terça-feira, 17 de março de 2009

QUANDO O DIA AMANHECE

Foto:Gilbamar de Oliveira


Quando o dia amanhece,
o sol na terra se espalhando,
um cheiro de mato no ar,
muitos pássaros gorjeando,
vem-me a vontade de sorrir
e nesse momento é bom sentir
a nossa vida recomeçando

Galhos de árvores balançam
com o movimento das aves,
dois pintassilgos se beijam,
no céu voam aeronaves,
flores exalam perfume,
o gado pisa no estrume,
as nuvens parecem naves

Há muito galinhas já ciscam
pelos cantos do terreiro,
os galos dizem ao mundo
que são donos do galinheiro,
os cachorros ladram alto
e as pererecas num salto
vão às folhas do juazeiro

Um bando de avoantes
bate no céu suas asas
como crianças sorrindo,
e vaqueiros na algazarra,
em seus cavalos montados,
radiantes, descansados,
acenam p'ra suas casas

As águas mansas dos rios
seguem sua correnteza,
uma grande garça branca
mostra o tom de sua beleza
e um tatu-bola correndo,
feliz por estar vivendo,
dá bom dia à natureza

Num dia tão lindo assim
fico todo eletrizado,
o coração batendo forte
me sentindo apaixonado
pois vejo que a vida é bela
e como uma fração dela
sou homem realizado


********************

VOCÊ

Antes que a noite termine
e o limiar do amanhecer
o ar celeste ilumine
tentarei não lembrar você

Pois a noite tudo apaga
quando Morfeu nos envolve
e do coração qualquer chaga
num só lampejo remove

Mas se o carinho do sono
na demora recrudescer
e deixar-me em abandono
melhor não pensar em você

Ah, quem manda no coração?
Mesmo que tente esquecer
é ele quem toma a decisão,
que pode a mente fazer?

Contudo, ainda assim,
risco você num instante
de cada recanto de mim
de agora em diante

E se a madrugada desce
sem que consiga esquecer
e logo o dia amanhece,
deixe assim; amo você!


domingo, 15 de março de 2009

VERSOS RETORCIDOS

Eu estou muito disposto
e vou cantar tudo em verso
piscar p'ra mulher bonita
tentar ver seu reverso,
fazer cara feia p'ra homem
pois é bicho que detesto
.
Apagar o sol com um sopro,
deitar abraçado na lua,
botar fora a tristeza,
no medo sentar a pua,
descontrolar o controle,
limpar dos crimes a rua
.
Riscar do mapa a maldade,
encontrar a paz mundial,
acabar esssa crise toda
que está me causando mal,
escrever um best seller
na folia do carnaval
.
Sorrir para o inimigo,
abraçar quem nunca vi,
se o ódio me procurar
diga que fui, já parti,
e me encontro bem cansado
pelo muito que corri
.
Agora pergunto a vocês:
por que uns ganham tanto,
políticos, por exemplo,
se muitos caem no pranto
sem ter dinheiro no bolso,
o filho com fome num canto?
.
Não é injustiça grande
ver tanta gente sofrendo,
passando fome, chorando,
feridas na perna, gemendo,
as crianças pedindo pão
mas seus pais nunca podendo?
.
Segundo os textos legais
somos iguais perante a Lei,
mas o que vejo todo dia
é cenário estranho, parei!
Por que tanta coisa errada?
Humanos, como me enganei!
.........
Para brincar com a poesia, fiz uma trova e dela derivei diversas outras usando sempre as mesmas palavras da primeira elaborada. Foi um simples exercício literário para testar a mim mesmo, se eu teria condições de executar a tarefa a que me propusera. O resultado pode ser visto abaixo:
TROVAS ENTRELAÇADAS
Nas ondas da poesia
vou viajando sorrindo
agarrando a fantasia,
um coro de luz fluindo
.
Um coro de luz fluindo
agarrando a fantasia
vou viajando sorrindo
nas ondas da poesia
.
Vou viajando sorrindo
nas ondas da poesia
um coro de luz fluindo
agarrando a fantasia
.
Agarrando a fantasia,
um coro de luz fluindo
nas ondas da poesia
vou viajando sorrindo
.
Vou nas ondas fluindo
agarrando a poesia
um coro de luz sorrindo
viajando na fantasia
.
Coro de luz , da fantasia,
um nas ondas, vou sorrindo,
viajando na poesia
agarrando-a, fluindo
.
Sorrindo, vou viajando,
coro de luz, poesia,
um nas ondas agarrando
dá, fluindo, fantasia
.
Sorrindo da poesia
de ondas, coro viajando,
vou luz, um, fantasia,
fluindo na, agarrando.

sábado, 14 de março de 2009

O CORAÇÃO DO POETA



É um vasto oceano de sonhos entrelaçados, de caudalosos rios de lágrimas nascidas da nostalgia, de intrincados instantes transformados em harmônicos poemas fluindo do seu recôndito e formando um belo painel todo enfeitado de belas flores perfumadas; a ternura recobre todo esse amplo oceano com gotinhas de embevecimento, com miríades de confetes coloridos pelo arco-íris. O coração do poeta é, enfim, um incomensurável terreno acidentado onde as ilusões nascem e se desenvolvem com leveza do sorriso.


SONETO AO POETA


Nas veias do poeta inspirado corre vinho e veneno,
raios de sol, água pura, mistérios do oceano,
ternura, sonhos dourados, olhar puro e leviano,
ele verseja num tom e diz que não quer, querendo

Devanear, bem sabemos, é próprio de quem poema,
é obra de garimpeiro, de escultor com cinzel,
de escritor tarimbado que viu Torre de Babel,
de Pierrot apaixonado, do casal Páris e Helena

Mas só ao poeta é dado admirar o orvalho,
namorar o brilho da lua, ouvir atento as estrelas
conhecer muitas mulheres e a um só tempo quere-las

Sempre alheio ao que o cerca, é eterno sonhador
enfrenta de perto a morte, não tem medo da dor
se mil vidas ele tivesse gostaria de vivê-las

quinta-feira, 12 de março de 2009

PARA SER UM ESCRITOR


Escrever com precisão,
fazer um texto bonito
é tirar sangue de pedra,
rimar boi com periquito,
matar um leão por dia
catar piolho da tia,
tirar leite de cabrito

Vai garimpando palavras
como quem busca tesouro,
lá no meio do pedregulho
achar pepitas de ouro
e enquanto rabisca o texto
é só encontrar um pretexto
prá logo cair no choro

Porque escrever é magia
de quem nasceu com talento,
de umas poucas palavras
edifica um monumento,
descreve briga de galo,
mata a cobra e mostra o talo
cavalgando num jumento

Tem muita gente com medo
de empunhar a caneta,
foge dela assustada
como se fosse o capeta,
temendo que ela queime
se um dia ele teime
em escrever uma letra

Um candidato a escritor
precisa se exercitar
lendo um bocado de livros,
escrever muito sem parar,
vivend'o imaginário
de olho no dicionário
na fantasia viajar

Para ser um beletrista
paladino da cultura,
intelectual famoso
de saber e formosura
precisa de dedicação,
ter pronto um livro na mão
com a sua assinatura

*********

O DESPERTAR DE UM SONHO


Súbito o mundo acordou
de um sonho todo dourado
e viu que tornou-se balela
um povo globalizado,
despertando numa crise
meio perdido, abobalhado

Foi nos Estados Unidos
onde a pólvora explodiu
- as coisas começam lá! -
pois sempre de lá tudo partiu
e o capitalismo mundial
foi p'ra ponte que caiu

Logo as bolsas desabaram
causando medo e aflição,
veio rápido o desemprego
no centro do furacão,
do que o capeta amassou
restaram migalhas de pão

Cá no Brasil Lula dizia
que tal crise era marola,
quando chegasse por aqui
nenhum problema, ora bola!
pois o País estava pronto
prá enfrentar a tal "senhora"

Não foi bem assim, contudo,
quando a batata esquentou,
as demissões começaram,
logo o comércio estagnou,
as indústria recuaram
e o crescimento do pib parou

Ora, sendo a crise mundial
por que aqui não chegaria?
Se todos os países sofrem
a nós também alcançaria
essa grande bola de neve
destruindo a economia

Quem disse não haver crise?
Só não enxerga quem não quer
que essa grande pororoca
uma marolinha é que não é,
parece mais com o dilúvio
por Deus revelado a Noé

E nela estamos mergulhados
do tornozelo ao pescoço,
com quem ficará a carne,
pois ao povo resta o osso?
Os ricos comerão a polpa
e o pobre roerá o caroço?

E fique bem esclarecido
como o trem anda na linha
que o momento é delicado,
não é canja de galinha
e Lula já está sabendo
que não é uma marolinha.

terça-feira, 10 de março de 2009

QUE FALE MINHA SENSIBILIDADE!



Hoje pretendo deixar os dedos correndo sobre o teclado do computador sem qualquer disposição de os guiar, para que digitem a mensagem nascida da potente sensibilidade do tato, sem peias, sem amarras, ficando o controle somente para o momento do cansaço. Então, seguindo completamente esse diapasão, as letras formem frases e, estas, parágrafos, surgindo, daí, alguma mensagem interessante mesmo desconexa. Os dedos e as mãos que falem! Como se fossem meros instrumentos do fascínio e do além-imaginado. Caia sobre o brilho esfuziante do terminal a ofuscar meus olhos uma grande tempestade de palavras e provoque alguma espécie de enxurrada repentina capaz de alagar as ruas do meu pensamento, afogando e levando com os indistintos termos a opressão das novas regras gramaticais, do justificado que corrige e alinha as linhas esquerda e direita do texto, do algo a declarar exigido nas crônicas.

Quero a liberdade de permitir-me fluir pelas letras sem sufocar minha inteligência nem oprimir a criatividade com objetivos pré-fabricados. Porque não me cabe premeditar quais vocábulos unidos deverão ser lidos por meus raros leitores. Nem devo tentar impingir-lhes fórmulas literárias arquitetadas em laboratórios mentais. Escrever tudo ao bel prazer da telha, eis meu sublime anelo. Rabiscar o espaço todo branco com risquinhos escuros ao jeito das crianças e sua abençoada inocência. Não determinar conceitos planejados, nunca usar a intolerância da força ou dos sofismas para definir preleções nem conceituar precocemente alusões para esse ou aquele leitor.

Não, hoje só vou escrever prosas de nonadas, fragmentos de desconjunturas, displicentes incoerências e risíveis quimeras desconexas. Nem mesmo enveredarei pela facilidade minimalista das linhas mínimas com máximo e equilibrado conteúdo, passando longe também, decerto, da lógica cartesiana e dos traços melífluos dos abnegados certinhos da cultura. Mergulho acintosamente no leito caudaloso da contra-cultura sem nenhuma mácula ou dorzinha na consciência. E o faço somente pelo lúdico prazer de brincar de criancice com a sopa de letrinhas desenhadas no teclado surdo à minha frente. Não há outro objetivo. Como a petizada sapeca, apraz-me sorrir sem encontrar razões para isso, desperta-me o interesse o vôo dos vagalumes; aguça-me a curiosidade saber por que o céu às vezes é azul, outras escuro e sombrio; leva-me às garras da emoção ver meninos de rua em plenipotenciário estágio de abismo abaixo, de fome, de abandono, de mágoa, de protagonista de nenhum futuro. A incerteza de tudo me causa lágrimas.

Hoje eu não estou conseguindo segurar as pontas no auge de tantas injustiças e da desenfreada violência de seres humanos contra eles próprios. Ah, eu gostaria de expor meu contundente e completo desprezo contra os desgraçados bandidos de qualquer espécie promotores da cruel violência que vem assolando o nosso tempo. Para todos eles o meu mais completo e absoluto desprezo. E a esperança de vê-los pagando por seus sórdidos crimes sob o máximo rigor da lei.

Hoje, em protesto contra a covardia dos violentos cruéis e frios, que atiram de maneira vil e sórdida contra suas vítimas indefesas, abstenho-me de escrever algo coerente.

domingo, 8 de março de 2009

A MULHER FOI EDIFICADA

Autor da foto: Gilbamar de Oliveira Bezerra

Como um boneco de barro
sobre o qual Deus soprou vida
foi criado o homem Adão,
figura humana nascida
para adorar ao Criador,
a expressão maior do amor
na linda paisagem florida

A imensidão do paraíso
era o império de Adão
que dali sabia tudo,
nomeou gato, sapo e leão
mas vivia tão sozinho
não havia um só vizinho
com quem dividir a solidão

Único homem no espaço
em meio a plantas e animais,
era tanta melancolia
que ele não suportava mais,
viver só era chatice
dia-a-dia só mesmice:
bichos, feras, matagais

Deus viu aquela tristeza
toda estampada em Adão,
sendo santo e onisciente
já sabia de antemão
que a ele faltava alguém
pois solidão não faz bem
para quem tem um coração

Lá mesmo no paraíso
pôs Adão p'ra adormecer,
e enquanto ele dormia
fez o que pensava fazer,
dele tirando a costela
enquanto moldava com ela
a escultura do bem querer

Se bem Adão veio do barro
do alto da cabeça ao pé,
bem do meio do seu corpo
sem nem um resquício sequer
de qualquer outro material,
com um olhar ou um sinal
enfim Deus edificou a mulher