quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

TROVAS

Pôr do sol em Natal(foto: Gilbamar de Oliveira)




PÔR DO SOL



Parece que o fogo queima

aos nuvens ao entardecer

quando o por-do-sol teima

em queimar o anoitecer



ENCANTO



Nenhum pintor talentoso

atinge tanta perfeição

nem pinta quadro formoso

como o entardecer no sertão

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

GLOSA

MOTE: VI A MADRUGADA EM AGONIA
PARINDO UM BELO AMANHECER


Bocejava a lua sonolenta
Avistando o sol que despertava
Num ainda inocente raiar
Dele uma fraca luz emanava
À guisa de acordar o alvorecer
O último resquício noturno se ia
Vi a madrugada em agonia
Parindo um belo amanhecer


Pássaros alvoroçavam-se nos ninhos
Começando um concerto matinal
Beija-flores osculavam alegremente
Embelezando dos jardins o roseiral
Espalhando no ar o seu prazer
Sob o lânguido olhar da cotovia
Vi a madrugada em agonia
Parindo um belo amanhecer


Um frêmito de gozo percebi
No farfalhar das folhas ao vento
E no ciciar dos galhos entrelaçados
Perturbando o bacurau sonolento
Que se aninhava querendo adormecer
Mas o renovar da vida não entendia
Vi a madrugada em agonia
Parindo um belo amanhecer


O céu, antes escuro, agora azulava
As nuvens embranqueciam sua cor
A linha horizontal já se mostrava
As pradarias exalavam seu olor
Extasiado nesse doce embevecer
Ouvi o gado ao longe que mugia
Vi a madrugada em agonia
Parindo um belo amanhecer


Se fora a noite estrelada
Seu brilho agora arrefeceu
Há só resquício do seu esplendor
O ontem está nos braços de Morfeu
E o hoje começa a acontecer
No brotar a explosão do novo dia
Vi a madrugada em agonia
Parindo um belo amanhecer


No sertão, porém, já era manhã
Bem antes do sol se mostrar
A gente simples envolvida no labor
E a cidade muito longe de acordar
Mas quando começava a esmorecer
A noite que em pouco morria
Vi a madrugada em agonia
Parindo um belo amanhecer

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

BALA PERDIDA

A pomba da paz foi mortalmente
atingida
por uma bala
perdida.
Está moribunda
E em lenta agonia
Padece.
Mas tantas crianças brasileiras

brincam inocentes
em derredor dos AR 15
e apontam o dedo
como armas
fictícias hoje...
reais e mortíferas
daqui a pouco, amanhã.
Agora, no presente, lúdicas,
depois, no porvir, cruéis e
bárbaras, animalescas,

primitivas.
Há um grito sufocado
dentro do meu peito
a clamar pela vitória,
enfim, do amor.

Quando? Será?
Porque muitos pais
presentearão seus filhos
com armas de brinquedo
neste Natal...
Certamente ainda teremos
muitas balas perdidas
voando no lugar das borboletas
e dos beija-flores.


Gilbamar de Oliveira

sábado, 15 de dezembro de 2007

TCHAU, CPMF! JÁ VAI TARDE!

Vê meu sorriso feliz
De quem comeu e gostou?
A alegria voltou ao País
Porque a CPMF acabou
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Meu ar de felicidade?
Vou esbanjando alegria
CPMF, essa barbaridade,
Deixou de ser agonia
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O riso voltou à minha face
Taí uma coisa bem feita
Temia que ela ficasse
Mas a CPMF foi desfeita
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Foto do por do sol quando sobrevoando Brasília(Gilbamar de Oliveira)
NAMORANDO O CÉU

Gilbamar de Oliveira


Cada por do sol é único e especial, nenhum é igual ao outro, sobretudo porque todos têm sua própria digital romântica, uma assinatura inédita e impossível de copiar. Namorando os entardeceres, dominado pelo mágico e preciso instante em que o céu se transforma numa incomensurável aquarela e um genial pintor invisível, porém presente e talentoso além do imaginado por nossa vã filosofia, separa as inúmeras tintas, misturando-as para encontrar a tonalidade mais linda, vou assistindo ao ritual do astro-rei se recolhendo aos seus aposentos abaixo da linha do horizonte, esplendoroso em sua magnitude real. E, à medida que ele suavemente se despe do ocaso vagaroso e belo, retirando peça por peça com o mesmo ar faceiro e brejeiro de uma stripper, ruborizado porque visto por milhares de sonhadores como eu, as cores do seu espaço vão se multiplicando, parecendo que ele está se redesenhando, talvez passando demaquiante para retirar as impurezas do dia, debruadas as tintas de maneira harmônica a formar um esplêndido conjunto onde o colorido adquire aquele aspecto misterioso e sui-gêneris que nos dá a sensação absoluta de não ser labor natural, senão divino. Eu coleciono pores-do-sol da mesma maneira que um garotinho tem a sua coleção de figurinhas ou de carrinhos de brinquedo. E sou tão cuidadoso quanto ele, quiçá vou muito além do zelo quando se trata de pô-los em ordem nos pensamentos. É que os guardo num insondável arquivo reservado do meu coração, recanto a que somente eu tenho acesso, um lugar bem na ala subjacente à das emoções e destinado aos arquivos onde repousam os meus sonhos, ilusões e devaneios. Nesse santuário íntimo é onde me reencontro e descubro as entranhas mais profundas do meu eu. Ali, junto à intimidade dos meus guardados, coisas só minhas, usufruo do prazer de me buscar e fazer companhia ao meu ego. Já aqueles pores-do-sol escondidos são minuciosamente catalogados nesse recôndito, onde permanecem organizados e à minha disposição quando a estação invernosa chega, oportunidade em que, então, posso admirá-los um a um embora o dia esteja nublado. Conheço de cor as cores e os traços que os definem, e, por vezes, nos estertores da madrugada, ao nascimento de um novo alvorecer, ao invés do sol que chega recordo os que se puseram e fizeram do céu uma extraordinária festa de coloridos indizíveis e fogos de artifícios silenciosos. É evidente ser inegável, óbvio, por outro lado, a beleza existente no fluir dos raios solares no amanhecer renovado, momento em que o infinito também se mostra quase tão lindo e vale a pena acordar cedo para ver o quebrar da manha. Isso, contudo, é apenas quase tão aprazível quanto o cair da noite, pois a beleza do por do sol não pode ser comparada nem dividida, sua existência é ímpar. Daí esse meu teimoso aconchego extremado com tal intervalo especial do tempo e do encanto, da luz e da escuridão, do dia terminal e da noite recém nascida, da beleza perfeita com a mera beleza simples, do viver ralo com o estar vivo e esbanjando felicidade. Sem comparações, porquanto as peças desse astronômico universo, mesmo a mais ínfima e comum, são importantes na mesma proporção, na mesma equidade. O complexo corpo universal necessita de unidade, de estar em uníssono com o seu todo sem prescindir nem do desprezível fio de cabelo caído em algum lugar esquecido. Há uma cadeia ecológica a ser preservada. E inserido nesse contexto beirando o metafísico encontra-se o por do sol, alvo das minhas emoções à flor da pele, dos meus súplices olhares necessitados de beleza.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

MUNDO DOIDÃO - Final


Via-se obrigado a casar
Quem à virgem deflorava
Não importando sequer
Se o casal não se amava
Lavar a honra era o fino
Isso eu vi desde menino
Só a força é que mandava

Isso valia para todos
Ou casava ou morria
Não adiantava chorar
Quem escapava, fugia,
E se o sujeito se mandasse
Melhor que o mundo acabasse
Nunca mais ninguém o via

Ele que não mais voltasse
Ao lugar da sua desdita
Caso voltasse, já sabia,
Teria uma sina maldita
Poderia até ser morto
E viraria um anjo torto
Lavando a honra bendita

Claro que tamanho exagero
Não poderia perdurar
O diálogo é o caminho
Não vamos exagerar
Mas a coisa mudou demais
Por favor, me dê meus sais
Que o mundo vai acabar!

E tudo é culpa do homem
Que pecou por omissão
Ou porque quis errar mesmo
Seguindo conselho do cão
E assim transformou a vida
Que um dia foi querida
Nessa grande confusão

O que podemos esperar
De manhãs sem esperança
De gente sem ternura
Adultos que matam criança?
Os sonhos, onde estão?
Esquecemos o perdão
Só pensamos em vingança!

Desiludiu-se a humanidade
Num caos sem precedente
Vendo tudo pegar fogo
Na violência crescente
Parece que nada tem jeito
Ninguém mais morre no leito
Chorado por sua gente

Então, o que devemos fazer:
Deixar as coisas como estão
Sem levantar uma palha
E endurecer o coração
Pondo uma pá de areia
Em toda essa coisa feia
E aumentar a confusão?

Espere, não é bem assim,
Somos seres evolutivos
Ainda existem homens bons
Estudiosos e criativos
Agindo como altruístas
Como os poetas e artistas
Que nada têm de vingativos

Com eles podemos sonhar
E viajar nos devaneios
Fazer da vida uma festa
Não pegar o que é alheio
E da cor do que é bonito
Repintemos o maldito
Apagando os pontos feios

Trocando as cores da vida
Pintando um desenho novo
Enchendo a Terra de plantas
Alegrando o rosto do povo
Para colher só alegria
Tornando a existência sadia
Fazer do viver um renovo

Nesse mister, então,
Apenas o bem reinará
Sonharemos acordados
Vamos o amor replantar
No jardim nascerão flores
Semearemos amores
Nunca será preciso chorar

A não ser que o choro venha
Trazendo a felicidade
Como emissário da paz
Demonstrando idoneidade
Nos olhos de quem o derrama
Acendendo assim a chama

Que guia a humanidade