Tornou-se praxe, aliás nada agradável, os passageiros se levantarem de suas cadeiras muito antes de o avião encontrar-se completamente estacionado na pista. É um verdadeiro corre-corre seguido de ávido empurra-empurra, cotoveladas e nítidas demonstrações de atitudes nada civilizadas. Para dar uma pequena idéia ilustrativa dessa situação ocorre-me algo assim como um bando de ovelhas presas no curral que, desesperadas para se livrar daquela prisão apertada, se espremem umas contra as outras e vão passando por cima de quem estiver à frente para chagar ao objetivo colimado. É algo semelhante, guardadas as devidas proporções. Se bem os passageiros escutem a comissária alertando para permanecerem sentados enquanto o avião taxia na pista, que nada! Num salto a turba apressada forma aquela caótica fila aguardando a abertura da porta do avião, a maioria retirando suas bagagens de mão e se desencontrando com braços e pernas sem o mais leve resquício de educação. São poucos os que permanecem sentados esperando sua vez de sair, deixando os desvairados se desembestar porta afora. Tem sido sempre assim em todas as minhas viagens, invariavelmente. Quem precisa fazer conexão e não for do bando dos trogloditas pode até perder seu próximo vôo. E não pensem que me refiro a qualquer um quando menciono esses descontrolados impacientes. Não! São, na sua maioria, cavalheiros(?) e damas(?) muito bem vestidos, aqueles enfatiotados e estas, na última moda e de aparência, por vezes, até aristocrática. Bom, não há muito o que fazer a respeito a não ser eternizá-los nesta crônica.Uma balbúrdia inesperada nos recepcionou no aeroporto de Porto Alegre. Diversas pessoas gritavam agitando bandeirinhas e chamando por pessoas que me eram desconhecidas, rostos em êxtase, alguns lacrimejantes, sorrisos, euforia. Olhei para Ana, cuja surprêsa estampada no rosto também denotava seu desconhecimento sobre a razão de tanto barulho, e fiz um muxoxo de indiferença. Foi já próximo à esteira de bagagens que entendemos tudo. Tratava-se de torcedores do time gaúcho que viajava conosco. Ih, foi um Deus-nos-acuda! Os jogadores corriam na direção dos torcedores e eram recebidos com apupos e manifestações variadas. Flashs espocavam, garotas histéricas se esganiçavam bradando o nome desse ou daquele esportista e a meninada enganchada no pescoço dos pais estirava folhas de papel e caneta pedindo autógrafos. Ainda pude ver, à distância, o provável treinador todo sorridente sob as luzes dos holofotes e a proximidade dos microfones seguros por repórteres e jornalistas.Ao recebermos nossa bagagem notamos pequena avaria numa delas e fomos protocolar na companhia aérea a reclamação óbvia.O funcionário fez as perguntas usuais, olhou a bagagem onde se verificou o problema e registrou o caso num documento, entregando-me cópia. Nesse exato momento, para nossa alegria, uma jovem veio até nós segurando uma placa com o meu nome. Graças a Deus! Os esforços das funcionárias da T... em Natal para destravar o impasse do traslado haviam obtido sucesso. A jovem sorriu toda dentes brancos saudáveis e nos entregou brindes contendo vinhos e queijos da região. O transporte para nos conduzir até Gramado - hora e meia de viagem - nos esperava juntamente com outros passageiros. Lá fora, prestes a nos acomodar no microônibus, ainda vimos a galera zoando e festejando com os jogadores do time gaúcho.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
CRÔNICA DE UMA VIAGEM - Parte 4
Um cara grandalhão, o aspecto de gigante que esqueceu de parar de crescer, se abancara na primeira poltrona ao lado das nossas. Pedimos licença, ele levantou e, de tão alta estatura, quase bateu a cabeça no teto do avião. Fiquei na cadeira do meio, à direita a ternura de minha esposa, à esquerda o homenzarrão a tomar-me os espaços das pernas e dos braços e forçando-me a permanecer encolhido a viagem toda. Soube depois, no momento do pouso, tratar-se do treinador do de um time de futebol de Porto Alegre. Os jogadores e demais membros da trupe estavam espalhados ao longo das poltronas misturadas, entre eles e em meio ao outros passageiros. De vez em quando o cara se voltava para um deles sentado do outro do corredor e conversavam aos risos extravasados. Lá pelas tantas ele adormeceu e se espalhou todo. Imagine alguém com provavelmente dois metros de altura sendo obrigado a dormir sentado sem ter onde distribuir a arrogância do seu tamanho descomunal e ainda procurar não incomodar quem é levado pelas circunstâncias a sentar-se na cadeira colada à dele. Depois pense no nano homem nas asas desse instante e pasme! Pus um travesseiro entre mim e ele, para divisar território, e debrucei-me sobre minha direita aconchegando-me ao abraço da minha esposa. Não foi novidade a aeromoça passar pelo corredor, toda serelepe, distribuindo balinhas numa cumbuca, atenta a quantas cada um colhia na sua vez. Um tempo adiante, sanduíche frio, suco de laranja com gosto de remédio e refrigerantes. Serviço de bordo, alegam. Tais serviços foram bem melhores e mais decentes outrora, então jantar tinha gosto, aspecto e jeito de jantar. De igual modo almoço e café da manhã nos trajetos antes do amanhecer. Boas recordações de bons tempos que, é duro reconhecer, jamais retornarão certamente.O tédio prosseguiu no ar ao som nada melodioso das turbinas roncando sonoras bem ao pé das nossas orelhas. Além disso, súbito e inesperado, o espirro estrondoso do camarada à esquerda estourou no precípuo momento em que eu recebia da jovem aeromoça um copo com água. Fitei os olhos de Ana, decaindo os meus. Desisti de saciar a sede. Quanto tormento! Seria ótimo se os aviões voassem à velocidade da luz, assim não ficaríamos confinados longas horas feito sardinhas com tantos universos mentais e comportamentais difusos e multifacetados. De quebra, num rápido segundo estaríamos aterrissando em nosso destino, ilesos e felizes. Suspirei aliviado ao ouvir o comandante anunciar que em pouco pousaríamos no Aeroporto Internacional Salgado Filho, de Porto Alegre. Ufa, nosso passeio, por fim, prenunciava a possibilidade de estar prestes a ser iniciado. Ah!, e somente eu e minha esposa, longe das multidões, dos cigarros e das turbinas barulhentas
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Crônica
MECÂNICA TERNURA

Tu jamais perdeste a doce capacidade de amar
mesmo quando tuas inefáveis mãos foram levadas
naquele fatídico acidente que te roubou o tato
e teus dedos se perderam no caos do momento
*
Indiferente a essa angustiante fatalidade,
teu coração vai armazenando o sentimento de servir, doar-se;
e quando tu levantas a mão mecânica e acaricia-me
sinto o mesmo frenesi quando de teus dedos naturais
*
Tuas mãos certamente não desapareceram minha amada,
elas simplesmente se tornaram docemente mecânicas,
metamorfoseadas para gestos muito mais superiores,
transcendentais, sem mácula, sem traços indelicados
*
Faz-me, amada, um sereno cafuné com mecânica ternura,
desliza tuas mãos fisicamente inertes em meus cabelos,
que as sente como se dedos mágicos os massageassem
porque, se elas se foram, teu lindo amor permaneceu
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Poesia
terça-feira, 2 de setembro de 2008
BORBOLETAS
PURO DESEJO
Vai assim n'alma o puro desejo
de juntinho a ti achonchegar-me,
então aproveitar tal ensejo
para, meio tímido, declarar-me
-
Ah como sonho dar-te um beijo!,
e no teu regaço aquietar-me;
vai assim n'alma o puro desejo
de juntinho a ti aconchegar-me
-
Bem quisera sobre teu coração
a cabeça repousar, como a rosa
que no teu peito é sonho, ilusão,
do devaneio notas gloriosas.
Vai assim n'alma o puro desejo.
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Rondel
CRÔNICA DE UMA VIAGEM - III
O ruidoso grupo comandado por diversos monitores de empresas de turismo, que formava aquela sinuosa fila amontoada de malas, pacotes e bugingangas, certamente havia decolado na trilha dos seus respectivos destinos quando regressamos ao aeroporto. Como nossa bagagem já tinha sido despachada após o chek in, restando somente saber se haviam resolvido o impasse do traslado de Porto Alegre até Gramado, dirigi-me ao galpão da T... Informaram-me que desde o momento em que fomos para o hotel eles tentavam se comunicar, sempre em vão, com a responsável pelo traslado, por conseguinte isso ainda não estava definido. Continuariam objetivando equacionar o entrave, disseram, nós fôssemos para o Rio Grande do Sul e até chegarmos lá, provavelmente, tudo se resolveria a contento enquanto isso. "Dará tudo certo, não se preocupe", garantiu-me a solícita gerente de plantão. Que remédio!Quando o avião finalmente decolou o alvorecer enchia o horizonte de cores fracas pinceladas por invisíveis mãos ainda preguiçosas. Nossa primeira escala seria em Brasília. Graças a Deus alcançamos o céu em poucos segundos e logo deslizávamos pelas nuvens serenamente, cortando seus flocos algodoados com respingos de gotículas do sol já despertando aos bocejos paulatinos. Colocamos fone de ouvido para ouvir algum dos canais de música à disposição, abrimos a revista de bordo e nos deixamos levar pela impensável leveza da mastodonte aeronave voando como um imenso pássaro prateado assustando o amanhecer. Socorro!, nós nos encontrávamos a mais de onze mil metros de altura e a uma velocidade de mil e cem quilômetros por hora. O comandante deu-nos as boas vindas, fêz gracinhas com a temperatura em Brasília, nosso primeiro destino, depois os mini terminais de tv acoplados ao teto do avião se deslocaram ficando em posição vertical e começou a velha e conhecida baboseira de explicar-nos o uso das máscara de oxigênio e exibir-nos as portas de emergência, o saco de sempre. Afundei na poltrona.O aeroporto de Brasília fervilhava, e o pior é que os vôos por lá também estavam atrasados. Estudantes, jogadores de diversas modalidades esportivas, políticas, gente usando paletó e calça jeans, rindo, lendo, conversando, insatisfeita, enfim, aquele humanológico característico desses locais onde se aglomeram centenas de pessoas buscando seus rumos. Ninguém sabia a que horas nosso vôo para Porto Alegre iria se concretizar. Perambulamos pelas imediações, anotamos fatos engraçados e/ou interessantes, conversamos, fizemos planos, devaneamos e tornamos a passear vendo os ônibus levando e trazendo passageiros que iam e vinham. E lá estava ele novamente! Quem? O furioso gaúcho, claro, aquele que embarcou conosco indo também para a capital do Sul. Ainda tentamos nos esconder dele, mas não adiantou, fomos vistos. Carrancudo como antes no aeroporto de Natal, brandindo seu cartão de embarque furiosamente, já veio ao nosso encontro explodindo frases de descompostura contra o caos aéreo, as companhias de aviação e seus responsáveis, sem nos dar chance de responder ou dizer algo. Quando ele virou o rosto e apontou para os diversos portões de embarque falando qualquer coisa sobre desinformação nós aproveitamos para desaparecer de sua presença, rindo da cara dele e de nosso comportamento levado.Mas os minutos se foram, formaram horas e nada. Quanto mais ônibus saíam do salão de embarque lotados na direção da pista onde se encontravam os aviões mais gente ia chegando e abarrotando o espaço. Por mais três vezes o gaúcho nos avistou e fez menção de se aproximar, mas dávamos sempre um jeito de escapar dele feito crianças brincando de esconde-esconde. E nesse comportamento lúdico percebíamos que muitos circunstantes até dormitavam pelos cantos enquanto lentamente o tempo andava. Difícil dizer as razões de tanto atraso. Seria porque havia passageiros demais ou aviões de menos? Por fim, anunciaram nosso vôo e saímos correndo juntamente com uma multidão até o portão de acesso ao transporte coletivo. Conseguimos dois lugares a duras penas após enfrentar uma fila horrorosa e os caras-de-pau dando jeitinhos para furá-la. Estacionamos ao lado do avião, todos descendo apressados para embarcar o mais rápido possível sob um sol escaldante ladeado de ralas nuvens esboroantes.
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