sexta-feira, 14 de setembro de 2007

S O N E T O

Informo aos amigos visitantes deste blog que estarei ausente durante dez dias por motivo de viagem. Se Deus quiser, no próximo dia 26/9/07 os post diários voltarão ao normal. Obrigado pela visita e pela compreensão.
DEIXO A LUA ENTRAR
Gilbamar de Oliveira

O gorjear dos pássaros ao amanhecer,
o sorriso infantil, a música, a fantasia,
a beleza do ocaso, o amor, o bem-querer
tudo que encanta é motivo de poesia

Se toca n’alma a ternura do beija-flor,
que espalha pelos jardins a sua alegria,
e a mulher exulta num sorriso de amor
enternecendo e embelezando, é poesia

E quando a lua é cheia, linda e abundante
num céu sem nuvens em noite de boêmia,
dando luz à vida com seu brilho dardejante

Feliz, o poeta abre a janela e a deixa
entrar, ardendo com febre de poesia,
e a põe na sala enquanto a abraça e beija

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

C O N T O




Foto:br.geocites.com


QUE PAÍS É ESTE?
Gilbamar de Oliveira

Ele era apenas um bancário com salário miserável, horas extras forçadas, alvo constante de assédio moral. Um trabalhador brasileiro, enfim, fadado às agruras a que estão sujeitos todos os assalariados. Especialmente os bancários, cujas horas trabalhadas além do seu horário de expediente, as conhecidas horas extras sempre exigidas pelos banqueiros famintos por lucro, eram escamoteadas para a vala comum do esquecimento. E esse tempo trabalhado além do expediente normal era quase nunca recebido devido a ganância dos patrões. Como se vê, ele era apenas um cidadão da Pátria verde e amarela sujeito às vicissitudes próprias dos trabalhadores que labutam incansáveis para sustentar–se e à família apesar do capitalismo selvagem que os sufoca.
Naquele dia, o que não era mais novidade, permanecera no banco até tarde da noite, o ponto eletrônico desligado mas fazendo serviços extras que não transitariam on line. Com ele, os demais colegas do setor sofrendo o mesmo peso da exigência . Estavam todos bastante cansados, como é de praxe acontecer para quem trabalha num estabelecimento bancário, já que vinham de um expediente movimentado no horário normal, e tinham adentrado pela noite, sempre sob o atento olhar dos chefes de setores e do gerente geral.
Deu graças a Deus quando, finalmente, foram liberados e ele pode seguir no rumo de casa. A noite/início da madrugada estava fria. Consultou o relógio e suspirou. Não havia condições nem de repousar com serenidade porque em pouco um novo expediente o exigiria de pé. Restava-lhe apressar-se e aproveitar as poucas horas de sono que ainda poderia desfrutar. A companhia da família, nem pensar, os filhos já deveriam estar dormindo e a esposa, cansada e sonolenta em algum canto do sofá na sala.
O frio parecia fora do comum, além do normal. Ele levantou a gola da camisa branca manchada do suor daquele dia árduo e respirou o ar da madrugada iminente, espreitando à distância e pensando no achonchego do lar enquanto alguns poucos colegas entravam em seus carros velhos, davam partida e disparavam nas diversas direções da cidade. Ele não possuía carro, dava-se por feliz em ter uma bicicleta, embora naquele momento bem que viria a calhar ser proprietário de um automóvel. Que remédio! Montou sua bicicleta e saiu pedalando, enfrentando a fria brisa que lhe batia no rosto sonolento. O cansaço fazia-se visível em seu semblante abatido.
As ruas nas proximidaes do banco onde ele trabalhava estavam fracamente iluminadas, desertas e silenciosas, o céu límpido coberto por estrelas e um risco amarelado da lua minguante. O cenário se mostrava dominado por angustiante melancolia. Todos deveriam estar dormindo àquela altura do tempo.
Em seu caminho avistavam-se vitrines esmaecidas, gatos perdidos na vadiagem noturna, cães esqueléticos fuçando latas de lixo, postes monstruosos com suas perigosas tranças elétricas e uma menina pequerrucha...”Uma menina?” Às duas da madrugada? Surpreendido pelo inesperado da visão, ele parou quase sem querer acreditar, os olhos bem abertos, já sem sono, por muito pouco não tropeçou nos pneus da bicicleta.
Não havia dúvida, efetivamente uma menina magrinha, cabelos desgrenhados, ar decidido caminhava no sentido contrário ao seu, os braços cruzados denotando que sentia frio e ela se dava conta disso, embora não esboçasse qualquer gesto de aborrecimento por isso nem por encontrar-se sozinha, àquela hora inusitada, no centro da cidade. Ele não queria acreditar, o quadro surgia de modo surreal. Então sentiu um leve frêmito de medo sulcar-lhe a espinha, arrepiando-se completamente ante a possibilidade daquela menina fazer parte de alguma manifestação sobrenatural. Sabe lá!, essas coisas são tão inexplicáveis e repentinas. Afinal de contas, aquela garota raquítica que se aproximava dele era realmente um ser humano palpável, uma alma do outro mundo ou apenas uma visão fugitiva qualquer? Se fosse verdadeiramente alguém de carne e osso, o que estaria fazendo sozinha no meio da madrugada? Resolveu tirar aquilo a limpo, e, apesar do temor que sentia e procurava esconder, esperou-a.
Por sua vez, indiferente, a menina não pareceu surprêsa ao vê-lo não demonstrou o mais leve traço de medo ou deu qualquer importância à sua presença. Essa atitude o surpreendeu ainda mais, óbvio, e feriu seus brios masculinos. Endureceuo rosto, pôs certa dose de rispidez na voz e começou a indagar mal a figurinha, sem nenhum interesse em sua pessoa, continuando a andar, passou ao seu lado.
_ Menina, o que você está fazendo na rua a essa hora da madrugada, prá onde está indo? – Ele perguntou, a voz um tanto trêmula.
Sem olhar diretamente para ele, a menina parou e respondeu num tom de inocência, certamente calejada na situação incomum que vivia:
_Vou pra fila do INSS.
O bancário ficou boquiaberto.
_ Fila do INSS, de madrugada?, perguntou.
_ É, sim, quem quer pegar ficha pra consulta tem que chegar cedo, senão perde a fila do médico. Minha mãe está doente e precisa se consultar.
_ Mas você não tem medo de sair à rua sozinha nessa hora da madrugada?
_ Tenho não, senhor, tô acostumada, Fico sempre na fila do INSS pra tirar ficha quando tem alguém doente lá em casa.
_ E seu pai?
_ Num tenho pai não, um homem matou ele com cinco facadas.
“Meu Deus, meu Deus!” , soluçou ele no mais profundo do seu âmago. Que País é este que deixa uma criança sair de casa em plena madrugada para pegar uma fila no Instituto da Previdência? Que País miserável, indigno e deprimente é este? Uma garota tão frágil! Sua mãe, com certeza, deveria estar, naquele instante, cheia de aflição e temor, talvez até se culpando por mandar a filhinha inocente para uma fila que começava a se formar nas primeiras horas da madrugada silenciosa e perigosa. Que se passaria na mente ingênua daquela criança ao enfrentar a semi-escuridão das esquinas, as sombras da noite, os eventuais bêbados, assaltantes, bandidos das mais diversas estirpes? Uma pobre menina sem pai, a mãe doente, sendo obrigada àquela vergonha. Que País é este?
_ Quantos anos você tem?, ele perguntou.
_ Oito.
“Somente oito anos de idade, meu Deus!”
_ E o INSS lhe entrega a ficha que sua mãe precisa?
_ Não, é minha tia quem vem pegar mais tarde. Eu só guardo o lugar pra ela.
Durante alguns minutos se calaram os dois, ele completamente estarrecido diante daquela insensatez, sem saber mais o que dizer, indignado, os olhos quase marejados postos sobre a triste imagem da garota mirrada e solitária ao léu da madrugada. Já ela, pobremente coberta por um vestidinho de chitão azul com bolinhas brancas, chinela de borracha nos pés, o cabelo liso amarrado no estilo rabo-de-cavalo, adiante dele, esfregava as mãos para afastar o frio.
Por fim, trêmulo de revolta, abalado porque não tinha meios de consertar esses pequenos erros humanos que formam os grandes pecados do mundo, ciente de que também lhe cabia uma parcela de culpa por sua comodidade e também porque muitas vezes ele mesmo fechava os olhos a esses pequenos erros, sendo, em consequência, conivente com as desgraças cotidianas, ofereceu-se para acompanhá-la até a agência do INSS, remoendo todos esses aspectos deprimentes da natureza do homem, a omissão dos governos, a falta de atenção das autoridades, enfim, toda essa gama de equívocos causados por quem é legalmente responsável pelos cidadãos brasileiros mas fecha os olhos ao sofrimento do seu povo.
_ Que que eu vá com você até o INSS?
_ Precisa não, brigado, vou só. Tô acostumada.
E se foi, encerrando a conversa.
O bancário, tartamudo, com raiva de si mesmo porque muitas vezes se recusava a participar das greves por comodidade, que nunca disse uma palavra crítica contra o governo federal sabe lá porque razão, chocado com tanta desigualdade marcante na vida do brasileiro, permaneceu ali, as lágrimas caindo sem ele perceber, sob a observação atenta das estrelas e da lua que minguava a pouco e pouco.







Este conto ganhou o 2º lugar no Concurso de Contos do SEEB RN, em 2006

terça-feira, 11 de setembro de 2007

SONETO

AOS JOVENS
Gilbamar de Oliveira

Volta-te à leitura, meu caro jovem,
E descobrirás universos variados
Os livros são como rodas que movem
Nosso mundo, valioso banco de dados

A engrenagem da vida é azeitada
Com o óleo especial da cultura
A existência jamais será aviltada
Enquanto do saber houver fartura

Aprimora-te, jovem, cede ao livro
Faz do conhecimento o teu arquivo
Aconchega-te à luz que dele emana

Porque sem ler és como pasto das trevas,
e, mesmo pensando ver, é certo, não enxergas,
um simples parvo a quem qualquer um engana

domingo, 9 de setembro de 2007

CRÔNICA

INUSITADA BELEZA
Gilbamar de Oliveira

Vencendo o concreto na forma de planta, a vida brotou toda sorridente, quase bocejando, quiçá lânguida, vendo a luz do sol esplendorosa à sua espera. E veio à tona completamente embevecida e cheia daquela densa alegria a envolver-lhe os filamentos nervosos e seguindo por todas as áreas, para atingir generosamente seus ainda tenros ramos, em cada fibra deslizando aquela sensação gostosa de vida em explosão e paulatino crescimento. Embora insensível e pesada, a mão do homem, com suas complexas armações de cimento, areia e ferro e no seu esforço de concretar o solo das cidades, não logrou impedi-la de tornar-se um ser vivo. O pulsar da existência, garboso e invencível, explodiu em intensidade, em querer, em ser.
Conquanto um frágil ser, a planta, ansiosa por nascer e ver a luz, furou o quase inexpugnável bloqueio marmóreo - só Deus sabe como – e manifestou-se destemida em meio à aspereza do ambiente. Causou-me, por instantes, refletir acerca dessas veleidades súbitas da natureza que tanto encanto nos transmitem e nos fazem admirar a linda criação de Deus. De que maneira aquela pequenina semente conseguiu chegar até à marquise do terceiro andar para, enfim, num ato sem dúvida transcendental, transformar-se pulsante?, indaguei-me, sem resposta. E mais: onde, com sua fragilidade expressiva, encontrou as condições adequadas para penetrar na rigidez do bloco pétreo e imiscuir-se ladina por entre as células endurecidas e mortas do concreto? Em que recanto do lugar tão árido descobriu resquícios do adubo natural para seu alimento?
Onde descobriu o fôlego para viver naquelas plagas secas e desprovidas de ânimo? Quem sabe? Quem pensa em ousar saber sobre essas artimanhas simples e ao mesmo tempo complexas da vida? Tudo certamente se deu na surdina, ali pelo silêncio dos dias e das noites, calmamente, longe dos olhos humanos como sói acontecer quando um novo ser está sendo gerado, não sendo necessário dar a conhecer os detalhes ou as minúcias do espetáculo em desenvolvimento. A diferença é que o inusitado deixou sua marca e chamou a atenção para a beleza do fato, isto é, o nascimento de uma planta no piso de concreto.
De modo que, semelhante a um estranho no ninho, tal qual o patinho feio, o verde ostentoso de suas folhas em realce, a aparentar um quadro surrealista pincelado de bucolismo, eis que, de inopino, apareceu e exibiu seu belo charme solitário em plena avenida congestionada pelo gás carbônico dos automóveis que passam tresloucados, secundados por pedestres por vezes com sacolas numa das mãos, puxando crianças ou idosos na outra, enfileirados como formigas, para espanto de quem não crê na vida. Então, e aí reside boa parte da beleza natural desse extraordinário acontecimento, molhada pelas chuvas e fotosintetisada pelos brilhantes raios solares, desenvolveu-se com o passar dos dias e foi estendendo seus instigantes galhinhos em derredor, indiferente às intempéries e esbanjando aquele aspecto saudável de quem sobrepujou as dificuldades com impetuosidade e saiu vitorioso. À guisa de um passe de mágica, metamorfoseou-se, quem diria, em algo como um bonsai sem nenhum cuidado especial, bem lá no alto, vívida, feliz, passando a fazer parte do cenário citadino. Os circunstantes em circulação pelo local olham para a parede suja do velho prédio do centro de Natal, na Cidade Alta e avistando, um tanto surpresos e um tanto maravilhados, aquela plantinha altaneira e atrevida surgindo do nada num ambiente deveras inóspito, mas claramente exultante pelo feito ainda sui gêneris porque não é usual, estancam, muitos deles extasiados com o vigor demonstrado. E ficam parados no vai-e-vém da multidão apressada a olhar para o alto, até meio abobalhados alguns, sorrindo tantos outros, diante da tocante cena que certamente atinge o cerne da sensibilidade dos enternecidos.
Por entre os pedregulhos do surrado edifício abandonado, situado bem no coração do burburinho da cidade grande, a vida surgiu com toda a força do seu poder sem interferência de ninguém, e nem poderia, evidente, mesmo que quisessem. Pois foi por demais distante do alcance da ação humana a sua explosão em milhões de átomos, que se completaram no silêncio cúmplice dos dias e das noites e se amoldaram nessa complexidade maravilhosa chamada vida, equilibrada, perfeita, cheia de vivacidade e harmonia. Embelezado ficou muito mais o aspecto urbano ante a presença inesperada daquele ser mirrado bem ali naquela marquise descorada e suja. A vida é bela e exuberante.

sábado, 8 de setembro de 2007

TROVAS DE GILBAMAR

São três coisas que descarto,
E de frisar faço questão:
Bebida, droga e cigarro
Formam o tridente do cão

Rosa e mulher sorridente,
Duas belezas e dois temas,
Ambas a forma evidente
Da ternura dos poemas

Tudo que tenho é o amor
Não passo de risco no mar
Então peço, faça o favor,

Me deixe apenas sonhar

Ser racista é a posição
De pessoas desumanas
É arte completa do cão
Feita em mentes insanas


Alfa sou, sim, do meu lar
Lá eu reino soberano
É onde ordeno sem mandar,
É onde eu sou mais humano


A paixão enternece e mata,
Pinta, borda e causa dor
Num dia vem e maltrata,
No outro floresce o amor

SONETO


Desce a noite


Atirando pedras na lua que nasce
E despertando estrelas adormecidas
Agarro a noite antes que disfarce
As sombras do dia encanecidas


O manto noturno já cobre o dia,
Decrépito e velho o sol se foi
Acenando para os astros, ele ria
Chorando no íntimo, saudade dói

Enche a terra um ar denso e cálido
Que deixa o céu enuviado e flácido
Espalhando um aspecto tristonho

Mas fico tão enamorado do luar
Beijando insinuante as ondas do mar
Que me pego com o rosto risonho