segunda-feira, 22 de outubro de 2007

UM BURRO AÇOITANDO OUTRO - Parte II
O corado do seu rosto
Aumentou mil vezes cem
O cara ficou tão grande
Do tamanho de um trem
Se seus olhos fossem arcos
Atiravam flechas também

De sentado que estava
Pulou ficando de pé
Sobre o lixo da carroça
Esquentou que nem café
Coado numa cuia podre
Por sua leprosa mulher

O braço subiu bem alto
Tendo o chicote na mão
A boca suja gritava
Um monte de palavrão
O povo de longe olhava
Aquele cunhado do cão

O chicote subiu e desceu
E tantas vezes acertou
O burro todo batido
Que logo o sangue jorrou
Mas ainda assim o velho
A lhe açoitar continuou

O burrico estremecia
Cada vez que apanhava
O sofrimento foi tanto
Que ele já nem zurrava
Penso que não mais sentia
A surra bruta que levava

Eu tentei interferir
E acabar a crueldade
Bastava tanta vileza
Chegava tanta maldade
O burro é um grande amigo
De toda humanidade

O bárbaro não quis conversa
Uma baita faca sacou
E com seus olhos de fogo
Tão profundo me olhou
Dizendo palavras duras
Com as quais me ameaçou

- Não venha se meter a besta
No que não lhe diz respeito
Se vier até aqui
Meto-lhe a faca nos peito
E faço um buraco tão grande
Que nenhum médico dá jeito –

Como eu não sou de briga
Gosto de vida pacata
A espécie de cidadão
Que autoridade acata
Achei por bem ficar longe
Na distância mais exata

domingo, 21 de outubro de 2007

Há alguns anos, o historiador e acadêmico Raibrito, em meio aos seus alfarrábios, contou-me um fato muito interessante por ele presenciado em Caraubas. Numa certa manhã, andando pela cidade, ele viu um senhor já maduro batendo de modo selvagem num jumento. O pobre animal, além da surra, levava no lombo uma pesada carga, por isso em pouco não suportou o cruel castigo e caiu. Ainda assim o seu dono continou a bater.... Raibrito estava providencialmente "armado" com uma máquina fotográfica e registrou parte do acontecimento, indignado com a brutalidade insana de um ser pensante contra um burro indefeso. Já em sua residência, ele fez uma crônica sobre o a cena deplorável, anexou uma das fotos e enviou para.... Não estou autorizado a contar o restante da história no tocante a esse particular, mas ao lembrar da barbaridade inusitada contra o infeliz animal fiz um relato a respeito em forma de cordel. Óbviamente, fiz uma versão própria e livre, inventando, acrescentando e omitindo detalhes porque não lembro "ipsis litteris" o que ele me relatou. Em virtude da extensão do cordel, achei por bem dividí-lo em três partes sucessivas, a começar de hoje:
UM BURRO AÇOITANDO OUTRO

Um tanto triste eu registro
Certo caso que assisti
Em plena rua do centro
Da cidade onde nasci
Meu relato é verdadeiro
Se conto é porque eu vi

Estava eu distraído
Passeando pela rua
Olhando mulher bonita
E pensando nela nua
Mas não fique chateado
Não era a mulher sua

Porque mulher tem demais
Rebolando na cidade
Uma mais linda que a outra
De muita ou pouca idade
Inteligentes, charmosas,
De ampla capacidade

É tanta mulher mimosa
Usando calça comprida
Ou vestidos decotados,
Inocentes ou saídas,
Mas cheias de colorido
Alegrando nossa vida

Aquela piscou-me o olho
A outra tá rebolando
Uma acenou-me rindo
Vejo outra me acenando
Ei, espere, não é isso
Que eu estava contando

Esse assunto, porém,
Eu trato em outra hora
Preciso me reportar
Ao que vou contar agora
Acho bom começar logo
Antes que me mandem embora

Como eu já disse antes
Pela rua ia passando
Vendo a tarde arrefecer
Logo vi um burro andando
Sob o peso da carroça
Inda por cima apanhando

O condutor da carroça
Batia tanto no burro
Chicoteava brutal
Dele tirando zurro
E o coitado do animal
Ainda levava murro

Pude ver e observar
O quanto a carga pesava
Acima da capacidade
Por isso incomodava
O coitado do animal
Que em pouco empacava

O homem que chicoteava
Já era meio maduro
Andava ali nos sessenta
Acomodado num monturo
Que enchia a carroça
Parecendo um grande muro

Seu olhar mostrava ira
A boca quase entortava
Os olhos viravam brasa
O nariz se arrebitava
Vibrando o chicote no ar
Seu cabelo eriçava

O rosto exibia ódio
A bocarra espumava
Havia fumaça nos olhos
Cada vez que espancava
O tal bichinho indefeso
Que por bobagem apanhava

É que o indefeso animal
Magrelo como a folha
Estava em pandarecos
Porém não tinha escolha
Ou trabalhava ou o velho
Metia-lhe um saca-rolha

Tão esquálido ele era
Que talvez passasse fome
Perto de quem trabalha
E bem longe de quem come
Muitas feridas no lombo
Onde a mosca fica e lambe

Na hora que o burro parou
De tão machucado e doído
Arfando quem nem porco
Açoitado e ferido
No auge de suas forças,
Vi o velho enfurecido

sábado, 20 de outubro de 2007

MIGALHAS DE FELICIDADE

Sou apenas colecionador de sonhos,
Quase fanático em devaneios, que,
Sensível ao enlevo e lírios risonhos,
Conversa com estrelas e as pode mover

Como menestrel sem porto, distraído,
me encanto ante a borboleta a voejar
Nos jardins quedo, perplexo e iludido,
com as luzinhas dos pirilampos no ar

Sou daqueles ingênuos a paquerar a lua
Nas noites primaveris e madrugadas nuas,
Na companhia do violão e da saudade

Os meus sonhos, destarte, não são factíveis
- Pequenas e meras ilusões impossíveis -
Mas trazem migalhas de felicidade

Gilbamar de Oliveira

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

BALA PERDIDA

A pomba da paz foi mortalmente
atingida
por uma bala
perdida.
Está moribunda,
em lenta agonia
padece...
Mas as crianças brincam
nos morros em derredor

dos AR 15...das drogas...
lúdicas...
e apontam o dedo
como armas
fictícias... hoje,
armas reais e mortíferas

amanhã...
A pomba da paz
morreu
nos braços da esperança
ao alvorecer deste dia.
Uma bala perdida...
várias balas perdidas...

Gilbamar de Oliveira

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

REFLEXOS

Perscrutei o lindo céu azul
dos teus olhos e entrevi
contornos fragmentados
de estrelas cadentes.
Tua alma apagara,
teu céu continha flocos
de algodão borrados
de lágrimas. Então sorri para
teu recôndito e as flores
brotaram subitamente
vívidas em muitos
tons coloridos.

Abriste-me a porta do teu coração
e as dores escondidas
foram despejadas sobre mim
e já não havia primavera, tudo
se tornara ocasos aguardando
a noite escura.
Sussurrei doces palavras
de encantamento e trouxe
de volta o sorriso azul.
Já não deparei com emudecimentos,
o silêncio metamorfoseou-se em risos
melodiosos.

O pranto sem cor terminou,
a dor aquietou-se nos braços
do amor. A saudade adormeceu
cândida nas profundezas oceânicas
e se foi, cera derretendo num vulcão.
É consolador assistir à vitoria
do amor.

Gilbamar de Oliveira

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

GRINALDA DE TROVAS - A SECA

QUANDO HÁ SECA NO SERTÃO
MORRE O MILHO E O GADO
O SOL ESTURRICA O CHÃO
E FICA TUDO DESOLADO

Pobre, a terra esmorece
debilitada na sequidão,
e a vida desaparece
QUANDO HÁ SECA NO SERTÃO

O sol refulge queimando
o campo esturricado
e com a água acabando
MORRE O MILHO E O GADO

faminto, o boi desfalece
no alvorecer do sertão,
quando o dia amanhece
O SOL ESTURRICA O CHÃO

O campo é só tristeza,
é melancólico o roçado,
a planta perde a beleza
E FICA TUDO DESOLADO

Gilbamar de Oliveira