Hoje, dia 27/04/2008, às 15:04h, chove em abundância sobre Natal-RN. O céu exibe um enorme e carrancudo rosto cinzento e derrama sobre a cidade seus bilhões de lágrimas frias e intermitentes. Desde a madrugada de hoje. Temo que uma nova tromba d'água tenha sido despejada com o mesmo ímpeto daquela que no começo da semana inundou e destruiu casas, atormentou e fez chorar tantas famílias desabrigadas pela força de seu poder incontrolável. E o meu coração enxerga, do íntimo de sua profundidade, pulsando acelerado e melancólico, diversos natalenses certamente sofrendo a mesma angústia, agora, ao vivo, enquanto escrevo esta crônica. Não há como não imaginar o alagamento das ruas, o trânsito impedido, carros sendo arrastados, mães com as mãos na cabeça sem saber o que fazer, crianças chorando desesperadas ao lado dos pais atarantados, bueiros transbordando suas podridões acumuladas pelos sujismundos, energia cortada de bairros mais atingidos pelo impulso das águas, enfim, o indescritível caos. Ainda bem que é domingo, ou infelizmente por isso mesmo. Em primeiro lugar, graças porque não é dia de expediente; contudo, em sendo domingo procuraríamos as praias, os shoppings, os sítios, as fazendas, os pesque-e-pague, as praças, as ruas. Implacável e indiferente, a chuva segue seu curso constante. Não cede, não termina, molha quem a enfrenta, alaga tudo em seu caminho. Olhando para cima aqui do meu apartamento, o computador pertinho da janela fechada, ao tempo em que não paro de escrever porque tomado por um incontrolável frenesi literário, encaro o manto acinzentado encobrindo o azul celeste tão lindo e o amarelo vivo do sol. Estranho como essa capa enorme consegue esconder toda a beleza do firmamento. Natal parece uma criancinha assustada, trêmula e indefesa sob os grossos pingos precipitados lá do alto. Toda molhada e a ponto de afogar-se com tanto aguaceiro, e sem ter a quem recorrer, tirita de frio esperando debalde o fim desse interminável e incomensurável mar de lágrimas derramadas do espaço sobre ela. Por instantes, faço uma suave pausa, tento abrir somente um pouquinho a janela e, de repente, cai-me sobre o rosto a nem tanto inesperada rajada de vento frio acompanhada de respingos que mais parecem pedaços de gelo furando minha pele. O calafrio subseqüente é imediato. Ato contínuo, eu a tranco e me volto para a tela do terminal a fim de relatar o acontecido. Todavia, meio desanimado, cabisbaixo, me pergunto: que mais há para dizer? No tocante ao prosseguimento da chuva? Acode somente o nada; sobre a ferocidade do céu circunspecto? Isso é tão desagradável e previsível; a respeito da melancolia espraiada em cada recanto da Noiva do Sol? Chega a ser deprimente pensar nisso. Assim, chego à triste conclusão de que não existe mais nada para ser dito, o dia está anêmico demais para inspirar algo mais para este texto pueril. Compreendi, porém, a certeza dessa indubitável verdade: a noiva Natal e o seu noivo, o Sol, embora apaixonados o ano inteiro e sempre juntinhos, não vão namorar hoje. Tomada pelo ciúme, a chuva estragou esse prazer. Mesmo sendo domingo, dia de ver os dois abraçados na praia
quarta-feira, 30 de abril de 2008
terça-feira, 29 de abril de 2008
POR CAUSA DAS CHUVAS
Caros amigos, em razão de problemas ocorridos com as fortes chuvas em Natal eu estava sem acesso à internet, o que motivou a falta de postagem durante esses dias. Aparentemente, parece que tudo voltou ao normal a partir de hoje, se bem que esse tipo de coisa é imprevisível. Peço desculpas e compreensão aos meus diletos leitores pelo atraso involuntário nas postagens. Grande e fraternal abraço a todos e o meu agradecimento pelos acessos diários a este blog.
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RESENHA DE LIVROS
UM LONGO CAMINHO PARA CASA
Autora: Danielle Steel
Tradução de: Raquel Zampil e Márcio El Jaick
Editora Record
Edição 2000
Todos nós aprendemos com os livros, sejam eles literários, históricos, educativos, de auto-ajuda, técnicos, etc. Porque a leitura sempre acrescenta algo novo, alegra e estimula a alma, desperta a mente para os vôos da imaginação e, sem dúvida, para quem lê por prazer ou distração é uma grande e inquestionável aventura. Assim, se não lhe cai nas mãos um Gabriel Garcia Márquez, Jorge Amado, Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Graham Greene, Carlos Drummond de Andrade ou outro dessas estirpes, qualquer obra que desperte seu interesse tem o condão de agregar valor ao tempo que lhe foi dispensado. Desculpem-me dar-me como pobre exemplo, mas os anos de minha vida, desde o momento em que aprendi a conhecer as letras e uni-las em palavras e frases com sentido lógico, têm sido de dedicação a qualquer tipo de leitura quando a melhor literatura não está ao meu alcance. Li capa-e-espada, filosofia, biografias, clássicos, prêmios Nobel e tantos outros comprados, emprestados na biblioteca ou presenteados por amigos, mas também gastei horas lendo Agatha Christie, Danielle Steel e tantos que trilham as veredas dos livros escritos somente para distrair e emocionar. Recentemente concluí a leitura do romance UM LONGO CAMINHO PARA CASA, da escritora norte-americana Danielle Steel. Autora de mais de quarenta obras, ela é especialista em descrever e detalhar estórias semelhantes às da vida real, com seu toque especial para envolver e encantar o leitor de maneira a prendê-lo no enredo até a última linha. Esse Um longo caminho para casa não é diferente. Preparem os lenços os emotivos, pois a vida de Gabriella Harrison leva qualquer um às lágrimas. Só não consegui compreender, perplexo ao longo das mais de trezentos e sessenta páginas de letrinhas miúdas, como ela encontrou tamanha frieza para desfiar os indizíveis sofrimentos da personagem com a minúcia que angustia e magoa. Tenho que ela provavelmente chorou muito enquanto escrevia esse romance. Odiada pela mãe, que lhe aplicava os mais horrorosos castigos sem nenhum motivo, ao ponto incrível de quebrar-lhe costelas e deixa-la sem comer, ao tempo em que o pai ficava indiferente às barbáries criminosas da esposa, Gabriella atravessa um calvário de sofrimentos quase inverossímil até os dez anos, quando então é abandonada pela mãe num convento. Antes disso o pai deixara as duas por outra mulher, atormentado pela própria covardia que o impedia de acudir a filha maltratada e assustado pelos fantasmas de um casamento insustentável. Naquele palco de contemplação e dedicação à religião segundo os cânones católicos, ela conheceu o amor e a bondade nos anos seguintes, até que, já adulta e após o curso na faculdade, conhece o padre Joe Connors. Nesse meio tempo havia entrado para o postulado na intenção de tornar-se freira. Então, começa tudo outra vez quando descobre o amor...proibido. Um longo caminho para casa é para ser lido com a rapidez de quem deseja saber logo o final da estória para, a seguir, iniciar a leitura de outro romance, esquecendo aquele. Não porque ele seja sem graça, simples, desprovido de uma mensagem significante, mas porque geralmente acontece isso com as obras despretensiosas destinadas à diversão e ao passatempo...e que enriquecem seus autores, lidos em várias partes do mundo.
Autora: Danielle Steel
Tradução de: Raquel Zampil e Márcio El Jaick
Editora Record
Edição 2000
Todos nós aprendemos com os livros, sejam eles literários, históricos, educativos, de auto-ajuda, técnicos, etc. Porque a leitura sempre acrescenta algo novo, alegra e estimula a alma, desperta a mente para os vôos da imaginação e, sem dúvida, para quem lê por prazer ou distração é uma grande e inquestionável aventura. Assim, se não lhe cai nas mãos um Gabriel Garcia Márquez, Jorge Amado, Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Graham Greene, Carlos Drummond de Andrade ou outro dessas estirpes, qualquer obra que desperte seu interesse tem o condão de agregar valor ao tempo que lhe foi dispensado. Desculpem-me dar-me como pobre exemplo, mas os anos de minha vida, desde o momento em que aprendi a conhecer as letras e uni-las em palavras e frases com sentido lógico, têm sido de dedicação a qualquer tipo de leitura quando a melhor literatura não está ao meu alcance. Li capa-e-espada, filosofia, biografias, clássicos, prêmios Nobel e tantos outros comprados, emprestados na biblioteca ou presenteados por amigos, mas também gastei horas lendo Agatha Christie, Danielle Steel e tantos que trilham as veredas dos livros escritos somente para distrair e emocionar. Recentemente concluí a leitura do romance UM LONGO CAMINHO PARA CASA, da escritora norte-americana Danielle Steel. Autora de mais de quarenta obras, ela é especialista em descrever e detalhar estórias semelhantes às da vida real, com seu toque especial para envolver e encantar o leitor de maneira a prendê-lo no enredo até a última linha. Esse Um longo caminho para casa não é diferente. Preparem os lenços os emotivos, pois a vida de Gabriella Harrison leva qualquer um às lágrimas. Só não consegui compreender, perplexo ao longo das mais de trezentos e sessenta páginas de letrinhas miúdas, como ela encontrou tamanha frieza para desfiar os indizíveis sofrimentos da personagem com a minúcia que angustia e magoa. Tenho que ela provavelmente chorou muito enquanto escrevia esse romance. Odiada pela mãe, que lhe aplicava os mais horrorosos castigos sem nenhum motivo, ao ponto incrível de quebrar-lhe costelas e deixa-la sem comer, ao tempo em que o pai ficava indiferente às barbáries criminosas da esposa, Gabriella atravessa um calvário de sofrimentos quase inverossímil até os dez anos, quando então é abandonada pela mãe num convento. Antes disso o pai deixara as duas por outra mulher, atormentado pela própria covardia que o impedia de acudir a filha maltratada e assustado pelos fantasmas de um casamento insustentável. Naquele palco de contemplação e dedicação à religião segundo os cânones católicos, ela conheceu o amor e a bondade nos anos seguintes, até que, já adulta e após o curso na faculdade, conhece o padre Joe Connors. Nesse meio tempo havia entrado para o postulado na intenção de tornar-se freira. Então, começa tudo outra vez quando descobre o amor...proibido. Um longo caminho para casa é para ser lido com a rapidez de quem deseja saber logo o final da estória para, a seguir, iniciar a leitura de outro romance, esquecendo aquele. Não porque ele seja sem graça, simples, desprovido de uma mensagem significante, mas porque geralmente acontece isso com as obras despretensiosas destinadas à diversão e ao passatempo...e que enriquecem seus autores, lidos em várias partes do mundo.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
NÃO ERA MOLEZA SER CAIXA
Durante treze anos fui caixa executivo no Banco do Brasil, primeiro em Macapá(AP), depois em Mossoró(RN). Essa atividade, em especial outrora, não era nada fácil. As máquinas autenticadoras, sem tecnologia avançada, eram daquelas que necessitavam de manivela quando faltava energia elétrica, as filas, imensas, e os clientes impacientes e críticos. Ninguém gosta de esperar, bem sei, contudo tenho por mim que raros pensam no funcionário ali sentado, sozinho para decidir sobre a autenticidade da assinatura no cheque, verificar o saldo, pedir documentos quando imprescindível e conferir a rubrica do portador, depois contar o dinheiro e pagar, tudo isso o mais rápido possível. Porque as pessoas enfileiradas ficam lançando olhares aborrecidos e murmurando sabe Deus o quê! Isso em relação aos pagamentos, imagine só aqueles depósitos em dinheiro velho, muitas vezes rasgado, num valor alto e com cédulas miúdas misturadas, que o caixa é obrigado a separar, catalogar, ter um olho clínico para perceber se a nota é legal e contar tudo somando na autenticadora(hoje chamam de terminal)para ver se o total registrado na guia de depósito bate com o volume entregue pelo cliente. O dia se mostrava insuficiente para atender tanta gente apressada e irritada. Todos queriam que o caixa os atendesse correndo. Esqueciam sua humanidade e consequentes necessidades como beber água, comer qualquer bagana para enganar o estômago e, óbvio, ir ao banheiro, além de atender ao telefone, ir à tesouraria pegar dinheiro, cumprir as ordens da chefia a todo instante, responder alguma indagação de quem chegava fora da fila ou pedir-lhe para ficar nela, conversar com os colegas da bateria(assim chamávamos o recinto dos caixas), etc e etc. Rotina de gente, afinal de contas. Só que a maioria dos frequentadores do banco não aceitava nem queria admitir. E que tal somar dez ou quinze cheques pressionando os botões da máquina(digitando não, pressionando mesmo) e puxando a manivela a cada valor registrado, quando faltava energia elétrica? Nada fácil, pode crer, principalmente se ao final nada batia com o valor indicado na guia de depósito e éramos obrigados a refazer a operação. Afirmo categórico a vocês, não era moleza ser caixa de banco há trinta e cinco anos.
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Crônica
segunda-feira, 21 de abril de 2008
ROMANTISMO E MAGIA
Como a vida era diferente de tudo que aí está há pouco anos. Não sei se para melhor ou pior, mas quem não vivenciou algo não tem como fazer nenhum parâmetro, não pode avaliar nem comparar. Tendo vivido tempos, digamos, remotos, e estando ainda por aqui para contar, percebo distintamente as transformações radicais de lá para cá. É até normal estranhar tantas diferenças, concordando ou não com elas, portanto nenhuma crítica merece quem muitas vezes lembra o passado e o confronta com o presente. Tudo isso vem a propósito de um fato interessante que lembrei da minha juventude. Aos dezesseis anos apaixonei-me de maneira frenética por minha primeira namorada, ela também da mesma idade, que, para minha felicidade, correspondeu àquela paixão adolescente. Eu era escoteiro, ela, bandeirante. Quando, tímido e tartamudeante, falei a ela dos meus propósitos galanteadores, sorriu-me encabulada, baixou o rosto ruborizado e convidou-me para ir à casa dela a fim de conhecer sua família. Exultei de tanta alegria, mesmo não sabendo o comportamente adequado para chegar assim, sem mais nem menos, logo de cara, à casa da primeira namorada. Mas fui, no domingo. Quem me recebeu foi o pai dela, simpático e cortês, que pediu-me para sentar na varanda e aguardar. Depois vieram a mãe, os irmãos e as irmãs, todos sorridentes e amáveis. Eu, é evidente, tremia feito vara verde e gaguejava ante cada um que me apertava a mão, ansiando a vinda, afinal, da garota alvo dos meus delírios juvenis. E por fim ela chegou. Sentou na cadeira ao lado da minha, meio metro longe uma da outra claro, e sorriu-me. Foi a primeira tarde mais emocionante e terna daquele jovem cheio de esperanças e sonhos que eu era. Para nós, naquele instante quase mágico, bastava ficar olhando um para o outro e sussurrando frases banais, sem nenhum outro objetivo a não ser sentir que ambos nos sentíamos felizes somente em olhar um para o outro e perceber nesse olhar o amor pueril porque ainda incipiente, mas tão intenso quanto nossos corações podiam expressar através da incrível rapidez de suas batidas. Não havia toques, nem mãos se afagando, nem qualquer resquício de lubricidade que maculasse a pureza daquele casal enamorado. Assim era, e podem ter certeza: a aura de romantismo e ternura existente supria os momentos de namoro(ali sim, era realmente namoro, isto é, o conhecer-se um ao outro sem a menor conotação de desejos inconfessáveis), e para nós bastava. Eu queria estar com ela, que queria estar comigo. Apenas. Não éramos amantes como hoje acontece. Éramos namorados.
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Crônica
sábado, 19 de abril de 2008
O CANTOR ESTAVA A BORDO
Quando eu e minha esposa viajamos para Belo Horizonte, em Novembro de 2007, fizemos uma conexão em Brasília, permanecendo no aeroporto de lá por cerca de trinta minutos. Estávamos um pouco estressados em virtude da monotonia do vôo demorado e por causa do atendimento nada vip proporcionado aos passageiros. Durante o trajeto inteiro duas aeromoças sisudas só nos serviram – imaginem só! – alguns bombons com gordura trans(eu li os ingredientes e estava registrada a quantidade no rótulo da embalagem, por isso pude comprovar) ao início da viagem, depois, lá pelas tantas, passaram pelo corredor do avião empurrando o manjado carrinho com refrigerantes, suco de laranja industrializado que tinha o horrível - blagh! – gosto de remédio barato, água, café que sabia a algo indefinido e um pãozinho cujo recheio quase não se via de tão ínfimo. Esperávamos assistir a qualquer filme passatempo nos diversos monitores pendurados sobre os assentos, mas durante o percurso todo o que tivemos foram comerciais enfadonhos e cansativos da empresa aérea. Como eu não levei nenhum livro para ler devido ao corre-corre dos preparativos, de maneira que esqueci desse acessório essencial, contentei-me com a relativamente mediana revista de bordo para não morrer de tédio. Dá para imaginar, assim, a intensidade do estresse que me envenenava de adrenalina.
Desembarcamos na capital do Distrito Federal para mudar de aeronave, a tal da conexão. O aeroporto estava lotado de deputados e senadores em grupinhos falando à boca pequena. Naquele momento muitas decisões que afetariam nossos destinos e de nossa Pátria estavam em andamento. Seria? Talvez, claro. José Jenuíno, com seu visual de ator tupiniquim, sentado com a perna direita cruzada sobre a esquerda, chamou minha atenção porque seu séqüito ria muito quando ele falava alguma coisa, por razões que desconheço. Nunca tínhamos visto tantos parlamentares amontoados – o local parecia pequeno para tanta gente – em um só lugar, nem mesmo no Congresso. Era a revoada de fim de semana, creio. Mas uma figura nada política despertou meu interesse por sua simplicidade em meio à multidão, mesmo sendo famoso no país inteiro: Zezé de Camargo. Chapéu de cowboy à brasileira, calça jeans e camisa sem estardalhaço, óculos escuros, ria descontraído enquanto conversava com um senhor ao seu lado. Percebi que ninguém o estava assediando, ele se mostrava à vontade, sem seguranças pude perceber, parecendo um cidadão anônimo como qualquer de nós. Sua tranqüilidade e descontração apesar de encontrar-se entre centenas de pessoas em derredor, muitas delas certamente seus admiradores, nem de longe lembrava aquelas cenas de fãs se esgoelando e chorando para chegar perto de seu ídolo mas impedidas pelos guarda-roupas que o protegiam. E isso fazia dele tão-somente o ser humano trabalhador comum igual a seus semelhantes, embora seja carismático cantor de multidões. Pouquíssimos circunstantes foram até lá e pediram para ser fotografados com ele, mas tudo com a maior naturalidade, sem atropelos. E Zezé de Camargo continuou na maior calma onde estava à medida que o tempo passava e os transeuntes circulavam para lá e para cá preocupados com seus horários.
Quando já estávamos a bordo do avião, e nem há necessidade de registrar o ruge-ruge usual e o estresse para atingir esse final feliz porque quem já passou ou passa por isso sabe muito bem como é – ufa! –, quem vejo adentrar a bordo à guisa de um passageiro sofredor comum? Ele mesmo: Zezé de Camargo. Acompanhava-o apenas outro homem, com quem conversava animadamente. Tomaram seus assentos normalmente e lá permaneceram aguardando a decolagem. Não vi Luciano em nenhum momento, é provável que não estivesse com o irmão no mesmo vôo. No momento em que cortávamos as nuvens carregadas sobre Brasília, tendo o avião estabilizado sobre o incomensurável espaço aéreo, vi a aeromoça entregar a Zezé de Camargo, depois dos miseráveis bombons com gordura trans, um pãozinho massa fina com o indefectível recheio invisível, do mesmo tipo que logo depois entregou também para mim, minha esposa e demais passageiros do avião. Achei muito estranho não só o fato em si, mas fiquei a perguntar-me se Zezé de Camargo não tem seu próprio avião para deslocar-se Brasil afora com a rapidez que o seu trabalho exige. Ao aterrissarmos, ele também desceu em Belo Horizonte juntamente conosco, onde ficou para fazer dois shows( eu vi o anúncio no dia seguinte ao passar defronte ao Chevrolet Hall).
Desembarcamos na capital do Distrito Federal para mudar de aeronave, a tal da conexão. O aeroporto estava lotado de deputados e senadores em grupinhos falando à boca pequena. Naquele momento muitas decisões que afetariam nossos destinos e de nossa Pátria estavam em andamento. Seria? Talvez, claro. José Jenuíno, com seu visual de ator tupiniquim, sentado com a perna direita cruzada sobre a esquerda, chamou minha atenção porque seu séqüito ria muito quando ele falava alguma coisa, por razões que desconheço. Nunca tínhamos visto tantos parlamentares amontoados – o local parecia pequeno para tanta gente – em um só lugar, nem mesmo no Congresso. Era a revoada de fim de semana, creio. Mas uma figura nada política despertou meu interesse por sua simplicidade em meio à multidão, mesmo sendo famoso no país inteiro: Zezé de Camargo. Chapéu de cowboy à brasileira, calça jeans e camisa sem estardalhaço, óculos escuros, ria descontraído enquanto conversava com um senhor ao seu lado. Percebi que ninguém o estava assediando, ele se mostrava à vontade, sem seguranças pude perceber, parecendo um cidadão anônimo como qualquer de nós. Sua tranqüilidade e descontração apesar de encontrar-se entre centenas de pessoas em derredor, muitas delas certamente seus admiradores, nem de longe lembrava aquelas cenas de fãs se esgoelando e chorando para chegar perto de seu ídolo mas impedidas pelos guarda-roupas que o protegiam. E isso fazia dele tão-somente o ser humano trabalhador comum igual a seus semelhantes, embora seja carismático cantor de multidões. Pouquíssimos circunstantes foram até lá e pediram para ser fotografados com ele, mas tudo com a maior naturalidade, sem atropelos. E Zezé de Camargo continuou na maior calma onde estava à medida que o tempo passava e os transeuntes circulavam para lá e para cá preocupados com seus horários.
Quando já estávamos a bordo do avião, e nem há necessidade de registrar o ruge-ruge usual e o estresse para atingir esse final feliz porque quem já passou ou passa por isso sabe muito bem como é – ufa! –, quem vejo adentrar a bordo à guisa de um passageiro sofredor comum? Ele mesmo: Zezé de Camargo. Acompanhava-o apenas outro homem, com quem conversava animadamente. Tomaram seus assentos normalmente e lá permaneceram aguardando a decolagem. Não vi Luciano em nenhum momento, é provável que não estivesse com o irmão no mesmo vôo. No momento em que cortávamos as nuvens carregadas sobre Brasília, tendo o avião estabilizado sobre o incomensurável espaço aéreo, vi a aeromoça entregar a Zezé de Camargo, depois dos miseráveis bombons com gordura trans, um pãozinho massa fina com o indefectível recheio invisível, do mesmo tipo que logo depois entregou também para mim, minha esposa e demais passageiros do avião. Achei muito estranho não só o fato em si, mas fiquei a perguntar-me se Zezé de Camargo não tem seu próprio avião para deslocar-se Brasil afora com a rapidez que o seu trabalho exige. Ao aterrissarmos, ele também desceu em Belo Horizonte juntamente conosco, onde ficou para fazer dois shows( eu vi o anúncio no dia seguinte ao passar defronte ao Chevrolet Hall).
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Crônica
quarta-feira, 16 de abril de 2008
POR QUEM OS SONHOS ACALENTAM
Percebo que os sonhos nunca morrem, apenas hibernam durante um tempo à espera do verão. Na primeira oportunidade proporcionada pela vida lá vêm eles retornando com a mesma força de outrora e maior ímpeto. Há um recôndito no coração onde eles procuram refúgio quando são acossados por alguma razão circunstancial, e por lá ficam sob o véu do silêncio e do pretenso esquecimento, latentes, vivos mais que nunca, aguardando melhores dias para brotar com a mesma intensidade arrebatadora de quando nasceram. Porque os sonhos são semelhantes aos heróis e não desistem de lutar bravamente para sua concretização ainda que os poderes contrários à sua idealização se sobreponham na vanguarda. Dá-se o caso, além do mais, de serem acalentados dia após dia por quem os embala e por eles vela pressuroso. Além do mais, todos sabemos o quanto é bom cultivar sonhos.Não importa o passar dos anos, vale a certeza de sermos conduzidos pelos sonhos que acalentamos ao longo do tempo. Evidentemente, no prosseguir dos nossos dias os sonhos enfrentam os canhões da dura realidade, mas convenhamos há sonhos e sonhos. Aqueles factíveis permanecem e em algum tempo da existência podem sim tornar-se palpáveis, muitas vezes depende somente da passagem do tempo ou de algum acontecimento fortuito capaz de torná-lo evidente e vivo. Os outros, os quiméricos e impossíveis, são apenas ânsias natimortas, pensamentos esparsos que, em volutas elípticas, sobrevoam os meandros dos que sonham meramente por sonhar sem qualquer consistência idealística. Porque, não tenham dúvida, sonhar é querer, desejar algo provável e lutar para fazer real essa possibilidade. Os atropelos e as vicissitudes decerto tentarão forçar empecilhos para a frustração de quem caminha entre devaneios porque a vida realmente não cede, apenas, à vontade humana, e as forças, ocultas ou não, lutarão para desfazer em lágrimas esses sonhos. A persistência, todavia, será uma arma poderosa para continuar perseguindo esses anseios escondidos no recôndito d’alma. Não sendo sonhos factíveis, mas sim mirabolantes, que sejam guardados para si mesmo ou divulgados somente para quantos comungam com os seus pensamentos. Fora desse prisma, é albergá-los nalgum aconchegante cantinho do coração e com eles extasiar-se nos seus momentos de descontraída solidão. Tenho que sonhar traz grandes benefícios à alma e ao próprio organismo humano, detalhes que podem ser perceptíveis nos sorrisos expressos espontaneamente e no corpo sem resquícios de transtornos tão usuais naqueles entregues à tristeza e à melancolia.Os poetas que nos enternecem com suas poesias maravilhosas sonham diuturnamente, bem sabemos disso, parecem viver sempre no mundo da lua como o vulgo afirma, mas por isso mesmo são tão inspirados e criativos, tão líricos e românticos, e felizes com seus constantes e cândidos devaneios. Os poemas de sua lavra evidenciam esse viajar por um além-mundo especial, ao qual só temos acesso por intermédio de sua produção poética. Já no tocante aos outros adeptos da literatura, e mais que sonhar, os escritores como que vivem os próprios sonhos quando escrevem suas obras emocionantes. Ao longo do dia, enquanto vão escrevendo, certamente estarão sonhando, vivendo e lutando as mesmas batalhas e anseios com seus personagens. A própria vida humana não é mais que um lindo sonho, é evidente, se bem que alguns que por ela passam tenham pesadelos durante a jornada e esqueçam de deixar-se levar, por momentos, à nau dos sonhos. Sonhemos, tenhamos em nossa mente essa poderosa arma invisível destruidora das reflexões nocivas. Todavia, sejam esses sonhos oriundos da alma e do coração.
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