quarta-feira, 21 de maio de 2008

VIAGEM INTERNACIONAL

Nossa viagem estava programada para a madrugada do dia três, sábado, exatamente à 01:30h. Como já tínhamos experiências anteriores nesse tipo de passeio, achamos por bem dormir do entardecer até as vinte e três horas, oportunidade em que estaríamos preparados para passar o restante da noite acordados tanto pela ansiedade natural dessas ocasiões quanto pelo barulho ensurdecedor das turbinas do avião. Nunca consegui entender como alguém logra entregar-se ao sono escutando aquela zoadeira infernal causada pela aeronave. Tratando-se de vôo internacional precisávamos chegar ao aeroporto duas horas antes da partida, com vistas a um chek in mais demorado e minucioso. Por essa razão lá estávamos precisamente no horário previsto, e fomos imediatamente para o saguão das empresas aéreas com o fito dos trâmites iniciais. Após a burocracia, infelizmente necessária, ficamos a perambular e conversar por todas as alas do aeroporto enquanto aguardávamos o momento de embarcar.
Nossos corações estavam a mil, não víamos a hora de começar logo os primeiros instantes do passeio tão detalhadamente planejado. Desceríamos em São Paulo, faríamos conexão e tornaríamos a embarcar para continuar a viagem primeiramente até Buenos Aires. O avião da Gol decolou no horário marcado, e durante cerca de três horas, a uma velocidade espetacular e uma altura estupenda para quem está habituado a ter os pés no chão cotidianamente, vimos as nuvens bem de perto e, algumas vezes, as cidades por onde passávamos, lá embaixo pequeninas e brilhando nas luzinhas que pareciam de brinquedo. Para quebrar a monotonia íamos também lendo as revistas de bordo e traçando planos para quando chegássemos à capital portenha. Vimos o dia amanhecer antes da chegada a São Paulo capital. Como uma enorme bola fervendo no espaço, o sol surgia e se escondia nas nuvens dando um espetáculo teatral de deslumbrante beleza poética. Pousamos no grandioso aeroporto de Guarulhos exatamente às 06;00. O próximo avião, que nos levaria direto para Buenos Aires, sairia às dez e meia da manhã. Depois de apanharmos a bagagem da esteira, passada a demora usual para isso acontecer, fomos ao guichê da Gol e fizemos novo chek in, após o quê fomos providenciar nosso desjejum.
Já conhecíamos o aeroporto de Guarulho de outras viagens mas sempre nos encantamos com sua quase absurda dimensão e potencialidade, por isso caminhar por ele foi uma diversão que abreviou o tempo e a maçada para o novo embarque. Um outro impacto estonteante para nós foi adentrar o universo do free shop, vencida a etapa do embarque no portão correspondente. Por tudo que ele encerra de fantásticos importados, será merecedor de uma próxima crônica. Quando decolamos no rumo da Argentina, ultrapassados todos os traços das rotinas legais, ficamos sonhando a bordo como seria nossa estadia à medida que a aeronave ganhava espaço e amplidão nos céus brasileiros.

terça-feira, 20 de maio de 2008

SENHOR TANGO - Final

Fêz-se um silêncio relâmpago ao fim do jantar, logo a seguir superado por murmúrios porque um casal de bailarinos subiu ao palco e esperou enquanto o locutor invisível explicou que os dois estariam à disposição de quem desejasse ser fotografado com eles. Diversos circunstantes foram até lá e tiraram foto em pose de passos de tango durante cerca de meia hora ou mais. Após o quê, concluído esse instante, digamos recreativo, todos voltaram aos seus lugares e, finalmente, chegou a hora do show. As mínimas e disfarçadas luzes foram apagadas de súbito durante dois segundos. A seguir o holofote colocado lá no alto, que passara despercebido por mim até mesmo por causa da penumbra, foi aceso com toda intensidade sobre o palco. Verifiquei que uma pequena orquestra já se encontrava estratégica em seu lugar determinado. Dois saudáveis cavalos montados por homens sem camisa e segurando bandeiras argentinas apareceram de inopino, não sei por qual toque de mágica. Rodopiaram ao som de uma melodia empolgante, corcovearam sem derrubar os cavaleiros, trotaram elegantemente no estrado redondo onde montaram o palco e se foram como chegaram. A música continuava estrondosa arrepiando-me os cabelos. Bailarinos deram o ar de sua graça cheios de mungagos e contorcionismo, as mulheres seminuas, os homens de smoke. Dançaram, cantaram, rebolaram dando um show de sensualidade ao som típico, a essa altura, do notório tango argentino. Pernas deles passavam por entre pernas delas, depois as delas pelas deles, ensaiavam abraços fortes e beijos calientes e se deixavam embalar pela embriaguês dos passos sutis e tão característicos do ritmo portenho. Todos os casais que entravam e saíam, em grupos ou aos pares, graciosos por vezes ou arrebatados quase sempre, mostravam o esplendor de sua experiência e capacidade de dançarinos exuberantes. A platéia deixava-se permanecer estática, boquiaberta, encantada ante o brilho excitante do espetáculo. Eu não esperava tanto do musical antes de seu início, pensando, como já disse anteriormente, que a apresentação seria rápida e somente a mera exibição de um ou dois casais dançando sem graça para turista ver. Não é isso, sem dúvida! Ao contrário, trata-se de um show verdadeiramente completo e imperdível, com mais de uma hora e meia de duração. O grupo todo, dos bailarinos aos cantores e músicos, são excelentes profissionais e não deixam nada a desejar, não faria feio na Broadway. Confesso, não tenho como, nesta crônica, relatar todos os detalhes do musical, em especial porque estou escrevendo após passada uma semana do espetáculo, com certeza somente um filme mostraria cada minúcia da bela performance. Mas afirmo sua qualidade artística e beleza cênica. O palco inteiro girava e uma circunferência no meio dele subia e descia ao sabor da mímica e das danças e conforme o enredo desenrolado. O cantor de tango que mais permaneceu em cena, cujo nome não guardei, demonstrou ser "only one man show", apesar de suas piadinhas infames tentando ser engraçado ao referir-se aos países dos espectadores. Ele era melhor cantando, por sua voz afinada e cheia de melodia, do que falando quando procurava dar uma de humorista, querendo ser engraçadinho. O "gran finale" é algo próprio dos argentinos, bairristas e chegados a coisas fantásticas e grandiosas: o cantor/humorista, juntamente com duas sensacionais cantoras gêmeas de voz maviosa, entoam em altos brados e inchando de entusiasmo a tão badalada música Don't cry for me Argentina, que Madonna interpreta com mestria. É a apoteose. Uma imensa bandeira nacional desce sobre o palco alastrado de bailarinos e cantores e todos aplaudem fervorosos acompanhados de pé pela platéia frenética. Filmamos, fotografamos, rimos, nos divertimos, foi uma grande noite para não esquecer. Ah, nem quero lembrar os garçons nos rodeando atrás do que eles chamam de propina(gorgeta entre nós) na maior cara de pau, esclarecendo que o serviço deles não estava incluso. Dei uma expressa banana para eles. Paguei em dólar o show ainda no Brasil, bem antes de viajar e paguei caro, por que daria "propina" por um serviço que certamente estava incluído, pois como poderíamos jantar, este também régiamente pago antecipado, se não nos servissem? Só se fôssemos enfrentar uma brega fila para self service, e isso, convenhamos, não condiziria com a classe emérita do espetáculo. Pior foi para quem tirou fotos com o casal de bailarino: à saída foi cercado por carrancudos argentinos para que pegassem e pagassem as fotografias - nem procurei saber seu custo para não me aborrecer. Aliás, em Buenos Aires, sem exagero, tudo eles cobram dos turistas, quase até mesmo o sorriso nunca espontâneo.

SENHOR TANGO - I


Quem visita Buenos Aires não pode deixar de assistir a um dos diversos espetáculos de tango apresentados em suas casas noturnas e destinados especialmente aos turistas. Antes da viagem, asseguraram-me que o melhor de todos é o conhecido e famoso "Senhor Tango", uma apresentação deveras inesquecível. E que eu não poderia deixar de conferir em hipótese alguma. Assim, seguindo o conselho de quem já tinha ido à capital da Argentina, incluí a sessão de tango no pacote, se bem estivesse cético de que iria gostar de ficar sentado vendo um casal dançando no palco. Coisa mais sem graça! - pelo menos era essa minha expectativa a respeito. Só que tudo que pensei sobre o espetáculo não correspondeu a um milionésimo da fantástica encenação presenciada. Confesso, eu não estava preparado para a inesperada exuberância da verdadeira obra teatral desenrolada ante meus olhos e os olhos de centenas de expectadores de várias partes do mundo. À hora marcada para o traslado, vinte horas, chegou ao hotel onde nos hospedávamos o transporte conduzido por um senhor alto, um tanto velhusco mas bem humorado, meio galhofeiro com seu indefectível sotaque espanhol. Outros passageiros já se encontravam no micro ônibus, alguns brasileiros inclusive entre nativos de países estrangeiros. Após os cumprimentos formais, cada um disse sua procedência à medida que o motorista acrescentava uma frasezinha marota e fomos, enfim, no rumo do Senhor Tango. Saímos do centro onde estávamos, atravessamos a cidade passando por San Martin, Alto Palermo e proximidades de Caminito, avistando o cassino flutuante, e finalmente chegamos ao local da apresentação. Foi um choque! Positivo, é claro. Deparei-me com uma imensa construção em cujo frontispício, bem no alto e em destaque, o letreiro brilhoso anunciava: "Senhor Tango". Coisa de cinema mesmo. Dezenas de ônibus e automóveis estavam estacionados por todos os cantos em derredor, havia fila na entrada, todos se acotovelando ansiosos para descobrir a magia lá dentro daquele misterioso prédio iluminado por luzes de neón. Ainda perplexo diante do inesperado, entrei na fila juntamente com os demais, não antes de ouvir do velhusco motorista a recomendação de que quando terminasse o espetáculo ele estaria lá fora segurando uma placa com o número 21. No interior, esperáva-nos um senhor educado que nos indicou a mesa onde ficaríamos. Providência divina, fomos colocados a somente um metro do palco e bem ao lado de uma das escadas por onde circulariam os atores. O cenário que se me descortinou, além disso, deslumbrou-me. Com três galerias em três andares formando um círculo gigantesco, glamouroso, chique, suntuoso, nada devendo aos grandes teatros europeus, a casa de tango se apresentava completamente lotada. Ouvi idiomas dos quatro cantos do mundo, atônito, pasmo, sem voz, envolvido num cenário semi-iluminado onde o luxo pairava como visíveis pontos de diamantes expostos. Os circunstantes, alinhados e esbanjando elegância e bom gosto com suas roupas de primeira linha e última moda, davam um espetáculo à parte. Um lauto jantar fazia parte da festa antes do show de tango, e os garçons nos informaram que do menu constavam dois pratos além de vinhos e refrigerantes: truta e parilla. Trouxeram como entrada, para cada casal presente, vinho cabernet, água mineral e um petisco coberto de verduras que eu, perdido no glamour do momento, não consegui captar de que se tratava mas cujo sabor era inigualável. Tonto com tanto esplendor eu degustava o vinho e deitava o olhar sobre os quatro pontos cardeais do teatro, enlevado, encantado. Escolhi truta, minha esposa, parilla. Copos tilintavam, vozes e risos à toa ecoavam, flashes disparavam a todo instante. O ambiente destilava alegria e descontração. O jantar, como não poderia deixar de ser, mostrou-se acepipe digno dos melhores restaurantes de Buenos Aires, salvo a dimensão, altura e tamanho da parilla, impossível de ser apreciada em sua totalidade, o que, convenhamos, não desdourou sua perfomance dado o seu notório sabor confirmado por minha esposa. Por volta das vinte e três horas, finalmente, todos empanturrados de vinhos além da comilança charmosa, deu-se o início do esperado Senhor Tango


. ...continua

sexta-feira, 16 de maio de 2008

COISAS DE BUENOS AIRES


A conhecida rua Florida, em Buenos Aires, é ponto de trajeto de milhares de pessoas de todas as partes do mundo. Ali se concentram lojas, livrarias, escritórios, sorveterias, restaurantes, mendigos, vendedores, aproveitadores, policiais, etc. É uma mistura democrática e livre em que cada um segue sua vida e depende, muitas vezes, da passagem dos transeuntes pelas imediações. Impossível não ficar atônito com tanta gente para lá e para cá, indo e vindo aparentemente sem rumo definido, atravessando e cruzando as estreitas ruelas paralelas por onde circulam os carros em meio à multidão quando os sinais dos semáforos abrem passagem para eles. Bem vestidos com seus sobretudos e casacos de couro cobrindo suéteres e cachecóis escondendo o pescoço do frio a qualquer hora do dia no outono, os argentinos mais parecem europeus andando sobre o chão do Velho Mundo. As botas são outro complemento vistoso das mulheres, enquanto os homens normalmente usam passeio completo sob os suntuosos sobretudos que lhes dão uma fleumática aparência inglesa. E todos, absolutamente todos fumam, algo como uma verdadeira praga - ativos e passivos, aqueles em grande número, estes pela infame consequência da fumaça pairando sobre o centro da cidade e cobrindo as pessoas feito grossas nuvens funestas. O movimento no local começa cedo, tão-logo o dia amanhece, e prossegue até mais ou menos as vinte e duas horas. Por volta das dezoito horas, atravancados com suas bugingangas, chegam os camelôs e se abancam ao longo do centro da Calle(rua) Florida. Vendem quase tudo, desde camisas falsificadas da Lacoste(custa trinta pesos cada) até artesanato portenho, entre outros trecos, buscando a sobrevivência num País cheio de contrastes, isso enquanto os fiscais da prefeitura não aparecem. Ante a visão de qualquer um deles, os camelôs, numa rapidez incrível, juntam suas muambas e se escondem como se fossem mágicos, tornando a voltar a seguir quando a fiscalização se vai. Essa angústia cotidiana ocorre o tempo todo mas os camelôs jamais desistem, permanecendo por entre os passantes até o final do "expediente". Por uma questão de viver ou morrer em um ambiente hostil dessa movimentada capital onde moram, aos trancos e barrancos, em torno de quatorze milhões de habitantes. O hotel onde nos hospedamos, o Gran King, estava a poucos metros da rua Florida, na Calle Lavalle, que a cruza, quase em frente ao Banco de La Nacion. Em uma de nossas andanças pela rua Lavalle, calçadão destinado às compras, à gastronomia e aos passeios, minha esposa testemunhou algo bastante singular em Buenos Aires, eu diria mesmo inusitado, e fiquei pensando se isso é comum por lá. Caminhávamos pela manhã admirando o vai-e-vem incansável das pessoas, parando nas vitrines, sendo incomodados por funcionários dos diversos restaurantes oferecendo folhetos, por pedintes atrevidos e pela fumaça asquerosa dos cigarros quando, de repente, sem qualquer razão especial, ela olhou para trás e viu um policial agachar-se com a maior tranquilidade em meio à balbúrdia da turba inquieta, apanhar um toco de cigarro jogado ali por alguém e sair fumando a bituca com sefreguidão e prazer. Quando ela me falou a respeito do estranho fato eu olhava, um tanto enojado, para um cara gordo, sem camisa, esparramado no meio da rua pedindo esmolas. Mas, interessado no acontecimento nada comum, ainda pude ver o policial ostentando o maldito resto nojento de cigarro pendendo na boca, fumando todo sorridente e faceiro como se tivesse acabado de acender o danado do bicho com um isqueiro de prata. Arre, vício desgraçado!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O CAFÉ TORTONI EM BUENOS AIRES




Eu já sabia de antemão que teria de enfrentar uma fila enorme se quisesse visitar o Café Tortoni e degustar os pratos saboroso de seu cardápio. Quem viaja para Buenos Aires tem que necessariamente ir até lá, jantar e tirar fotos. Contudo, não estava preparado para a multidão que encontrei à espera. Na rua onde se encontra esse local de eminência quase parda acontecia, naquela noite especial em que resolvi fazer a visita de todo turista que se preza, um concerto de tango assistido por milhares de pessoas. Praticamente todas fumando. Imaginem só minha aflição quando cheguei e avistei o fumaceiro fazendo nuvens sobre a rua e apodrecendo cabelos e roupas de quantos lá se encontravam. Uma orquestra composta de homens da melhor idade, sob a batuta de uma maestro também já bastante andado em décadas, deleitava-se em tocar tangos os mais variados para o encanto do povaréu alvoroçado, os lábios amarelados pela nitocina dos cigarros acesos uns atrás dos outros. A princípio, quis desistir, sim, aquilo era demais para mim. Fica difícil para quem me lê imaginar o cenário em que me encontrava. A quilométrica fila, o barulho ensurdecedor e os infernais cigarros pendendo acesos das bocas argentinas. A visão do caos e o semblante do inferno, sem dúvida. Mas, valente e decidido, resolvi ficar. Já chegara alí mesmo, talvez não fosse uma boa idéia desistir e voltar depois. Então, tomada a decisão, eu e minha mulher pegamos a rabeira da fila e esperamos. Lá na frente estava a porta fechada do Café Tortoni vigiada por um guarda-roupa carrancudo, que a abria de vez em quando, é provável que de quinze em quinze minutos ou mais, deixava sair algumas pessoas já servidas e entrar outras à cabeceira da fila, provocando-me calafrios quando novamente a fechava. E haja fumaça sobre a minha cabeça, o rosto, a roupa, os braços, as mãos, penetrando nariz adentro, turvando-me os olhos, provocando tosse e se imiscuindo por meus poros como uma praga maldita. Enquanto isso, a fila pouco andava. Eu lançava olhares furiosos aos fumantes, cobria meu rosto com a jaqueta de couro, me abanava, mas nada disso adiantava. Atrás de nós a serpente já se alongara mais e mais, e somente uns poucos sortudos iam conseguindo penetrar no recinto sacrossanto do Café Tortoni. Em determinado momento, pensei em mandar tudo à m..., principalmente os fumantes, mas ante o possante desejo de conhecer essa ínclita entidade portenha, mantive-me petrificado no meu lugar, esperando, prestes a explodir de dentro para fora mas firme em meu querer. E assim foi, paulatinamente, os enfileirados caminhando lentamente, o tango rolando solto na rua, as brasas dos cigarros iluminando os rostos dos viciados em nicotina, eu sofrendo os horrores da tortura por estar nesse palco de guerra contra a saúde, até chegar, finalmente, minha vez de entrar. Quando o guarda-roupa abriu a porta, o Café Tortoni, enfim, mostrou-me sua cara. Sentamos-nos à mesa indicada por outro guarda-roupa que ficava próximo à porta pelo lado de dentro e pedimos o cardápio. É óbvio que o ambiente estava lotado. Graças a Deus não era permitido fumar ali dentro, pelo menos isso. O vinho dominava juntamente com a parilla(pronuncia-se parricha) e o café sorvido por quantos se aboletavam às mesas. Fizemos nosso pedido e ficamos olhando cada centímetro quadrado daquela cafeteria tão famosa. Não fosse o acaso de nos terem colocado ao lado de um caso excêntrico e tudo teria sido mil maravilhas. É que a mulher da mesa próxima, acompanhada de um cara que mais parecia um índio embrutecido, passou o tempo todo em que lá permanecemos chorando. Mas isso é motivo para outro crônica, pois os lances são realmente interessantes e, por vezes, chocantes.

terça-feira, 13 de maio de 2008

É SEMPRE BOM REGRESSAR!


Estou de volta, graças a Deus. Claro, evidentemente ainda bastante arrebatado pelo encantamento do maravilhoso passeio a três países da América do Sul. As emoções persistem como se por lá eu permanecesse e continuam fluindo na mesma intensidade dos momentos vividos e embalados por esse sonho concretizado. Pisei terras argentinas, uruguaias e paraguaias, caminhei por ruas e avenidas que não conhecia, frequentei cafeterias nas esquinas de Buenos Aires, deliciei-me com o o sorvete mais gostoso do mundo - segundo todas as opiniões que li a respeito -, o famoso sorvete Freddo, degustei vinhos de qualidade e sabor inigualáveis, apreciei a carne saborosa dos restaurantes de Puerto Madero e Palermo, vivenciei as delícias de Punte Del Este e testemunhei coisas, fatos e imagens jamais vistas antes. Cada detalhe de instantes interessantes, engraçados ou tragicômicos procurarei descrever nas minhas próximas crônicas. O arquivo de minha mente parece grávido de tão cheio, prestes a explodir, por assim dizer, tal o incomensurável tamanho das novidades acumuladas ao longo dessa jornada iniciada dia 03/05. Sim, tudo bem, teve o chatíssimo problema da internet interrompida por complicações técnicas causadas por meu provedor, o que me fez ficar em off tanto antes da viagem quanto depois que cheguei. Precisei gastar inúmeros telefonemas e muita saliva, ficar irritado e estressado para, depois de um longo e tenebroso inverno, finalmente conseguir a ansiada paz com a net e, desse modo, navegar tranquilamente pelas águas literárias do Recanto das letras. Voltei. E voltei, penso, transbordando gás. Pelo menos assim me parece, dada a vontade de aboletar-me diante do computador e expressar calmamente todas as minhas impressões após dias de deslumbre descortinando o inusitado e o nunca visto antes. Escrevo agora quase correndo, as palavras se juntando depressa como num filme em câmara rápida e formando frases que não estou lendo antes de publicar. Quero ir pontilhando minha escrivaninha com a essência dos frutos desfrutados nesses dias diferentes e belos. Sim, belos! Porque vi pores-do-sol excepcionais, radiantes; vi noites vestidas de luzes e cobertas pelo êxtase lunar; vi amanheceres indizíveis em que o sol atrevido penetrava as águas plácidas do Rio de La Plata e desenhava um quadro de dimensões românticas impossível de declinar; e tiritei de frio, sob menos três graus de temperatura, olhando as folhas dos plátanos caindo sobre a terra e enchendo as calçadas porque é outono naquelas paragens tão próximas da Patagônia. Apenas uma nota triste a lamentar: argentinos e uruguaios fumam como loucos alucinados, enchendo suas lindas cidades com essa fumaça venenosa que se entranha nos cabelos e nas roupas de quantos por eles passem. Mesmo odiando o cigarro com todas as minhas forças como realmente odeio, durante esses dias fui um infeliz fumante passivo. Talvez por essa razão jamais queira retornar principalmente a Buenos Aires e Montevideu. Malgrado a beleza especial portenha. Argentinos e uruguaios que me perdoem, mas muitos de vocês morrerão de câncer por causa do cigarro. Infelizmente.