terça-feira, 25 de março de 2008
MEU PRIMO VALENTÃO - II
Contemporizador e pacato
De poucas letras, solidário,
Tão imune ao desacato
Ia resolver tudo aquilo
Com um pouquinho de tato
Ao contrário do seu irmão
E do seu sobrinho José
Valentes como guerreiros
O segundo chamado de Zé
Meu pai, um cavalheiro,
Não era um brigão qualquer
Meu tio chamado Menino
Eu jamais soube a razão
Brigava com uma mão só
Riscava peixeira no chão
A ninguém ele temia
E nem era homenzarrão
Contudo o seu filho José
Ainda era mais valente
Lutava com mais de cinco
Não perdia nem um dente
Assim o tipo de pessoa
Que fixa os olhos na gente
Mas voltando ao meu pai
Naquela difícil situação
De ver a esposa indefesa
Aos pulos seu coração
Homem contemporizador
Assim, apelou para a emoção
“Meu caro senhor”, disse ele,
“Hoje nós dois casamos
E viemos assistir ao filme
Por este lugar optamos
Só fui ali fora e voltei
Ficar juntos desejamos”
Magro, baixo e franzino,
Um suave ar de bonachão
Meu pai despertava amor
Nunca, jamais, confusão
Foi homem de amizade
Tinha um grande coração
O grandalhão olhou para ele
Com jeito de zombaria
E falou bem entredentes:
“ora, ora, quem é que diria
Se fosse casado com ela
Jamais eu daqui sairia”
“Você saiu porque quis
E se saiu perdeu o lugar
Sai logo daqui, cara,
Que o filme vai começar
E depressa, bem depressa,
Já começo a me zangar!”
Já então, nesse momento,
Muita gente observava
Que algo ali acontecia
O falatório começava
E parecia coisa séria
A voz do cara ameaçava
Mamãe estava aflita
E só tentava apaziguar
Achava que seria melhor
Procurar outro lugar
Tinham vindo se divertir
Não vieram para brigar
Papai olhou a multidão
Pensando no que fazer
Todos olhavam p’ra ele
Ali, de pé, sem nem saber
Como, naquele instante,
Ele deveria proceder
Súbito, algo aconteceu
O cenário todo mudando
Um sujeito forte e grande
O povo todo empurrando
Ansioso e bem nervoso
Foi dali se aproximando
“Tem algo errado, meu tio?”
Gritou ele em chegando
Cara, era meu primo José!
Que meu a pai foi ombreando
E sua bem vinda visita
Foi logo tudo clareando
quinta-feira, 20 de março de 2008
MEU PRIMO VALENTÃO - I
Quando meus pais se casaram
Num tempo de pouca diversão
Acharam por bem ir ao cinema
Cheios de amor no coração
Um ótimo filme passava
Aquela era a boa ocasião
O filme “A formosa Bandida”
Atraiu inusitada atenção
Do povo que encheu o cine
Quase toda população
De sua pequena cidade
Por ser uma grande atração
Chegaram cedo ao local
Mas já muita gente havia
Comprando suas entradas
Minha nossa, que correria!
Muitas pessoas paravam
P’ra saber o que acontecia
Malgrado o aglomerado
Dos cinéfilos apressados
Tantos vendedores gritando
E dos ansiosos apressados
Meus pais ganharam a graça
De dois lugares sentados
O cinema estava tão cheio
Muito mais do que lotado
Que até em suas laterais
Tinha povo em pé e sentado
Sim, no chão mesmo, senhor
De todo jeito acomodado
Antes de começar o filme
Papai, romântico, pensou:
“vou rápido comprar pipoca
Para agradar ao meu amor
Vou num pé e noutro volto”
E mamãe sozinha ele deixou
Foi difícil papai alcançar
Aonde ele pretendia ir
Para bem depressa voltar
Faltava só um pouquinho
O filme estava p’ra começar
Quando, por fim, ele voltou
À companhia da amada
Quase teve um infarto
Ela estava acompanhada
Não porque ela quisesse
Era companhia forçada
Um brutamontes valentão
Aos seus apelos indiferente
Sentou na cadeira guardada
Para o meu pai inocente
Que só queria ser gentil
Num momento incoerente
Mamãe já tinha explicado
Que aquele assento vazio
Pertencia ao seu esposo
Que por um pouco saiu
Mas o cafajeste nem ligou
...continua
segunda-feira, 17 de março de 2008
ESSES INDIFERENTES
Primeiro, a longa espera. As duas mulheres já andadas em anos, tagare-las e indiferentes aos meus anseios, não demonstravam o menor interesse em desocupar as cadeiras na cafeteria para onde eu desejava ir com minha esposa com o fito de desfrutar de um café expresso carioca regado a tapioca recheada com queijo. Depois, a lentidão do tempo preguiçoso. E ficamos nós dois vagando o olhar para aqui e ali, vez por outra, de esguelha, pondo uma vista d'olhos nas duas mulheres encarapitadas nos dois lugares ambicionados por nós. As pessoas iam e vinham rindo, conversando, descontraídas, sentavam nalgum lugar da praça de alimentação do shopping e o relógio gotejava segundos. Havia outros comensais na cafeteria, bem sei, e para eles eu também jogava olhares ansiosos, mas no íntimo eu queria mesmo era aquele cantinho onde as duas mulheres se refestelavam e riam como adolescentes. Per-cebi que elas não estavam servidas e imaginei suas presenças ali como mero passatempo, com a impressão de que já haviam se regalado e estavam simplesmente jogando conversa fora e tomando o lugar de outros clientes. Ledo engano, porém, pois após um longo tempo a garçonete chegou com o pedido delas. Então soltei fumaça pelas narinas, absolutamente enraivecido e disposto a desistir do café expresso cari-oca. Não fora a minha esposa com sua doçura...
Lá pelas tantas, por fim, vimos as tagarelas saindo e corremos na direção delas antes que alguém mais se aboletasse nas cadeiras já supostamente à nossa disposição. Ufa, conseguimos. O local estava cheio de freqüentadores se deliciando com as iguarias oferecidas pelo estabelecimento. Percebi que as duas senhoras haviam deixado uma garrafa de água mineral de meio litro pela metade, num desperdício inesperado. Olhei em derredor sem imaginar que veria outras tantas pessoas desperdiçando comida, água e suco sem a menor cerimônia. Dois caras, sentados numa espécie de poltrona defronte a uma mesinha, foram os protagonistas subseqüentes do estrago. Bebiam, ou quase, suco de laranja e conversavam animadamente. Quando, mais tarde, tornei a passar uma vista d'olhos em derredor, vi-os deixando o local e os copos praticamente intocados quando a garçonete dirigiu-se à mesa. Notei que eles não tinham tomado nem dez por cento dos sucos.Ou seja, mais desperdícios e indiferença. Ainda nos deliciávamos com nossos petiscos quando uma jovem senhora, acompanhada de uma garota adolescente, ambas de boa aparência e denotando ter ótima posição social, se aproximaram. A garota empurrava um carrinho de bebê duplo, isto é, dois em um ocupado por lindos bebês. As mulheres riam descontraídas e felizes. A que, certamente, deveria ser a mãe das criancinhas, pediu uma imensa fatia de torta de chocolate e um copázio de café para si e nada para a outra. Toda afetada, bebendo o café como se a xícara contivesse ouro em pó, mordiscava míseros pedacinhos da torta parecendo abusada, enfarada, enquanto trocava palavras risonhas com a sua acompanhante, esta também toda alegrinha e alheia à guloseima meio desprezada por aquela. O mais interessante é que somente a mãe dos pequeninos comia e bebia, a garota parecia ser somente alguém desprezível que não merecia ser convidada. Ou, então, não queria comer nada mesmo. Mas concluí, mais tarde, o café bebericado apenas pouco além de um quarto do seu todo e o doce não mais que cinco por cento, que haveria novo desperdício naquela cafeteria. Não deu outra! Com a maior cara de pau, envolvida no converseiro com a garota, rindo e brincando, a mulher estalou os dedos para a garçonete, pediu a conta, esperou sem tocar nos alimentos pedidos, olhou o valor pouco depois, pagou e deixou o troco para sua atendente e, sem lançar qualquer olhar de arrependimento pelo desperdício nem oferecê-lo até mesmo por cortesia a garota que estava com ela, saiu toda serelepe pela praça de alimentação do shopping adentro e desapareceu. A generosa fatia de torta chegou às mãos da garçonete e foi jogada no depósito de lixo estrategicamente colocada nos arredores da cafeteria.
E eu, comendo devagarzinho minha tapioca recheada com queijo e sorvendo um cafezinho expresso, fiquei pensando quantas pessoas no mundo se submeteriam a qualquer coisa, por mais torturante que fosse, para comer aquele pedaço de torta, tomar o suco de laranja e tomar a água mineral deixados com desprezo em cima da mesa, quase intocados, por essas criaturas insensíveis ao outro lado da moeda social tão próximo delas. Por que tanta indiferença, tanto desperdício, tanto desprezo ao pão e ao povão?
sábado, 15 de março de 2008
OS CINCO SENTIDOS DO HOMEM
No barro de que foi feito
Sentidos lhe foram dados
E o homem ficou perfeito(?)
Foram cinco concedidos
E mais não foi necessário
Para que mais sentidos,
Não seria temerário?
Dessas bênçãos, a primeira,
Para não haver confusão
E ouvir bem a vida inteira,
Deu o nome de AUDIÇÃO
E para sentir os odores
Do mundo e seus distratos,
Em especial das flores,
Abençoou-o com’o OLFATO
A percepção dos sabores
Sim, não poderia faltar
Junto com outros sensores
Foi bem vindo o PALADAR
Um sentido especial
Tão bom quanto o palato
É a sensibilidade total
Dada ao homem com o TATO
Mas a VISÃO, com certeza,
Entre as bênçãos do Criador
Foi para ver a beleza
Do mundo que ELE criou
sexta-feira, 14 de março de 2008
QUADRINHAS DOS BICHOS
O galo que canta ao amanhecer
e cisca fagueiro atrás da galinha
é o mesmo que logo vai morrer
ensangüentado na areia da rinha
O ZANGÃO
Nos braços reais ele goza e perece
partido ao meio, espalhado no chão
é pouco o momento que o enternece
eis a breve história do pobre zangão
A MARIPOSA
E a mariposa, encantada com a luz,
já nasce buscando aparecer
é o interesse no brilho que a conduz
sendo isso mesmo que a faz morrer
A MOSCA
A mosca, bicho de aspecto nojento
de tantas enfermidades transmissor,
tem ínfimo viver, um reles momento
e 24 horas para morrer sem dor
quarta-feira, 12 de março de 2008
COVARDES, COVARDES!
Eu rasgo meu coração
com os olhos marejados
dedilhando o violão
com uns tons desafinados
É triste a canção que toco,
sinto o olhar distraído
quando o vento vem eu soco
calado, enfurecido.
Permitam-me explicar
por que razão eu choro
se fico o violão a tocar;
calma, conto, não demoro
Vou começar do começo
como o matuto dizia,
mas se lembro estremeço
ah, quanta covardia!
Não se avexe, eu digo
e vou relatar agora
se não quer saber não ligo.
Espere, não vá embora!
Pois bem, eu vou começar
A contar uma história
Dessas de arrepiar
Ta aqui na memória
Havia um sujeito rico
dono de grande plantação
com manga, banana e trigo
ao redor de sua mansão
Cioso desse seu bem
mandou cercar o casarão
e não queria que ninguém
passasse por seu portão
As plantas do seu pomar
haviam frutificado
mas cadê alguém olhar?
só se fosse autorizado
Só que algumas crianças,
travessas em seu viver,
sonharam a esperança
daquela mansão conhecer
Moravam na vizinhança
e a mansão os encantava
daí a grande ânsia
de ver se nela entrava
E o único jeito que viram
foi o muro escalando
mas eles nem sentiram:
alguém estava olhando
O alvo dos pequeninos
era a manga, doce fruto
a delícia dos meninos,
jamais causa de luto
Eram três os sapequinhas
que correram apressados
à procura das frutinhas
logo no solo chegados
Súbito, um tiro troou
enquanto eles corriam
e a bala certeira chegou
ao alvo e todos caíam
Foi Joãzinho o baleado,
um tiro no coração
que o deixou estatelado
perto da manga no chão
Eu não quero continuar
esse caso me dá zanga;
como pode alguém matar
por causa de uma manga?