Eu olho a vida que Deus criou
E fico assim tão deslumbrado,
Com a alma agradecida
E o coração emocionado
Sem conseguir compreender
Por que o cético é desalmado
Quem ele pensa que desenhou
Cada centímetro de vida
O Universo com suas cores
A mata virgem florida
O sol com o forte clarão
E a lua à noite surgida?
De onde ele tirou a idéia
Que tudo nasceu da explosão
De um tal de big bang fajuto
Harmonia criada da confusão
Milhões de destroços formando
A vida em tão perfeita união?
Só desvairado pensa assim
Achar que essa incoerência
De fragmentos disformes
No tempo e na paciência
Transformaram-se numa flor.
Isso é brincar de ciência!
Veja a perfeição do Cosmo
As galáxias e os planetas
Os asteróides e as estrelas
Olhe com potentes lunetas
E com infinita imaginação
Tire a certeza de letra
Desse caos estapafúrdio
Se originaria um beija-flor
Um pintassilgo que canta
Conquistando o seu amor
O mar em ondas bravias
Ou um lindo botão em flor?
Quem foi que pintou o céu
Na hora do entardecer
Quando o sol se põe tão lindo
E é belo como o alvorecer
Encanta a mistura de cores
Num quadro de surpreender?
Ora, incrédulo papalvo,
Esse monte de aves voando
Orquídeas de tantos matizes
Cobras e jacarés se arrastando
Teriam vindo da explosão
Ou do Ser Supremo criando?
Num metro quadrado de chão
Nós plantamos melancia
Abóbora, feijão e abacate,
E todas nascem em harmonia
Num espaço tão pequeno
Vemos banana, mamão e lichia
Não é extraordinário, assim,
Entre outras coisas tantas
Que haja equilíbrio em tudo
Pássaros, veados e antas
Que habitam a mesma floresta
Com homens, rosas e plantas?
Outra indagação eu faço
A quem só acredita em fada
Quem acendeu o estopim
Dessa explosão danada
Uma mera faísca do tempo
Ou apenaso próprio nada?
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
sábado, 5 de janeiro de 2008
BANQUETE LITERÁRIO
Fui menino sonhador a pensar continuamente sobre o futuro que viria. Igual a outras crianças, eu também gostava de brincar com o pião, jogava bola, apreciava contar as mentirosas estória de Trancoso juntamente com os demais meninos da rua, no entanto mais que tudo isso eu, sobretudo, lia e lia muito, em especial – quem se lembra? – aquelas revistas de capa-e-espada que contavam mirabolantes estórias de reinos, princesas lindas e hábeis cavalheiros a defendê-las com suas espadas afiadas, flamejantes e implacáveis. Por horas em me entretinha folheando qualquer texto que me caísse às mãos, não recusando nem mesmo as bulas quando nada mais havia para ler. Se um exemplar da revista O Cruzeiro, para meu deleite, aparecia à minha frente, ávido eu apreciava cada página e deixava a imaginação voar livremente pelo universo dos sonhos com a sabedoria dos articulistas, mormente Davi Nasser e Raquel de Queiroz, esta sempre na última página com seus textos vigorosos. O amigo da onça, famosa criação da época, lavra do pernambucano Péricles Maranhão, também era um dos meus preferidos pela sagacidade de suas tiradas mordazes. Eu descobria o novo e o insólito e ia armazenando nos arquivos da memória aquele benfazejo amontoado de cultura diversificada. As revistinhas em quadrinhos do Zorro, Roy Rogers, Tarzan, Jim das Selvas, Fantasma, Pato Donald e tantas outras fizeram o usufruto de meus instantes solitários. Sentado no velho e já bastante gasto sofá de três lugares de minha mãe, os olhos tesos, sem piscar pela atenta observação das letras formando palavras e capítulos, eu esquecia as horas e, quase sempre, nem lembrava de brincar ou de me alimentar até ouvir as admoestações de mamãe a respeito “da perda de tempo só lendo e lendo sem querer fazer outra coisa, esse menino...”
Na adolescência, seguindo esse ritmo acelerado de intensa busca pelo prazer encontrado nos livros, meu coração já pulsando descontrolado pelas garotas bonitas do bairro por quem eu ia me apaixonando, dedicava com avidez a maior parte do meu tempo à leitura, desta feita ampliando os horizontes do conhecimento com compêndios de autores mais voltados a um universo textual de melhor qualidade. De Machado de Assis li os romances A mão e a Luva, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Iaiá Garcia, além de algumas poesias de rara beleza, a exemplo de Crisálidas e Falenas; José de Alencar me deslumbrou com Iracema, a virgem dos lábios de mel, O Guarani, A pata da Gazela, Cinco Minutos, Diva e outros romances. Viajei através do Romantismo e do Barroco, passeei pela beleza dos escritores portugueses e mergulhei, enfim, no mundo universal dos grandes clássicos, com passagens por outras searas como os grandes poetas brasileiros, russos e ingleses. Assustei-me com A Divina Comédia, de Dante, fiquei perplexo com os absurdos, a meu ver, percebidos em O Príncipe, de Maquiavel; estremeci ao ler Fausto e Werther, de Goethe; quase chorei com o brilhantismo das cenas descritas no livro A Mãe, de Máximo Gorky; e então, certo dia alguém me emprestou um dos livros mais densos e emocionantes que os meus olhos jamais viram: Os Irmãos Karamázov, de Fiodor Mikháilovitch Dostoievski, de quem também li e reli, deslumbrado, Crime e Castigo. Foram grandes obras verdadeiramente inesquecíveis que marcaram minha alma. De certa feita, adoentado e febril, deitado numa rede e devidamente enrolado num lençol grosso para suar depois de um chá de limão com alho, contrabandeei para sob as cobertas um exemplar de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, devorando-o inteirinho de uma só “deitada”, e desse momento em diante não sosseguei mais enquanto não li Por quem os Sinos Dobram e Adeus às Armas, do velho escritor que deu fim à própria vida enfiando o cano de uma espingarda na boca e disparando, num gesto tresloucado e incompreensível. De Fernando Sabino, o primeiro livro foi O Homem Nu, os demais vieram em cascata, da mesma forma com Carlos Drummond, Guimarães Rosa( Grande Sertão, veredas, o destaque maior!), depois Gabriel Garcia Márquez( Cem anos de Solidão é insuperável e inteligente; O amor nos tempos do cólera, igualmente), Graciliano Ramos(Vidas Secas, que maravilha exemplar de literatura primorosa; Angústia; Memórias do Cárcere, entre outros, todos belíssimos). Eu lia tudo quase em desespero, parecendo alguém famélico que enxergava um banquete diante de si e se lambuzava todo com a farra da comilança. Então, um dia, meio que de súbito, caiu-me às mãos o livro Crítica da Razão Pura, de Imanuel Kant. Embora não conseguindo alcançar por inteiro o conteúdo da famosa obra, algo ficou para desembaralhar os fragmentos de minhas idéias e resultar nalgum empirismo meio torto de meus despretensiosos textos. Sem dúvida, os livros, companheiros fiéis e constantes de minha vida até hoje, têm trazido à realidade do meu cotidiano indizíveis prazeres que somente o espírito sente e conserva para sempre.
Gilbamar de Oliveira
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Crônica
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
ACRÓSTICOS
V ício que me deslumbra e completa, prazer que me faz
O lhar a vida com a doce visão da felicidade encontrada. Tornou-se
C arne da minha carne, passamos a ser um só coração nesse
E mbevecente paraíso da existência humana
***********************
E spontâneo e incorrigível sonhador que almeja a vitória suprema do amor hoje, agora, imediatamente, num repentino e
U nico gesto de perdão coletivo a deslizar suavemente terno sobre os corações ainda embrutecidos
Gilbamar de Oliveira
O lhar a vida com a doce visão da felicidade encontrada. Tornou-se
C arne da minha carne, passamos a ser um só coração nesse
E mbevecente paraíso da existência humana
***********************
E spontâneo e incorrigível sonhador que almeja a vitória suprema do amor hoje, agora, imediatamente, num repentino e
U nico gesto de perdão coletivo a deslizar suavemente terno sobre os corações ainda embrutecidos
Gilbamar de Oliveira
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
PARA OS POLÍTICOS
Não quero ser pessimista
nem contradizer ninguém
mas como ser otimista
se as mudanças não vêm?
Quando falo em mudar
digo a nível de Nação
que o povo possa sonhar
com melhor educação
A saúde estruturada
para a todos atender,
a juventude formada
e educada p'ra vencer
O básico saneamento
para o povo ser saudável
não só coisa de momento
mas perene e palpável
E além de tudo isso
queremos do parlamentar
um sério compromisso
de que ele vai trabalhar
Não só falar picuinha
um blá-blá-blá sem sentido
de quem parece farinha
num mesmo saco contido
Já estamos de saco cheio
de engolir só promessa
nosso voto é o único meio
neste ano que começa
De escolher diferente
alguém que goste do povo
não desfaça da gente
e nem vá mentir de novo
nem contradizer ninguém
mas como ser otimista
se as mudanças não vêm?
Quando falo em mudar
digo a nível de Nação
que o povo possa sonhar
com melhor educação
A saúde estruturada
para a todos atender,
a juventude formada
e educada p'ra vencer
O básico saneamento
para o povo ser saudável
não só coisa de momento
mas perene e palpável
E além de tudo isso
queremos do parlamentar
um sério compromisso
de que ele vai trabalhar
Não só falar picuinha
um blá-blá-blá sem sentido
de quem parece farinha
num mesmo saco contido
Já estamos de saco cheio
de engolir só promessa
nosso voto é o único meio
neste ano que começa
De escolher diferente
alguém que goste do povo
não desfaça da gente
e nem vá mentir de novo
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Trova
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
NA MADRUGADA DO NOVO ANO
As rodas da engrenagem se contorcem no esforço inumano de acoplagem para reiniciar a ilusão. É tudo absolutamente novo, vêm as surpresas, os sonhos começam a florescer, há sorrisos em botão despertando, os jardins do coração despertam e entram em devaneio. Abrem-se as portas de uma nova esperança, num lampejo tendemos a imaginar que recomeça a vida do zero. Pois eis o nascer outra vez do ano. As inúmeras luzes oriundas das explosões no céu, fugazes, tornaram-se apenas fumaça até que, finalmente, viraram nada. O clamor dos fogos quebrando o silêncio da madrugada já é história juntamente com os vivas e as aclamações e os abraços entremeados com beijos e afagos. Até mesmo a lua, que estava adormecida no último dia de 2007, acordou e, semivestida na sua camisola cor de âmbar, espreitou o barulho humano, os seus risos e suas gargalhadas sonoras. Se bem não desse muita bola para essas veleidades tão próprias desses terreáqueos festeiros, permaneceu lá no alto quase toda acesa e, embora ainda meio sonolenta, vagou por entre as nuvens e sobre o mar de Ponta Negra me dando a impressão, por instantes, de ter acenado displicente para a praia molhada pelas gordas ondas mar e, posso assegurar, até bocejou indiferente, um tanto lânguida eu diria. Ela decerto enxergou a multidão carregando cadeiras, mesas, farofa, espumantes, frangos assados, salgadinhos, refrigerantes, enfim, esse calhamaço de tranqueiras que muitos levam para a praia no último dia do ano para se empanturrar enquanto esperam o sol dar o ar de sua graça lá pela linha do horizonte acima do Atlântico. E, sem dúvida, deve ter rido bastante desse comportamento bizarro. Talvez, por ensurdecedor, ela também tenha escutado o alto e nada bom som que rolou nos quatro cantos da Terra em decibeis alarmantes. Estranhou, com certeza! E as calientes cenas, digamos, de amor e sexo protagonizadas por afoitos casais ali pelos cantos e recantos escuros das praias e das moitas noturnas? Ficou feia de ver, estou certo. Isso tudo acontecendo no contar dos minutos restantes e no iniciar da nova data. As ressacas, as brigas, os namoros desfeitos, os romances entabulados, as crianças geradas nesse pequeno intervalo, tudo isso jamais conheceremos por inteiro. Porque a noite, criança que é, na sua inocência cândida, fecha os olhos e dorme sem se importar com essas coisas características dos seres humanos. Prossegue a jornada dos homens, renovam-se os calendários, uns morrem outros nascem, vão e vêm há milhões e milhões de anos. Tudo parece tão igual, tão repetitivo! Mas, confessemos, é tão bom estar vivo e presenciar essas cenas da existência, não é?
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