminho dos que prosseguem.
Caminhe todos os dias, nem que seja dentro de sua própria casa de um lado para o outro. Vá pela escada até seu apartamento se residir em algum edifício condominial. Ande pela calçada e vença os quarteirões. Deixe o carro em casa e saia mais cedo para o trabalho, a pé, se não for muito longe. Sobretudo, dance e dance muito. Isso tudo se não tiver condições de ir à academia, porque caso possa não deixe para depois.
Tão importante quanto o alimento é o exercício, anaeróbico e aeróbico, ambos de suprema importância para garantir saúde, resistência, músculos ativos e fortes e alegria. Sim, alegria, pois quem está em forma se sente tão bem que sorri à toa. Ter o peso ideal e proporcional à altura é mais que fundamental. É questão de vida com saúde ou morte prematura entre dores e agonia.
domingo, 5 de dezembro de 2010
PENSAR POSITIVO
Dormir é atividade tão importante para a completa harmonia do organismo quanto a alimentação saudável e os exercícios físicos. Todo ser vivo necessita do repouso cotidiano para repor as energias e continuar a saga da existência enquanto esta durar. Isso, bem sabemos, é notório. Além de descansar do labor inerente às atividades diárias, de dar ao corpo cansado a oportunidade de refazer suas forças, trata-se evidentemente do apoteótico momento em que o ser humano se encontra consigo mesmo e com os próprios pensamentos, obrigando-se, quase sem perceber e antes que o sono aconteça, a refletir sobre os problemas enfrentados, as alegrias desfrutadas, as tristezas e decepções que o dia de trabalho, a família e estudo proporcionaram.
É a partir de então, de forma espontânea e paulatina, que se revela aquele instante único de silencioso diálogo travado em sua própria mente, de si para si. Impossível escapar desse inevitável repassar dos fatos na hora de dormir, a menos que tamanha seja a sonolência que o faça deitar e logo cair num sono profundo. Porque em não sendo assim os pensamentos imediatamente vem se atropelando na correria e tomam conta de você e de suas ideias, por muitas vezes angustiando e atrasando o repouso adequado. O corpo se mexe e revira para um lado e outro da cama, os olhos secam e não se acomodam fechados, as insistentes coisas negativas daquele dia, por deixá-lo intranquilo, o impedem de conciliar o sono. Muito tempo depois, fatigado de tanto ruminar as pedras do caminho retidas e amontoadas em sua mente, adormece ranzinza e tem uma tumultuada noite mal dormida. Dia seguinte, acordado pelo barulho irritante do despertador começa a rotina dominado pelo mau humor e arranja novos e desafiantes problemas e muitas razões para outra noite caótica, tornando-se um círculo vicioso.
Para que isso jamais ocorra ou seja algo raro em sua vida, ao dirigir-se à intimidade do leito para repousar pegue leve nas reflexões e, sem hesitar, entre literalmente no clima do axioma popular: "relaxe e goze" caindo em seguida nos agradáveis braços de Morfeu. Não é algo tão difícil assim, tente de todas as maneiras esquecer as amarguras e foque o pensamento somente no que de melhor aconteceu durante o seu dia. Certamente algum incidente feliz se registrou ao longo do nascer do sol e seu ocaso enquanto você exercia as atividades cotidianas, então aproveite e se volte para esse fato e mais outros se houver, deliciando-se em revolvê-lo ininterruptamente até dormir.
Pensando de modo positivo você atinge de pronto o Nirvana do sono tranquilo sem mais delongas. As boas lembranças são o melhor e mais efetivo sonífero que conheço. O conselho é simples: com a cabeça confortavelmente inclinada sobre o travesseiro, resoluto e convicto de seus anseios em buscar apenas os fluidos benéficos, lembrando sem parar, por todos os ângulos e lados, daquele lindo e inesperado sorriso amoroso que lhe foi direcionado por uma pessoa especial, da ótima notícia sobre um ente querido recuperado de alguma enfermidade, do boletim de seu filho recheado de excelentes notas, do livro que pretende escrever - sonhe, vale a pena! -, da árvore plantada na frente de sua casa, puxa há tanta ternura, beleza, fascínio e alegrias para ruminar enquanto espera o sono, vá em frente, e desse ponto em diante feche todos os arquivos cheios de adrenalina no consciente, cerre as portas dos cômodos negativos, jogue a chave fora e adormeça no deleite do sorriso que certamente seus lábios esboçarão. Nunca mais você deixará de dormir a sono solto se, ao deitar à noite, encher-se de pensamentos positivos e das recordações agradáveis. Não é fácil? Tem razão, nem tudo é. Mas não custa nada tentar, e, dando certo, todos os dias você só irá dormir imbuído do desejo de ficar mastigando as coisas maravilhosas com que o cotidiano de sua existência lhe presenteou.
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Crônica
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
MINHA CRÔNICA PREMIADA
Com a crônica abaixo ganhei menção honrosa no FESTIVAL CULTURAL BB. O prêmio foi uma viagem ao Rio de Janeiro, com acompanhante, e todas as despesas pagas(passagens aéreas, hotel, alimentação, transfer in e out, além de todos os passeios - ao Corcovado e ao Pão de Açúcar). Pela alegria que tive ao receber esse presente, compartilho com vocês o texto premiado:
A VIDA PEDE PASSAGEM
Vencendo o concreto na forma de planta, a vida brotou toda sorridente, quase bocejando, quiçá lânguida, vendo a luz do sol esplendorosa à sua espera. E veio à tona completamente embevecida e cheia daquela densa alegria a envolver-lhe os filamentos nervosos e seguindo por todas as áreas, para atingir generosamente seus ainda tenros ramos, em cada fibra deslizando aquela sensação gostosa de vida em explosão e paulatino crescimento. Embora insensível e pesada, a mão do homem, com suas complexas armações de cimento, areia e ferro e no seu esforço de concretar o solo das cidades, não logrou impedi-la de tornar-se um ser vivo. O pulsar da existência, garboso e invencível, explodiu em intensidade, em querer, em ser.
Conquanto um frágil ser, a planta, ansiosa por nascer e ver a luz, furou o quase inexpugnável bloqueio marmóreo - só Deus sabe como – e manifestou-se destemida em meio à aspereza do ambiente. Causou-me, por instantes, refletir acerca dessas veleidades súbitas da natureza que tanto encanto nos transmitem e nos fazem admirar a linda criação de Deus. De que maneira aquela pequenina semente conseguiu chegar até à marquise do terceiro andar para, enfim, num ato sem dúvida transcendental, transformar-se pulsante?, indaguei-me, sem resposta. E mais: onde, com sua fragilidade expressiva, encontrou as condições adequadas para penetrar na rigidez do bloco pétreo e imiscuir-se ladina por entre as células endurecidas e mortas do concreto? Em que recanto do lugar tão árido descobriu resquícios do adubo natural para seu alimento? Onde descobriu o fôlego para viver naquelas plagas secas e desprovidas de ânimo? Quem sabe? Quem pensa em ousar saber sobre essas artimanhas simples e ao mesmo tempo complexas da vida? Tudo certamente se deu na surdina, ali pelo silêncio dos dias e das noites, calmamente, longe dos olhos humanos como sói acontecer quando um novo ser está sendo gerado, não sendo necessário dar a conhecer os detalhes ou as minúcias do espetáculo em desenvolvimento. A diferença é que o inusitado deixou sua marca e chamou a atenção para a beleza do fato, isto é, o nascimento de uma planta no piso de concreto.
De modo que, semelhante a um estranho no ninho, tal qual o patinho feio, o verde ostentoso de suas folhas em realce, a aparentar um quadro surrealista pincelado de bucolismo, eis que, de inopino, apareceu e exibiu seu belo charme solitário em plena avenida congestionada pelo gás carbônico dos automóveis que passam tresloucados, secundados por pedestres por vezes com sacolas numa das mãos, puxando crianças ou idosos na outra, enfileirados como formigas, para espanto de quem não crê na vida. Então, e aí reside boa parte da beleza natural desse extraordinário acontecimento, molhada pelas chuvas e fotosintetisada pelos brilhantes raios solares, desenvolveu-se com o passar dos dias e foi estendendo seus instigantes galhinhos em derredor, indiferente às intempéries e esbanjando aquele aspecto saudável de quem sobrepujou as dificuldades com impetuosidade e saiu vitorioso. À guisa de um passe de mágica, metamorfoseou-se, quem diria, em algo como um bonsai sem nenhum cuidado especial, bem lá no alto, vívida, feliz, passando a fazer parte do cenário citadino. Os circunstantes em circulação pelo local olham para a parede suja do velho prédio do centro de Natal, na Cidade Alta e avistando, um tanto surpresos e um tanto maravilhados, aquela plantinha altaneira e atrevida surgindo do nada num ambiente deveras inóspito, mas claramente exultante pelo feito ainda sui gêneris porque não é usual, estancam, muitos deles extasiados com o vigor demonstrado. E ficam parados no vai-e-vém da multidão apressada a olhar para o alto, até meio abobalhados alguns, sorrindo tantos outros, diante da tocante cena que certamente atinge o cerne da sensibilidade dos enternecidos.
Por entre os pedregulhos do surrado edifício abandonado, situado bem no coração do burburinho da cidade grande, a vida surgiu com toda a força do seu poder sem interferência de ninguém, e nem poderia, evidente, mesmo que quisessem. Pois foi por demais distante do alcance da ação humana a sua explosão em milhões de átomos, que se completaram no silêncio cúmplice dos dias e das noites e se amoldaram nessa complexidade maravilhosa chamada vida, equilibrada, perfeita, cheia de vivacidade e harmonia. Embelezado ficou muito mais o aspecto urbano ante a presença inesperada daquele ser mirrado bem ali naquela marquise descorada e suja. A vida é bela e exuberante.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
FELICIDADE
Ao longo de toda minha vida andei tentando cultivar a semente da tenra plantinha chamada felicidade com o máximo cuidado. Fui arando os espaços por onde caminhei, distribuindo sorrisos, engolindo em seco - algumas vezes também ficava aquilo preso na garganta dias e dias até, finalmente, descer goela abaixo quando a compreensão aliviava a mágoa no coração - os pescoções e sapos maiores do que minha capacidade de assimilar suportava. Precisei, como é de lei não escrita no relacionamento humano, renunciar tanto, baixar a cabeça incontáveis vezes, derramar lágrimas sobre o travesseiro enquanto refletia sobre fatos e atos, buscando entender o sentido de estar vivo quando inúmeros já tinham recebido o bilhete de ida sem retorno.
Fui percebendo, no passar do tempo, que para subsistir e ser completa a felicidade necessita de pequenas coisas do cotidiano, de detalhes simples, por vezes insignificantes, que fazem a grande diferença na contabilidade final e complexa desse estágio da existência tão anelado por todos nós. Todavia surpreendi-me ao descobrir o quanto a presença dos meus semelhantes é parte sin ne qua non dessa tal felicidade. Sem a presença imprescindível dos muitos próximos, em especial dos mais próximos como amigos, familiares, parentes e, claro, os amores, impossível seu desenvolvimento completo e sadio.
Porque a felicidade, compreendi e me alegrei com essa assertiva, não vem sozinha e repentina como algo avulso ou uma folha seca trazida pelo vento. Para acontecer e tornar-se real, palpável e desfrutável a felicidade, da maneira como nós seres humanos a enxergamos, há que ter por base sólida, o esteio indispensável para firmar-se e permanecer, as demais criaturas dividindo conosco as benesses de seus gloriosos frutos.
De que maneira, então, é possível encontrar o caminho mais plausível para alcançá-la? Como isso é possível? Onde descobrir os contornos desse misterioso e abstrato estado de vida tão ansiosamente procurado por todos os homens e mulheres? O apoio e incentivo dos pais na infância, a amizade na adolescência, os braços amorosos da namorada, a constituição da própria família, o trabalho digno respaldado por salário adequado com vistas a um viver honroso e com qualidade, a leitura constante de bons livros e demais incentivos culturais que despertam o intelecto, enfim, todos os fragmentos de prazeres e alegrias brotando dia após dia fazem o painel de algo maravilhoso a que chamamos de felicidade.
Tropeços ocorreram porque são inevitáveis e inerentes a essa linda jornada onde nos colocaram nossos pais. Rosas e espinhos ocupam o mesmo espaço enquanto seguimos adiante. Temos consciência que a felicidade é construída aqui e ali, em momentos inesquecíveis bordados de risos contagiantes, com pedaços de alegria depois de escamoteadas as tristezas, olvidadas as desilusões.
Penso que a felicidade me tem visitado vez por outra em seus frequentes retalhos e visíveis contornos, acreditando ser ela vivida de instantes, de pequenas pepitas de ouro que vamos encontrando no caminho escolhido por cada um de nós. Esse fabuloso êxtase a que denominamos de felicidade jamais será conseguido em sua totalidade por qualquer um de nós, porque ela se caracteriza nos lampejos momentâneos que nos dão prazer e a doce sensação de ser feliz. Lampejos esses inconstantes, inesperados e nem sempre à mão.
Fui percebendo, no passar do tempo, que para subsistir e ser completa a felicidade necessita de pequenas coisas do cotidiano, de detalhes simples, por vezes insignificantes, que fazem a grande diferença na contabilidade final e complexa desse estágio da existência tão anelado por todos nós. Todavia surpreendi-me ao descobrir o quanto a presença dos meus semelhantes é parte sin ne qua non dessa tal felicidade. Sem a presença imprescindível dos muitos próximos, em especial dos mais próximos como amigos, familiares, parentes e, claro, os amores, impossível seu desenvolvimento completo e sadio.
Porque a felicidade, compreendi e me alegrei com essa assertiva, não vem sozinha e repentina como algo avulso ou uma folha seca trazida pelo vento. Para acontecer e tornar-se real, palpável e desfrutável a felicidade, da maneira como nós seres humanos a enxergamos, há que ter por base sólida, o esteio indispensável para firmar-se e permanecer, as demais criaturas dividindo conosco as benesses de seus gloriosos frutos.
De que maneira, então, é possível encontrar o caminho mais plausível para alcançá-la? Como isso é possível? Onde descobrir os contornos desse misterioso e abstrato estado de vida tão ansiosamente procurado por todos os homens e mulheres? O apoio e incentivo dos pais na infância, a amizade na adolescência, os braços amorosos da namorada, a constituição da própria família, o trabalho digno respaldado por salário adequado com vistas a um viver honroso e com qualidade, a leitura constante de bons livros e demais incentivos culturais que despertam o intelecto, enfim, todos os fragmentos de prazeres e alegrias brotando dia após dia fazem o painel de algo maravilhoso a que chamamos de felicidade.
Tropeços ocorreram porque são inevitáveis e inerentes a essa linda jornada onde nos colocaram nossos pais. Rosas e espinhos ocupam o mesmo espaço enquanto seguimos adiante. Temos consciência que a felicidade é construída aqui e ali, em momentos inesquecíveis bordados de risos contagiantes, com pedaços de alegria depois de escamoteadas as tristezas, olvidadas as desilusões.
Penso que a felicidade me tem visitado vez por outra em seus frequentes retalhos e visíveis contornos, acreditando ser ela vivida de instantes, de pequenas pepitas de ouro que vamos encontrando no caminho escolhido por cada um de nós. Esse fabuloso êxtase a que denominamos de felicidade jamais será conseguido em sua totalidade por qualquer um de nós, porque ela se caracteriza nos lampejos momentâneos que nos dão prazer e a doce sensação de ser feliz. Lampejos esses inconstantes, inesperados e nem sempre à mão.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
MEU FERIADO CONTURBADO
Preferi não ir ao cemitério, pois certamente haveria uma multidão se atropelando em meio à poeira e por entre os túmulos, na pressa de cumprir a obrigação religiosa de visitar no dia de finados o parente falecido. Por outro lado, os nosocômios sempre me passam um melancólico ar de depressão sufocante em qualquer época do ano, então, inapeláveis, me vem aqueles revoltosos pensamentos a respeito da finitude de todos os humanos e o temor do desconhecido. Definitivamente morrer não é meu forte, prefiro os sorrisos vivos ao silêncio respeitoso dos que já partiram para a eternidade. Por isso, resolvi ler um pouco após o desjejum enquanto matutava sobre o que fazer a seguir.
Como não consegui me concentrar na leitura imaginando que um dia inteiro sem ter o que fazer merece algo mais do que ficar manuseando folhas e mais folhas entulhadas de letras pequenas, resolvi ir à praia curtir sol, mar e mulheres bonitas. Só não imaginei quantas pessoas também haviam pensado e decidido o mesmo. E descobri isso da maneira mais difícil.
Quase não encontrei lugar para estacionar, ainda que a mais de duzentos metros da orla. Cada milímetro quadrado em derredor estava absolutamente tomado por automóveis sob o olhar arrogante dos flanelinhas apontando, correndo, anotando placas e fiscalizando. Por ser averso a eles, estacionei o mais longe possível da confusão reinante e do alcance dessa praga que assolou nosso País sem direito a qualquer tipo de solução. Já vestido a caráter, óculos escuros protegendo os olhos e munido de protetor solar, arrisquei contornar o vai-e-vem dos carros até descer uma imensa escadaria e, por fim alcançar a areia quente beijada de vez em quando pelas ondas mansas.
Pela quantidade de automóveis eu deveria deduzir que o espaço praiano decerto estaria lotado, mas não esperava tanto. Ao lado do mar de água salgada um mar de gente disputando cada fragmento arenoso, cada pedaço de terra. Pior, inúmeros cães trazidos por impensados e inconsequentes donos transitavam e sujavam a praia com seus dejeto, sob o olhar complacente de homens e mulheres sorridentes. Tão logo adentrei o concorrido local, inadvertido, porque buscando um ponto suficiente onde pudesse me alojar, pisei em excremento canino recém descarregado. Praguejei, furioso e lambuzado. No momento em que tentava desvencilhar-me do dejeto várias crianças passaram em disparada e quase me derrubaram. Foi por muito pouco. Um homem gordo espirrou praticamente em meu rosto, alguém jogou aos meus pés sobejos de cerveja. É, o dia realmente não prometia. Corri dali assustado sem ver a bola de frescobol zunindo em minha direção e acertando-me a face. Antes de recuperar-me do verdadeiro ataque dos vândalos ,dois vendedores de sorvete me surpreenderam em sua correria para atender algum cliente e por muito pouco não me atropelaram. Após isso, como que voei em busca da água, sendo barrado por duas senhoras maduras de biquini e pelancas expostas, por dez marmanjos jogando futebol, por sete gatinhas rebolando suas curvas e pelo solavanco de quatro senhores idosos e barrigudos. Quando, por fim, cheguei ao meu destino uma inesperada onda súbita me derrubou e puxou-me o calção, quase a deixar-me despido.
Foi então que, desesperado com tanta aflição, percebi que teria sido de muito melhor alvitre ter ido ao cemitério e desfrutar do sossego dos mortos. Lá, pelo menos, não sofreria essa leva de atentados à minha integridade física. De maneira que, sem pensar duas vezes, saí em disparada daquele caos desumano, derrubei dois cachorros que se fuçavam e uma mesinha entupida de copos e garrafas, guardada por uma menina atemorizada ante meu rompante, fui afastando as pessoas da minha frente sob mil pedidos de desculpas esfarrapadas e subi as escadarias aos pulos, sem parar enquanto não acheguei-me à segurança do meu carro no longínquo lugar onde o deixei. Molhado mesmo, o pé direito ainda com resquícios de excremento canino, afastei-me o mais rápido possível dali, fui para minha casa, tomei um demorado banho, vesti minha melhor roupa, apanhei de sobre a estante um exemplar de salmos e me encaminhei todo compungido para o cemitério. Ali, sozinho, meditando sentado sobre o suntuoso túmulo de um ricaço falecido, esperei o dia terminar na esperança de que nada mais de ruim me tornasse a acontecer. Ao por do sol e somente depois que todos já tinham ido embora após rezar e deixar flores para os parentes adormecidos, respirei aliviado por ver a noite se aproximando e tratei de ir para casa. O dia de finados finalmente acabara, ufa!
Como não consegui me concentrar na leitura imaginando que um dia inteiro sem ter o que fazer merece algo mais do que ficar manuseando folhas e mais folhas entulhadas de letras pequenas, resolvi ir à praia curtir sol, mar e mulheres bonitas. Só não imaginei quantas pessoas também haviam pensado e decidido o mesmo. E descobri isso da maneira mais difícil.
Quase não encontrei lugar para estacionar, ainda que a mais de duzentos metros da orla. Cada milímetro quadrado em derredor estava absolutamente tomado por automóveis sob o olhar arrogante dos flanelinhas apontando, correndo, anotando placas e fiscalizando. Por ser averso a eles, estacionei o mais longe possível da confusão reinante e do alcance dessa praga que assolou nosso País sem direito a qualquer tipo de solução. Já vestido a caráter, óculos escuros protegendo os olhos e munido de protetor solar, arrisquei contornar o vai-e-vem dos carros até descer uma imensa escadaria e, por fim alcançar a areia quente beijada de vez em quando pelas ondas mansas.
Pela quantidade de automóveis eu deveria deduzir que o espaço praiano decerto estaria lotado, mas não esperava tanto. Ao lado do mar de água salgada um mar de gente disputando cada fragmento arenoso, cada pedaço de terra. Pior, inúmeros cães trazidos por impensados e inconsequentes donos transitavam e sujavam a praia com seus dejeto, sob o olhar complacente de homens e mulheres sorridentes. Tão logo adentrei o concorrido local, inadvertido, porque buscando um ponto suficiente onde pudesse me alojar, pisei em excremento canino recém descarregado. Praguejei, furioso e lambuzado. No momento em que tentava desvencilhar-me do dejeto várias crianças passaram em disparada e quase me derrubaram. Foi por muito pouco. Um homem gordo espirrou praticamente em meu rosto, alguém jogou aos meus pés sobejos de cerveja. É, o dia realmente não prometia. Corri dali assustado sem ver a bola de frescobol zunindo em minha direção e acertando-me a face. Antes de recuperar-me do verdadeiro ataque dos vândalos ,dois vendedores de sorvete me surpreenderam em sua correria para atender algum cliente e por muito pouco não me atropelaram. Após isso, como que voei em busca da água, sendo barrado por duas senhoras maduras de biquini e pelancas expostas, por dez marmanjos jogando futebol, por sete gatinhas rebolando suas curvas e pelo solavanco de quatro senhores idosos e barrigudos. Quando, por fim, cheguei ao meu destino uma inesperada onda súbita me derrubou e puxou-me o calção, quase a deixar-me despido.
Foi então que, desesperado com tanta aflição, percebi que teria sido de muito melhor alvitre ter ido ao cemitério e desfrutar do sossego dos mortos. Lá, pelo menos, não sofreria essa leva de atentados à minha integridade física. De maneira que, sem pensar duas vezes, saí em disparada daquele caos desumano, derrubei dois cachorros que se fuçavam e uma mesinha entupida de copos e garrafas, guardada por uma menina atemorizada ante meu rompante, fui afastando as pessoas da minha frente sob mil pedidos de desculpas esfarrapadas e subi as escadarias aos pulos, sem parar enquanto não acheguei-me à segurança do meu carro no longínquo lugar onde o deixei. Molhado mesmo, o pé direito ainda com resquícios de excremento canino, afastei-me o mais rápido possível dali, fui para minha casa, tomei um demorado banho, vesti minha melhor roupa, apanhei de sobre a estante um exemplar de salmos e me encaminhei todo compungido para o cemitério. Ali, sozinho, meditando sentado sobre o suntuoso túmulo de um ricaço falecido, esperei o dia terminar na esperança de que nada mais de ruim me tornasse a acontecer. Ao por do sol e somente depois que todos já tinham ido embora após rezar e deixar flores para os parentes adormecidos, respirei aliviado por ver a noite se aproximando e tratei de ir para casa. O dia de finados finalmente acabara, ufa!
terça-feira, 12 de outubro de 2010
DIA DAS CRIANÇAS
Há uma criança inocente se divertindo nas cordas do meu coração enquanto o adulto brinca de ser gente grande e sofre as consequencias disso. O menino que sonha e vive de seus devaneios lúdicos e o amadurecido e circunspecto senhor envolto no pragmatismo que o faz envelhecer e se tornar casmurro. A cada instante a inocência burla a rígida vigilância do que deixou de ser criança, levando este a contornar os obstáculos que o impedem de rir, chorar e se emocionar. Então, nessa rápida transformação transitória, por vezes somente um relance passageiro, seus olhos vislumbram o mundo sob um novo e maravilhoso aspecto, abrem-se novos horizontes à sua mente rejuvenescida por breve momento. Ele, então, sente que pode, sim, derramar lágrimas e desfazer-se em gostosas gargalhadas sem que isso injurie sua humanidade.
O homem é o garoto impiedosamente obrigado a assumir o desencanto de amadurecer. A batalha inglória entre ambos pela supremacia de um ou outro estado é percebida no semblante melancólico descortinado de quando em quando. Perceptível se torna o conflito no olhar perdido buscando horizontes inexistentes, no ar cansado e aflito que se deixa abater em meio à luta. O adulto vence e mata a criança existente em sua alma, deixando-se levar pela furiosa onda do tempo, dos cabelos prateados, da calvície, da pele flácida, da falta de massa muscular, de amor. Porque o amor infantil é sublime, mas sucumbe à idade que chega; o que brota nos maduros quase sempre tem um quê de egoísmo e oscila entre o ser e o ter. Sentimento de posse, ânsia de ser dono, anelo de possuir sob amarras e pressões. Perecem o menino sorridente ainda moribundo na mente ocupada por afazeres adultos e o senhor sorumbático atabalhoado entre inúmeras decisões que a vida e o tempo impõem.
É possível a alguém ser homem-criança e no mesmo esboço humano continuar monitorando as rédeas da responsabilidade que lhe chegaram às mãos independente de sua vontade? Sim, em termos. Dispor de horas para brincar com os filhos caso os tenha, dar-lhes a devida atenção quando pedirem, acompanhar a evolução escolar passo a passo, proporcionar-lhes uma educação baseada nos mais nobres princípios e deixar que o espírito de um instante lúdico e coloque no mesmo nível de entendimento e desprendimento infantis. Agir feito criança nem sempre é sinônimo de irresponsabilidade, quiçá o seja de bom senso quando o momento requer. Que permaneça no âmago de cada um pouco da criança que todos um dia fomos.
O homem é o garoto impiedosamente obrigado a assumir o desencanto de amadurecer. A batalha inglória entre ambos pela supremacia de um ou outro estado é percebida no semblante melancólico descortinado de quando em quando. Perceptível se torna o conflito no olhar perdido buscando horizontes inexistentes, no ar cansado e aflito que se deixa abater em meio à luta. O adulto vence e mata a criança existente em sua alma, deixando-se levar pela furiosa onda do tempo, dos cabelos prateados, da calvície, da pele flácida, da falta de massa muscular, de amor. Porque o amor infantil é sublime, mas sucumbe à idade que chega; o que brota nos maduros quase sempre tem um quê de egoísmo e oscila entre o ser e o ter. Sentimento de posse, ânsia de ser dono, anelo de possuir sob amarras e pressões. Perecem o menino sorridente ainda moribundo na mente ocupada por afazeres adultos e o senhor sorumbático atabalhoado entre inúmeras decisões que a vida e o tempo impõem.
É possível a alguém ser homem-criança e no mesmo esboço humano continuar monitorando as rédeas da responsabilidade que lhe chegaram às mãos independente de sua vontade? Sim, em termos. Dispor de horas para brincar com os filhos caso os tenha, dar-lhes a devida atenção quando pedirem, acompanhar a evolução escolar passo a passo, proporcionar-lhes uma educação baseada nos mais nobres princípios e deixar que o espírito de um instante lúdico e coloque no mesmo nível de entendimento e desprendimento infantis. Agir feito criança nem sempre é sinônimo de irresponsabilidade, quiçá o seja de bom senso quando o momento requer. Que permaneça no âmago de cada um pouco da criança que todos um dia fomos.
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