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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

NEVOEIRO EM GRAMADO RS



No nosso penúltimo dia em Gramado um espesso nevoeiro cobriu a cidade e esse acontecimento nos deslumbrou sobremaneira. Já desfrutáramos outrora momentos semelhantes e de igual encanto em outras ocasiões, mas naquele dia a névoa era como um imenso floco de algodão denso enfaixando a cidade num sereno abraço de amor. Lembrava, também, de tão forte, a volúpia da violenta fumaça subindo das queimadas criminosas devastadoras de nossas florestas. Mas só por instantes, naquele interlúdio não tinha espaço para melancolia. Eu e Ana Estávamos extasiados e mais ainda ficamos, alegres feito crianças descobrindo o invulgar, sorrindo parecendo tocados pelo vírus da alegria contagiante que rapidamente se espalha em fragmentos poderosos. Nós nos abraçávamos incontidos, à guisa de impulsionados por algo inexplicável. Talvez para desabafar a felicidade sufocada no peito, quiçá no intuito de captar esse embevecer momentâneo e prendê-lo n'alma a sete chaves. Passeando e usufruindo as últimas horas na Serra Gaúcha, certamente queríamos fotografar com os olhos e gravar na retina cada toque místico a dali emanar, cada súbito relance de impecável beleza distinguida e inesquecível.

A ansiedade e a emoção aceleravam as batidas felizes do coração e nos deixávamos seguir, assim, espontâneamente de mãos dadas, quase sem rumo, dois perdidos numa tarde de nevoeiro ímpar se encontrando sob frio intenso, a visão um tanto turvada pela densidade daquele fenômeno maravilhoso e impossível no Nordeste. Mas o riso constante e evidente no rosto corado pela emoção.Conseguíamos enxergar apenas uns reles metros à nossa frente, e nessa desmesurada e atraente incógnita é que estava, também, outro entre os tantos encantos proporcionados pelo altruísmo da natureza e seu bafejo branco-acinzentado cobrindo tudo. Proporcionando tal indizível espetáculo, ela mexia com nossa sensibilidade e nos tocava a alma de maneira serenamente delicada.


E tudo aquilo pareceu-me metafísico, meio que imiscuindo-se pelo sobrenatural. Numa alegoria, vamos agora ser bem ser criativos, inconcebível dir-se-ia que anjos brincavam de jogar fragmentos de neve uns nos outros e eles se iam dissipando em suave névoa caindo sobre nós, deixando gotículas imperceptíveis e umedecentes sobre os cabelos.Andávamos cautelosos por entre os densos blocos indolentes de névoa etérea e fumaçante vendo as pessoas sorrindo aparentemente sem razão nenhuma, mas eu percebia que era o estado de espírito do tempo o responsável pelo bom humor estampado em cada face. O gostoso clima parecia abrir os corações e libertar as almas da prisão corpórea. Por breve instante observei três senhores já idosos proseando sorridentes num banco da praça, todos gesticulando com os braços, as pernas cruzadas, os olhos brilhando, como se partícipes de outra dimensão. Fui surpreendido pela terna serenidade de cada um deles.

Na sequência de fotos para registrar e tornar perene tão precioso momento fizemos poses, abraçamos o nevoeiro que nos escapava por entre os dedos, corríamos embalados e sapecas à guisa de travessos garotos fugindo dos carros como se eles fossem monstros de imensos olhos amarelos e fomos abordados por outros turistas para fotografá-los e por eles sermos também retratados, parceria que resultou em inesquecíveis retratos a serem conservados para a posteridade.A tarde desse dia, no entanto, dava a impressão de não desejar prosseguir,como se o tempo subitamente tivesse congelado por causa do frio trazido pelo ímpeto do nevoeiro. Talvez a magia emanando em derredor ante tamanha demonstração de poder da natureza deixasse transparecer no ar gelado e orvalhante um lindo toque de fantasia a envolver-nos. Ou devaneios, por certo. Uma mescla inconsequente de tudo isso decerto, pois os mistérios ainda são tantos quando somos dominados por essa aura de emoção acalentadora que por inúmeras vezes nos leva a embrenhar-nos em quimeras fantásticas, a tresvarios até. Porque as emoções nos controlam bem sabemos e por elas nos deixamos levar, poeira arrancada do chão ao sabor da ventania.


Jantamos no La Caceria, restaurante da Avenida Borges de Medeiros especializado em caças nobres, nos deleitando com um delicioso e sublime faisão regado ao vinho. Quando voltamos para o hotel já a noite, nervosa e agarrada ao novoeiro, ia altaneira enveredando pelas horas e nos engolia abrupta nas suas sombras e luzes e nos presenteava com uma temperatura beirando os - brr! - dois graus. E despencando paulatinamente. Devidamente paramentadas, as pessoas circunstantes, agora cabisbaixas, rondavam pelos fundues e restaurantes em busca de aconchego e tepidez porque, sendo criança, a noite ainda tinha muito a oferecer.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

SAUDEMOS A PRIMA, VERA CHEGOU!



Que momento enternecedor, sorriam e respirem fundo, porque Vera, a prima, chegou! Isso mesmo, a prima Vera que só dá o belo ar de sua graça a partir do dia 22 de setembro, ano após ano e muda e agita o tempo e todas as formas de vida com sua maravilhosa paisagem, embelezando a natureza e trazendo consigo um grande arsenal de pétalas que encherão jardins e praças com tapetes multicoloridos.
Uau, que linda, que radiante e esplendorosa! Olha quão vaidosa se mostra, quão faceira surge e se exibe! Vejam como ela já vem toda coberta de inúmeras flores de diversos matizes, de um verde exuberante, de bastantes folhas vistosas e estonteante perfume.Esperada ansiosamente pelos românticos e enamorados, a primaVera jamais falha quando, finalmente, chega seu tempo de vir, não se fazendo de rogada em momento algum e permitindo ser acariciada até mesmo impudicamente pela brisa lânguida a pespegar-lhe ardentes beijos de boas vindas.
Também ao sol abre-se fulgurante, toda entregue, toda dada, toda lépida e bela.Saudemos a prima de nome Vera, vamos abraçá-la e para ela bater palmas ruidosas aplaudindo-a com fervor. Cada um a cumprimente com um sorriso sublime, elástico e sincero e grite, e alto e bom som, o quanto ela é bem vinda, amada e querida.

domingo, 21 de setembro de 2008

NOVA PETRÓPOLIS RS


Pense calmamente numa encantadora casinha de boneca européia toda arrumada como manda o figurino, limpa e encantadora, os seus moradores muito bem vestidos e sorridentes e os compartimentos da linda residência feitos com o esmero do artista compenetrado. Acrescente a tudo isso um gostoso clima frio sufocado por casacos de couro, sobretudos de lã, botas que torneam as pernas das mulheres e cachecóis charmosos envolvendo pescoços e colos, chimarrão, graça e suntuosidade. Assim é, mais ou menos, a maravilhosa cidade de Nova Petrópolis, situada nas Serras Gaúchas. Ao caminhar por suas ruas e deparar com a arquitetura estilo alemão e encontrar os neopetrolenses a caminho das atividades cotidianas temos a impressão de que não estamos mais no Brasil. O sotaque característico, os termos regionais, o porte elegante e o amor às tradições gaúchas dão o toque final de refinamento a esse povo acolhedor e sorridente.


Como nos demais municípios que fazem o conjunto de cidades das serras do sul, lá também vemos o zelo com que tratam as ruas, a limpeza, os canteiros com plantas variadas, as roseiras, tudo com muito bom gosto. Nas lojas do centro, todas que visitei, percebe-se o luxo, a primazia na decoração do ambiente, o ótimo atendimento e o cuidado de encantar o cliente com aquele charme do comércio variado. Pode ser até que tenha, mas confesso que não avistei nenhum pedinte em Nova Petrópolis, ninguém mal vestido e nada que denotasse qualquer resquício de violência ou receio de que alguém pudesse ser assaltado ao caminhar por suas ruas e vielas bem tratadas. Entramos em cafeterias, restaurantes, supermercados e só vimos muita gente circulando por esses locais com a maior tranquilidade, sem demonstrar qualquer receio, sorriso nos lábios, bolsas a tiracolo, tudo como sói acontecer nas plagas onde a educação predomina e há civilidade.


Quando o novoeiro desceu subitamente sobre Nova Petrópolis parecia um manto cinzento amavelmente colocado sobre o dorso de alguém. As luzes dos carros foram acesas, os semáforos funcionando normalmente, os motoristas respeitando os pedestres que pisavam na sua faixa, parando seu veículo tão-logo os avistavam colocando ali seus pés. E novamente me veio aquela sensação de estar passeando por ruas e avenidas estrangeiras, mormente da Europa, sob um desmesurado frio contido pelo sobretudo de couro secundado por cachecol e grossas luvas.


O regresso para Gramado via Rota Romântica, por onde já viéramos e cujas paisagens deslumbrantes tornam românticos até mesmo os mais circunspectos dos homens, completou sobremaneira o clima quimérico desse passeio inesquecível à bela Nova Petrópolis, que me lembra, como dito acima, uma casinha de boneca pela qual seus moradores têm um zelo extraordinário e inigualável carinho. Zelo a ser imitado, carinho que se deve ter pela terra onde vivemos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

NAMORANDO O CÉU

(Foto do pôr-do-sol em Cachoeirinhas RS - Gilbamar de Oliveira )


Cada por do sol é único e especial, nenhum é igual ao outro, sobretudo porque todos têm sua própria digital romântica, uma assinatura inédita e impossível de copiar. Namorando os entardeceres, dominado pelo mágico e preciso instante em que o céu se transforma numa incomensurável aquarela e um genial pintor invisível, porém presente e talentoso além do imaginado por nossa vã filosofia, separa as inúmeras tintas, misturando-as para encontrar a tonalidade mais linda, vou assistindo ao ritual do astro-rei se recolhendo aos seus aposentos abaixo da linha do horizonte, esplendoroso em sua magnitude real. E, à medida que ele suavemente se despe do ocaso vagaroso e belo, retirando peça por peça com o mesmo ar faceiro e brejeiro de uma stripper, ruborizado porque visto por milhares de sonhadores como eu, as cores do seu espaço vão se multiplicando, parecendo que ele está se redesenhando, talvez passando demaquiante para retirar as impurezas do dia, debruadas as tintas de maneira harmônica a formar um esplêndido conjunto onde o colorido adquire aquele aspecto misterioso e sui-gêneris que nos dá a sensação absoluta de não ser labor natural, senão divino. Eu coleciono pores-do-sol da mesma maneira que um garotinho tem a sua coleção de figurinhas ou de carrinhos de brinquedo. E sou tão cuidadoso quanto ele, quiçá vou muito além do zelo quando se trata de pô-los em ordem nos pensamentos. É que os guardo num insondável arquivo reservado do meu coração, recanto a que somente eu tenho acesso, um lugar bem na ala subjacente à das emoções e destinado aos arquivos onde repousam os meus sonhos, ilusões e devaneios. Nesse santuário íntimo é onde me reencontro e descubro as entranhas mais profundas do meu eu. Ali, junto à intimidade dos meus guardados, coisas só minhas, usufruo do prazer de me buscar e fazer companhia ao meu ego. Já aqueles pores-do-sol escondidos são minuciosamente catalogados nesse recôndito, onde permanecem organizados e à minha disposição quando a estação invernosa chega, oportunidade em que, então, posso admirá-los um a um embora o dia esteja nublado.
Conheço de cor as cores e os traços que os definem, e, por vezes, nos estertores da madrugada, ao nascimento de um novo alvorecer, ao invés do sol que chega recordo os que se puseram e fizeram do céu uma extraordinária festa de coloridos indizíveis e fogos de artifícios silenciosos. É evidente ser inegável, óbvio, por outro lado, a beleza existente no fluir dos raios solares no amanhecer renovado, momento em que o infinito também se mostra quase tão lindo e vale a pena acordar cedo para ver o quebrar da manha. Isso, contudo, é apenas quase tão aprazível quanto o cair da noite, pois a beleza do por do sol não pode ser comparada nem dividida, sua existência é ímpar. Daí esse meu teimoso aconchego extremado com tal intervalo especial do tempo e do encanto, da luz e da escuridão, do dia terminal e da noite recém nascida, da beleza perfeita com a mera beleza simples, do viver ralo com o estar vivo e esbanjando felicidade. Sem comparações, porquanto as peças desse astronômico universo, mesmo a mais ínfima e comum, são importantes na mesma proporção, na mesma equidade.
O complexo corpo universal necessita de unidade, de estar em uníssono com o seu todo sem prescindir nem do desprezível fio de cabelo caído em algum lugar esquecido. Há uma cadeia ecológica a ser preservada. E inserido nesse contexto beirando o metafísico encontra-se o por do sol, alvo das minhas emoções à flor da pele, dos meus súplices olhares necessitados de beleza.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O COMPUTADOR, MEU INIMIGO!

O PC emite um irritante ruído intermitente parecendo uma furadeira brocando meu cérebro. Tento esquecer o barulho deixando meus olhos alçar vôo pelas milhões de estrelas delicadamente espalhadas na abóbada celeste e me envolvo com seu brilho fulgurante. Invejosa, a lua, embora minguante, se redobra em salamaleques amarelados com seus raios ínfimos para chamar a atenção dos românticos. Não lhe dou muita atenção, somente o suficiente para bocejar indiferente ao seu quase desencanto nessa noite avançando pela madrugada. As estrelas são maioria e despertam minha sensibilidade. Ademais, o zumbido angustiante do PC tirou-me do sério e nem a complexidade da Via Láctea com suas ursas maiores e menores e outras travessuras por seus astros me dão qualquer ânimo.
Já a cidade adormeceu entregue toda lânguida ao seu cansaço, debruçando-se sobre os aconchegantes braços de Morfeu e imiscuindo-se pelas brumas insondáveis da escuridão do sono. Tenho a impressão de que apenas eu estou acordado nesta noite cujo silêncio só é interrompido pelo som aborrecido do meu computador. Vislumbro uma página de livro e me entedio, recorro à revista semanal recém chegada folheando-a sem nenhum critério mas logo a jogo sobre a cadeira ao lado, depois torno a voltar minha atenção à morbidez da tela branca esperando a crônica que eu tencionava escrever. E o meu coração por muito pouco não se arrebenta enraivecido quando o bradar incansável do micro acompanha o ritmo de suas batidas. Ainda levanto o punho decidido a esmurrar o monstro cibernético barulhento, balanço o braço tenso, chego a sentir a cabeça latejando e, no último instante, buscando ser racional, seguro a força do ímpeto furioso a milímetros do alvo.
As fronteiras das horas foram cruzadas, o tempo não deu a menor bola para minha angústia informatizada. Uma pecinha de nada certamente, um treco qualquer, quiçá um nano botão vem causando todo esse transtorno, e quem me disse isso outro dia, pelo telefone, foi um expert no assunto. Eu precisaria levar o micro até sua loja a fim de resolver definitivamente o problema. Algo bem simples, ele garantiu. Umas coisas e outras vão me fazendo adiar a resolução desse impasse. Então fico assim confuso, absorto diante do brilho do terminal limpo, sem palavras e esperando por elas na maior calma. Frases que não digitei se perderam no núcleo do som absurdo reinando no espaço calado do meu escritório.
Desisto de vez de elaborar a crônica, leio algum texto interessante, namoro as estrelas, repudio a lua, fico a ver cá de cima do meu apartamento a modorra das ruas adormecidas ou, como os demais mortais fazem às tantas da madrugada, convoco Morfeu para a suavidade do repouso?
Deixo aos leitores a decisão mais acertada porque já não estou em condições de decidir nadinha de nada tão embotada ficou minha mente com o danado do ruído zombeteiro do meu computador.

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 7

Estava escrito no pórtico da cidade: "BEM VINDO AO 36º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO" Após 17 horas entre vôo cancelado, descanso provisório na espelunca chamada hotel, inserção em outro vôo, longa espera nos saguões e nas salas de embarque, percurso de avião, conexão, novo percurso aéreo, chegada a Porto Alegre e, enfim, o trajeto no microônibus, uau!, eis que lográvamos chegar ao nosso destino. O ocaso já se achegava para cobrir o dia com o véu da noite, porém o sol ainda insistia em realçar seu brilho no alto da serras e imiscuir-se por entre as folhas e os galhos do arvoredo ladeando a estrada-tapete-negro, e me era dado apreciar o lindo entardecer amortecendo e se debatendo em seus últimos minutos. Essa batalha pela sobrevivência da claridade contra a vinda implacável da sombra noturna proporcionava o belíssimo espetáculo do pôr-do-sol se deixando ver em toda plenitude. Morrendo no Ocidente ao sabor de nosso deleite, nascia no Oriente para mais um amanhecer.
E Ali finalmente estávamos nós assistindo a essa mutação de encantar almas e corações, agora adentrando mais uma vez as plagas gramadenses, tão ansiosos como na primeira vez, desta feita para ver de perto, repito, in loco(gosto dessas palavras em latim!), os acontecimentos marcantes e inesquecíveis do Festival de Cinema. E revelou-se-me impossível não ser vencido pelo doce tilintar emocional das lembranças de minha adolescência, quando lia entusiasmado a respeito das estrelas do cinema e da tv reunidas e desfilando pelas ruas e restaurantes da cidade nos festivais de cinema dos primórdios. Pensando como seria tudo aquilo, esse glamour, esse desfile de beleza e talento, a pequena cidade do Sul tornando-se a capital do cinema, o centro das atenções cinematográficas. Eu poderia um dia estar em gramado vendo toda essa festa, talvez? Meus sonhos envolveram-se com essa idéia acalentando o anelo de concretizá-la. À época a imaginação devaneava sobre como seria tal movimentação e suas manifestações nesse período. Eu não sabia que os grandes sonhos nos acompanham a vida inteira até que alguns se tornem realidade.Tudo em Gramado se revelava orgulhosamente lindo com a fantástica decoração temática do cinema.
À entrada da cidade, que respirava o maravilhoso ar da fantasia tão presente na sétima arte, já se viam os vários motivos representativos do evento. Kikitos, as estatuetas que são o símbolo do festival, pululavam espalhados nos quatro cantos de ruas e avenidas secundando desenhos de rolos de filmes estrategicamente colocados em cada esquina e praça.Percebi palpáveis os sorrisos estampados nos rostos de quantos íamos encontrando a caminho do hotel. Ao passarmos rapidamente, ao longe, pela Borges de Medeiros, palco do ápice da festa, avistamos grande fluxo de pessoas circulando com seus casacos, gorros e sobretudos, dando um grandioso toque de refinada elegância. De outra maneira não poderia ser, afinal faltavam poucas horas para a abertura do festival. Eu não conseguia segurar o deslumbre do meu coração, minha esposa apertava-me a mão emocionada e sorríamos como a petizada numa festa de aniversário. Nem parecia que aquela era nossa terceira viagem a Gramado.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 6

Eu e Ana a bordo do avião rumo a Porto Alegre, partindo de Brasília


Passava das quatro horas da tarde quando saímos de Porto Alegre com destino a Gramado. Objetivando apreciar a paisagem sempre muito linda das serras e as pequenas cidades por onde passaríamos, eu e Ana nos acomodamos nas cadeiras da frente com o motorista. Uma senhora já bastante andada em anos arrevesou o sobrolho na nossa direção porque também pretendia fazer o trajeto no mesmo lugar onde estávamos, enfurecendo-se por não encontrar o espaço devidamente à sua espera. Talvez achasse que tinha mais direito a isso que qualquer outro e ninguém poderia se interpor entre seus desejos e a consecução imediata deles. Não que ela tivesse alardeado tal assertiva, nada disso, mas ficou indubitavelmente perceptível em seu semblante toda essa emoção a ponto de o ar tornar-se rarefeito com seu olhar atravessado. Rimos dela feito meninos sapecas culpados por pregarem em alguém, às escondidas, alguma singela peça inconseqüente.E lá fomos nós, então, pelas ruas de Porto Alegre descortinando novas paragens e outras já velhas conhecidas de tantas oportunidades mais em tempos idos pisando aquele solo gaúcho. A tarde exibia o sol ardente refletindo em nossas pupilas e obrigando-nos a usar óculos escuros, e o céu límpido, sem nuvens, desenhava o espaço de índigo como um mar suspenso na Via Láctea. Algumas cidades ficavam para trás à nossa passagem, pequenas localidades cujos nomes não guardei tamanha a vontade de por logo os pés nas artérias limpas de Gramado. Meu coração disparava de tanta expectativa e inusitada agitação sonhadora. Eis que novamente voltávamos à região onde a natureza fora bem mais benevolente que no meu sofrido Nordeste escaldante das caatingas tristes, do clima torturante, das secas provocadoras de desgraças e abandonos. No Sul a maravilha, o encanto, as chuvas em abundância, as plantas verdinhas e viçosas; no Nordeste a terra ressecada, as chuvinhas de verão em doses homeopáticas e pobrezinhas, a flora queimada pela inclemência dos raios solares. Diferenças acentuadas pela indiferença dos políticos com um solo tão rico de petróleo e capaz de produzir frutas tropicais para abastecer o mundo todo, entre outras inúmeras riquezas, como o Nordeste. Onde não existe falta d'agua porque seu subsolo é um oceano a ser perfurado, mas descaso, simplesmente isso. Dá gosto dirigir pelas estradas que levam a Gramado. Atapetadas como veludo, sem buracos, bem sinalizadas, esse inolvidável primor próprio dos que amam a terra em que vivem. E por elas vamos deslizando sem encontrar nem mesmo o menor, o mais ínfimo pedacinho de pedra no caminho, tudo se mostrando lisinho, plano e bem cuidado. Um espetáculo do bem público administrado ao toque de carinho e dedicação. Embora sonolento devido a noite mal dormida no hotel mal cuidado e ainda naquele momento prosseguindo a viagem cheio de cansaço, o brilho do sol cuidando para intensificar o desejo de fechar os olhos e cochilar, não pude deixar de reparar esse expressivo zelo com as rodovias do Rio Grande do Sul, pelo menos por onde circulei. Grande exemplo a ser conhecido e seguido Brasil afora.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 5

Tornou-se praxe, aliás nada agradável, os passageiros se levantarem de suas cadeiras muito antes de o avião encontrar-se completamente estacionado na pista. É um verdadeiro corre-corre seguido de ávido empurra-empurra, cotoveladas e nítidas demonstrações de atitudes nada civilizadas. Para dar uma pequena idéia ilustrativa dessa situação ocorre-me algo assim como um bando de ovelhas presas no curral que, desesperadas para se livrar daquela prisão apertada, se espremem umas contra as outras e vão passando por cima de quem estiver à frente para chagar ao objetivo colimado. É algo semelhante, guardadas as devidas proporções. Se bem os passageiros escutem a comissária alertando para permanecerem sentados enquanto o avião taxia na pista, que nada! Num salto a turba apressada forma aquela caótica fila aguardando a abertura da porta do avião, a maioria retirando suas bagagens de mão e se desencontrando com braços e pernas sem o mais leve resquício de educação. São poucos os que permanecem sentados esperando sua vez de sair, deixando os desvairados se desembestar porta afora. Tem sido sempre assim em todas as minhas viagens, invariavelmente. Quem precisa fazer conexão e não for do bando dos trogloditas pode até perder seu próximo vôo. E não pensem que me refiro a qualquer um quando menciono esses descontrolados impacientes. Não! São, na sua maioria, cavalheiros(?) e damas(?) muito bem vestidos, aqueles enfatiotados e estas, na última moda e de aparência, por vezes, até aristocrática. Bom, não há muito o que fazer a respeito a não ser eternizá-los nesta crônica.Uma balbúrdia inesperada nos recepcionou no aeroporto de Porto Alegre. Diversas pessoas gritavam agitando bandeirinhas e chamando por pessoas que me eram desconhecidas, rostos em êxtase, alguns lacrimejantes, sorrisos, euforia. Olhei para Ana, cuja surprêsa estampada no rosto também denotava seu desconhecimento sobre a razão de tanto barulho, e fiz um muxoxo de indiferença. Foi já próximo à esteira de bagagens que entendemos tudo. Tratava-se de torcedores do time gaúcho que viajava conosco. Ih, foi um Deus-nos-acuda! Os jogadores corriam na direção dos torcedores e eram recebidos com apupos e manifestações variadas. Flashs espocavam, garotas histéricas se esganiçavam bradando o nome desse ou daquele esportista e a meninada enganchada no pescoço dos pais estirava folhas de papel e caneta pedindo autógrafos. Ainda pude ver, à distância, o provável treinador todo sorridente sob as luzes dos holofotes e a proximidade dos microfones seguros por repórteres e jornalistas.Ao recebermos nossa bagagem notamos pequena avaria numa delas e fomos protocolar na companhia aérea a reclamação óbvia.O funcionário fez as perguntas usuais, olhou a bagagem onde se verificou o problema e registrou o caso num documento, entregando-me cópia. Nesse exato momento, para nossa alegria, uma jovem veio até nós segurando uma placa com o meu nome. Graças a Deus! Os esforços das funcionárias da T... em Natal para destravar o impasse do traslado haviam obtido sucesso. A jovem sorriu toda dentes brancos saudáveis e nos entregou brindes contendo vinhos e queijos da região. O transporte para nos conduzir até Gramado - hora e meia de viagem - nos esperava juntamente com outros passageiros. Lá fora, prestes a nos acomodar no microônibus, ainda vimos a galera zoando e festejando com os jogadores do time gaúcho.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 4

Porto Alegre do alto, quando estávamos prestes a pousar em seu aeroporto(Foto de Gilbamar)


Um cara grandalhão, o aspecto de gigante que esqueceu de parar de crescer, se abancara na primeira poltrona ao lado das nossas. Pedimos licença, ele levantou e, de tão alta estatura, quase bateu a cabeça no teto do avião. Fiquei na cadeira do meio, à direita a ternura de minha esposa, à esquerda o homenzarrão a tomar-me os espaços das pernas e dos braços e forçando-me a permanecer encolhido a viagem toda. Soube depois, no momento do pouso, tratar-se do treinador do de um time de futebol de Porto Alegre. Os jogadores e demais membros da trupe estavam espalhados ao longo das poltronas misturadas, entre eles e em meio ao outros passageiros. De vez em quando o cara se voltava para um deles sentado do outro do corredor e conversavam aos risos extravasados. Lá pelas tantas ele adormeceu e se espalhou todo. Imagine alguém com provavelmente dois metros de altura sendo obrigado a dormir sentado sem ter onde distribuir a arrogância do seu tamanho descomunal e ainda procurar não incomodar quem é levado pelas circunstâncias a sentar-se na cadeira colada à dele. Depois pense no nano homem nas asas desse instante e pasme! Pus um travesseiro entre mim e ele, para divisar território, e debrucei-me sobre minha direita aconchegando-me ao abraço da minha esposa. Não foi novidade a aeromoça passar pelo corredor, toda serelepe, distribuindo balinhas numa cumbuca, atenta a quantas cada um colhia na sua vez. Um tempo adiante, sanduíche frio, suco de laranja com gosto de remédio e refrigerantes. Serviço de bordo, alegam. Tais serviços foram bem melhores e mais decentes outrora, então jantar tinha gosto, aspecto e jeito de jantar. De igual modo almoço e café da manhã nos trajetos antes do amanhecer. Boas recordações de bons tempos que, é duro reconhecer, jamais retornarão certamente.O tédio prosseguiu no ar ao som nada melodioso das turbinas roncando sonoras bem ao pé das nossas orelhas. Além disso, súbito e inesperado, o espirro estrondoso do camarada à esquerda estourou no precípuo momento em que eu recebia da jovem aeromoça um copo com água. Fitei os olhos de Ana, decaindo os meus. Desisti de saciar a sede. Quanto tormento! Seria ótimo se os aviões voassem à velocidade da luz, assim não ficaríamos confinados longas horas feito sardinhas com tantos universos mentais e comportamentais difusos e multifacetados. De quebra, num rápido segundo estaríamos aterrissando em nosso destino, ilesos e felizes. Suspirei aliviado ao ouvir o comandante anunciar que em pouco pousaríamos no Aeroporto Internacional Salgado Filho, de Porto Alegre. Ufa, nosso passeio, por fim, prenunciava a possibilidade de estar prestes a ser iniciado. Ah!, e somente eu e minha esposa, longe das multidões, dos cigarros e das turbinas barulhentas

terça-feira, 2 de setembro de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - III

O ruidoso grupo comandado por diversos monitores de empresas de turismo, que formava aquela sinuosa fila amontoada de malas, pacotes e bugingangas, certamente havia decolado na trilha dos seus respectivos destinos quando regressamos ao aeroporto. Como nossa bagagem já tinha sido despachada após o chek in, restando somente saber se haviam resolvido o impasse do traslado de Porto Alegre até Gramado, dirigi-me ao galpão da T... Informaram-me que desde o momento em que fomos para o hotel eles tentavam se comunicar, sempre em vão, com a responsável pelo traslado, por conseguinte isso ainda não estava definido. Continuariam objetivando equacionar o entrave, disseram, nós fôssemos para o Rio Grande do Sul e até chegarmos lá, provavelmente, tudo se resolveria a contento enquanto isso. "Dará tudo certo, não se preocupe", garantiu-me a solícita gerente de plantão. Que remédio!Quando o avião finalmente decolou o alvorecer enchia o horizonte de cores fracas pinceladas por invisíveis mãos ainda preguiçosas. Nossa primeira escala seria em Brasília. Graças a Deus alcançamos o céu em poucos segundos e logo deslizávamos pelas nuvens serenamente, cortando seus flocos algodoados com respingos de gotículas do sol já despertando aos bocejos paulatinos. Colocamos fone de ouvido para ouvir algum dos canais de música à disposição, abrimos a revista de bordo e nos deixamos levar pela impensável leveza da mastodonte aeronave voando como um imenso pássaro prateado assustando o amanhecer. Socorro!, nós nos encontrávamos a mais de onze mil metros de altura e a uma velocidade de mil e cem quilômetros por hora. O comandante deu-nos as boas vindas, fêz gracinhas com a temperatura em Brasília, nosso primeiro destino, depois os mini terminais de tv acoplados ao teto do avião se deslocaram ficando em posição vertical e começou a velha e conhecida baboseira de explicar-nos o uso das máscara de oxigênio e exibir-nos as portas de emergência, o saco de sempre. Afundei na poltrona.O aeroporto de Brasília fervilhava, e o pior é que os vôos por lá também estavam atrasados. Estudantes, jogadores de diversas modalidades esportivas, políticas, gente usando paletó e calça jeans, rindo, lendo, conversando, insatisfeita, enfim, aquele humanológico característico desses locais onde se aglomeram centenas de pessoas buscando seus rumos. Ninguém sabia a que horas nosso vôo para Porto Alegre iria se concretizar. Perambulamos pelas imediações, anotamos fatos engraçados e/ou interessantes, conversamos, fizemos planos, devaneamos e tornamos a passear vendo os ônibus levando e trazendo passageiros que iam e vinham. E lá estava ele novamente! Quem? O furioso gaúcho, claro, aquele que embarcou conosco indo também para a capital do Sul. Ainda tentamos nos esconder dele, mas não adiantou, fomos vistos. Carrancudo como antes no aeroporto de Natal, brandindo seu cartão de embarque furiosamente, já veio ao nosso encontro explodindo frases de descompostura contra o caos aéreo, as companhias de aviação e seus responsáveis, sem nos dar chance de responder ou dizer algo. Quando ele virou o rosto e apontou para os diversos portões de embarque falando qualquer coisa sobre desinformação nós aproveitamos para desaparecer de sua presença, rindo da cara dele e de nosso comportamento levado.Mas os minutos se foram, formaram horas e nada. Quanto mais ônibus saíam do salão de embarque lotados na direção da pista onde se encontravam os aviões mais gente ia chegando e abarrotando o espaço. Por mais três vezes o gaúcho nos avistou e fez menção de se aproximar, mas dávamos sempre um jeito de escapar dele feito crianças brincando de esconde-esconde. E nesse comportamento lúdico percebíamos que muitos circunstantes até dormitavam pelos cantos enquanto lentamente o tempo andava. Difícil dizer as razões de tanto atraso. Seria porque havia passageiros demais ou aviões de menos? Por fim, anunciaram nosso vôo e saímos correndo juntamente com uma multidão até o portão de acesso ao transporte coletivo. Conseguimos dois lugares a duras penas após enfrentar uma fila horrorosa e os caras-de-pau dando jeitinhos para furá-la. Estacionamos ao lado do avião, todos descendo apressados para embarcar o mais rápido possível sob um sol escaldante ladeado de ralas nuvens esboroantes.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 3

O ruidoso grupo comandado por diversos monitores de empresas de turismo, que formava aquela sinuosa fila amontoada de malas, pacotes e bugingangas, certamente havia decolado na trilha dos seus respectivos destinos quando regressamos ao aeroporto. Como nossa bagagem já tinha sido despachada após o chek in, restando somente saber se haviam resolvido o impasse do traslado de Porto Alegre até Gramado, dirigi-me ao galpão da T... Informaram-me que desde o momento em que fomos para o hotel eles tentavam se comunicar, sempre em vão, com a responsável pelo traslado, por conseguinte isso ainda não estava definido. Continuariam objetivando equacionar o entrave, disseram, nós fôssemos para o Rio Grande do Sul e até chegarmos lá, provavelmente, tudo se resolveria a contento enquanto isso. "Dará tudo certo, não se preocupe", garantiu-me a solícita gerente de plantão. Que remédio!Quando o avião finalmente decolou o alvorecer enchia o horizonte de cores fracas pinceladas por invisíveis mãos ainda preguiçosas. Nossa primeira escala seria em Brasília. Graças a Deus alcançamos o céu em poucos segundos e logo deslizávamos pelas nuvens serenamente, cortando seus flocos algodoados com respingos de gotículas do sol já despertando aos bocejos paulatinos. Colocamos fone de ouvido para ouvir algum dos canais de música à disposição, abrimos a revista de bordo e nos deixamos levar pela impensável leveza da mastodonte aeronave voando como um imenso pássaro prateado assustando o amanhecer. Socorro!, nós nos encontrávamos a mais de onze mil metros de altura e a uma velocidade de mil e cem quilômetros por hora.
O comandante deu-nos as boas vindas, fêz gracinhas com a temperatura em Brasília, nosso primeiro destino, depois os mini terminais de tv acoplados ao teto do avião se deslocaram ficando em posição vertical e começou a velha e conhecida baboseira de explicar-nos o uso das máscara de oxigênio e exibir-nos as portas de emergência, o saco de sempre. Afundei na poltrona.O aeroporto de Brasília fervilhava, e o pior é que os vôos por lá também estavam atrasados. Estudantes, jogadores de diversas modalidades esportivas, políticas, gente usando paletó e calça jeans, rindo, lendo, conversando, insatisfeita, enfim, aquele humanológico característico desses locais onde se aglomeram centenas de pessoas buscando seus rumos. Ninguém sabia a que horas nosso vôo para Porto Alegre iria se concretizar. Perambulamos pelas imediações, anotamos fatos engraçados e/ou interessantes, conversamos, fizemos planos, devaneamos e tornamos a passear vendo os ônibus levando e trazendo passageiros que iam e vinham. E lá estava ele novamente! Quem? O furioso gaúcho, claro, aquele que embarcou conosco indo também para a capital do Sul. Ainda tentamos nos esconder dele, mas não adiantou, fomos vistos. Carrancudo como antes no aeroporto de Natal, brandindo seu cartão de embarque furiosamente, já veio ao nosso encontro explodindo frases de descompostura contra o caos aéreo, as companhias de aviação e seus responsáveis, sem nos dar chance de responder ou dizer algo. Quando ele virou o rosto e apontou para os diversos portões de embarque falando qualquer coisa sobre desinformação nós aproveitamos para desaparecer de sua presença, rindo da cara dele e de nosso comportamento levado.Mas os minutos se foram, formaram horas e nada. Quanto mais ônibus saíam do salão de embarque lotados na direção da pista onde se encontravam os aviões mais gente ia chegando e abarrotando o espaço. Por mais três vezes o gaúcho nos avistou e fez menção de se aproximar, mas dávamos sempre um jeito de escapar dele feito crianças brincando de esconde-esconde. E nesse comportamento lúdico percebíamos que muitos circunstantes até dormitavam pelos cantos enquanto lentamente o tempo andava. Difícil dizer as razões de tanto atraso. Seria porque havia passageiros demais ou aviões de menos? Por fim, anunciaram nosso vôo e saímos correndo juntamente com uma multidão até o portão de acesso ao transporte coletivo. Conseguimos dois lugares a duras penas após enfrentar uma fila horrorosa e os caras-de-pau dando jeitinhos para furá-la. Estacionamos ao lado do avião, todos descendo apressados para embarcar o mais rápido possível sob um sol escaldante ladeado de ralas nuvens esboroantes.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 2

Tive impressão que a lua sorria de mim quando praticamente atravessamos a cidade sob o intenso silêncio da madrugada. A cidade dormia toda lânguida nos braços de Morfeu embalada pelos suaves respingos de chuva nos telhados das casas e nas lajes dos edifícios. Não havia nem gatos nem cachorros vadios fuçando as latas de lixo, a capital tornara-se um deserto noturno. O motorista do táxi acelerava sua máquina e atravessava os sinais vermelhos com indolência, mas parecia que quanto mais chão a velocidade engolia muito mais como que brotava repentinamente, alargando a distância. Chegar ao hotel foi algo assim como uma proeza meio desnecessária porque o tempo que gastamos para ir até lá reduziu bastante a oportunidade de permanência no apartamento. No entanto valeu a birra de fazer a companhia aérea também sofrer as consequências de simplesmente cancelar o vôo há tanto tempo programado sem dar qualquer explicação ao menos razoável nem demonstrar sensibilidade e bom senso com os seus clientes. Embora o hotel fosse de baixo nível e bem ao lado dele, em plena madrugada amadurecida, uma espelunca frequentada por notívagos desmiolados tocasse músicas estranhas, doidas mesmo, em alto e péssimo som, ainda assim senti-me recompensado por tomar a atitude de exigir respeito aos meus direitos de consumidor.O taxista nos deixou à porta do pretenso hotel e, meio sonolento, respondendo à minha pergunta sobre o horário em que ele chegaria para nos levar novamente ao aeroporto, afirmou que permaneceria nas proximidades aguardando o momento de nos apanhar porque não teria condições de fazer o percurso de ida e volta em tão pouco tempo. Iria tirar um cochilo, olha só! Por sua vez, o recepcionista olhou meio enviesado para a autorização, o cigarro em pandarecos pendendo dos lábios, entregou-nos a ficha de hóspede e esperou. Era só desconfiança minha ou ele deixava à tona um risinho meio maroto e sarcástico?Torno a bater na mesma e indefectível tecla: o apartamento descortinou-se para nós expelindo mofo e descaso, paredes manchadas, teto infiltrado, cama sabe lá Deus em que estado. Abrimos a janela para renovar o ar e fomos invadidos por uma enxurrada de sons esdrúxulos, algo assim como gatos brigando, cães enraivecidos, latas arranhando o asfalto, urros, choros e por aí vai, então rapidamente a fechamos. Mas tínhamos que escolher ou o mofo troçando de nossa alergia ou a aberração que desfigurava e emporcalhava as notas musicais. Optamos pelo meio termo. Às quatro horas em ponto lá estava o ranzinza do taxista à porta do hotel. Devolvi a chave do apartamento ao recepcionista irônico e olhei fixamente nos seus olhos enquanto dizia: "este hotel é cinco estrêlas..." Ele ficou sério, estupefato. E eu prossegui: "cinco estrelas negativas!" Meti o malho no estabelecimento, no atendimento, no apartamento relegado ao abandono ao tempo em que ele tartamudeava desculpas esfarrapadas e nós saíamos rumo ao aeroporto. Será que agora conseguiríamos, finalmente, embarcar ou teria havido um novo cancelamento do vôo?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

CRÔNICA DE UMA VIAGEM

Ansiedade, os preparativos, os cuidados para que tudo esteja à mão na hora da saída, a documentação já organizada junto às passagens, os últimos momentos antes da viagem, as despedidas que vêm com os abraços e o desejo de boa viagem entre lágrimas de saudade iniciada. E lá estava o carro para nos conduzir até o aeroporto, minha sogra toda alvoroçada com o frenesi do instante, a bagagem jogada de qualquer maneira no bagageiro, então partimos no meio da noite sob o luar sereno e as pálidas luzes dos postes que nos piscavam de ambos os lados. O ar frio da madrugada esvoaçava-me os cabelos e brincava com os meus olhos, e, ao meu lado, pegando na minha mão com a maciez da sua, minha esposa esboçava um lindo sorriso de alegria incontida. E me contagiou. Rimos de mãos dadas escutando o sussurro do vento e murmurando frases de entusiasmada euforia à medida que o carro vencia as ruas esburacadas pelas chuvas de verão e ganhava distância rasgando a noite.Como sempre, o pátio do aeroporto estava coalhado de veículos de todos os tipos como se fosse um bando de insetos mortos e petrificados ou paralisados por alguma arma letal. Brilhavam ao luar. Mas assustei-me sobremaneira com saguão logo à entrada, pois uma fila quase quilométrica fazia curvas na direção do guichê da companhia aérea que nos levaria novamente às Serras Gaúchas. Que seria aquilo? Por que tanta gente enfileirada parecendo bonecos-dominó? Parecia que todo mundo tinha resolvido viajar naquele horário, e eu tive o pressentimento de que não caberia tanta gente num só avião. Estariam indo para as olimpíadas? É que a maioria tinha aspecto de estrangeiro e o linguajar entre eles se mostrava uma algaravia incompreensível. Apressei-me na direção de um funcionário da T.. e perguntei a respeito. "Sobre o seu vôo por favor dirija-se àquele outro guichê", disse-me ele todo dândi. Fui quase correndo, lá deparando já com dois senhores a gesticular com as mãos e franzir a testa com ar de carranca. E antes que indagasse sobre qualquer assunto à jovem que os atendia toda enrolada um dos homens veio ao meu encontro e, estampando uma cara de poucos amigos, falou enraivecido: "Você é passageiro do vôo 3276?" Sim, respondi já com a pulga atrás da orelha. "Foi cancelado!""É verdade", disse a funcionária da T.., "seu embarque ocorrerá somente às quatro horas e quarenta e cinco minutos." Depois dessa afirmativa seguiram-se intermináveis minutos de negociações, telefonemas, discussões, caras feias, vozes alteradas, o raio que o parta! Ela tentava resolver, ao mesmo tempo, o problema de nós três. Eu, de Natal, um cientísta expert em física quântica, do México, e o baixinho entroncado com cara de poucos amigos de Porto Alegre, para onde iríamos e, daí, para Gramado. As angústias de cada um foram sendo resolvidas paulatinamente. O gaúcho primeiro. Ganhou vale-refeição para esperar a hora da viagem empanturrado e saiu não tão feliz da vida. Não demorou cinco minutos estava de volta ainda mais enfurecido quando o meu caso prosseguia via telefonemas para Porto Alegre a respeito de meu traslado. A lanchonete não aceitara a vale-refeição da T.. Novos desentendimentos e falatório, ele realmente "fulo" da vida. Eu lá, esperando minha vez. Minha esposa assistia a tudo expressando no rosto sua revolta diante de tanto descalabro aéreo. Por fim o gaúcho saiu em busca de outra lanchonete, e acredito que tenha logrado seu intento pois não voltou mais para reclamar. E o cientista? Calado, coitado, nunca vi tanta paciência. Tanto é que o meu problema ficou resolvido antes do dele, mesmo ele tendo chegado primeiro do que eu, e nem assim deixou escapar dos lábios o sorriso de compreensão. Houve um momento em que conversamos em espanhol, depois em inglês, sobre sua presença em Natal para participar de um congresso de física nuclear. Trocamos e-mails e ele me prometeu enviar um tratado sobre a rota dos foguetes na velocidade da luz.Mas não fui bobo de ficar esperando no próprio aeroporto mais de quatro horas para embarcar. Exigi táxi e hotel. E fui atendido. Ah, ganhei até o indefectível vale-refeição que deveras alegrou a vida do gaúcho. Só que o hotel, embora situado na Via Costeira, era velho, um tanto sujo e cheio de mofo. Não valeu nem o trajeto de táxi do aeroporto até lá, longe em demasia, tantos foram os buracos nas ruas molhadas pelas chuvas de verão.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

CONVERSE, VALE A PENA!

As boas palavras de incentivo são alimento para a alma. Jamais deixe de conversar com seus filhos, e nesse diálogo aproveite para fazê-los compreender que o mundo precisa de cidadãos decentes, de homens e mulheres propensos a seguir os caminhos da lealdade, honestidade e dedicação ao trabalho e à família. O diálogo é o meio mais seguro e propício à edificação de seres humanos decentes, que pensem em si mas não esqueçam do próximo, que ganhem o pão de cada dia com o suor do seu intelecto sem espezinhar quem está ao seu lado. A vida é tão curta para perdermos tempo em escaramuças tolas.Todos necessitamos de conselhos.
Uma conversa amigável e descontraído entre pais e filhos vale muito mais do que um tratado erudito sobre a convivência entre as pessoas. O tom da voz suave e compreensivo, o devido respeito no olhar e ter por escopo conseguir passar a certeza de que o único objetivo daquele precioso instante pai/filho(a) é forjar o caráter sem imposições nem opressões, tudo isso facilita a abertura do coração. Ninguém é imune à ternura, desconheço quem dá as costas ao amor quando o encontra. A semente virtuosa do entendimento e da amizade é semeada durante esses imprescindíveis interludios familiares. É quase imperdoável fechar os olhos a isso. A vida não espera quem se atrasa. Assim, caso se perca por timidez ou covardia do pai aquele dia importante para abraçar os filhos e dizer-lhes o quanto os ama, aproveitando para encetar aquele papo sem autoritarismo e sem sisudez, provavelmente haverá dificuldade para o surgimento de outra oportunidade semelhante.
Lembrem-se, quem elogia sendo verdadeiro e critica de maneira construtiva e com sabedoria conduz em suas mãos os cidadãos do amanhã. As pedras e os obstáculos à frente, sob esse prisma, serão removidos por ambos, o que é muito mais fácil sem sombra de dúvida. Afinal, dividido o peso se torna mais leve e os percalços serão suplantados por mentes arejadas onde viceja, soberano, o amor.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

MEU VIZINHO, O POR-DO-SOL




O por-do-sol é meu frequente vizinho do entardecer. Da janela do meu apartamento, ali por volta das cinco horas e quinze minutos, avisto-o todo lânguido quando começa a espalhar suas cores pelo céu e enche o espaço com incomparável beleza natural, sem qualquer maquiagem. O azul celeste se torna, então, como num súbito passe de mágica, uma mistura de cores que o deixa multicolorido e belo. Fico extasiado sempre que presencio o espetáculo diariamente por ele proporcionado, mesmo já o tendo visto centena de vezes no mesmo lugar, embora de vários ângulos diferentes para não deixar de me encantar com todos os lados do fascinante quadro da natureza.
A visão que tenho é privilegiada, não me escapa nenhum detalhe de seus movimentos, e cá no meu coração os sentimentos se confundem, passando da alegria casual para a euforia repentina, da mera admiração confusa para um amor inexplicável a tanta beleza, e passo, por conseguinte, somente a maravilhar-me, a sentir-me em completa paz na qual descanso a mente e o corpo. Enquanto isso, no transe desse frenesi platônico, prossegue o espetáculo da natureza em seu esplendor. Como em movimentos sob-reptícios de bailarino, ou a guisa de um pincel invisível pincelando as nuvens com detalhes fascinantes, vai-se delineando no infinito aquela obra prima especial e rara de um inimitável mestre da pintura. A cena se exibe em câmara lenta com vistas a não escapar nenhum detalhe do raro encanto. É suficiente uma quase imperceptível contorção, basta aquele pequenino movimento do tempo ou dos próprios raios solares para o pôr-do-sol exibir-se todo orgulhoso e criativo.
Por vezes, o céu parece estar queimando quando o astro rei, esférico, bombástico, esplendoroso, mostrando intenso e vermelho brilho em amplo destaque, permite que os suaves contornos das ondas de calor dêem a impressão de existir incomensurável fogueira acesa no infinito. Mas isso em momento algum provoca temor, senão êxtase. O fogo, se realmente o fora, não dura o suficiente para queimar o espaço, mas tão-somente com o intuito de deslumbrar olhos e coração das insignificantes criaturas pequeninas cá da Terra tão carentes da terna doçura emanada de cenas que tais. Como eu e tantos outros cativos de sua beleza. Por instantes, em muitas tardes declinando no ocaso, sinto-me impelido a acenar um cumprimento ao pôr-do-sol e tantas vezes já o fiz embora tímido, tamanha é a emoção que me invade e envolve sempre. Mas ele, na indiferença de sua amplitude, esnoba-me todo lânguido e abusado. É ciente de sua magnitude e majestade, isso bem sei. E ante minha insignificância no universo de sua realeza como voltar-me a atenção? Milhões de encantados admiradores o apreciam e amam diariamente, o sol com o seu jogo de cores estonteantes está farto de tanto causar admiração e estupor e dos inúmeros olhares embevecidos ao entardecer.
Será mesmo assim? Talvez nem tanto. Pois se assim fora ele não ofereceria diariamente esses espetáculos de cativante esplendor que nos enchem os olhos de lágrimas perplexas se não desejasse platéia. O sol, ponderemos, é o pavão do céu.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A ARTE DE ESCREVER



Escrever não é tão-somente uma bela arte especial, mas igualmente sensibilidade e viagem à doce e terna aventura de criar, de desbravar, de ser o primeiro a expor premissas nunca antes reveladas no papel ou no universo virtual. O escritor se esmera em tentar produzir o que de melhor o seu coração expressa, aparando arestas, retirando senões e esculpindo seu trabalho com a precisão de um mestre até formatar por completo a sua obra. E para isso ele se entrega por horas ao labor de talhar e lapidar o emaranhado de frases para compor o seu texto, às intempéries consequentes, e novamente recomeça o garimpo das melhores pepitas, das pedras preciosas mais puras extraídas de seu conhecimento literário, para isso pulando fogueiras e transpondo barreiras altas e íngremes. Personagens e tramas, situações e perfis psicológicos são confeccionados e idealizados como se reais fossem pelo artesão das palavras com aquele cuidado excepcional de quem monta um quebra-cabeças de intrincadas peças e sabe o lugar adequado para cada uma delas.É árdua porém excitante tarefa a do artesão das letras, essa arte de nobreza indelével e indubitavelmente de grande importância para a cultura dos povos. Sem literatura a inteligência seria atrofiada, amorfa, espécie de cegueira coletiva. E o escritor é responsável pela revolução mental de seu semelhante. Porque ele, em seu mister, trabalha com os sentimentos de homens e mulheres, retrata a vida, filma com palavras a trajetória humana. Como uma preciosa, dedicada e essencial testemunha da história. As gerações evoluem com os livros e as idéias neles contidas por esses desbravadores criativos e dedicados. Solitários no grandioso instante de criar, esquecidos do tempo enquanto seus dedos, comandados pelo rapidez cerebral, vão digitando as letras e tecendo um conjunto de idéias, a vida segue lá fora à medida que a mensagem proposta por eles vai se configurando linha por linha. E a vida se transforma na literatura, mesclando a dureza da realidade com o lirismo poético ou a ficção fantástica. E milhões de pessoas aprendem, se emocionam e se divertem com eles. Parecendo, por vezes, um visionário, o escritor até pode fazer inconscientes previsões, como sem dúvida nenhuma foi o caso, entre tantos outros, de Júlio Verne com suas obras A volta ao mundo em oitenta dias, Viagem ao centro da Terra, Vinte mil léguas submarinas e tantas outras. A mente do escritor permanece vinte e quatro horas em constante ebulição. Podemos até afirmar que ele age de maneira compulsiva no ato de escrever, isto é, parece ser impulsionado por uma mola de aço a sentar-se diante do computador e elucubrar os textos que vão fluindo como chuva grossa demorada. Não é de se estranhar sabermos que muitos acordam no meio da noite para continuar a escrever algum texto iniciado ou digitar o gran finale que durante o dia não tinham conseguido elaborar, recebendo o insight enquanto dormiam. Quando isso acontece, o escritor sabe que precisa levantar da cama e escrever o que sua mente lhe dita, sob pena de perder a idéia brotando vívida e frenética naquele exato momento, e que certamente não mais voltará da mesma forma. Mas o labor da literatura também é um grato prazer para o escritor, porque não poucas vezes ele se envolve na trama que idealiza e tece à guisa de teia pacientemente elaborada e que prossegue paulatina, crescente e explosiva. Em sendo assim, ri e chora com suas mensagens, por força das circunstâncias e do envolvimento emocional deixa-se conduzir por seus personagens, havendo ocasiões em que estes deixam claras as regras a serem seguidas e fazem dele um mero contador de estórias nas quais não pode mais intervir. A não ser que queira mudar todo o curso traçado até aquele instante e transformar radicalmente os rumos de seu trabalho ficcional.A inteligência humana jamais poderá prescindir do escritor. Da cultura timoneiro, das artes mestre, da vida revolucionário, dos sentimentos vanguardista, esse operário das palavras é e continuará sendo o baluarte das batalhas necessárias às mudanças que melhorem o mundo e a qualidade de vida de homens e mulheres.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

CRÔNICA JUNINA


A fumaça das fogueiras ao pé das calçadas voluteia no espaço e penetra, atrevida, através de portas e janelas das casas e ousa invadir as frestas das cumeeiras, metendo-se também por entre os buracos das telhas quebradas, enchendo de toxinas a respiração humana. A lenha crepita vermelha cor de fogo quebrando-se em fagulhas que esvoaçam e carvões acesos que são levados pelo vento suave soprando nas ruas. As cadeiras estão ao pé das portas e os donos das casas se divertem conversando com vizinhos e amigos convidados para comer pamonha, canjica, milho verde assado na brasa e tomar pinga da braba enquanto a música junina rola solta e a moçada saracoteia nas quadrilhas improvisadas. Risos estouram a todo instante secundados por gostosas gargalhadas súbitas. A conversa é animada, descontraída, pontuada por animadas piadas de salão, e talagadas de cachaça são despejadas garganta adentro. Pensamentos indizíveis na sobriedade são externados quando o calor vulcânico da aguardente esquenta os neurônios da turba, por essa razão às vezes brigas violentas e mortais ocorrem provocando trajédias. Namoros começam e terminam nessa época tão propícia ao romance quanto a uma desilusão; os enamorados se beijam, os desiludidos trocam dispensáveis manifestações que a nada levam. A molecada joga traques e buscapés à volta dos incautos, que gritam e fogem estabanados quando o barulho pipoca e assusta, sob o escárnio daqueles. Rimbombam fogos com estardalhaços pelos ceus, balões proibidos sobem ao espaço levando grande perigo à vida humana, às plantações, ao patrimônio público e privado e aos aeroportos. Crianças brincam entusiasmadas, os olhos lacrimejantes, expostas aos possíveis acidentes mutilantes tão frequentes nas festas juninas. É quase ensurdecedor o barulho de músicas típicas pelos quadrantes e meridianos. Moças ansiosas para arranjar um casamento fazem promessas, pulam fogueiras, escondem-se nalguma superstição esperançosas por descobrir o futuro marido nos troncos das bananeiras, nas bacias cheias d'agua, nas borras de café. E a noite segue entorpecida pela fugaz alegria de um instante sazonal. Nas noites de fogueira, embriagados pelo enlevo de romantismo que cerca os festejos, casais de namorados se entregam irresponsavelmente, ele na busca do prazer sem peias, ela imaginando ser amada ardentemente, e o resultado, tempos depois, quase sempre, é a decepção de uma gravidez indesejada e de filhos sem pais e não queridos. O fogo do fogo queima a alma, o coração e o bom senso e geralmente é a mulher quem sofre as consequências. Porque o sabidão dá as costas e se vai deixando resultados que duram outras tantas festas juninas.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

MEU PAI

Meu pai sabia tocar violão muito bem e gostava de entoar as velhas canções do seu tempo. Muitas vezes, à noite, depois do frugal jantar, sentava no sofá, afinava cuidadosamente o instrumento e, com a mão esquerda, tocava sucessos que embalavam nossa infância. Mamãe sentava ao seu lado e, embora cansada da labuta diária, olhava-o sonhadora, sorrindo ou discretamente permitindo o cair de algumas lágrimas mais afoitas faces abaixo, ouvindo seu amado deixar-se conduzir pela magia das melodias só conhecidas por eles dois. Aliás, foram esse seu traquejo musical e o seu jeito seresteiro os pontos mais evidentes que contribuíram para ele conquistar o coração e o completo amor de minha mãe. Mesmo estando noiva de um engenheiro rico que estava em Mossoró para construir a ponte Jerônimo Rosado, a primeira da cidade, que ligaria o centro ao bairro conhecido como Alto de São Manoel, mamãe alterou todos os seus planos por causa de um inesperado e repentino amor em explosão por aquele jovem magro e mal vestido, simples e humilde que dedilhava o violão com a mão esquerda, não era formado nem tinha emprego e vinha de família de parcos recursos. Preteriu o engenheiro e sua riqueza por ele, com quem casou, preferindo a felicidade do coração à aparência do luxo desprovida de sentimento. E mesmo vivendo com as dificuldades advindas e as adversidades cotidianas viveram mais de cinquenta anos de um casamento feliz e cinco filhos, dos quais eu sou o terceiro. Vivendo uma época do século passado, cujos pensamentos não acompanharam a evolução que trouxe mudanças paulatinas, como sói ocorrer de uma geração para outra, de certa feita aconteceu algo interessante para os padrões atuais. Eu estava todo feliz, aos dezesseis anos, com a alegria da primeira namorada e andava com a foto dela no meu bolso para exibir aos amigos, porque assim fazíamos tempos atrás. Então, uma noite, esbanjando sorrisos, aproximei-me do meu pai, puxei a foto da namorada do bolso e disse: "olha, papai, a foto de minha namorada." Ele me olhou bem sério, desafivelou o cinturão da calça e, brandindo-o bem no meu rosto, disse: "Sua namorada é isso aqui, ó!" Era o jeito dele e o que mandavam os ditames da época, tão e tão diferentes de hoje. Eu, quando meu filho mais novo arranjou sua primeira namorada, fiquei todo prosa e cheio de vaidade.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

CITY TOUR EM MONTEVIDEO

O apartamento do hotel onde nos hospedamos, em Montevideo, tinha bom tamanho, cama de casal king size, uma escrivaninha sobre a qual repousavam à nossa disposição caneta e bloco de papel, um sofá ao lado da cama e próximo à janela, dividindo espaço com um abajur de alto porte, luzes por todos os cantos, tv de 39 polegadas com monitor LCD, programação a cabo e controle remoto, banheira, dois lavatórios, mais um chuveiro, água quente em abundância, demais acessórios de toillete, enorme armário munido de cofre cujo segredo o próprio hóspede se encarregava de criar e a suntuosidade típica das grandes hospedarias destinadas a estrangeiros. Ante a presença de tanto conforto, dormimos feito crianças na nossa primeira noite no Uruguai.
Dia seguinte, pouco depois das nove, nos dirigimos ao salão do restaurante para o café da manhã, àquela altura quase completamente lotado. O horário do desjejum no Sheraton é das seis e meia até as dez horas, e nesse primeiro dia vi acontecer algo bastante inusitado e, que eu lembre, não testemunhei em nenhum outro hotel onde já fiquei hospedado no Brasil e no exterior: normalmente os casais ou os grupos de pessoas viajando juntas têm o habito de conversar enquanto degustam as guloseimas do bufet oferecido pelo hotel onde se hospedaram, enquanto isso o tempo vai passando quase imperceptível para quem tem muito tempo. Poucos minutos antes das dez eu olhei distraído para a entrada do restaurante e vi alguns hóspedes chegando ao recinto com o intuito de tomar o café da manhão, naturalmente. Só que, àquela altura, os garçons, em marcha apressada, correndo mesmo, haviam começado a retirar o bufet sob os olhos atônitos dos que chegavam. Sem a menor cerimônia, como se temessem ser solicitados pelos hóspedes a deixar os alimentos onde se encontravam para que eles, ainda dentro do horário, pudessem desfrutar o desjejum. Muitos dos hóspedes, sem acreditar que aquilo estivesse realmente acontecendo, apressavam-se em colocar nos pratinhos ao menos um pãozinho à medida que os garçons carregavam tudo para a cozinha, aos atropelos, esbarrando em quem tentava se servir e desviando deles para que não tivessem condições de pegar alguma coisa nas bandejas já sendo levadas por eles. Que estranho comportamento daquele hotel!Fomos explorar um pouco da cidade e garimpar algum restaurante para o almoço antes do city tour à tarde.
A brisa meio gelada batendo em nossos rostos anunciava que a temperatura certamente beirava os seis graus. Os plátanos farfalhavam suas folhas como a anunciar o cio da natureza, e algumas dessas folhas caiam suavemente nas calçadas. O povo agasalhado circulava pelas ruas e lojas cabisbaixo e fumando, decerto pensativo, a capital uruguaia se descortinava aos nossos olhos e abria seus mistérios para nós. Havia sol, mas seu calor não era páreo para o frio envolvendo a cidade, daí não conseguia sobrepujar o ar de geladeira aberta a que se assemelhava Montevideo naquela manhã, já por volta das onze horas.Caminhamos pela 18 de julho, atravessamos a Ejida, a San Jose e suas imediações, e quando demos conta já passava do meio-dia.
Encontramos um restaurante chinês aconchegante nas proximidades da San José, frequentado naquele momento por chineses e norte-americanos, gostamos do cardápio e ali mesmo almoçamos ao lado da janela envidraçada, vendo o pulsar da rotina daquele povo nas pessoas e nos carros indo e vindo e seguindo em frente a vida à medida que o tempo passava.
O tour pelos principais pontos turísticos de Montevideo foi o trivial. O Uruguai é um país pequeno se comparado ao Brasil, com uma população de mais ou menos três milhoes de habitantes, a metade residindo na capital. Colonizada pelos espanhóis, há muitos descendentes europeus e sua arquitetura apresenta evidentes traços do Velho Mundo em seus prédios monumentais. Devido ao trânsito intenso e ao ruge-ruge das pessoas circulando não foi possível estacionar em muitos lugares, e nos contentamos somente em ver através dos vidros do micro-ônibus os lugares e edifícios mais interessantes que nos eram exibidos por um guia falando espanhol numa rapidez intolerante. Ainda bem que o motorista se comunicava em português e, vez por outra, conseguia traduzir para mim e minha esposa(os outros turistas eram chilenos, colombianos e um casal de norte-americanos) as colocações mais importantes do trajeto. Passamos pela Plaza Independência, Plaza de la Constitución, Catedral Metropolitana, Cerro de Montevideo, Residência Presidencial, o obelisco, Cabildo, vimos o bairro das mansões e os bairros da triste pobreza, estes porque para chegar a um antigo forte, hoje transformado em museu da polícia, encravado no ponto mais alto da capital era necessário enveredar por eles. Aliás, a vista panorâmica da cidade torna-se espetacular sob a perspectiva daquele local. E foi lá que, divisando a refinaria de petróleo, soubemos que o Uruguai não produz o ouro negro por isso importa-o de diversos países, inclusive do Brasil.
Na volta do tour fomos para o Punta Carretas, um antigo presídio transformado em shopping depos de reformado. É um lindo e aconchegante espaço onde diversas marcas mundiais da moda estão presentes para o gáudio dos nababos uruguaios. E foi nesse shopping onde terminamos o périplo por Montevideo porque no dia seguinte partiríamos para Punta del Este.

terça-feira, 10 de junho de 2008

MONTEVIDEO NO "DIA DA MAMÁ"

O aeroporto Carrasco, em Montevideo, fica a mais ou menos trinta minutos do centro num constante e deslumbrante trajeto pelo litoral movimentado. Ao sairmos de lá, o sol já morrendo lentamente sobre o Mar del Plata e proporcionando uma visão imorredoura, arregalamos os olhos para as primeiras imagens uruguaias. Passamos por cassinos cheios de luzes em seus frontispícios, por hotéis à beira-mar, por restaurantes com fachadas luminosas, por edifícios residenciais, abraçando Montevideo com nossa ansiedade inebriada e respirando seu ar frio de pouco mais de seis graus positivos e nos deixando levar pela imaginação galopante. O motorista do traslado, Martin, jovem bem humorado, usando óculos, já meio careca, tinha um sotaque carregado, quase incompreensível, mas ainda assim conseguimos nos entender razoavelmente com o meu portunhol arrevezado. Ele nos comunicou que o passeio até Punta Del Este seria no dia seguinte, às oito horas, e o city tour no outro dia, à tarde. Porém, se quiséssemos poderíamos alterar esses roteiros trocando um pelo outro. Optamos pela troca dos passeios, afinal queríamos passar a manhã explorando a capital do Uruguai antes de ser ciceroneados por algum guia metido.Muitos semáforos e quilômetros depois, lançando olhares de um lado para o outro do cenário exposto à nossa curiosidade, finalmente chegamos ao hotel Sheraton localizado no cruzamento da 18 de julho com a San Jose. Lindo, enorme, luxuoso, perto de toda movimentação noturna de Montevideo, pelo menos as mais clássicas, nosso hotel nos acolheu com a perna esquerda. Explico: fizemos o entendiante chek in mostrando passaportes, vouches, bagagem, o escambau, sendo levados a seguir para nosso apartamento, o 608, no sexto andar, logo descobrindo, alarmados, que tínhamos sido colocados no andar dos fumantes. Logo eu, que odeio cigarros com todas as minhas entranhas! Fiz o maior auê até que, por fim, nos colocaram num andar onde podíamos respirar melhor, sem nicotina. Assim, nos alojamos, tomamos banho e nos vestimos para o jantar. Meu casaco de couro comprado em Buenos Aires veio bem a calhar na gélida temperatura soprada em meu rosto. Logo descobrimos, eu e minha esposa, andando pelas ruas em busca de um restaurante decente, que em Montevideo as pessoas também fumam feito caiporas. Parecia termos regressado para o ambiente empestado de Buenos Aires novamente, que chatice! Bom, pelo menos no interior do restaurante era proibido fumar, graças a Deus. De modos que nossa primeira noite em Montevideo foi quase semelhante à passada em Buenos Aires, tanto pela identidade do idioma espanhol quanto pelo fumaceiro dos cigarros pendurados nos lábios de práticamente toda população uruguaia, pelo menos dos que desfilavam pelos barzinhos, pizzarias, restaurantes, lojas ainda abertas, cafeterias, ruas e avenidas. Por todos os cantos víamos faixas, outdoors e cartazes convidando todos para presentear a "mamá". O dia da "mamá" deixava febril os lojistas, todos querendo vender o máximo possível para lucrar muito com os sentimentos das pessoas, fazendo desse dia não um ato de ternura mas um dia de fartura para eles.O hotel Sheraton estava lotado com gente esquisita de vários países, numa estonteante babel de linguagem parecendo música tocada por algum conjunto desafinado. Acontecia no salão de eventos um convenção de médicos e eles desfilavam pelo interior do hotel com suas pranchetas e sorrisos melífluos como tigres de bengala num zoológico; executivos de determinada empresa multinacional se aboletavam nas poltronas fofas trocando idéias e números, sorriso de orelha a orelha, secretárias rebofulosas zanzando em meio a eles. Tudo isso exibiu-se diante de nossos olhos quando voltamos ao hotel pensando no merecido repouso com vistas ao corre-corre que se avizinhava com a programação do city tour para o dia seguinte.