Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

ANGÚSTIA


Começa devagar na base do estômago, paulatino, quase como uma insinuação imperceptível, e avança pelo externo até alcançar os arredores do coração onde se instala e inicia sua devastação emocional. Então tudo se mostra reconhecível e palpável, por assim dizer, é o principio da angústia se instalando e dominando o corpo inteiro a partir daí, sem qualquer possibilidade de saída, a vítima fica indefesa, e ela vai-se tornando extremamente forte em pouco, tomando totalmente de conta de suas emoções. Desse momento em diante, a expressão facial do angustiado decai e surge explícito aquele olhar distante e melancólico, perdido, tão característico, um jeito abertamente triste de mostrar sua dor de maneira a ser visível para todos. A angústia é como um lento torniquete estrangulador.

A vontade irremediável, desse ponto em diante, e isso está evidente nos olhos murchos do angustiado, que se vê como perdido nalgum lugar vazio e solitário do deserto emotivo, é chorar copiosamente, cabisbaixo, mãos na cabeça, olhos fechados, por qualquer razão, plausível ou não, deixando as lágrimas afogar esse instante que corrói a alma e provoca irremediáveis contornos de depressão. Uma palavra amiga repentina agora, tão bem vinda como uma tábua de salvação no mar revolto e de ondas violentas, certamente vai contribuir para o incremento do choro, fazendo-o convulso como são os decorrentes das grandes amarguras capazes de atormentar profusamente. Se ao murmurar dessa voz confortadora seguir a suavidade da mão gentil sobre o ombro ou um abraço animador precedido do sorriso estimulante, seguramente haverá soluços intermitentes à guisa de desabafo profundo. Porque nenhum ser humano tem condições de sufocar a torrente de lágrimas quando alguém se aproxima para, com seu carinhoso jeito de ternura e amizade, amenizar o ímpeto frenético da angústia instalada.

O arroubo de chorar acalma as batidas aceleradas do coração, diminui o tamanho do bolo que incha o estômago, que logo vai perdendo seu furor, os olhos voltam a apresentar a pouco e pouco o brilho desaparecido e já se vê alguns traços de sorriso avultando no rosto, que recupera resquícios do rubor anteriormente escondido no recôndito da melancolia. E assim como, com suas garras titânicas à guisa de tenazes, a angústia se assenhorou de alguém por razões diversas, o desabafo aliado à doce palavra amiga e mais o abraço reconfortante, ela por vezes se vai e o alívio retorna triunfante. A angústia magoa, fere, dói. Mas depois que escoa bordas do coração afora e tudo volta a funcionar a contento, a alegria se reinstala e logo, imponente lidera e tranquiliza.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

AQUELE LINDO BEIJA-FLOR

O solitário beija-flor, enamorado de minhas flores atraentes, sempre aparecia no jardim de minha casa todos os dias, ao entardecer, já quando o ocaso começava a pintar o céu com diversas cores. Na maioria das vezes chegava apressado, olhava para todos os lados talvez temendo algum concorrente ou uma ameaça qualquer, mas invariavelmente logo depois de sondar o ambiente voava todo solícito ao encontro amoroso. Subia para tocar e beijar as flores do alto e ali ficava em êxtase por instantes, a seguir voava ansioso, rápido, entregando-se aos ósculos nas que se escondiam nas proximidades da parte baixa das plantas. Todo esse gozo espetacular não durava mais que alguns minutos, o azul-esverdeado de seu frágil corpinho pincelando o espaço aéreo para deleite de meus olhos fascinados. As visitas diárias daquele beija-flor se tornaram um hábito para o encantamento do meu coração. À uma segura distância dele, de modo a não perturbar-lhe o tênue momento de amor com suas amadas nascidas no meu jardim, eu cuidava com todo zelo para que nada nem ninguém pudesse atrapalhar o seu prazer.
Numa tarde qualquer que o tempo esqueceu, a pequenina ave azul-esverdeada não apareceu para seus encontros de amor com minhas flores. A princípio tive esperança de que ele pudesse estar atrasado por algum motivo desconhecido de mim, mas logo as horas foram passando, o sol se vestindo para dormir, o espaço celestial começou a escurecer paulatinamente e nenhuma notícia dele, nem a mais remota. Em vão o esperei olhando desesperado para cima, no rumo das esquinas, da vizinhança, dos fios elétricos esticados nos postes, e buscando seu vulto que a tristeza insistia em não trazer. Por favor, não contem para ninguém, mas eu, contrariado por ter perdido a dose diária de poesia viva proporcionada por aquele beija-flor enamorado, depois de esperar até o anoitecer, quando já não haveria mais nenhuma possibilidade de ele chegar, sentei-me num banquinho colocado entre as plantas e chorei. Depois disso nunca mais avistei o poético beija-flor. Em algum lugar, num momento qualquer daquele dia, algo de muito grave aconteceu e levou do meu jardim, para sempre, o mágico instante de fascinação que o belo poema cheio de vida que era o beija-flor me concedia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

FASCINADO OLHANDO O CÉU


Muito mais que de repente uma estrela cadente riscou o negrume do céu e desceu apressada na direção do risco invisível do horizonte. Um belo fenômeno cósmico, talvez motivo inesperado de poesia ou, quem sabe?, somente algo para olhar e admirar com espanto e fascínio. Vi que a lua, quarto crescente, avultava no espaço anelando atrair para si os olhares humanos, e nada nem ninguém seria capaz de mudar aquele instante de mágico egocentrismo. Tudo que existe na terra e no espaço está sempre procurando uma maneira de se por em destaque, até mesmo as mais insignificantes aos nossos olhos. Vejam as formigas, por exemplo, ou os girassóis que se voltam para o sol. A vida é dinâmica, e tudo ao redor dela também o é. Por que não os astros? Certamente eles também tem lá suas idiossincrasias inexplicáveis e misteriosas, embora na mente dos astrônomos estejam sempre as explicações técnicas mais intrincadas que pioram ainda mais o entendimento do leigo no assunto. Prefiro ser apenas um romântico quando estou olhando o céu.
Quando a estrela desapareceu no ar, tendo sido decerto pulverizada pela entrada na atmosfera terrestre, vagueei o olhar pela imensidão celeste pensando quão incomensurável e verdadeiramente insondável nos parece o firmamento e demais impenetráveis outros mundos além, muito além. De determinado ponto em diante do Cosmo, lá pelas profundezas distantes anos-luz de nossas ínfimas possibilidades humanas, ocultam-se, como se de propósito para que os homens não saibam suas razões de existir, os meandros do desconhecido, parâmetros inusitados demais ao nosso raciocínio, e nos vem a escuridão da ignorância sobre a necessidade da existência de todos aqueles estranhos e longínquos universos. Há razões concretas para tudo que existe tanto lá no alto quanto cá embaixo, mas nesse labirinto não logramos entrar e nem ao menos sobre ele cogitar. É algo grande e imponente demais à débil mentalidade do homem. As brilhantes mentes dos cientistas ainda não conseguiram chegar até eles, e provavelmente jamais os alcançarão, se bem saibamos que o impossível hoje tantas vezes se mostra possível e palpável amanhã.
E fiquei a conjeturar a respeito do maravilhoso equilíbrio verificado em cada peça desse astronômico tabuleiro céu afora, quase inimaginável e eivado de difusos mistérios, por demais incompreensível aos nossos ainda parcos saberes. Somos pequeninos grãos de poeira nessa vasta área espacial infinita, que aos nossos olhos pueris se mostra a perfeição mais completa e complexa que o cérebro humano pode pensar em tentar definir. Só podemos nos fascinar admirados olhando o firmamento enquanto algumas estrelas caem e os cometas passeiam distraídos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

AMOR É AMAR


Invariavelmente, todo ser humano tem sua própria definição do amor, dependendo cada uma, como é óbvio, do estado de espírito, ou da condição social e intelectual do indivíduo. Quando um conceito mais bem elaborado e emocionante, desses que tocam a alma e aceleram as batidas do coração, ganha o planeta através de publicação em livro, e até mesmo por meio da internet, então esse axioma passa a ser dito, repetido e citado diariamente como uma grande verdade inconteste. As pessoas se referem a ele com ar de solenidade e sabedoria, dando a impressão e fazendo de conta que são leitores contumazes de bons autores, mormente os de fama internacional. Muitas vezes sendo tão-somente uma questão de aparecer de alguma forma, de ficar em evidência e ser o foco das atenções de todos. O exemplo mais clássico de algo semelhante a esse axioma encontra-se no conceito de Saint Exuperry sobre esse sentimento, em sua obra O Pequeno Príncipe.

A verdade, contudo, a meu ver, é que o amor é um estado de espírito tão especial e sublime que não necessita ser definido ou descrito em palavras, porque tudo que sobre ele alguém escrever será incompleto e impreciso. Ele está invariavelmente acima de qualquer conceito humano. Amar, se analisarmos com simplicidade, implica tão-somente em sentir o amor em toda sua amplitude, viver a intensidade vibrante dos prazeres e dores que, aceitemos ou não, o acompanham como forma de efeito colateral. Pois o amor quando chega vem completo, acompanhado de suas inquietudes e tomado por seus meandros muitos vezes insondáveis. Nada mais. E nem sempre temos condições adequadas para explicar os sentidos, conceituar os momentos da alma, determinar as linguagens do coração com seus estranhos e complexos mistérios.

Por outro lado, o sentimento amor não é extático não está parado na prisão do tempo, é sentimento dinâmico e febril, mudando sua maneira de ser ao sabor dos diferentes entendimentos das gerações. Sabemos a abissal dicotomia entre o comportamento de nossos avós no tocante a namoro e casamento e o pensamento da juventude contemporâneo. Nossos antepassados provavelmente estão se remexendo estarrecidos em seus túmulos ante os rumos tomados pelo amor nos dias de hoje. Porém, os filhos de nossos filhos, evidentemente, terão suas próprias visões individuais do amor num futuro próximo, e deveras absolutamente certo que o pensamento atual sobre o assunto se torne sem duvida obsoleto. Impossível termos a mais remota idéia hoje de como será para eles a fase em que todo ser humano é atraído pelo desejo de estar aconchegado à pessoa amada, de ficar e permanecer com ela a todo instante, de se completar, enfim, ao seu lado. Mas sabemos como estamos evoluindo em todos os sentidos com o passar dos anos. E ninguém é imune ao anelo de amar e ser amado, pois se trata de algo irresistível e inerente a homens e mulheres. Não amar é morrer, perder o objetivo de estar entre os vivos. Se o amor desaparece de algum coração algo está muito errado e certamente não restará mais esperança para ele. E não há necessidade de saber qual o conceito de amor para perceber quando estamos amando, ou se já não existe espaço na alma para se abrir a ele.

domingo, 16 de agosto de 2009

UM PREÇO A PAGAR

Todas as estradas da vida tem seu preço, por onde quer que andemos. Cada olhar ou sorriso, os simples gestos de emoção, o ir e vir, exibem bem delineados os valores a serem pagos tão-logo enveredemos por eles. Porque tudo na existência dos seres, humanos ou não, exige sua reciprocidade. Viver é pagar tributos, é dar com a mão direita e receber com a esquerda, algo como toma lá, dá cá. E não necessariamente o valor a ser considerado nesse diapasão é medido por sua densidade física
nem pelo significado monetário que possa expressar. Pode ser algo deveras mais profundo, e inúmeras vezes é realmente, a ponto de provocar sequelas permanentes, angústias recorrentes, medos, suspiros. Em diversos momentos e circunstâncias, torna-se quase impossível calcular quanto pagamos no âmbito psicológico, moral e emocional.

O próprio amor, até ele mesmo, sim, com suas nuances e mistérios, tem seu preço. Alto, em diversas ocasiões. O materno, por exemplo, e por lógica também o paterno, é obtido depois de um demorado e muitas vezes doloroso caminho percorrido, e ao longo do seu trajeto como sai caro alcançá-lo e usufruí-lo como certamente gostaríamos. O namoro, as brigas, as lágrimas, as discussões, o casamento, as cobranças mútuas do casal, a gravidez com suas muitas e nada agradáveis consequencias para a mulher, os nove meses de espera, as dores do parto em qualquer situação. Há um insofismável resgate por tudo isso, impossível dissociar-se de seus meandros. O preço a ser pago pelo pai, guardadas as devidas proporções, não fica muito atrás, embora em campos bem diversos do sentido pela mãe. Entender a esposa, cuidar dela com o merecido carinho e a imprescindível atenção, ficar atento a possíveis problemas decorrentes do processo de crescimento do filho no ventre dela, preparar-se em todos os sentidos para receber a nova vida com seu universo transbordando de vontades, seu gênio diferente, a personalidade individual tão inerente a cada ser.

Um feto no ventre da mãe também em pouco pagará, por sua vez, um alto valor por ter sido gerado, antes mesmo de nascer. Por usufruir como verdadeiro corpo estranho invasor um lugar especial no confortável espaço cedido pela natureza materna está sujeito às transformações hormonais e aos humores dela. Qualquer impacto físico ou emocional sofrido pela mãe será, obviamente, capaz de alterar, na mesma proporção, as batidas do seu coração e, mesmo, deixar marcas indeléveis ao longo da vida. Sem esquecer que, completado o ciclo normal de gestação, ele se tornará semelhante a um fardo intruso no organismo feminino acolhedor e precisará ser expulso o mais rápido possível. Para o seu bem e dela. Como se vê, tudo traz consequencias, como na regra de causa e efeito.

Até mesmo a liberdade tem seu alto preço, como tudo na existência humana. Assim, é concreto que todos pagamos, de uma forma ou de outra, por cada instante vivido, sejam quais forem as razões estabelecidas pelo destino. E ninguém, absolutamente ninguém, conseguirá ficar isento desse compromisso traçado pelo próprio ato de viver.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

UM GRITO NO ESCURO


Preciso apagar a luz dessa tristeza insistente que se derrama sobre a existência humana como uma cascata inesperada. Há que ser desligado o plug da tomada da amargura e cortar os fios da eletricidade melancólica. Nesses instantes de sopesada reflexão acerca do meu próprio ego que se atormenta ante essa nuvem negra pairando sobre a alegria, bem que eu gostaria, e muito, de atirar pedras na lua, de cortar os flocos de nuvens no céu e jogar estrelas na felicidade enganadora. Sim, porque essa estória de felicidade não passa de alguma invençãozinha desmiolada de quem achou por bem criar algo diferente para ser sui gêneris. É espantoso como essas coisas acontecem assim sem mais nem menos.

Vou arrancar asas de borboletas e pregar seus corpos com alfinetes em painéis enfeitados à base de bicos de beija-flores destroçados com porretes de basebol. Os pássaros que não inventem de fazer cocô sobre minha camisa lavada e engomada hoje, e os pombos que não emporcalhem as estátuas inertes sobre as praças onde os cães sujam quando passeiam com seus donos. Aliás, frise-se, são porcos esses que levam seus animais de estimação para caminhar pelo bairro e esquecem de apanhar e colocar no devido lugar, a lixeira, os excrementos dos cachorros cagões. Muitos, pelo contrário, vão saindo de fininho e escondendo o rosto na maior cara de pau do mundo. E a mer...cadoria fica pelas calçadas esperando algum desavisado pisar sobre ela. Arre!

Abaixo urgente a publicidade idiota que se vê nos intervalos dos programas televisivos. Tanta estupidez dá a impressão de inexistir criatividade no universo da propaganda. É de deixar qualquer ser racional de cabelos em pé assistir a algumas bobagens que se queixam de ser publicidade na TV. Fora com essa papagaiada desconexa e esse nhenhenhem escalafobético que somente blablableja e tantas vezes expressa apenas o óbvio ululante sem qualquer resquício de criatividade. Afora essa estória de atores e atrizes fazendo apresentação de produtos que não usam nunca e jamais usarão. E determinados programas apresentados pela TV? Ah, joga tudo no lixo! Por favor, há vida inteligente entre os telespectadores brasileiros.

Prescindo das músicas-lixo eivadas de duplo sentido, frases chulas denegrindo a condição humana e aquelas jogando porcarias no ventilador. As gravadoras deveriam acordar para isso e exigir um pouco de circunspecção de seus apadrinhados, não faz mal a ninguém um toque de racionalidade e respeito. Há que se destruir os cds onde essas...essas...coisas mortas no nascituro foram gravadas.

Ah, chega de esmiuçar tanta angústia e de falar das baboseiras de alguns sem necessidade! Não merecem.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O VÔO DO PARDAL



O silêncio foi repentinamente despedaçado por estranhos ruídos que lembravam mãos amarrotando folhas de papel, asas se debatendo, folhas farfalhando em grande amontoado e qualquer outro esboço de barulho um tanto misterioso. Porque não era uma coisa nem outra na minha forma de pensar naquele exato instante. É que já passava da meia noite, há pouco eu e Ana acabáramos de chegar e nos distraíamos lendo nossos e-mails e atualizando nossos blogs. Daí a razão da estranheza. E o som inusitado se repetiu novamente, duas, três vezes. Então nos assustamos. Seriam, talvez, baratas sorrateiras se esgueirando atrevidas no templo sagrado do meu lar, oriundas sabe lá de onde? Esperávamos que não, sobretudo porque as detestamos e delas temos asco com toda força d'alma.

O inesperado rompimento da calma noturna vinha do quarto contíguo ao nosso escritório. E voltou a se repetir, agora de maneira tão estrondosa e aguda que nos levantamos como se impelidos por molas poderosas, correndo na direção do local suspeito, eu já devidamente armado para enfrentar cara a cara o que quer que fosse. E foi então que, o coração saltitante mas o rosto abrindo-se em sorrisos, vimos o causador daquele estrupício todo: um pardal. Sim, o pequenino e desajeitado passarinho batia asas em desespero no aconchego de minha moradia. De algum jeito inexplicável ele encontrou uma brecha nalguma janela do nosso apartamento, adentrou justamente no horário em que tínhamos saído e, sem noção coitado, depois de entrar não sabia mais o caminho de volta, a saída.

O que podíamos fazer ante circunstância deveras insólita? Quando o avistamos e ele nos viu percebi o pobrezinho terrivelmente assustado, presa de indescritível temor, seu coração quase explodindo no peito em apressado movimento de batidas fortes e apreensivas. Cheguei a pensar que ele sofreria um súbito infarto e morreria ali mesmo no chão onde se debatia quando nos aproximávamos. Ao nosso menor movimento, ante o mínimo gesto de aproximação ele alçava desengoçado vôo e se batia nas paredes, nas estantes, nas janelas fechadas. Corri, entre uma tentativa e outra de pegá-lo, e abri de par em par a do escritório esperando vê-lo sair por lá enfim e seguir para seu habitat natural. Mas ele não conseguiu, como se não estivesse vendo o caminho da liberdade amplamente aberto e à sua disposição. Ana também tentou pegá-lo para, como queríamos, soltá-lo na escuridão da noite, porém cada vez mais se tornava difícil essa tarefa. Houve um momento em que a atemorizada avezinha rodopiou por entre os livros, birôs, computadores, impressoras, roteador e outros trecos do escritórios, levou um baque na parede e caiu atrás de um arquivo. E silenciou.

Voltamos à internet sem atinar com a solução adequada para resolver o impasse causado pelo pássaro invasor. Pensei até em deixá-lo onde estava e esperar o amanhecer de um novo dia. Só que eu ficava imaginando como seria passar a noite escutando o bichinho fazendo zoada na tentativa de sair da prisão em que se metera e não poder agir de nenhum modo para ajudá-lo. Por longos cinco minutos não o escutamos, ele parecia absorto e calmo por não nos enxergar. Foi então que Ana resolver averiguar como ele estava, e o pardal, ao vê-la, desembestou num vôo adoidado, passou perto da janela aberta, sem sair, foi de encontro à parede e caiu novamente. Desta feita bem ao meu lado. Nesse instante, aproveitando estar ele meio desnorteado, armei o bote, abri a mão direita, estiquei o braço e, rápido e sem dar chance, peguei-o finalmente. Eu o olhei, ele me olhou, os olhos esbugalhados, o medo estampado e eu sorri. Segurando-o delicadamente caminhei até a janela sentindo o pulsar atribulado do seu peito, seus pequenos olhos engrandecidos pelo medo. Sorri novamente para ele, coloquei o braço para fora, no espaço do quinto andar e abri a mão, libertando-o. Um foguete não seria mais rápido do que quando ele disparou, as asas a mil por hora, voando abruptamente como se não acreditasse. E desapareceu na noite.

Convido todos vocês para conhecer meu blog de cordel: http://cantodomeucordel.blogspot.com/

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CORAÇÃO DE GELO



Muitas pessoas, às vezes sem perceber, mas tantas outras por desejar isso ardentemente, de modo a ferir o mais profundo possível, nos fazem chorar e ficar tristes. Suas palavras e frases têm o poder maligno de magoar, e magoar com intensidade. Não raro, ferem de tal maneira que alcançam e perfuram até mesmo o recôndito dos sentimentos, ali provocando lenta e insuportável agonia. Somente um comentário brusco, uma indelicadeza quase despercebida do autor, mas lamentável e intensa para quem a sofre, mesmo aquele olhar de crítica mordaz, qualquer ato da espécie pode arrasar o cotidiano do ser humano sensível. Os autores de tais proposições negativas nem imaginam o mal que fazem ao seu igual, a ansiedade subseqüente do atingido por suas palavras maldosas, a momentânea depressão que vem e é capaz de transformar a alegria em copioso pranto. Que nada! A sensibilidade nem sempre é percebida por quem se compraz em desprezar e ser indiferente à mágoa do semelhante, ou talvez quando este a descobre em seu interlocutor ele se torna ainda mais ferino e contundente. A frieza impensada dessas criaturas guiadas pelo egoísmo do absurdo congela suas próprias almas e os faz capazes de lances e nuances tão frenéticos quanto são os dardos venenosos. Viver, para eles, é a proliferação de uma eterna galhofa e grandes e contínuas chacotas. São diretos, desrespeitosos, incisivos, sarcásticos e, tantas e tantas vezes, pejorativos. Nem parecem ter coração, ou, se o têm, este se transformou num volumoso bloco de gelo. Os outros são, sempre, o alvo de pesadas brincadeiras de mau gosto e de punhaladas em forma de paráfrases e trocadilhos sutis e grosseiros.
O mundo está repleto de gente desse naipe. Gente desumana que vê no seu próximo a imperdível oportunidade de manifestar sua verve irônica e pernóstica. A lata do lixo da vida humana está entupida dessa espécie, já transborda até. De todos nós elas merecem, apenas e simplesmente, compaixão, jamais o rancor, nunca o despeito e o ressentimento. Porque são inseguras, infantis e necessitam de auto-afirmação. Exibir-se, para elas, é sinônimo de status, se acham as tais, desejam ardentemente aparecer. Melhor não lhes dar ouvidos e deixa-las falando sozinhas, mostrando total indiferença à sua existência. Em sendo possível ajudá-las de alguma maneira objetivando transformá-las em mulheres e homens cidadãos de bem e cordatos, amantes da paz e da reconciliação, decerto é-nos prazeroso fazer isso. A convivência entre os seres racionais precisa ser permeada pelo respeito e a civilidade, porque afinal somos todos dignos dessas duas prerrogativas tão humanas. Não é factível imaginar, portanto, que a atitude leviana e mesquinha dos galhofeiros seja encarada como um comportamento inerente às pessoas. Viver não é, evidentemente, uma eterna brincadeira. Todos nós temos nossas responsabilidades conosco mesmos e com os demais, e o limite de nossa liberdade, como já bem sabemos, termina quando começa a dos nossos iguais. Ninguém tem o direito de ultrapassar essa tênue linha imaginária, porém pragmática. Caso o faça vêm os conflitos e, tantas vezes, as desgraças. Só pode haver harmonia quando existe boa vontade e compreensão de ambas as partes. A jornada da vida há que ser uma trajetória feliz e alegre. Por que torná-la sombria e tormentosa quando temos amplas condições de, em uníssono, vivê-la?

terça-feira, 2 de junho de 2009

A FELICIDADE

Ao longo de toda minha vida andei tentando cultivar a semente da tenra plantinha chamada felicidade com o máximo cuidado. Fui arando os espaços por onde caminhei, distribuindo sorrisos, engolindo em seco - algumas vezes também ficava aquilo preso na garganta dias e dias até, finalmente, descer goela abaixo quando a compreensão aliviava a mágoa no coração - os pescoções e sapos maiores do que minha capacidade de assimilar suportava. Precisei, como é de lei não escrita no relacionamento humano, renunciar tanto, baixar a cabeça incontáveis vezes, derramar lágrimas sobre o travesseiro enquanto refletia sobre fatos e atos, buscando entender o sentido de estar vivo quando inúmeros já tinham recebido o bilhete de ida sem retorno.

Fui percebendo, no passar do tempo, que para subsistir e ser completa a felicidade necessita de pequenas coisas do cotidiano, de detalhes simples, por vezes insignificantes, que fazem a grande diferença na contabilidade final e complexa desse estágio da existência tão anelado por todos nós. Todavia surpreendi-me ao descobrir o quanto a presença dos meus semelhantes é parte sin ne qua non dessa tal felicidade. Sem a presença imprescindível dos muitos próximos, em especial dos mais próximos como amigos, familiares, parentes e, claro, os amores, impossível seu desenvolvimento completo e sadio. Porque a felicidade, compreendi e me alegrei com essa assertiva, não vem sozinha e repentina como algo avulso ou uma folha seca trazida pelo vento. Para acontecer e tornar-se real, palpável e desfrutável a felicidade, da maneira como nós seres humanos a enxergamos, há que ter por base sólida, o esteio indispensável para firmar-se e permanecer, as demais criaturas dividindo conosco as benesses de seus gloriosos frutos.

De que maneira, então, é possível encontrar o caminho mais plausível para alcançá-la? Como isso é possível? Onde descobrir os contornos desse misteriosos e abstrato estado de vida tão ansiosamente procurado por todos os homens e mulheres?. O apoio e incentivo dos pais na infância, a amizade na adolescência, os braços amorosos da namorada, a constituição da própria família, o trabalho digno respaldado por salário adequado com vistas a um viver honroso e com qualidade, a leitura constante de bons livros e demais incentivos culturais que despertam o intelecto, enfim, todos os fragmentos de prazeres e alegrias brotando dia após dia fazem o painel de algo maravilhoso a que chamamos de felicidade.

Tropeços ocorreram porque são inevitáveis e inerentes a essa linda jornada onde nos colocaram nossos pais. Rosas e espinhos ocupam o mesmo espaço enquanto seguimos adiante. Temos consciência que a felicidade é construída aqui e ali, em momentos inesquecíveis bordados de risos contagiantes, com pedaços de alegria depois de escamoteadas as tristezas, olvidadas as desilusões. Penso que a felicidade me tem visitado vez por outra em seus frequentes retalhos e visíveis contornos, acreditando ser ela vivida de instantes, de pequenas pepitas de ouro que vamos encontrando no caminho escolhido por cada um de nós. Esse fabuloso êxtase a que denominamos de felicidade jamais será conseguido em sua totalidade por qualquer um de nós, porque ela se caracteriza nos lampejos momentâneos que nos dão prazer e a doce sensação de ser feliz. Lampejos esses inconstantes, inesperados e nem sempre à mão.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O PALÁCIO DA PENA - Segunda parte

Com uma paisagem dominada por árvores, arbustos, rochas, muralhas curtidas pelos séculos e fragmentos do passado espalhados ao longo de toda sua extensão, o Castelo dos Mouros oferece uma visão privilegiada da costa em derredor e da serra de Sintra. A função dele, ao ser construído no século IX, era proteger Lisboa e demais vilas ao seu redor. Após quase 1.200 anos de tantos acontecimentos históricos acumulados, de conquistas e reconquistas, em 1995 a UNESCO classificou a Serra de Sinta, onde está localizado o Castelo, como Paisagem Cultural-Patrimônio da Humanidade(esses dados copiei do mapa com informações turísticas a respeito). É certo que vale a pena subir suas escadarias de pedra e atingir o ponto mais alto chamado Alcáçova, que foi a residência do Alcaide durante o período muçulmano. Se cada compartimento daquele castelo pudesse detalhar os acontecimentos ali registrados certamente ficaríamos estupefatos e embasbacados, porque é bom lembrar que ele foi habitado por seres humanos com defeitos e virtudes a exemplo de todos nós Na verdade, apenas a parte histórica interessa à posteridade, não é mesmo?
O Palácio da Pena, nossa próxima e mais importante visita daquele dia, magnífico na sua imponência, podia ser visto lá do alto do Castelo dos Mouros. Era para aquele monumento de luxo e beleza que nos dirigíamos ao sair do Castelo dos Mouros depois de uma descida tão estafante quanto a própria subida. Mórbidos pingos de chuva ainda persistiam caindo das nuvens enegrecidas e um nevoeiro espesso acinzentava a paisagem. Levamos em torno de dez minutos para completar a descida acidentada e tosca, sem muito a lembrar daquele castelo senão suas ruínas e os ruídos surdos dos fantasmas que fizeram sua história.


Foram mais trezentos metros de subida sinuosa sobre o asfalto molhado e um tanto escorregadio. Por nós passavam, com esforço supremo, aqueles pilotando as bicicletas ladeira acima, os carros, ônibus e grande quantidade de pessoas que preferiam subir a pé até o local onde estava localizado o Palácio da Pena. Um denso matagal vestia a serra e proporcionava ar puro, absorvendo o gás carbônico de nossa respiração e dos motores indo e vindo. Não compreendi por que um enorme cão assustador repousava tranquilo no meio do caminho, sem ninguém para dominá-lo caso ele resolvesse atacar algum transeunte. Ana ficou tão atemorizada com a presença do animal que pensou em desistir de visitar o palácio, mas consegui dissuadí-la desse propósito fazendo-a ver quantas pessoas já haviam circulado por ele sem nenhum problema. Ela virou o rosto para o lado, temendo encarar o bicho, ao contornar seu espaço.



Um portão de ferro de grandes proporções delimitava os domínios do palácio, guardado por um homem sisudo, fardado, cuja função era receber as entradas, perfurá-las e permitir, carrancudo, a entrada dos visitantes. À direita, despontava a indefectível lojinha de souvenirs que também vendia água mineral e pequenos lanches(por preços astronômicos, claro, e em euro), à esquerda, as casas de banho(toaletes). Logo a seguir, à nossa frente, majestoso, revestido de toda pompa e imponência inerentes às residências reais, finalmente, avistamos o Palácio da Pena. Apesar da chuvinha triste e molhadeira e do nevoeiro borrando a paisagem havia muita gente visitando o palácio, entrando e saindo, tirando fotos. Vimos a fila lenta que se dirigia para uma portinhola estreita severamente vigiada por três pessoas. Estas, sempre a estampar no rosto a exagerada carranca de professores pajeando crianças do primário, só permitiam a entrada a passos de lesma de uma pessoa por vez. Não demos muita atenção ao local, queríamos explorar outros ambientes, outras surpresas. Mas aquela, sem dúvida, escondia a melhor e mais impressionante de todas. Descobriríamos isso mais tarde.

domingo, 26 de abril de 2009

QUERO ABRIR JANELAS NESTE DOMINGO

Foto: Gilbamar de Oliveira Bezerra

Não pretendo muito deste domingo. Só quero abrir a janela, debruçar-me sobre o parapeito e deixar meus olhos repousando sobre o verde tranquilo do cerrado lá adiante. Vagando sobre a cor da esperança e da natureza, sonhando com o dia em que todos nós humanos viveremos completa harmonia com todos os seres vivos, nessa união capaz de fazer da existência um oceano de felicidade.

Depois, livre das mórbidas reflexões trazidas pelo vento da mídia, abrir um bom livro e caminhar por entre as flores do jardim tão meticulosamente cuidado por mim e minha esposa, pondo sobre os ombros dela, delicada e amorosamente, o meu braço e permitir o fluir da tarde com aquela benfazeja esperança de estar caminhando sobre os passos da felicidade.

Hoje eu risco do mapa a fome grassante por aí, escorraço a violência e apago a saudade. Desejo neste domingo viver intensamente usufruindo de todas as benesses dessa maravilhosa existência proporcionada por Deus, propagando no ar o meu simples sorriso de amizade, amor e solidariedade. Abraço todos vocês transbordando fraternidade.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

VISITA AO PALÁCIO DA PENA

Sintra é uma cidadezinha de Portugal cheia de charme e atrativos, onde delícias da culinária como os "travesseiros da Periquita" e as "queijadas de Sintra", conhecidas em todo o mundo, fazem a festa gastronômica dos turistas e visitantes em geral. À parte essa característica peculiar, que leva tanta gente a não deixar a cidade sem antes degustar as citadas guloseimas deliciosas, quase como se fossem parte de um ritual importante, algo mais voltado ao prazer do espírito e da alma atrai multidões o ano todo: os castelos e os palácios recheados de histórias e fantasias. Dentre estes destaca-se, em magnitude e imponência, o Palácio da Pena.

Evidentemente, constava de nossos planos de viagem a Portugal conhecer o famoso Palácio da Pena, pois, afirmavam todos, seria um passeio imprescindível para quem vai àquele lindo País. Já tínhamos lido bastante e visto fotos dele na internet, sabíamos muito a respeito e faltava, agora, vê-lo e tocá-lo. A idéia inicial tinha por base o aluguel de um carro para tornar o passeio até Sintra mais confortável e tranquilo. Infelizmente, porém, para dirigir por aquelas bandas eu precisaria portar carteira internacional de motorista, e as providências para obtê-la demorariam além do tempo que eu tinha antes de viajar. Como chegamos a Lisboa no sábado, dia 04/04/09, eu e minha esposa achamos por bem ir a Sintra no dia seguinte juntamente com o grupo de Natal que viajou conosco. Fizemos as reservas no ônibus da empresa ao entardecer daquele dia, tão-logo voltamos do city tour. Mas, no horário da saída, domingo, fomos avisados que o passeio tinha sido cancelado e não haveria mais o trajeto até o Palácio da Pena. Ficou tudo sem explicação plausível apesar das reclamações dos circunstantes. A decepção, claro, foi geral. E agora, como faríamos, então, para seguir o roteiro de passeios até o Palácio da Pena? Não poderíamos regressar ao Brasil sem visitá-lo, isso estava totalmente fora de cogitação. Fomos correndo atrás do prejuízo.

A recepção do hotel informou-nos que se desejávamos tanto conhecer Sintra e visitar as maravilhas de seus palácios e castelos, havia um ótimo meio de transporte ligando Lisboa àquela cidade, o comboio, saindo diariamente, de vinte em vinte minutos. Mostrava-se uma ótima opção, afirmou, e faríamos uma viagem rápida, segura e a preço bem convidativo. E nos passou todas as instruções para não haver equívocos, detalhando inclusive os pontos de referência num mapa do País.

O sistema metroviário de Lisboa é um dos mais perfeitos e funcionais de todos os que já conheci, se bem sejam poucos, em minhas viagens. Monumental e seguro, com o que há de melhor em tecnologia na área, apto para transportar centenas de pessoas para os pontos mais importantes da cidade e com uma rapidez impressionante, o Metro, como os lisboetas chamam, funciona tal qual um relógio suíço. Aliado a esse conveniente meio de transporte eficiente, as linhas de auto-carros, bondinhos e elétricos fazem do transporte urbano de lá, caso o turista não esteja num carro alugado ou não encontre táxi com a rapidez que deseja, a melhor maneira de cumprir seus compromissos em cima da hora.

Primeiro apanhamos um elétrico e fomos para estação Cais Sodré, onde entramos no sensacional universo metroviário de Lisboa. Fiquei muito admirado com a magnitude do local, mesmo já tendo testemunhado a modernidade da Capital portuguesa por todos os lugares onde passei. Lá, mesmo penetrando num mundo desconhecido onde centenas de pessoas com pressa corriam para o trabalho, tomamos o metrô que seguiria para a estação Restauração, desceríamos e, daí, no mesmo local mas do outro lado, tornaríamos a entrar no metrô cujo destino era a estação Jardim Zoológico. Seria aí, então, onde embarcaríamos no comboio que fazia o trajeto para Sintra de vinte em vinte minutos. Um inesperado problema causado por informação truncada nos fez perder vinte e cinco minutos preciosos. O comboio com destino a Sintra partiria da estação Restauração, não daquela aonde chegamos em pouco tempo. O remédio era voltar por outra linha do metrô, e para isso teríamos de fazer novamente a volta até o outro lado, subir e descer escadas além de percorrer um longo corredor até encontrarmos a linha a ser apanhada. Sim, e tornar a validar o cartão em um das dezenas de entradas do metrô. Assim fizemos, que remédio! Apesar detudo, em pouco tempo estávamos regressamos à estação Restauração e logo saltamos desabalados a fim de pegar o primeiro comboio que estivesse para partir. Não chegamos a tempo para isso, porém. O comboio lá estava mas já prestes a seguir para Sintra, ninguém mais podia embarcar. Foi preciso esperar mais vinte minutos pelo próximo. Decorrido o quê, enfim seguimos viagem. Quanta dificuldade enfrentamos, bem se vê, todavia nada que não tivesse vindo para enriquecer-nos como seres humanos e aprendermos mais sobre a batalha da vida! São essas pequenas e interessantes experiências de nossa existência que nos deixam entrever tantas verdades sobre nós mesmos como também a respeito dos nossos semelhantes, tornando mais ameno o refletir acerca do quanto é efêmero e tênue tudo que nos rodeia.

Aprendi com a vivência a gostar da companhia de outros seres humanos e de ver estampado em seus rostos curtidos pela rotina cotidiana as marcas do tempo, da vida, dos sorrisos, das vicissitudes, do sofrimento e da felicidade. Penso ser impossível conhecer a alma das pessoas de outros Estados brasileiros ou de lugares diferentes em países estranhos se não compartilhar com elas um pouco de seu suor, riso e lágrimas. No metrô acompanhei o povo trabalhador, lado a lado, homens e mulheres, do menor ao mais alto escalão, bem vestido com seus trajes de grife ou modestamente trajado na simplicidade de suas condições, vivenciando o dia-a-dia de Lisboa. No meio deles, perscrutando suas expressões, vi-lhes o coração e a alma no mais forte pulsar. E no comboio igualmente. Aprendi mais sobre Portugal nos elétricos, no metrô e no comboio indo e vindo de Sintra do que participando do city tour e visitando os tradicionais pontos de turismo da capital.

Havia grande agenda a ser cumprida em Sintra, eu e Ana queríamos realmente obedecer todo o roteiro por nós traçado antes mesmo de pisar as terras lusas. Era questão de honra e vontade não retirar nem mesmo uma vírgula do compromisso assumido conosco mesmo. Um porém, no entanto, nos impulsionava mais ainda a não perder tempo em nenhuma ocasião: a amiga Lisa, do blog Momentos Meus, residente em Lisboa, a quem não conhecíamos pessoalmente, iria encontrar-se conosco no hotel por volta das dezoito horas. No dia anterior, o domingo, conversamos com ela por telefone e ficamos de nos encontrar no Shopping Colombo, mas o desencontro ocorreu e não foi possível. Depois de muita procura mútua(o shopping é gigantesco, um dos maiores da Europa, dizem) e, enfim, a desistência da amiga quando a hora avançou, tivemos a felicidade de conversar com ela por telefone e marcamos o encontro no hotel para o dia seguinte. Isto é, no exato dia de nosso passeio a Sintra. Urgia, por isso, ganhar tempo o máximo possível. Abraçar a amiga especial Isa, uma de nossas prioridades na viagem, e visitar o Palácio da Pena, rota de todos os turistas que vão a Portugal, se faziam dois compromissos importantes e imprescindíveis.

Passava das nove horas da manhã(cinco horas no Brasil) quando descemos em Sintra. Na estação avistamos enorme fila, perguntamos de que se tratava, percebemos não fazer parte do nosso roteiro e saímos a passos rápidos perguntando aos transeuntes como fazer para ir ao Palácio da Pena. A poucos metros dali existia um ponto de ônibus turístico que levava os visitantes até lá, disseram. Apressamo-nos naquele rumo, onde já outro amontoado de turistas de vários países tentava formar mais fila à espera do tal ônibus. A mistura de vários idiomas falados ao mesmo tempo provocava-nos a cômica sensação de estarmos perdidos no interior da Torre de Babel. Japoneses, chineses, turcos, alemães, americanos, austríacos, italianos e brasileiros, entre outros tantos mais, falávamos ao mesmo tempo fazendo nos tímpanos uma apoteótica sopa de linguagens. Eles, como nós, optaram pelo bater forte do coração em meio à população local, pela novidade de perguntar e sentir emoções novas. Não poderiam estar, naquele momento, confortavelmente sentados em onibus fretados seguindo tranquilos para o palácio, sem atropelos nem perda de tempo? É claro que sim, mas preferiram se emocionar, sentir o bater forte e descompassado do coração, fotografando locais e ângulos que jamais seriam vistos por turistas acomodados. Podem ter certeza de que aqueles estrangeiros denotavam ser gente endinheirada do Primeiro Mundo. Contudo, estavam lá, em plena rua de Sintra, aguardando o coletivo como qualquer pessoa comum.

À chegade de um luxuoso e moderno ônibus, fomos entrando e pagando 4,50 euros cada(cerca de R$ 13,95) para ir até o Palácio da Pena e voltar. No interior do coletivo percebemos que ele era muito mais luxuoso e moderno do que pensávamos. Parecíamos estar dentro de um avião, tamanho o conforto sentido e a tecnologia exposta aos nossos olhos. Na mistura de idiomas, impossível de ser compreendido pelo motorista, o entendimento se fazia por mímica. Embarcados quantos cabiam para completar a lotação, saímos pelas ruas, vielas e becos de Sintra deixando a vista vagando por entre as imagens que iam passando à velocidade do ônibus. No caminho, avistamos muita gente indo de bicicleta(alugadas aos turistas) e a pé como se quisesse, nessas condições, fazer penitência ao enfrentar a árdua subida com enorme esforço físico.

Eu e Ana resolvemos ficar nas proximidades do Castelo dos Mouros, indo na direção de uma espécie de quiosque de razoáveis proporções onde, é evidente, já havia filas para a venda dos bilhetes de acesso ao Castelo. Conosco desceram outros turistas e depois o ônibus prosseguiu a caminho do Palácio da Pena, cerca de trezentos metros ladeira acima. Chovia fino naquele instente e havia chovido bastante antes deixando o asfalto molhado e escorregadio. A visita ao Castelo dos Mouros e ao Palácio da Pena, caso o interessado comprasse as duas entradas de uma vez, custava 13,00 euros(R$ 40,00 reais) por visitante; se resolvesse adquirir o bilhete separado ou quisesse conhecer somente um dos dois desembolsaria 11,00 euros( R$ 34,00 reais). Se bem nos arrependéssemos após "escalar" as simples ruínas sem muita graça do Castelo dos Mouros, que de interessante tinha somente sua altura incomum, de onde, malgrado isso, ganhamos uma vista muito bonita da cidade de Sintra e seus arredores, adquirimos o pacote completo.

Não existe praticamente nada para ver no Castelo dos Mouros, senão ruínas e escombros, dezenas e mais dezenas de degraus se desfazendo, subidas íngremes no barro seco, restos de nada e lembranças da história. Para chegar aos seus inúmeros recantos e desvãos, onde outrora havia aposentos por todos os lados, além disso, ainda é necessário ter um ótimo preparo físico, estar com o coração em dia e ter muita disposição para andar e andar bastante, sob pena de não atingir nem a metade do caminho. O ímpeto da caminhada, no entanto, vai despertando o turbilhão de adrenalina e nos torna capaz de seguir sempre na direção do ponto mais alto sem pensar nas consequencias físicas posteriores. Em alguns pontos, paramos tanto para respirar fundo como para apreciar as indescritíveis vistas com que nos deparávamos. E fotografar, perenizando o momento.

.......continua

sábado, 18 de abril de 2009

NÓS NA EUROPA

Uma viagem ao Velho Mundo é sonho acalentado em muitos corações desde priscas eras, todos nós sabemos disso. Assim comigo foi, evidentemente. Só não tinha certeza se um dia qualquer da vida concretizaria essa quimera. Passou o tempo e o sonho continuou a ser acalentado enquanto o cotidiano prosseguia. Certo dia, quando passei no concurso promovido pelo Banco do Brasil, lá pelos idos de tantos anos atrás, já no meu inconsciente recrudescia esse incipiente desejo de, um dia, também sorver o ar europeu e deixar-me os olhos repletos das diferentes imagens jamais vistas antes. A Europa, ou parte dela, tornou-se, sabe-se lá desde quando, o sonho de consumo de grande parte dos brasileiros. Eu não fui exceção. Quando alguns amigos por lá andavam e ao retornar relatavam suas aventuras, diversões e conhecimentos, falando desse Primeiro Mundo com os olhos quase marejados de tanta emoção, fluía-me tanto o anelo de alcançar tamanha graça. Então fui semeando esse sonho ao longo de minha existência entre planos que se esvaíam e devaneios evanescentes.

Quando, por fim, chegou a grande oportunidade de, pelo menos, conhecer algumas cidades lusas e mais uma espanhola não titubeei nem pensei duas vezes. Cabia no meu orçamento o montante da despesa, minha esposa incentivou-me e eu, é lógico, mais do que tudo ansiava por esse momento. Fomos à agência de viagem que nos tinha enviado o e-mail-convite para adquirir o pacote e, como é óbvio, lá enfeitaram o bolo com as mais belas cores para encantar-nos. Não sem razão, afinal de contas faziam seu papel de sagaz vendedor. Só que tentaram de tudo para esquecer que o vôo charter no qual viajaríamos havia sido contratado por uma operadora de Salvador, na Bahia. Consequentemente, o avião já viria de lá com passageiros e não poderíamos saber quais seriam nossos lugares, arriscando, inclusive, a não ficar acomodado junto de minha esposa durante o trajeto. Isso, porém, somente descobri no dia da entrega dos vouchers, uma semana depois numa pretensa solenidade que, disso, não tinha nada. Parecia mais um corre-corre sem rumo, afora, ainda mais, a quase absoluta falta de informação sobre praticamente tudo relativo ao nosso vôo. Precisaríamos, explicaram-nos, chegar bem cedo ao aeroporto, umas quatro horas antes, para tentar conseguir viajar juntos, lado a lado. Imaginem!

Bom, já que era assim, procurei adaptar-me aos fatos para não enveredar pelos caminhos do estresse. Então, precavido, liguei um dia antes para a cooperativa de táxi contratando um deles para pegar-nos às sete horas da noite para levar-nos ao aeroporto onde faríamos o check in às oito e trinta. E o que aconteceu no dia da partida? Às sete horas em ponto estávamos nós no portão do nosso condomínio aguardando o táxi, esperançosos de vê-lo chegar a qualquer momento. Sete e dez, nada; sete e vinte, nada. Liguei uma vez para a cooperativa e a telefonista, aflita, garantiu-me que o motorista já estava a caminho; mas ele não chegava. Tornei a ligar e ela, apavorada, explicou que há muito o táxi saíra ao nosso encontro, o problema era o trânsito. Às sete e trinta, meio desesperado, ouvi o porteiro do condomínio dizendo que tinha um amigo taxista capaz de chegar bem ligeiro para levar-nos ao aeroporto. Nesse momento, ufa, pinta o tal do taxi na esquina na maior tranquilidade. Dei-lhe uma bronca, colocamos a bagagem na mala do carro e mandei-o enviar o pé na tábua.

E a odisséia para comprar euros? Qualquer um faria o que fiz na ocasião, isto é, esperar a queda da moeda européia para adquirí-la por um preço razoável, de maneira a aproveitar o melhor momento. Essa estratégia, no entanto, quase levou-me a ir para a Europa somente com os primeiros euros comprados dias antes, quando a moeda estava em relativa baixa, e mais o cartão de crédito, que inapelavelmente teria de usar. E isso, sem dúvida, encareceria ainda mais a viagem por conta das taxas e mais taxas cobradas pela operadora de cartão de crédito para fazer as transações. Por conseguinte, no dia do vôo para Portugal eu ainda siguezagueava pela cidade, de casa de câmbio em casa de câmbio, à procura de euros. Em vão. Nenhuma delas tinha a quantidade necessária ao número de pessoas prestes a viajar. E grande parte delas também perambulava à procura, ou praticamente todos porque precisaríamos deles para as compras e estadia de uma semana. Quando cheguei a determinada casa de câmbio, uma senhora, passageira do mesmo vôo parar Portugal, também ansiosa, estava comprando o cartão de crédito emitido pelo estabelecimento no valor em euros por ela pretendido, é claro, embutidas as infames taxas e encarecendo a aquisição. Cheguei a pensar que eles escondiam os euros para, no último momento, ante uma súbita alta na bolsa, vender-nos com gordos lucros. Depois de muitos altos e baixos, telefonemas, desabafos e prestes a apelar para o plano "b", que seria comprar num banco pagando taxas taxas ainda mais altas, finalmente uma casa de câmbio reservou-me a quantidade de euros de que eu necessitava, paguei o valor respectivo em reais e pude, afinal, suspirar aliviado por vencer mais essa etapa da viagem.

Ah!, Sabem quem eu encontrei na cabeça da fila do guichê da empresa aérea quando cheguei ao aeroporto? A dita senhora que havia comprado o cartão de crédito carregado com euros. Como era possível aquilo? Corri tanto para ser o primeiro a chegar. Mas ela também temia não ficar ao lado das amigas com quem viajaria, por isso pensou como eu em fazer plantão bem cedinho para ser a primeira no check in. E foi, a danada. Além dela, mais outras duas pessoas chegaram antes de mim. Nossa viagem de sete horas e trinta minutos rumo a Europa estava, agora, na iminência decomeçar.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - III

A fila nos levou até a entrada do túmulo de São Tiago, o apóstolo. Não tão rapidamente, porém, porque, muito comprida, serpenteava vagarosa por entre o tumulto de muita gente indo e vindo. Além do mais, comprovei mais tarde, a entrada do túmulo era estreita e alta, sendo preciso subir alguns degraus para alcançá-la. Quando de nossa vez, ao adentrarmos no local surpreendeu-nos a repentina e inesperada presença de um monge sentado no estreito recinto, as mãos cheias de santinhos, ao lado do busto de Tiago, circunspecto e todo cerimonioso. Ana olhou para ele meio assustada esboçando um sorriso decerto constrangido, mas o religioso endureceu o olhar e disse algo ríspido, eu entendi uma ou duas palavras do seu sotaque galego, ao contrário de Ana que olhou para os lados, tornou a sorrir - eu sorri também -, arrancando do religioso um suspiro de enraivecimento, tanto que prosseguimos túmulo adentro sem dele recebermos o santinho distribuído aos visitantes.

A enorme construção, com mais de oito séculos nos costados, dividia-se em diversos compartimentos, cada um com sua própria história e característica, destarte nada fácil de ser visitada em seu todo em tão pouco tempo. Vinha o momento do almoço, por outro lado, ademais ainda haveríamos de explorar as redondezas em busca de restaurantes, a chuva continuava a cair, não conhecíamos aquele labirinto, uau!, uma série de questões nos impeliram ao corredor de saída. A velhinha que esmolava à porta continuava lá entregue aos lamentos numa ladainha incompreensível, a mão estirada no indefectível gesto de pedir, completamente coberta da cabeça aos pés, de fora somente os espertos olhinhos.

A saga da procura por um restaurante ao nosso gosto, onde não fosse permitido fumar(em quase todos eles as pessoas podem fumar à vontade, há placas informando logo à entrada dos estabelecimentos) durou uma eternidade. Mormente por causa da chuvinha renitente e perturbadora. Sob o simples abrigo de uma sombrinha comprada à saída da Catedral, entrávamos em ruelas, descíamos e subíamos ruas com piso irregular, salpicados pelo toró interminável e nada de encontrar local para não fumantes. Optamos, ao depois de tanto perambular, por um onde não avistamos a malfadada plaquinha dando conta ser próprio para fumantes, o Casa de Xantar Burzo Enxebre, meio escondidinha na dobra de uma esquina. Provavelmente não seria permitida a presença dos fumantes com suas irritantes baforadas venenosas. No entanto, a vitória mostrou-se efêmera ao entrarmos, pois o tal aviso, bem maior e em destaque, fora colocado justamente no salão das refeições. Decepcionado, fiz menção de sair e continuar o périplo lá fora, mas como o lugar estava vazio e Ana sugeriu-me ficar ali mesmo por causa da hora e do mau tempo, acatei a sugestão e sentamos. Tratando-se de estabelecimento onde poderiam fumar à vontade, durante toda minha estadia fiquei tenso ante a possibilidade de alguém acender um cigarro e soltar baforadas a torto e a direito. Graças a Deus isso não aconteceu apesar das muitas pessoas que chegaram depois e de nós e quase encheram o restaurante. Deliciamo-nos saboreando um prato típico da região: Lubina à prancha.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - II




A catedral de Santiago de Compostela é suntuosa e envolvente e nos passa a nítida e quase palpável impressão de ter qualquer coisa de fenomenal, como se em seu interior houvesse algo de tal forma grandiloqüente que, como uma invisível mão afável, parece nos fazer gestos de carinho e afeto no rosto, nos deixando enlevar e sentir como se penetrássemos num mundo totalmente à parte do nosso cotidiano. Meio que na penumbra, velas acesas por todos os lugares, congestionada por uma verdadeira multidão de pessoas de várias nacionalidades e idiomas, as vetustas colunas ensebadas por dedos e mãos que ali pousaram em situações certamente as mais íntimas e misteriosas, deixava entrever, contudo, naquela babel onde o respeito predominava apesar de tudo, um belíssimo e fabuloso altar elaborado por hábeis artistas da arte religiosa e no qual, me pareceu, predominavam inúmeras peças de ouro amontoadas com precisão entre um sem número de objetos da fé católica formando um deslumbrante espetáculo para os olhos e para a alma.

A chegada de peregrinos que fizeram o caminho a pé


Embora o falatório, os murmúrios, o espocar das luzes oriundas das máquinas fotográficas, os risos e a mistura disso tudo como interminável explosão de som atordoante, dois padres, sentados um em frente ao outro nos bancos perpendiculares ao altar, liam a bíblia e rezavam metidos em seus paramentos e alheios a tudo. O local onde os dois permaneciam estava vetado à multidão por cordões de isolamento, assim não podíamos fotografar o altar senão apenas de ângulos tortos e incompletos. Eu olhava tudo atentamente tentando memorizar cada detalhe das centenas de detalhes existentes, pois o ar do ambiente me deslumbrava, o estilo antigo da arquitetura medieval mexia nas minhas emoções e, afinal de contas, caminhava por espaços ricos em história e mistérios.


Num dos restaurantes de Santiago


Na ânsia de guardar as lembranças em muitas instantâneos, para recordar depois todos os instantes daquele passeio único, sem perceber fiquei ao lado de um dos muitos confessionários enquanto Ana se posicionava para fotografar. Súbito, no entanto, notei alguém ajoelhando-se mas, por milésimos de segundo, ainda sem conseguir entender a realidade e o significado espiritual do gesto. Foi necessário Ana aproximar-se de mim e sussurrar-me ao ouvido: "tem um padre aí dentro e esse homem ajoelhado está se confessando". Nada ouvi do interlúdio entre os dois, claro, nem poderia porque o barulho não deixara. Além do mais, estou certo, não compreenderia a linguagem dos dois se lograsse ouví-los. Saí de fininho à procura de outro espaço.

O altar da Catedral


Vimos uma grande fila e para lá nos dirigimos apesar de não sabermos aonde levava, embora isso não importasse muito desde que se tantos a ela se juntavam é porque havia alguma coisa especial para ver. E como tínhamos ido a Santiago de Compostela dispostos a apreciar todas as atrações possíveis, enfrentamos a espera.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A CAMINHO DA ESPANHA



Chovia de forma intermitente e adejava no ar um frio cortante quando chegamos a Santiago de Compostela, na Espanha. Descemos do ônibus na Praça Xoan XXIII(João 23, na língua galega, na Galicia), onde seria nosso ponto de encontro para o regresso à cidade de Porto, em Portugal, e saímos a correr procurando abrigo. Resfriado em virtude do repentino sol que surge esbraseante em meio à baixa temperatura reinante, e devido também à constante chuva trazida pelas nuvens súbitas que cobriam os raios solares por instantes, depois se iam para novamente voltar, espirrando, o nariz escorrendo de tanta coriza, a garganta ardendo como se estivesse cheia de areia seca, eu precisava proteger-me das chicoteadas dos pingos a encharcar-me os cabelos e bater-me os costados antes de alcançar a Catedral onde estão os restos mortais do apóstolo de Jesus, Tiago, cognominado o maior.



Ainda sob as impressões impactantes dos relatos da nossa guia a respeito de como o corpo de Tiago chegou à Espanha, as peripécias passadas por seus amigos para esconder seu corpo, os sonhos sobrenaturais sobre onde o teriam sepultado às escondidas dos perseguidores, as histórias dos primeiros peregrinos a fazerem o caminho, a pé, saindo da França ou de Portugal, tomou conta de mim uma áurea de mistério e um clima de curiosidade.



Enquanto caminhávamos debaixo da chuva interminável e do frio gélido, algumas pessoas às portas de restaurantes, lanchonetes e lojinhas nos ofereciam pedaços de tarte de amêndoas, pães de nozes(excelentes!) e outras tantas guloseimas mais cujos nomes não consegui nem anotar ou memorizar, tudo com o claro intuito de nos arrebanhar para as compras nos seus estabelecimentos. Ainda assim, contudo, a atitude e a gentileza de suas palavras me faziam lembrar dos peregrinos cujas rações de carne seca, pão e água eram divididas entre os demais que pouco ou quase nada levavam enquanto, conduzidos por uma fé inabalável, atravessavam vales e montanhas, enfrentavam as intempéries do clima, os salteadores e as feras para, após meses caminhando(muitos deles andavam o ano inteiro), finalmente chegarem à Catedral(Sé, como lá eles chamam) e, ali, tocar a coluna e bater a cabeça por três vezes ao santo do croc, como faziam os estudantes para obter seus pedidos. E só então, por fim, adentrando ao sepulcro, abraçar a imagem de Santiago e dizer a seguinte frase: "amigo, recomenda-me a Deus."

Ainda longe da catedral e castigado pela queda d água que não queria parar, faltando um bom percurso até lá debaixo desse mundão de pingos intermitentes, ouvimos um lamentoso e alto som de gaita, escocesa oriundo de uma arcada que deveríamos atravessar. O barulho, altíssimo esconder o bater da chuva no chão e nos telhados, infernizava a vida de quem passava e era feito por um jovem anônimo que certamente ali estava como aventureiro a esperar que seu instrumento tocado fizesse condoer o coração dos turistas para ofertar-lhe algumas moedas de euro. A caixinha no chão com algumas delas deixava isso bem claro. Bem à sua frente, uma mulher segurando um cachorro grandão pela coleira apreciava a cantilena, mas o animal se mostrava inquieto e ansioso balançando a cabeçorra, engolindo em seco e fazendo menção de sair dali aos solavancos. Passamos pela arcada quase correndo e sem nos importarmos com a queda d água, pois metía-nos medo tanto o cão quanto o ensurdecedor barulho da gaita escocesa.

E lá fomos nós, já desgarrados do grupo que veio conosco, a perambular em busca da Catedral de Santiago e nos vimos rodeados por inúmeras entradas e saídas de todos os lados, espécie de labirinto estilo medieval desconcertante para quem ali se encontrava pela primeira vez, sem saber onde seria mesmo o lugar aonde estávamos indo, avistando diversas lojas de artesanato religioso, lanchonetes e restaurantes de um lado e de outro e a chuva apenas diminuindo de intensidade mas sem nos deixar, parecendo fazer-nos companhia, tudo isso contribuindo ainda mais para dificultar nosso objetivo. Foi necessário perguntar onde ficava a catedral para descobrí-la, enfim. E lá conseguimos entrar, por fim, após enfrentar a fila dos que entravam paralela à dos que saíam no alvoroço do momento. Começava, ali, para nós, a visita a um universo onde respiraríamos história, religião e espiritualidade.


sábado, 11 de abril de 2009

A ALEGRIA DE VIAJAR E CONHECER

Eu, minha esposa e Isa

Ter amigos é uma maravilhosa dádiva que nós, seres humanos, cultivamos com o mesmo cuidado com que semeamos uma plantinha a quem dedicamos especial atenção. Comprovei isso durante esse passeio inesquecível que fiz ao lado de minha esposa para Portugal e Espanha. Amigos não escolhem lugar para existir, estão em todos os lugares e se espalham ao longo das cidades e dos países. Embora eu tenha encontrado somente uma amiga em Lisboa, a Isabel(Isa, do blog Momentos Meus), ela representou a todos com sua contagiante simpatia, seu sorriso doce de quem conquista onde quer que esteja e abre portas, com seu jeito materno de abraçar e cuidar, bem como, também, sua maneira alegre de conversar expressando, sempre, aquele ar de dedicada atenção ao interlocutor. Conhecer essa pessoa fascinante que é Isa, cuja animação e simplicidade ganhou ainda um lugar no coração de minha esposa e um grandão no meu, valeu à guisa de algo mais oferecido por essa viagem à Europa.



Uma variada gama de quase indescritíveis fatos, imagens, momentos cômicos e acontecimentos hilariantes fizeram de nossa viagem internacional uma novela, ou um livro bem melhor diria, de forma a permanecer na lembrança ao longo da vida. Cada item e instantes, paisagens, minúcias, as cores do céu ao amanhecer, as atordoantes e monstruosas turbinas do avião a fascinar, o amontoado de homens e mulheres em constante vai-e-vem no interior do imenso avião, um pombinho cuja pata esquerda estava amputada, ninhos de cegonha sobre postes de iluminação, vales e montanhas verdejantes tomando conta dos olhos e encantando, as àrvores de onde se extraem as tão conhecidas cortiças, os olivais, os parreirais, as vindimas, o Rio Tejo, o Rio Douro(em Portugal), o Rio Minho, que separa Portugal da Espanha, Santiago de Compostela(já na Espanha), o engenhoso e espetacular sistema de auto-estradas perfeito, no qual as rodovias são tão suaves como se estivéssemos guiando um carro sobe um tapete persa, as chuvas repentinas, o frio cortante, as ruas estreitas e tortuosas tanto de Porto quanto de Lisboa, a beleza religiosa de Fátima(onde, diz a história, três pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta viram uma aparição de Maria), a carroça voadora, o deslumbre até mesmo assustador do Palácio da Pena, a vida que se descortina do alto do Castelo dos Mouros, o impacto surpreendente do Mosteiro dos Jerônimos, as construções medievais de Porto, enfim, há tanto, mais tanto para relatar e registrar que, temo, não conseguirei escrever ante minhas tão parcas condições literárias para isso. Contudo, ainda assim, tentarei. O que vi e anotei na Europa precisa ficar não somente na minha lembrança e nas fotos, mas também nas minhas divagações crônicas e devaneios escriturais. Tentarei ser o mais fiel possível na descrição dos momentos vividos, mesmo sabendo não ser uma tarefa fácil.



Estou feliz por voltar, e trago no coração a certeza de que viajar é uma das melhores forma de estudar, de aprender e ser educado pelo próprio cotidiano a nos envolver. Quando saímos além-mar nossa visão se torna mais eclética e descobre mais contornos do viver humano do que seria possível permanecendo no nosso diminuto mundo, no pequeno espaço de nossa cidade e País. Para conhecer melhor os diversos ângulos da vida precisamos estender nossas fronteiras, ultrapassar oceanos, falar outras línguas, abraçar outros povos e respeitar suas culturas, aprendendo com eles e elas. Eu voltei mais sábio, mais humano e mais compreensivo da Europa.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

NAMORANDO O CÉU


foto: Gilbamar de Oliveira



Cada por do sol é único e especial, nenhum é igual ao outro, sobretudo porque todos têm sua própria digital romântica, uma assinatura inédita e impossível de copiar. Namorando os entardeceres, dominado pelo mágico e preciso instante em que o céu se transforma numa incomensurável aquarela e um genial pintor invisível, porém presente e talentoso além do imaginado por nossa vã filosofia, separa as inúmeras tintas, misturando-as para encontrar a tonalidade mais linda, vou assistindo ao ritual do astro-rei se recolhendo aos seus aposentos abaixo da linha do horizonte, esplendoroso em sua magnitude real. E, à medida que ele suavemente se despe do ocaso vagaroso e belo, retirando peça por peça com o mesmo ar faceiro e brejeiro de uma stripper, ruborizado porque visto por milhares de sonhadores como eu, as cores do seu espaço vão se multiplicando, parecendo que ele está se redesenhando, talvez passando demaquiante para retirar as impurezas do dia, debruadas as tintas de maneira harmônica a formar um esplêndido conjunto onde o colorido adquire aquele aspecto misterioso e sui-gêneris que nos dá a sensação absoluta de não ser labor natural, senão divino.

Eu coleciono pores-do-sol da mesma maneira que um garotinho tem a sua coleção de figurinhas ou de carrinhos de brinquedo. E sou tão cuidadoso quanto ele, quiçá vou muito além do zelo quando se trata de pô-los em ordem nos pensamentos. É que os guardo num insondável arquivo reservado do meu coração, recanto a que somente eu tenho acesso, um lugar bem na ala subjacente à das emoções e destinado aos arquivos onde repousam os meus sonhos, ilusões e devaneios. Nesse santuário íntimo é onde me reencontro e descubro as entranhas mais profundas do meu eu. Ali, junto à intimidade dos meus guardados, coisas só minhas, usufruo do prazer de me buscar e fazer companhia ao meu ego. Já aqueles pores-do-sol escondidos são minuciosamente catalogados nesse recôndito, onde permanecem organizados e à minha disposição quando a estação invernosa chega, oportunidade em que, então, posso admirá-los um a um embora o dia esteja nublado.

Conheço de cor as cores e os traços que os definem, e, por vezes, nos estertores da madrugada, ao nascimento de um novo alvorecer, ao invés do sol que chega recordo os que se puseram e fizeram do céu uma extraordinária festa de coloridos indizíveis e fogos de artifícios silenciosos. É evidente ser inegável, óbvio, por outro lado, a beleza existente no fluir dos raios solares no amanhecer renovado, momento em que o infinito também se mostra quase tão lindo e vale a pena acordar cedo para ver o quebrar da manha. Isso, contudo, é apenas quase tão aprazível quanto o cair da noite, pois a beleza do por do sol não pode ser comparada nem dividida, sua existência é ímpar.

Daí esse meu teimoso aconchego extremado com tal intervalo especial do tempo e do encanto, da luz e da escuridão, do dia terminal e da noite recém nascida, da beleza perfeita com a mera beleza simples, do viver ralo com o estar vivo e esbanjando felicidade. Sem comparações, porquanto as peças desse astronômico universo, mesmo a mais ínfima e comum, são importantes na mesma proporção, na mesma equidade. O complexo corpo universal necessita de unidade, de estar em uníssono com o seu todo sem prescindir nem do desprezível fio de cabelo caído em algum lugar esquecido. Há uma cadeia ecológica a ser preservada. E inserido nesse contexto beirando o metafísico encontra-se o por do sol, alvo das minhas emoções à flor da pele, dos meus súplices olhares necessitados de beleza.

domingo, 29 de março de 2009

CHEGA DE FLANELINHAS

O nosso País tem nas mãos um grave problema com premente necessidade de solução: refiro-me aos assim chamados flanelinhas, uma verdadeira onda de desempregados encostados pelas ruas, num movimento de acomodação e (des)cidadania que vem se alastrando de forma descontrolada e, creio, irreversível. São pessoas que, no meu modesto entender, praticando esse tipo de “atividade” indesejável, nada produzem para a sociedade, não querem trabalhar porque sentados em algum lugar do centro podem “ganhar” mais do que ganhariam se estivessem empregadas, por isso não pretendem outra vida. Por conseguinte, eles não dão qualquer passo para sua cidadania, certamente não estudam e, abanando suas flanelinhas para cada motorista que avistam, vão tomando posse de grandes extensões destinadas aos carros, tornando-as áreas privadas das quais se acham donos e delas não abrem mão. Lá, eles mandam e desmandam e ninguém faz nada, diz nada, impede nada. Acuados, os motoristas temem deixar seus transportes nas imediações ou, se o fazem, são obrigados a pagar por uma vaga a que têm direito porque pagam o IPVA e demais taxas e impostos para circular e estacionar em qualquer área permitida pela legislação de trânsito. Já os mencionados flanelinhas, sem patrão, sem horário, dono do próprio nariz, mas sem contribuir em nada para o progresso da Nação, vão se apropriado dos estacionamentos públicos sem qualquer problema, olhando com cara feia para quem ousa não deixar a gorjeta conforme suas regras. Alguns, mais atrevidos, cobram valores estipulados por eles mesmos. Embora toda regra tenha exceção e sabemos disso de cor e salteado, os flanelinhas são arrogantes, grosseiros e, muitas vezes, perigosos. Sim, perigosos porque se o dono do carro estacionado não “pagar” para deixar seu carro ali no espaço que já considera dele, o pretenso “dono do pedaço” pode arranhar o precioso e caríssimo bem, secar ou mesmo furar os pneus do carro. A coisa encontra-se de tal maneira já incontrolável que, segundo dizem, eles cometem violência entre si para não perder o ponto demarcado como seu. Alguns chegam mesmo a matar para conservar o espaço que eles consideram de propriedade particular, seu espaço de “trabalho”, tremendo absurdo a prejudicar quem tem o sagrado direito de estacionar onde lhe for permitido por lei nas ruas da cidade.

Há que ser feito alguma coisa para a proteção de quem circula de carro pelas ruas e deseja estacionar nas proximidades dos lugares para onde si dirige com as finalidades corriqueiras. Porque se quem quer que seja parar seu automóvel em qualquer dos diversos pontos diferentes do centro da cidade encontrará em cada um deles um flanelinha. E todos, sem exceção, “cobrarão” uma graninha para “olhar” o automóvel. E eles de imediato encaram o cidadão no carro com um certo ar de superioridade, de senhor da rua, quase sempre vomitando ameaça nas entrelinhas de suas gírias. É irritante, sem dúvida, e paira sobre nós o indefectível desconforto de não ter a quem apelar para que haja um fim nessa extorsão velada. Quando vai deixar de existir flanelinhas nos logradouros públicos? Quando poderemos estacionar livremente nossos carros nos locais permitidos por lei sem tremer diante de um desocupado com uma flanela na mão? Uso o termo desocupado porque não existe na Legislação Brasileira a profissão de flanelinha. E se existisse, quem seria o patrão? Seríamos obrigados a pagar mais esse imposto para aqueles ociosos sentados nas esquinas?. O pior é que muita gente acostumou mal tais pessoas. Sim, já vi motoristas procurando o flanelinha, aos gritos, para entregar-lhe a “gorjeta” ou o “pedágio” eu diria melhor, enquanto o cara está distante, de costas, fumando e rindo com os seus parceiros. O referido motorista não sossegou até que ele, quando quis, virou-se e, andando todo displicente e faceiro, sem pressa, foi receber o dinheiro. ABSURDO!

Então essa coisa de aparecer flanelinha nas grandes cidades foi crescendo e se disseminando estupidamente pelo País até o ponto em que atualmente se encontra. E agora? Por que não fazemos como a Prefeitura de Gramado, no RS, que, segundo alguém me disse, não permitiu de jeito nenhum a proliferação de flanelinhas em suas ruas? Gramado talvez seja a única cidade brasileira sem essa praga social. O restante do Brasil, contudo, está sendo obrigado a conviver com esses malandros, que não querem estudar, nem trabalhar, nem produzir algo decente para a Nação, preferindo a vagabundagem paga em virtude do medo que nos atormenta. Deixo meu protesto diante do silêncio das autoridades responsáveis pelo problema. E grito: ABAIXO OS FLANELINHAS!!

sexta-feira, 27 de março de 2009

A FELICIDADE

Ao longo de toda minha vida andei tentando cultivar a semente da tenra plantinha chamada felicidade com o máximo cuidado. Fui arando os espaços por onde caminhei, distribuindo sorrisos, engolindo em seco - algumas vezes também ficava aquilo preso na garganta dias e dias até, finalmente, descer goela abaixo quando a compreensão aliviava a mágoa no coração - os pescoções e sapos maiores do que minha capacidade de assimilar suportava. Precisei, como é de lei não escrita no relacionamento humano, renunciar tanto, baixar a cabeça incontáveis vezes, derramar lágrimas sobre o travesseiro enquanto refletia sobre fatos e atos, buscando entender o sentido de estar vivo quando inúmeros já tinham recebido o bilhete de ida sem retorno.

Fui percebendo, no passar do tempo, que para subsistir e ser completa a felicidade necessita de pequenas coisas do cotidiano, de detalhes simples, por vezes insignificantes, que fazem a grande diferença na contabilidade final e complexa desse estágio da existência tão anelado por todos nós. Todavia surpreendi-me ao descobrir o quanto a presença dos meus semelhantes é parte sin ne qua non dessa tal felicidade. Sem a presença imprescindível dos muitos próximos, em especial dos mais próximos como amigos, familiares, parentes e, claro, os amores, impossível seu desenvolvimento completo e sadio. Porque a felicidade, compreendi e me alegrei com essa assertiva, não vem sozinha e repentina como algo avulso ou uma folha seca trazida pelo vento. Para acontecer e tornar-se real, palpável e desfrutável a felicidade, da maneira como nós seres humanos a enxergamos, há que ter por base sólida, o esteio indispensável para firmar-se e permanecer, as demais criaturas dividindo conosco as benesses de seus gloriosos frutos.

De que maneira, então, é possível encontrar o caminho mais plausível para alcançá-la? Como isso é possível? Onde descobrir os contornos desse misteriosos e abstrato estado de vida tão ansiosamente procurado por todos os homens e mulheres?. O apoio e incentivo dos pais na infância, a amizade na adolescência, os braços amorosos da namorada, a constituição da própria família, o trabalho digno respaldado por salário adequado com vistas a um viver honroso e com qualidade, a leitura constante de bons livros e demais incentivos culturais que despertam o intelecto, enfim, todos os fragmentos de prazeres e alegrias brotando dia após dia fazem o painel de algo maravilhoso a que chamamos de felicidade.

Tropeços ocorreram porque são inevitáveis e inerentes a essa linda jornada onde nos colocaram nossos pais. Rosas e espinhos ocupam o mesmo espaço enquanto seguimos adiante. Temos consciência que a felicidade é construída aqui e ali, em momentos inesquecíveis bordados de risos contagiantes, com pedaços de alegria depois de escamoteadas as tristezas, olvidadas as desilusões. Penso que a felicidade me tem visitado vez por outra em seus frequentes retalhos e visíveis contornos, acreditando ser ela vivida de instantes, de pequenas pepitas de ouro que vamos encontrando no caminho escolhido por cada um de nós. Esse fabuloso êxtase a que denominamos de felicidade jamais será conseguido em sua totalidade por qualquer um de nós, porque ela se caracteriza nos lampejos momentâneos que nos dão prazer e a doce sensação de ser feliz. Lampejos esses inconstantes, inesperados e nem sempre à mão.