quarta-feira, 7 de novembro de 2007

MOTE: A saudade dói devagar
Num coração apaixonado


Não é dor que se descreva
Sentir falta de alguém
Mais parece um pesadelo
Ficar longe e querer bem
É um viver amargurado
De nunca a tristeza acabar
A saudade dói devagar
Num coração apaixonado


As lembranças vão chegando
Mas só machuca recordar
É ir abrindo feridas
Que faz a falta aumentar
E o que era um céu encantado
Torna-se um triste pensar
A saudade dói devagar
Num coração apaixonado


Quem ama e está distante
É como se não vivesse
E no tempo que vai passando
A cada dia ele morresse
Seu presente é o passado
Do qual ele vive a lembrar
A saudade dói devagar
Num coração apaixonado


E não adianta tentar
Esquecer essa lembrança
Que vai alimentando
Ainda mais a esperança
De ter sempre ao seu lado
O alvo do seu esperar
A saudade dói devagar
Num coração apaixonado

As horas nunca terminam
Os dias andam devagar
Tudo se mostra parado
O tempo só falta não passar
Viver é um fardo pesado
Para quem vive a chorar
A saudade dói devagar
Num coração apaixonado


Nesse viver relembrando
É visível o sofrimento
No rosto que nada vê
Além do próprio tormento
E o coração desolado
Num ritmo de assustar
A saudade dói devagar
Num coração apaixonado
Gilbamar de Oliveira

terça-feira, 6 de novembro de 2007

TROVINHAS PARA A CPMF

A CPMF é um fardo
sobre o povo brasileiro
tem a força de um dardo
divide nosso dinheiro


Infeliz de quem criou
Essa tal CPMF
Quem não devia pagou
Já paga quem não deve


Tu achas que o Presidente
Da CPMF vai abrir mão?
Ficaria indiferente
À caça o faminto leão?


Seria temporária
Essa tal contribuição
Mas é bilionária
Daí sua renovação


Contra a CMPF votou
Mas foi sempre derrotado
Agora pede o favor
por ela aos deputados


Nosso povo tem sofrido
Com tanto imposto a pagar
Mas eles têm decidido
A CPMF vai continuar


CPFM? Quem gosta de pagar?
Já tem tanto imposto
Eu posso adiantar:
Ninguém paga com gosto

Gilbamar de Oliveira

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

NÃO RECEIE VOLTAR AOS SONHOS

Gilbamar de Oliveira

Um maçante raio de sol atravessa a fresta da janela do meu quarto às cinco horas da insipiente manhã. Bem preciso como se calculado simetricamente por algum engenheiro esperto, atinge diretamente o meu olho direito e incomoda, como a dizer-me sobre o novo amanhecer em andamento e exigir que eu desperte por inteiro e recomece a rotina. Ainda ressoa em meus tímpanos o eco do silêncio da noite finda, mas os sons matutinos, se bem que estejam engatinhando é certo, porém são irremediavelmente inadiáveis, já vicejam juntamente com os raios solares nada tímidos que adentram as frestas mais pequeninas.
Diviso a cortina mal fechada, motivo da intromissão ousada do iluminar fora de hora a meu ver, desvio o rosto daquela luz intermitente e ousada, retomo o lençol amarfanhado que escapou do meu corpo durante o remexer noturno comum enquanto dormimos e procuro cobrir-me para tentar escapar do dia que nasce buliçoso. Mas não é fácil. Lá fora, não sei por que cargas d’água, e isso acontece de súbito e é bastante freqüente onde moro, um motorista mal educado buzina à toda por alguma razão boba e acelera seu carro, provocando-me frêmitos de fúria. Suspiro conformado. O que posso fazer a esse respeito? Praguejar, talvez, mas isso não leva a nada, é inócuo. Em razão disso, percebo ser quase impossível permanecer no leito por mais tempo. O estuque do meu quarto para o qual lanço o olhar desconcertado responde com sua brancura imaculada. O lustre apagado me saúda naquele seu mutismo impenetrável e distante de natureza morta e moldada pela mão do homem.
O celular, refestelado no criado mudo, desligado, parece um bichinho de estimação a dormitar sereno envolto numa áurea de calmaria profunda, tamanha sua imobilidade e seu mutismo exacerbado. Num súbito clic automático ele se anima e parece realmente vivo a trazer-me as notícias de perto e de longe. Barulhento e insistente. O celular tem semelhança com a criança mimada exigindo atenção para o seu ínfimo universo.
Ainda é densa a bruma embaralhando-me o cérebro não totalmente desperto. Espreguiço-me, alongando o corpo e entregando-me ao novo dia. Sento, olhos fechados sem acreditar que necessito mesmo sair da cama tão cedo. Poderia muito bem permanecer abraçado aos meus sonhos e ficar indiferente ao cotidiano, mas qual, o quê! Resignado, procuro as sandálias, contudo que é delas, para onde foram, quem as terá tirado do lugar? Ganharam existência própria e se foram, para completar o transtorno? Bah!, desisto e piso o chão frio, recuando logo a seguir. Será que, como na “Metamorfose” de Kafka, transformei-me numa horrenda barata? Ou estarei “Em busca do tempo perdido” de que falava Proust em sua literatura volumosa e complexa, mas de extraordinária beleza? Decerto os sinos não dobram por mim como por ti dobram segundo Ernest Hemingway apregoava naquele famoso café de Paris até hoje visitado por turistas. Nem sou o velho que bravamente lutou contra o enorme peixe descrito por ele na sua também ficção literária que ganhou o mundo. Na verdade, sinto-me mesmo é igual ao “Menino de Engenho” de José Lins do Rego e estou extasiado por daqui penetrar o universo criativo de “Gabriela, cravo e canela” em que me meti para ver, em meio ao povaréu abismado e satisfeito, a cabrocha Gabriela usando saia curta e subindo o telhado da casa para pegar o papagaio do menino que se enroscou por entre as telhas.
Que fabuloso devaneio!! Nada a estranhar, se me faz favor, é que na noite anterior, antes de dormir, revi e folheei boa parte do acervo de minha biblioteca, ali viajando pela espetacular imaginação dos clássicos, deixando-me levar pelas asas da criatividade dos bons escritores universais. Li como nunca, varando os sinais da noite e bebendo com avidez poções de textos saudáveis e imorredouros, saciando minha sede de boa literatura.
Encontrei as sandálias exatamente onde as deixei ontem, completamente acordado e em paz com a existência. A essa altura já não me importuna a réstia solar nem a alvura estucada que me encandeia; não me preocupa o silêncio do lustre nem sua inércia cônica; às favas os néscios do trânsito com seus imbécibeis desconcertantes e assustadores. E o celular? Que espere paciente. Estou no embevecimento das nuvens fofas, e somente isso interessa. Lençóis e travesseiros amarfanhados sobre a cama são detalhes insignificantes, para tudo há solução quando se tem boa vontade e coração leve. É tão salutar descobrir-me vivo e em plenas condições de deleitar-me! Nada como livros a mancheia para iniciar cada amanhecer, porque é de ilusões que se move o mundo. De modo que não receie voltar aos sonhos. Eles impulsionam o viver, são os jardins da alma e o principal combustível do existir.

domingo, 4 de novembro de 2007





O NINHO DO SABIÁ - Parte final


Assim, a cada graveto
E ramos secos que juntava
Seu lugar para viver
Aparecia e se formava
Fruto de sua insistência
Em trabalhar sem parar
Descer, subir, procurar,
Demonstrando paciência

E o ninho foi nascendo
Dentro daquela igreja
Nem padre nem sacristão
Ninguém viu, ora veja!
Que o pequeno passarinho
De olho no futuro
Procurando um amor puro
Preparava o seu ninho

Eu ainda não contei
Onde esse fato se deu
Mas agora vou dizer
A cidade onde ocorreu
Foi lá no lindo torrão
Do sul do meu Brasil
Que explode em cor anil
E tem um grande coração

Foi mesmo na capital,
A Porto Alegre bonita
Cidade pampa gaúcho
Onde a gauchada habita
Numa pequena igrejinha
Do bairro de nome assim
Chamado Bairro Bomfim
- Igreja Santa Teresinha -

E o sabiá se deu bem
Quando foi descoberto
A paróquia decidiu
Que ele deu o passo certo
Pois mexer não adianta
O bicho fique sossegado
Lá no seu ninho deitado
Perto da cabeça da santa

Foi na internet onde vi
Esse fato diferente
A merecer citação
A foto acima não mente
O sabiá vive e canta
Cheio de felicidade
Pois é uma raridade
Morar ao lado da santa

Gilbamar de Oliveira

sábado, 3 de novembro de 2007

C O R D E L




O NINHO DO SABIÁ - Parte I

Já que impensadamente
Os homens queimam florestas
E embora racionais
Fazem coisa que não presta
Eis que um passarinho
Sem ter onde pernoitar
Numa ousadia sem par
Fez na igreja o seu ninho


O pássaro a que me refiro
Foi um frágil sabiá
Que por não ter outra opção
Na paróquia foi morar
E mesmo não sendo religioso
Mas com seu jeito caviloso
Tentou se acomodar


Sem noção do que fazia
Nem do lugar onde estava
Não sabendo o que é respeito
Nada disso lhe importava
Escolheu para o seu ninho
Entre todas as imagens
Todo cheio de coragem
A da Virgem e seu Filhinho


Com ampla capacidade
E intelecto instintivo
Mediu tudo e avaliou
Se mostrando muito vivo
Então pode concluir
Que o lugar era ideal
Para a construção legal
Nas condições do seu QI


Pipilando em derredor
Todo lépido ele voou
Amealhando fiapos
Galhos secos e sem cor
O material costurando
Apenas o bico usando
Sem diploma de doutor


Ele ia e voltava
Entrava rápido e saía
E na ânsia de construir
Só aquela imagem via
Com os trapos encontrados
Tudo ele foi juntando
Para o ninho ir formando
Um lar para enamorados


Na sua atividade
Por ser ele pequenino
Ninguém lhe dava atenção
Talvez coisa do destino
Sua labuta era tanta
Para tão grande projeto
De fazer um ninho perto
Da cabeça de uma santa
Gilbamar de Oliveira
Peço mil desculpas aos meus amigos leitores deste blog pelo atraso involuntário na sua atualização. Problemas técnicos causaram esse lamentável transtorno. Agora, porém, graças a Deus tudo voltou ao normal.