sábado, 25 de agosto de 2007


HORA AGÁ
Gilbamar de Oliveira
gilbamarbezerra@ig.com.br>


Lento, contudo gradual e inexorável
Vão os anos passando, e envelhecemos
Quando menos esperamos, adoecemos
E chega, por fim, a hora inevitável

No leito de morte, circunspecto instante
O desconhecido traz o medo, vem a reflexão
As lembranças em torvelinho vão adiante
Como se um filme antigo estivesse à mão

É hora de contabilizar perdas e ganhos
Pesar virtudes e defeitos, pesadelos e sonhos
Enfim, resgatar a consciência do sufoco

Porque logo será tempo de prestar contas
Estas precisam estar em dia, sem delongas
No mais e menos da vida não há troco

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

LASQUEIRA DE MOSCA, SÔ!

A mosca, voando como um foguete, enlouquecida pelo odor de comida exalando da cozinha, passou raspando o meu rosto e se alojou no abajur aceso. A princípio, se bem enojado pela inesperada e nada bem vinda presença da intrusa, procurei dissimular e fazer de conta que ela logo iria embora, pois afinal de contas raramente as asquerosas ousam chegar até ao décimo andar do edifício onde moro.
Então, matreiro, de olho fixo nela, esperei que se fosse Mas a danada não foi. Num repentino vôo rasante, parecendo um planador desembestado e sem controle, saiu como que quicando pela parede, alcançou uma panela quietamente depositada sobre a pia por alguém desavisado e ficou batendo as frágeis asinhas, toda contente, toda feliz. Num salto que eu nem pensava ser capaz de protagonizar, tomando de uma revista avistada sobre a mesa posta para o jantar, sapequei-lhe um safanão desesperado mas ela, matreira, escapou com a rapidez de um raio e eu, pobre de mim, só consegui jogar a panela com estrépito no chão de cerâmica provocando um zuadeiro ensudercedor. E a danada da mosca lá, agora já empoleirada no vidro da janela e certamente, se tivesse cérebro para tanto, deveria estar zombando de minha pontaria e questionando minha sanidade mental.
Suei ruborizado, o coração aos pulos e a emoção sacudida pela raiva. Enquanto eu apanhava a panela amassada e imaginava o que diria minha mulher quando visse o estrago, novamente a nojenta, voando faceira em desabalada facilidade, tornava a passou bem rente ao meu rosto como a tentar mostrar que eu não era páreo para ela - penso que escutei um simulacro de riso no mesmo instante. Aí sim, eu me enfureci de verdade e passei a esbofetear o ar em todas as direções na frustrada tentativa de acertá-la, mas ela apenas ia e vinha como se flutuasse e eu nem chegava perto dela. Por vezes a bicha safada pairava como a fitar-me, depois ia para um lado, a seguir para o outro, nem to you, e eu a buscá-la sem sucesso, esbravejando todas as palavras grosseiras do meu dicionário.Tudo em vão. De maneira que, já cansado de tanto alvoroço e movimento desenfreado, abri as janelas da cozinha e da sala na esperança de vê-la desaparecer na escuridão da noite e aguardei. Mas, que nada! A mosca, embalada pelo meu fracasso no intuito de pegá-la de jeito, dançava em pleno ar em frente ao meu rosto chocado, alcançava o teto da sala, saltitava por entre panelas, pratos e talheres, pousava, balançava as asas à guisa de gestos desafiadores e dava a entender que eu não a pegaria de jeito nenhum, que ali ela era realmente a rainha da cocada preta, branca e de todas as cores e que estava, sim, no controle da situação. Bom, eu bem que tentei, não havia mais nada a fazer, apenas reconhecer a batalha perdida para uma reles mosca e deixá-la em paz para fazer o que quizesse. Sentei-me procurando acalmar meus nervos e fiquei cabisbaixo, as mãos na cabeça.
Não sei quanto tempo permaneci assim, pensativo, em frangalhos, mas quando levantei a vista não vi em lugar nenhum a mosca, dando-me por feliz por ela ter ido embora da mesma maneira como veio. Ledo engano, porém. Saindo do nada, lá veio a danada novamente a rodopiar em torno de mim para, finalmente, pousar suavemente em minha testa, onde caminhou de um extremo ao outro como se fosse a dona do pedaço.
Levantei-me aturdido, ela de carona na minha testa, fui até o banheiro, tirei a roupa, bocejei inquieto - a mosca continuava no mesmo lugar -, liguei o chuveiro(foi só então que ela saiu de mim e se alojou nas proximidades, ficando a esperar-me, certamente) e tomei uma ducha quente. Durante todo o tempo do banho ela permaneceu onde estava, e finalmente, quando terminei de me enxugar, ela voltou para a minha testa e só saiu de lá quando quis, apesar dos tapas e bofetões que me apliquei em vão. Lasqueira de mosca esquisita, sô! Que amor doido é esse?

Gilbamar de Oliveira

Foto: Gilbamar de Oliveira


*QUIMERA
Gilbamar de Oliveira

Colho rosas como quem rouba estrelas do Olimpo
e enternece o tempo com gotas de pétalas.
Ando por sobre as nuvens e confecciono almofadas
para os anjos que voejam em derredor de meu sorriso

Não obedeço à Lei da Gravidade nem sigo teoremas
complexos como a cabeça da Hidra horrorosa
Por mim, ofereceria flores a cada assassino das águas
e eles entenderiam a grande importância dos mananciais

Não quero sorrisos falsos em rostos desfigurados
pela dor de não saber amar, de desconhecer a ternura
Eu planto árvores como quem semeia ansioso a vida
e deseja que as criancinhas não pereçam pela indiferença

Quem dera se as flores fossem oceanos plácidos
onde a ilusão se transformasse em plangente realidade
e o temor desse lugar à fraternidade mais enternecedora,
à mais linda e acolhedora de todas as Passárgadas

Fosse meu o Universo, em cada centímetro quadrado
eu armaria ciladas para laçar o melhor sentimento humano,
captar o perfeito ângulo do mais belo sorriso feminino
e guardar a pureza da mais cândida inocência infantil


*Obs.: o poema acima ganhou menção honrosa no Concurso de Poesias da Fundação José Augusto, em 2006.Ganhou, também, o primeiro lugar no Concurso de Poesias promovido pelo Sindicato dos Estabelecimentos Bancários do RB - SEEB RN, em 2007.

SONETO


POETAS,POETAS
Gilbamar de Oliveira

Nas veias do poeta inspirado corre vinho e veneno,
raios de sol, água pura, mistérios do oceano,
ternura, sonhos dourados, olhar puro e leviano,
ele verseja num tom e diz que não quer, querendo

Devanear, bem sabemos, é próprio de quem poema,
é obra de garimpeiro, de escultor com cinzel,
de escritor tarimbado que viu Torre de Babel,
de Pierrot apaixonado, do casal Páris e Helena

Mas só ao poeta é dado admirar o orvalho,
namorar o brilho da lua, ouvir atento as estrelas
conhecer muitas mulheres e a um só tempo quere-las

Sempre alheio ao que o cerca, é eterno sonhador
enfrenta de perto a morte, não tem medo da dor
se mil vidas ele tivesse gostaria de vivê-las

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A TERNURA DO AMOR

A TERNURA DO AMOR

Gilbamar de Oliveira

Vi-os quando relanceei o olhar ao longo da praça onde me encontrava: uma bela garota na mais linda flor da idade e um garboso e atrapalhado rapazola imberbe. Formavam um casal muito jovem, não eram mais que adolescentes, um e outro magro e com ar de quem está em fase de crescimento, mas ela já exibindo o florescer de um corpo anguloso e bem modelado, os cabelos compridos revoltos pela brisa suave, o rosto lindo, de tez rosada, lábios cheios e sensuais de menina-moça. Já ele, com o jeito de meninão, lembrava aqueles garotos protagonistas de propaganda do dia dos pais, tímido, sério, encabulado.
Caminhavam de mãos dadas sorrindo um para o outro. Pareciam felizes e entusiasmados pelo vigor da idade.
Acomodaram-se um banco a poucos metros de mim, entretidos no diálogo sonhador, típico da maravilhosa idade, fitando-se com ternura.
Embora demorasse na apreciação do espetáculo que era aquela menina graciosa, quando eles sentaram e ficaram enternecidos um com o outro voltei minha atenção para o livro que trazia nas mãos, deixando o jovem casal livre de minha bisbilhotice. Ademais, eu não podia saber que os dois protagonizariam, logo a seguir, uma cena inesperadamente comovente.
Tornei a vê-los depois de decorridos cerca de quinze minutos. Continuavam conversando, mas percebi que algo mudara no semblante de ambos, mostravam-se taciturnos, ela emburrada e gesticulando muito, ele um tanto sombrio e meio casmurro. O jovem casal de namorados discutia baixo, mas acalorado.
Aborrecida, a bela adolescente parecia ainda mais bonita.
Divertido com a maneira como mantinham o diálogo brusco e o modo quase suave e ao mesmo tempo quase severo como brigavam, fiquei a observá-los discretamente, embora não me fosse possível ouvir o que diziam, o que aguçou ainda mais minha curiosidade. Que vontade de ouvi-los! Contudo, logo conclui não ser necessário escutar suas palavras porque seus gestos eram tão eloqüentes, tão visivelmente manifestos. Eles gesticulavam com a veemência de quem estar realmente zangado e exige uma retratação imediata. Algo indubitavelmente sério acontecia entre eles naquele momento, não tive a menor dúvida.
E quando ela, repentinamente, saiu de perto dele e foi sentar-se na ponta do banco enquanto o braço do rapaz, acompanhando as palavras que proferia febril, dançava no ar, o pobre rapazola meio surpreso e, talvez, até abalado, decerto procurando entender porque tudo aquilo estava ocorrendo, sorri indulgente na minha cômoda posição de espectador.
Penso que esgotaram os argumentos, certamente não havia mais nada a dizer, porque, súbito, calaram-se cabisbaixos, a angústia visível em seus rostos ruborizados. De vez em quando, porém, lançavam olhares sorrateiros um para o outro, tornando a baixar rapidamente a cabeça se cruzavam os olhos. Isso durou alguns minutos – uma eternidade para eles, com certeza. Depois, assumindo um fingido ar de indiferença, ela levantou-se e esperou...sem saber, na verdade, o que deveria ou poderia esperar naquele instante de corações desencontrados. E começou a balançar a perna direita numa clássica atitude de indisfarçável irritação. Ele, pobre coitado, sem saber bem o que fazer, não sabia nem onde colocar as mãos, se nos bolsos ou na cintura, fez o mesmo. E de tal modo se desconcertaram, que, sem qualquer alternativa vez que o silêncio incomodava e causava ansiedade, de repente saíram a andar lentamente distantes um do outro, calados, a brisa ousada e intrujona brincando com os sedosos cabelos dela e espalhando-os no ar como asas farfalhando no ato do vôo. E ela, aborrecida com o vento, jogava a cabeça para trás para acomodar as madeixas brincalhonas.
Os dois passaram por mim ainda entregues à absoluta arrogância do mutismo, e eu percebi o rosto dela enrubescido e triste, os olhos um tanto marejados, os lábios fazendo beicinho de mágoa. Ela não queria dar o braço a torcer, mas estava sofrendo. Pude notar, também, o ar melancólico estampado na face do garoto, sua agonia interna mas tão perceptível nos olhos angustiados.
Acompanhei-os com o olhar, interessado naquele breve interlúdio de paixão jovem e querendo ver até onde os dois permaneceriam naquela forçada indiferença. Então pensei com meus botões, ansioso, o coração a mil: alguém teria que ceder e abrir a porta do entendimento ou, pelo menos, entreabrir a janela da possibilidade do diálogo na busca do perdão mútuo.
Lá adiante, quase no final da praça, por fim, ambos pararam ao mesmo tempo como num acordo tácito, sem ânimo de se encarar embora estivessem frente a frente. Seus olhos se voltavam para o chão, as mãos do jovem agora metidas nos bolsos, o pé direito fazendo desenhos bobos no piso duro da praça, ela segurando cadernos e livros nos braços cruzados sobre o busto em formação, ambos desprovidos de ânimo para esboçar qualquer gesto; tive a impressão de que ela soluçava mansamente à guisa de uma criança perdida na multidão, pois seus ombros se mexiam de quando em vez e ela procurava baixar ainda mais a cabeça, já a ponto de encostar o queixo no tórax. O silêncio persistiu entre os dois durante alguns astronômicos minutos, cada um entregue aos próprios pensamentos e buscando nas profundezas do coração algo para ser dito, ao menos uma palavra para salvar aquele momento especial. Contudo, como poderiam balbuciar frases conexas ainda que encontrassem milhões de termos próprios para desfazer o impasse? Aos poucos, logo concluíram ser impossível falar apesar das palavras borbulhando em suas bocas e a ansiedade explodindo por todos os seus poros. Mesmo à distância, senti, pelo jeito deles, como gostariam de conversar, de sorrir, de se abraçar, de afirmar a certeza de seus sentimentos à flor da pele, de dizer que se queriam. Mas não fizeram nada disso, o orgulho talvez, a insegurança provavelmente, o receio de tomar a iniciativa tudo tolheu o que certamente desejavam fazer ou falar. Assim, nenhum deu qualquer chance aos argumentos, à possibilidade de recuperar os fragmentos da paixão despedaçada. Muito lentamente, então, como se combinados, viraram, deram as costas um para o outro e seguiram em direções opostas, sem acrescentar mais nada à expressão de seus rostos tristes.
Lá no meu lugar ocupando um banco da praça, longe deles, comovido diante daquela surpreendente ocorrência sentimental, respirando fundo, acompanhei-lhes a maneira compassada como se deslocavam, parecendo contar os passos um a um. Tive a nítida impressão de que, se vencesse o orgulho, a linda garota andaria apressada de costas ao encontro dele ou giraria o corpo para correr até onde ele estava, tão relutante se mostrava em prosseguir a caminhada no sentido contrário ao dele. O garoto, por sua vez, não agia de maneira diferente, era se como não estivesse andando, as pernas pesavam toneladas, as passadas eram em câmara lenta, ele sentia dificuldade em comandar seus movimentos. – na verdade, não tinha a menor vontade, nem o mais leve resquício de ânimo de continuar a distanciar-se dela. Naquele momento, creio, ele seria capaz de cair ajoelhado aos pés dela para suplicar o almejado perdão, para voltar a tê-la em seus braços.
Os dois, porém, mesmo contra o desejo de renunciar ao orgulho, se foram quase arrastando os pés.
Por um breve intervalo, enquanto eles se afastavam em direções opostas, desviei minha atenção para uma insistente borboleta que esvoaçava no meu campo de visão e perdi a seqüência dos acontecimentos. Ao deitar-lhes novamente o olhar, arrebatado por uma emoção que me injetou um frêmito de contentamento e sem saber as razões que os teriam motivado, vi o adolescente correndo esbaforido e sorridente ao encontro da garota, que já o esperava toda ruborizada e dominada por uma indescritível expressão de felicidade no rosto iluminado pelo sorriso. O que teria acontecido nos poucos segundos em que me entreti com a borboleta metida? Quem havia cedido ao impulso de construir a ponte para unir novamente o que a discussão tola havia separado? Confesso que não tive como saber, a borboleta esvoaçante e ousada não me permitiu.
Mas a partir daquele fato novo eu não quis perder nenhum lance do filme ao vivo a que estava assistindo, e fiquei torcendo, emocionado, que ele chegasse logo perto da garota. Eu estava parecendo um torcedor fanático num final de campeonato.
Alcançando-a, por fim, ela a abraçou com suavidade, ela correspondeu cheia de alegria e ficaram enlaçados em plena rua durante intermináveis minutos, sorridentes e felizes. E choravam ao mesmo tempo, mas eram transbordantes lágrimas de indizível contentamento, pude notar, e seus corações, estou certo, pulsavam num ritmo único, apressado, de felicidade reconquistada. A custo separaram-se, enxugaram a torrente de lágrimas e caíram novamente nos braços um do outro. A meu ver, aquele prelúdio de amor juvenil ganhara contornos de beleza quase cinematográfica. Eu os avistava e me emocionava, tomado pelo arroubo da ternura. O quadro era lindo e encantador. Ri quando eles, a seguir, trocaram singelos olhares de reconciliação, beijaram-se levemente nos lábios, e foi um beijo de entendimento, de recomeço, beijo de portas se abrindo para a vida tornar a pulsar. Depois, deram-se as mãos e se foram.
Dei por mim sorrindo, enlevado, o coração aos saltos, atrevidas gotas lacrimejantes sulcando meu rosto, sentado num banco da praça e meio atordoado, mas festejando o amor, com o livro fechado na mão.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

O PERDÃO

O perdão é a virtude mais divina no co-ração do homem. Assemelha-se ao toque de uma mão que conforta o angus-tiado, é tal qual um sorriso franco dirigido ao que, enfu-recido, busca ofender do modo mais primitivo possível mas sente a impressionante força aveludada da ternura. E abran-da, diminuindo em seu organis-mo a adrenalina que o fazia ofegar raivoso. O potencial do perdão é praticamente in-comensurável, sou de pensar que não tem limite. Quem perdoa sem ressentimentos retira de sobre si um peso insuportável e seus olhos en-xergam cada novo amanhecer com a leveza do sentimento de liberdade. O que perdoa se liberta da angústia e sente novamente a suavidade de uma existência tranqüila. Isso é realmente perceptível no semblante de alívio que exibe. Seu ar risonho o denota, a consciência já não o perturba. Porque o sentimento de ódio que toma conta de quem foi lesado ou magoado de alguma forma brutal e não conseguiu perdoar encarcera numa prisão sem porta e sem chave. Então brota devastadora a solidão corrosiva que vai matando aos poucos. Bem sabemos, sair dessa cela não é fácil senão através do perdão, o único meio factível para o alcance da luz, eis que esse norte deriva simplesmente do amor. E tudo que é nascido do amor tem aura sublime. Já a carga de quem não tem condições emocionais de perdoar é realmente de grande porte pois a revolta é um espinho venenoso que dilacera e magoa paulatinamente com a eficácia de uma cascavel.
Talvez você, sim você mesmo que perdoou, não lembre caro amigo leitor ou, dada a sua virtuosa humildade, guarde só para si o grande sofrimento causado por aquele médico sob cujas mãos você sofreu uma intervenção cirúrgica.
Lembra do erro médico cometido, em razão do qual você esteve tanto tempo sem poder sair da cama e sofrendo as piores agruras? Recorda as vezes em que, para não incomodar ninguém, você ficava dias sem satisfazer suas necessidades fisiológicas? Mas você, bom amigo, em nenhum momento alterou a voz para insultar a quem o prostrou e lhe tirou a força de andar. Muito pelo contrário! Riu do fato com a maior serenidade, nem parecia ter ocorrido com você o malfadado evento. E você bem sabe o motivo desse desapego à vingança: é que o seu coração é um oceano repleto de ternura e perdão.
Tacitamente você concedeu o perdão àquele profissional da medicina, mesmo estando até hoje arrastando as pernas para dar uns passos apoiado nas paredes, nos muros, em qualquer arrimo. Seu caminhar é claudicante, todavia seu rosto é um sorriso só o tempo inteiro. Recorda sua resposta quando lhe foi perguntado se gostaria de levar adiante o caso para buscar reparação na Justiça contra o médico? "Ele não fez porque quis, ele não errou por querer quando me cirurgiou e me tirou a capacidade de andar normalmente." Você falou isso para sua filha e ganhou ainda mais a admiração e o respeito dela por essa atitude tão própria dos altruístas. Quero, nestas despretensiosas linhas toscas, prestar-lhe uma justa homenagem, pois você, como poucos, abriu seu espírito para a singeleza do perdão. Se você estiver, agora, lendo este artigo mal traçado evidentemente saberá que o escrevi objetivando abraçá-lo através dele com todos os encômios merecidos. O perdão que você concedeu àquele médico, mesmo isso não chegando ao conhecimento dele até mesmo porque você não haveria de desejar tal coisa, encantou sobremaneira sua filha, através de quem tomei conhecimento do acontecido. Ela, meu amigo, saiba disso, comentou o assunto comigo quase às lágrimas, transbordando emoção e tomada pelo brilho do embevecimento nos olhos, onde vi o amor filial se expressando. Nós dialogávamos sobre o empolgante assunto amenamente quando ela fez o relato, sentindo-se, conforme confidenciou-me, um tanto encabulada e pequenina diante da grandeza de sua resposta serena quando perguntou se levaria o médico às barras da Justiça para exigir uma possível indenização pelo mal que lhe causou. Naquele momento, ouvindo-a em silêncio, vislumbrei a beleza do assunto à disposição para minha matéria destinada a este suplemento. O seu perdão, caro amigo, deu vida a esta croniqueta despretensiosa sobre tamanha virtude, e é especialmente dedicada a você, meu amigo, que domingo após domingo dispõe de um pouco de seu tempo precioso para ler meus artigos. A você que perdoou, que deu o exemplo para sua filha e para mim. Obrigado. O seu perdão encheu meu coração de sublime alegria.