quarta-feira, 25 de junho de 2008

SOBRE A TERNURA



Num coração sem poesia também não pode haver ternura, porque ser terno é ser poeta.

UM GRANDE AMOR



Quisera somente que um grande amor
despretensioso, simples, verdadeiro,
em tudo me dominasse com seu ardor
e que nele navegasse o tempo inteiro


Nesse doce sentimento mergulharia
ansioso por absorver seu esplendor,
tamanha solidão jamais sentiria
e nunca mais me vergastaria o seu furor


O pranto triste é dor típica da solidão
e segue deprimindo, aos poucos, o coração
legando das sombras marcas do seu fragor


Mas a batalha contra sua investida
resume-se na fórmula garantida
de descobrir, enfim, um grande amor

terça-feira, 24 de junho de 2008

CASO DE AMOR EM CORDEL

Muitas vezes as emoções
surgem assim, repentinas,
totalmente inesperadas
e nos arrastam da rotina
revelando que na vida
cada qual teu sua sina
*
Sou desses observadores
que vêm na curiosidade
dos feitos do ser humano
uma rica novidade
que pode servir de mote
com muita intensidade
*
Eu falo dessa maneira
porque pretendo relatar
um desses casos de paixão
que não é nada de espantar
mas se eu me interessei
penso que vocês vão gostar
*
Estava eu numa praça
sob uma árvore frondosa
olhando o vai-e-vém do povo
segurando uma rosa
apenas me distraindo
procurando uma glosa
*
Aí foi, então, que avistei
um casal de namorados
apenas adolescentes
lado a lado, encabulados,
conversando displicentes
um com o outro fascinado
*
Ela era muito linda
tinha o cabelo dourado,
de modelo o belo corpo,
carnudo lábio pintado
e um olhar com tal doçura
que me deixou encantado
*
Usava farda escolar
e caminhava lentamente,
braços cruzados no peito
com os livros, indolente,
se mostrava muito séria
mas parecia contente
*
Seu provável namorado
ia feliz caminhando
as mãos no bolso, sem jeito,
talvez até assobiando
aos meus olhos parecendo
galo de briga ciscando
*
E lá se iam aqueles dois
no seu namoro inocente
como cândidos pombinhos
passando na minha frente
quando algo aconteceu
nada mais que de repente
*
Já ia deixá-los em paz
com meu olhar penetrante
e dar atenção para a rosa
quando bem lá adiante,
eu cedo pude perceber,
deu-se um fato interessante
*
Os dois ficaram de frente
um para o outro, se olhando,
ela se mostrando irada
mas ele balbuciando
algo muito delicado
que não estava agradando
*
A cena, nada romântica,
que lá se desenrrolava
é claro, me chamou a atenção,
por essa eu não esperava:
um súbito desencontro
que o amor atrapalhava
*
Rápido, esqueci a rosa,
a eles fiquei bem atento
e pelo olhar da garota
pude saber seu intento
eu acho que ela falava:
algo como: "seu nojento!
*
"Ah! se eu pudesse ouvir
as frases pronunciadas,
se conseguisse entender
suas vozes alteradas,
seria bom presenciar
as emoções desencontradas
*
É claro que nada escutei
só via lábios se movendo,
ele de cabeça baixa,
ela os quadris mexendo,
aí então, súbitamente,
ela se foi quase correndo
*
Ficou lá o jovem, parado,
só Deus sabe o que sentia
ele deveras nadava
numa grande agonia
perdido em pensamentos
não sabia o que queria
*
Mas em pouco, cabisbaixo,
ele deu meia volta e saiu
andando devagarinho
como se entrasse num funil
com certeza querendo voltar
contudo se foi, desistiu
*
Cada um seguiu seu rumo,
então caso encerrado
pelo menos assim pensei
deixando os dois de lado,
mas um minutinho depois
eu fiquei embasbacado
*
Quando desviei meu olhar
dos garotos apaixonados
voltei-me todo p'ra rosa
olhos quase marejados
do amor tendo bebido
e ficado embriagado
*
Só que aquele romance
declinou de seu desejo,
tornou-se poeira fina
sem ter havido um beijo
desaparecendo tão cedo
no auge do seu ensejo
*
Mas eu estava enganado
nem tudo que reluz é ouro,
às vezes uma palavra
nos faz perder um tesouro
e por causa de uma frase
podemos cair no choro
*
Estranha coincidência
ou por razões do destino
puseram meus olhos no casal
que findou em desatino,
então fui surpreendido
com lindos sons de violino
*
Não tinha música nenhuma,
é tudo só minha invenção,
mas senti vibrar meu corpo
com o derreter do coração,
aconteceu novamente
eu me encher de emoção
*
Meu coração palpitava
com a cena em andamento
eu me emocionava
com dos dois o movimento:
feito bonecos pararam,
chamava-os o sentimento
*
Sabemos que marionetes
são por homens controladas
e obedecem a seu manejo,
mexem ou ficam paradas
assim pareciam os dois
tal figuras comandadas
*
A um só tempo viraram
na procura do seu amor,
estavam desesperados
sob forte apelo da dor
assim, em câmara lenta,
correram com todo ardor
*
Um na direção do outro,
os braços entreabertos,
dos olhos descendo lágrimas,
o bálsamo ali, tão perto,
à guisa de casal perdido
nas entranhas do deserto
*
No limiar do reencontro
fizeram súbita parada
se olharam tão profundo
que o mundo virou um nada
a seguir se abraçaram
numa paz acalentada
*
Ficaram um tempo assim
esquecidos do instante,
pois o mundo para eles
era algo bem distante
estavam de novo juntos,
só isso era importante
*
Eu fiquei tão comovido
às lágrimas quase indo,
que tive forte impressão
de música estar ouvindo,
talvez o bolero de Ravel
seus lindos toques fluindo
*
Deixei a rosa cair ao chão
sem nem mesmo perceber,
curvei-me para pegá-la
não querendo ficar sem ver
o belíssimo final feliz
mas um susto me fez perder
*
Uma linda borboleta
voando toda safada
bateu asas no meu rosto
e me atrapalhou, a danada,
daí logo a cena do beijo
foi totalmente negada
*
Quando os vi novamente
de mãos dadas já se iam
os jovens enamorados
realmente se queriam,
a linda cena há tanto tempo
estes meus olhos não viam.

domingo, 22 de junho de 2008

Desconcertante solidão que magoa, desespera e faz do viver essa alucinante agonia trazendo uma incontrolável vontade de chorar, formando rios.

MÃOS...MAIS

São gestos em mãos...são mãos em carícias...são carícias trocadas pelo tato sensível...são entrelaços fortuitos que transbordam ternura...são dedos compondo a sinfonia do amor...da amizade...da fraternidade...do desejo...é a vida impulsiva pedindo passagem...nos toques suaves...sutilmente...singelos...Ah doces arrepios brotando das unhasadentrando a derme com força fascinante...em astronômico vôo no rumo do frenesi...E nesse embate prazeroso de dedos e mãosque se abraçam ansiosos na busca do tudoe sempre no ardor de mais...mais...mais...mais...

COMIDAS NORDESTINAS

A culinária nordestina
é modesta porém variada
agradando qualquer paladar
tem cuscus com leite, buchada,
a boa cocada de rapadura
além da gostosa panelada
*
O baião-de-dois, que petisco!
Arroz-d-leite, carne de bode,
manteiga da terra, chouriço,
desde que não engorde
mas se engordar, que fazer?
Come, balança e sacode
*
Carne-de-sol com farofa,
queijo de coalho e goiabada,
feijão verde, arroz da terra,
pamonha, café e coalhada,
bolacha preta, canjica,
tapioca doce e salgada
*
Caldo de cana e pão doçe,
cocada feita com leite,
fuçura de bode cozida,
doce de banana, um deleite,
pé-de-moleque, espéci,
um docinho de caju, aceite!
*
Bolo de milho, doce de coco
manga, suco de maracujá
abacaxi quase açúcar
sapoti, melão, munguzá
seriguela e cajarana
mocotó no feijão e juá
*
Grude, cocorote, broa,
mel de engenho, milho assado,
sequilhos feito de goma
galinha guisada, guiné torrado
sopa de feijão todos gostam
e posta frita de Dourado
*
Sirvam-se de doce de jerimum,
de mamãe, banana ou caju,
goiaba em calda ou compota,
mangaba e batida de umbu,
arroz doce, um espetáculo,
que tal um melzinho de uruçu?
*
Claro que tem muito mais
mas não tenho tudo na cachola
há outras tantas variações
é só procurar, ora bolas!
Pelo menos podemos saber
que o Nordeste é da hora.