quarta-feira, 22 de abril de 2009

VISITA AO PALÁCIO DA PENA

Sintra é uma cidadezinha de Portugal cheia de charme e atrativos, onde delícias da culinária como os "travesseiros da Periquita" e as "queijadas de Sintra", conhecidas em todo o mundo, fazem a festa gastronômica dos turistas e visitantes em geral. À parte essa característica peculiar, que leva tanta gente a não deixar a cidade sem antes degustar as citadas guloseimas deliciosas, quase como se fossem parte de um ritual importante, algo mais voltado ao prazer do espírito e da alma atrai multidões o ano todo: os castelos e os palácios recheados de histórias e fantasias. Dentre estes destaca-se, em magnitude e imponência, o Palácio da Pena.

Evidentemente, constava de nossos planos de viagem a Portugal conhecer o famoso Palácio da Pena, pois, afirmavam todos, seria um passeio imprescindível para quem vai àquele lindo País. Já tínhamos lido bastante e visto fotos dele na internet, sabíamos muito a respeito e faltava, agora, vê-lo e tocá-lo. A idéia inicial tinha por base o aluguel de um carro para tornar o passeio até Sintra mais confortável e tranquilo. Infelizmente, porém, para dirigir por aquelas bandas eu precisaria portar carteira internacional de motorista, e as providências para obtê-la demorariam além do tempo que eu tinha antes de viajar. Como chegamos a Lisboa no sábado, dia 04/04/09, eu e minha esposa achamos por bem ir a Sintra no dia seguinte juntamente com o grupo de Natal que viajou conosco. Fizemos as reservas no ônibus da empresa ao entardecer daquele dia, tão-logo voltamos do city tour. Mas, no horário da saída, domingo, fomos avisados que o passeio tinha sido cancelado e não haveria mais o trajeto até o Palácio da Pena. Ficou tudo sem explicação plausível apesar das reclamações dos circunstantes. A decepção, claro, foi geral. E agora, como faríamos, então, para seguir o roteiro de passeios até o Palácio da Pena? Não poderíamos regressar ao Brasil sem visitá-lo, isso estava totalmente fora de cogitação. Fomos correndo atrás do prejuízo.

A recepção do hotel informou-nos que se desejávamos tanto conhecer Sintra e visitar as maravilhas de seus palácios e castelos, havia um ótimo meio de transporte ligando Lisboa àquela cidade, o comboio, saindo diariamente, de vinte em vinte minutos. Mostrava-se uma ótima opção, afirmou, e faríamos uma viagem rápida, segura e a preço bem convidativo. E nos passou todas as instruções para não haver equívocos, detalhando inclusive os pontos de referência num mapa do País.

O sistema metroviário de Lisboa é um dos mais perfeitos e funcionais de todos os que já conheci, se bem sejam poucos, em minhas viagens. Monumental e seguro, com o que há de melhor em tecnologia na área, apto para transportar centenas de pessoas para os pontos mais importantes da cidade e com uma rapidez impressionante, o Metro, como os lisboetas chamam, funciona tal qual um relógio suíço. Aliado a esse conveniente meio de transporte eficiente, as linhas de auto-carros, bondinhos e elétricos fazem do transporte urbano de lá, caso o turista não esteja num carro alugado ou não encontre táxi com a rapidez que deseja, a melhor maneira de cumprir seus compromissos em cima da hora.

Primeiro apanhamos um elétrico e fomos para estação Cais Sodré, onde entramos no sensacional universo metroviário de Lisboa. Fiquei muito admirado com a magnitude do local, mesmo já tendo testemunhado a modernidade da Capital portuguesa por todos os lugares onde passei. Lá, mesmo penetrando num mundo desconhecido onde centenas de pessoas com pressa corriam para o trabalho, tomamos o metrô que seguiria para a estação Restauração, desceríamos e, daí, no mesmo local mas do outro lado, tornaríamos a entrar no metrô cujo destino era a estação Jardim Zoológico. Seria aí, então, onde embarcaríamos no comboio que fazia o trajeto para Sintra de vinte em vinte minutos. Um inesperado problema causado por informação truncada nos fez perder vinte e cinco minutos preciosos. O comboio com destino a Sintra partiria da estação Restauração, não daquela aonde chegamos em pouco tempo. O remédio era voltar por outra linha do metrô, e para isso teríamos de fazer novamente a volta até o outro lado, subir e descer escadas além de percorrer um longo corredor até encontrarmos a linha a ser apanhada. Sim, e tornar a validar o cartão em um das dezenas de entradas do metrô. Assim fizemos, que remédio! Apesar detudo, em pouco tempo estávamos regressamos à estação Restauração e logo saltamos desabalados a fim de pegar o primeiro comboio que estivesse para partir. Não chegamos a tempo para isso, porém. O comboio lá estava mas já prestes a seguir para Sintra, ninguém mais podia embarcar. Foi preciso esperar mais vinte minutos pelo próximo. Decorrido o quê, enfim seguimos viagem. Quanta dificuldade enfrentamos, bem se vê, todavia nada que não tivesse vindo para enriquecer-nos como seres humanos e aprendermos mais sobre a batalha da vida! São essas pequenas e interessantes experiências de nossa existência que nos deixam entrever tantas verdades sobre nós mesmos como também a respeito dos nossos semelhantes, tornando mais ameno o refletir acerca do quanto é efêmero e tênue tudo que nos rodeia.

Aprendi com a vivência a gostar da companhia de outros seres humanos e de ver estampado em seus rostos curtidos pela rotina cotidiana as marcas do tempo, da vida, dos sorrisos, das vicissitudes, do sofrimento e da felicidade. Penso ser impossível conhecer a alma das pessoas de outros Estados brasileiros ou de lugares diferentes em países estranhos se não compartilhar com elas um pouco de seu suor, riso e lágrimas. No metrô acompanhei o povo trabalhador, lado a lado, homens e mulheres, do menor ao mais alto escalão, bem vestido com seus trajes de grife ou modestamente trajado na simplicidade de suas condições, vivenciando o dia-a-dia de Lisboa. No meio deles, perscrutando suas expressões, vi-lhes o coração e a alma no mais forte pulsar. E no comboio igualmente. Aprendi mais sobre Portugal nos elétricos, no metrô e no comboio indo e vindo de Sintra do que participando do city tour e visitando os tradicionais pontos de turismo da capital.

Havia grande agenda a ser cumprida em Sintra, eu e Ana queríamos realmente obedecer todo o roteiro por nós traçado antes mesmo de pisar as terras lusas. Era questão de honra e vontade não retirar nem mesmo uma vírgula do compromisso assumido conosco mesmo. Um porém, no entanto, nos impulsionava mais ainda a não perder tempo em nenhuma ocasião: a amiga Lisa, do blog Momentos Meus, residente em Lisboa, a quem não conhecíamos pessoalmente, iria encontrar-se conosco no hotel por volta das dezoito horas. No dia anterior, o domingo, conversamos com ela por telefone e ficamos de nos encontrar no Shopping Colombo, mas o desencontro ocorreu e não foi possível. Depois de muita procura mútua(o shopping é gigantesco, um dos maiores da Europa, dizem) e, enfim, a desistência da amiga quando a hora avançou, tivemos a felicidade de conversar com ela por telefone e marcamos o encontro no hotel para o dia seguinte. Isto é, no exato dia de nosso passeio a Sintra. Urgia, por isso, ganhar tempo o máximo possível. Abraçar a amiga especial Isa, uma de nossas prioridades na viagem, e visitar o Palácio da Pena, rota de todos os turistas que vão a Portugal, se faziam dois compromissos importantes e imprescindíveis.

Passava das nove horas da manhã(cinco horas no Brasil) quando descemos em Sintra. Na estação avistamos enorme fila, perguntamos de que se tratava, percebemos não fazer parte do nosso roteiro e saímos a passos rápidos perguntando aos transeuntes como fazer para ir ao Palácio da Pena. A poucos metros dali existia um ponto de ônibus turístico que levava os visitantes até lá, disseram. Apressamo-nos naquele rumo, onde já outro amontoado de turistas de vários países tentava formar mais fila à espera do tal ônibus. A mistura de vários idiomas falados ao mesmo tempo provocava-nos a cômica sensação de estarmos perdidos no interior da Torre de Babel. Japoneses, chineses, turcos, alemães, americanos, austríacos, italianos e brasileiros, entre outros tantos mais, falávamos ao mesmo tempo fazendo nos tímpanos uma apoteótica sopa de linguagens. Eles, como nós, optaram pelo bater forte do coração em meio à população local, pela novidade de perguntar e sentir emoções novas. Não poderiam estar, naquele momento, confortavelmente sentados em onibus fretados seguindo tranquilos para o palácio, sem atropelos nem perda de tempo? É claro que sim, mas preferiram se emocionar, sentir o bater forte e descompassado do coração, fotografando locais e ângulos que jamais seriam vistos por turistas acomodados. Podem ter certeza de que aqueles estrangeiros denotavam ser gente endinheirada do Primeiro Mundo. Contudo, estavam lá, em plena rua de Sintra, aguardando o coletivo como qualquer pessoa comum.

À chegade de um luxuoso e moderno ônibus, fomos entrando e pagando 4,50 euros cada(cerca de R$ 13,95) para ir até o Palácio da Pena e voltar. No interior do coletivo percebemos que ele era muito mais luxuoso e moderno do que pensávamos. Parecíamos estar dentro de um avião, tamanho o conforto sentido e a tecnologia exposta aos nossos olhos. Na mistura de idiomas, impossível de ser compreendido pelo motorista, o entendimento se fazia por mímica. Embarcados quantos cabiam para completar a lotação, saímos pelas ruas, vielas e becos de Sintra deixando a vista vagando por entre as imagens que iam passando à velocidade do ônibus. No caminho, avistamos muita gente indo de bicicleta(alugadas aos turistas) e a pé como se quisesse, nessas condições, fazer penitência ao enfrentar a árdua subida com enorme esforço físico.

Eu e Ana resolvemos ficar nas proximidades do Castelo dos Mouros, indo na direção de uma espécie de quiosque de razoáveis proporções onde, é evidente, já havia filas para a venda dos bilhetes de acesso ao Castelo. Conosco desceram outros turistas e depois o ônibus prosseguiu a caminho do Palácio da Pena, cerca de trezentos metros ladeira acima. Chovia fino naquele instente e havia chovido bastante antes deixando o asfalto molhado e escorregadio. A visita ao Castelo dos Mouros e ao Palácio da Pena, caso o interessado comprasse as duas entradas de uma vez, custava 13,00 euros(R$ 40,00 reais) por visitante; se resolvesse adquirir o bilhete separado ou quisesse conhecer somente um dos dois desembolsaria 11,00 euros( R$ 34,00 reais). Se bem nos arrependéssemos após "escalar" as simples ruínas sem muita graça do Castelo dos Mouros, que de interessante tinha somente sua altura incomum, de onde, malgrado isso, ganhamos uma vista muito bonita da cidade de Sintra e seus arredores, adquirimos o pacote completo.

Não existe praticamente nada para ver no Castelo dos Mouros, senão ruínas e escombros, dezenas e mais dezenas de degraus se desfazendo, subidas íngremes no barro seco, restos de nada e lembranças da história. Para chegar aos seus inúmeros recantos e desvãos, onde outrora havia aposentos por todos os lados, além disso, ainda é necessário ter um ótimo preparo físico, estar com o coração em dia e ter muita disposição para andar e andar bastante, sob pena de não atingir nem a metade do caminho. O ímpeto da caminhada, no entanto, vai despertando o turbilhão de adrenalina e nos torna capaz de seguir sempre na direção do ponto mais alto sem pensar nas consequencias físicas posteriores. Em alguns pontos, paramos tanto para respirar fundo como para apreciar as indescritíveis vistas com que nos deparávamos. E fotografar, perenizando o momento.

.......continua

segunda-feira, 20 de abril de 2009

FLASHES EUROPEUS

A rodovia Lisboa-Espanha com seu asfalto igual a um tapete persa


As cidades portuguesas e a espanhola visitadas por nós nessa viagem à Europa proporcionaram aos nossos olhos e corações imagens e registros a perenizarem-se n'alma e se fazerem presentes constantemente nas recordações e nas fotos. À medida que os surpreendentes espetáculos desfilavam ante nossos olhos eu ia freneticamente anotando para não esquecer nenhum detalhe ou pormenor, embora muita coisa se perca porque há tanto para ver e admirar e tão pouco tempo para tudo. Afinal de contas, outras paragens visitadas têm sempre algo novo em profusão e espetáculos de beleza e encantamento que, de tão fascinantes, nos embriagam ao ponto de esquecermos ou não termos condições de registrar cada ponto em notas ou em instantâneos.

Peregrinos a pé chegando à Catedral de Santiago de Compostela


Já em solo espanhol, em frente à Catedral de Santiago de Compostela assistimos à chegada de vários peregrinos que fizeram, a pé, o famoso caminho de Santiago, todos felizes sob o peso da bagagem nas costas, o enorme cajado na mão direita, cabaça e concha penduradas como alforjes, os rostos curtidos pelos dias de sol e chuva. Abraçavam-se entre si sorridentes como crianças entusiasmadas e corriam satisfeitos na direção da Catedral, os braços entreabertos, alguns chorando, e muitos deles chorando e rindo ao mesmo tempo. A cena tocante emocionava como se estivéssemos assistindo a um filme dramático. Quase senti descer-me a face a lágrima atrevida que tentei sufocar enquanto pensava que somente uma grande força de vontade aliada à fé capaz de erguer montanhas poderiam sustentar o esforço desses andarilhos em caminhar dias e dias sob o frio, a chuva e o sol, além do desconforto, da sede e da fome para, depois de tantas vicissitudes, visitar o túmulo de São Tiago e abraçar seu busto em orações. O objetivo alcançado parecia dar-lhes ao rosto aquele irrefutável ar de êxtase não encontrado em outras situações.

Sob a chuva, em frente à Catedral de Santiago

Ao voltarmos do almoço, fazendo malabarismos para fugir da chuva insistente e molhadeira naquele entardecer sombrio que bem poderia estar ensolarado em Santiago, algumas vezes fazendo paradas apressadas para bater fotos quando o aguaceiro amainava, escutamos, ao longe, o barulho característico dos grupos de estudantes da universidade de Santiago entoando suas canções em altos brados. Conhecidos por formarem conjuntos musicais denominados Tuna de Santiago de Compostela e venderem suas gravações enquanto cantam nas igrejas da cidade, arrebanhavam turistas que passavam nas imediações e entoavam suas músicas em alto e bom som. Ainda quisemos ir até lá para apreciar sua arte mas razões adversas, mormente a chuva, não nos permitiram.

A chuva caindo em Santiago da Compostela

Tão-logo pusemos os pés na Espanha, experimentamos a famosa torta de santiago sabor amêndoa com a bela cruz estilizada tão característica, devoramos os pãezinhos recheados de manteiga e mel e bolachas tanto de amêndoa quanto de outras gostosuras, produtos estes vendidos a peso de ouro e em euros por uma senhora galega que falava apressada e enrolada em três idiomas, francês, português de Portugal e o dialeto da Galícia. De cara, à nossa chegada em seu estabelecimento, como não conseguíamos compreendê-la, perguntou-me "Parlez vous Français(você fala francês)?", e eu, em não sabendo, respondi-lhe em inglês "I d'ont speake french, only english(não falo francês, somente inglês)", recebendo como réplica um balançar de cabeça a determinar incompreensão e o jorrar de palavras arrevesadas na língua de Lisboa. A partir de então, de modo cangueiro porém razoável, logramos nos entender e foi possível experimentar o delicioso pão de mel que nos vendeu por um preço absurdo.

Compramos, como sempre fazemos em nossas viagens, imãs de geladeira nas cidades de Santiago de Compostela, Fátima, Sintra e Lisboa, não tendo sido possível, porém, encontrar tal artigo nem em Coimbra nem em Porto(os amigos dessas cidades portuguesas teriam como enviar-me um imã artesanal representando o cartão postal de cada uma dessas cidades?). Esses objetos do universo artesanato das localidades por onde passamos, juntamente com as fotos dos pontos mais interessantes e as anotações feitas ao longo da viagem, compõem o conjunto de recordações desses passeios maravilhosos realizados por mim e minha esposa durante o ano.


Quando voltávamos de Porto para Lisboa, por volta das dez horas, horário de Portugal(no Brasil ainda eram seis da manhã!), revendo a bela paisagem às margens da auto-estrada, a guia que nos ciceroneava durante quase todos os momentos da viagem nos mostrou formações inusitadas sobre os postes de energia elétrica, à nossa direita, dizendo tratar-se dos malabarismos impressionantes feitos pela fauna portuguesa, pois aquilo se tratava, imaginem só, de nada mais, nada menos, que moradia de cegonhas. Isso mesmo, olhamos na direção por ela apontada e nos deparamos com enormes ninhos dessas fantásticas aves que povoaram os contos de fada de antigamente. Encarapitados nos altos postes e na grande extensão da estrada, se bem que um pouco afastados desta, a grande quantidade de ninhos fez o enternecimento dos viajantes, todos fascinados ante a inigualável novidade. No céu, como pequenos aeroplanos tranquilos sobrevoando o espaço, algumas dessas formidáveis aves deslizavam com graciosidade e absoluta segurança, deixando no ar o fascínio de sua elegância, o encanto de seu charme e a leveza de seu vôo descontraído. Não sendo percebido por ninguém, sorri todo satisfeito e emocionado parecendo um menino ante a descoberta de notável tesouro.Testemunhar o vôo de cegonhas no espaço aéreo português e ver-lhes os ninhos foi mais um espetáculo diferente a merecer destaque especial em meus alfarrábios.


Os olivais e os parreirais espalhados como tapete sobre montanhas e serras foram outra bela manifestação da natureza para os nossos olhos, e bem assim também os sobreiros de onde são tiradas as cascas com as quais são feitas as famosas cortiças, os lindos pinheiros verdejantes e os eucaliptos altos povoando e pintando de verde as margens da estrada ao longo do caminho e procurando espaço entre as outras árvores, tudo passava à nossa frente como paisagem nova a plantar o enternecimento no coração deslumbrado.


O pombinho desprovido da patinha esquerda

E presenciamos também, estivemos pertinho dele, fotografando-o inclusive, um certo pombinho diferente e esquisito, que tinha a patinha esquerda amputada. Foi estranho para nós encontrar o bichinho com uma só pata a mancar pelo chão atrás de sua turma alvoroçada. Meio angustiados, ficamos nos perguntando quem teria feito tamanha maldade na pobre ave, ou se aquilo aconteceu na luta pela sobrevivência com algum predador. Difícil imaginar, impossível saber como aquilo aconteceu. Ele chegou de repente no meio de nós, junto com tantos outros em revoada, claudicando ao pousar e tentar andar, mancando coitadinho mas ainda assim bicando o chão na busca do alimento disputado também por seus iguais cujo estado físico se mostrava normal. Ana, embora com dó do pobre serzinho mutilado mas querendo guardar em foto aquele acontecimento inusitado, mirava-o à procura do melhor ângulo enquanto ele saltitava desajeitado procurando migalhas para comer. Houve um instante, contudo, em que ele pareceu perceber a intenção dela e, fazendo inesperada pose, permitiu ser fotografado. Depois, já imortalizado na foto, juntou-se aos companheiros e saiu a voar escondendo o defeito na leveza de seu glorioso vôo. No solo ele claudicava, no espaço, reinava.

A pose do pobre pombinho sem a pata esquerda

sábado, 18 de abril de 2009

NÓS NA EUROPA

Uma viagem ao Velho Mundo é sonho acalentado em muitos corações desde priscas eras, todos nós sabemos disso. Assim comigo foi, evidentemente. Só não tinha certeza se um dia qualquer da vida concretizaria essa quimera. Passou o tempo e o sonho continuou a ser acalentado enquanto o cotidiano prosseguia. Certo dia, quando passei no concurso promovido pelo Banco do Brasil, lá pelos idos de tantos anos atrás, já no meu inconsciente recrudescia esse incipiente desejo de, um dia, também sorver o ar europeu e deixar-me os olhos repletos das diferentes imagens jamais vistas antes. A Europa, ou parte dela, tornou-se, sabe-se lá desde quando, o sonho de consumo de grande parte dos brasileiros. Eu não fui exceção. Quando alguns amigos por lá andavam e ao retornar relatavam suas aventuras, diversões e conhecimentos, falando desse Primeiro Mundo com os olhos quase marejados de tanta emoção, fluía-me tanto o anelo de alcançar tamanha graça. Então fui semeando esse sonho ao longo de minha existência entre planos que se esvaíam e devaneios evanescentes.

Quando, por fim, chegou a grande oportunidade de, pelo menos, conhecer algumas cidades lusas e mais uma espanhola não titubeei nem pensei duas vezes. Cabia no meu orçamento o montante da despesa, minha esposa incentivou-me e eu, é lógico, mais do que tudo ansiava por esse momento. Fomos à agência de viagem que nos tinha enviado o e-mail-convite para adquirir o pacote e, como é óbvio, lá enfeitaram o bolo com as mais belas cores para encantar-nos. Não sem razão, afinal de contas faziam seu papel de sagaz vendedor. Só que tentaram de tudo para esquecer que o vôo charter no qual viajaríamos havia sido contratado por uma operadora de Salvador, na Bahia. Consequentemente, o avião já viria de lá com passageiros e não poderíamos saber quais seriam nossos lugares, arriscando, inclusive, a não ficar acomodado junto de minha esposa durante o trajeto. Isso, porém, somente descobri no dia da entrega dos vouchers, uma semana depois numa pretensa solenidade que, disso, não tinha nada. Parecia mais um corre-corre sem rumo, afora, ainda mais, a quase absoluta falta de informação sobre praticamente tudo relativo ao nosso vôo. Precisaríamos, explicaram-nos, chegar bem cedo ao aeroporto, umas quatro horas antes, para tentar conseguir viajar juntos, lado a lado. Imaginem!

Bom, já que era assim, procurei adaptar-me aos fatos para não enveredar pelos caminhos do estresse. Então, precavido, liguei um dia antes para a cooperativa de táxi contratando um deles para pegar-nos às sete horas da noite para levar-nos ao aeroporto onde faríamos o check in às oito e trinta. E o que aconteceu no dia da partida? Às sete horas em ponto estávamos nós no portão do nosso condomínio aguardando o táxi, esperançosos de vê-lo chegar a qualquer momento. Sete e dez, nada; sete e vinte, nada. Liguei uma vez para a cooperativa e a telefonista, aflita, garantiu-me que o motorista já estava a caminho; mas ele não chegava. Tornei a ligar e ela, apavorada, explicou que há muito o táxi saíra ao nosso encontro, o problema era o trânsito. Às sete e trinta, meio desesperado, ouvi o porteiro do condomínio dizendo que tinha um amigo taxista capaz de chegar bem ligeiro para levar-nos ao aeroporto. Nesse momento, ufa, pinta o tal do taxi na esquina na maior tranquilidade. Dei-lhe uma bronca, colocamos a bagagem na mala do carro e mandei-o enviar o pé na tábua.

E a odisséia para comprar euros? Qualquer um faria o que fiz na ocasião, isto é, esperar a queda da moeda européia para adquirí-la por um preço razoável, de maneira a aproveitar o melhor momento. Essa estratégia, no entanto, quase levou-me a ir para a Europa somente com os primeiros euros comprados dias antes, quando a moeda estava em relativa baixa, e mais o cartão de crédito, que inapelavelmente teria de usar. E isso, sem dúvida, encareceria ainda mais a viagem por conta das taxas e mais taxas cobradas pela operadora de cartão de crédito para fazer as transações. Por conseguinte, no dia do vôo para Portugal eu ainda siguezagueava pela cidade, de casa de câmbio em casa de câmbio, à procura de euros. Em vão. Nenhuma delas tinha a quantidade necessária ao número de pessoas prestes a viajar. E grande parte delas também perambulava à procura, ou praticamente todos porque precisaríamos deles para as compras e estadia de uma semana. Quando cheguei a determinada casa de câmbio, uma senhora, passageira do mesmo vôo parar Portugal, também ansiosa, estava comprando o cartão de crédito emitido pelo estabelecimento no valor em euros por ela pretendido, é claro, embutidas as infames taxas e encarecendo a aquisição. Cheguei a pensar que eles escondiam os euros para, no último momento, ante uma súbita alta na bolsa, vender-nos com gordos lucros. Depois de muitos altos e baixos, telefonemas, desabafos e prestes a apelar para o plano "b", que seria comprar num banco pagando taxas taxas ainda mais altas, finalmente uma casa de câmbio reservou-me a quantidade de euros de que eu necessitava, paguei o valor respectivo em reais e pude, afinal, suspirar aliviado por vencer mais essa etapa da viagem.

Ah!, Sabem quem eu encontrei na cabeça da fila do guichê da empresa aérea quando cheguei ao aeroporto? A dita senhora que havia comprado o cartão de crédito carregado com euros. Como era possível aquilo? Corri tanto para ser o primeiro a chegar. Mas ela também temia não ficar ao lado das amigas com quem viajaria, por isso pensou como eu em fazer plantão bem cedinho para ser a primeira no check in. E foi, a danada. Além dela, mais outras duas pessoas chegaram antes de mim. Nossa viagem de sete horas e trinta minutos rumo a Europa estava, agora, na iminência decomeçar.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - III

A fila nos levou até a entrada do túmulo de São Tiago, o apóstolo. Não tão rapidamente, porém, porque, muito comprida, serpenteava vagarosa por entre o tumulto de muita gente indo e vindo. Além do mais, comprovei mais tarde, a entrada do túmulo era estreita e alta, sendo preciso subir alguns degraus para alcançá-la. Quando de nossa vez, ao adentrarmos no local surpreendeu-nos a repentina e inesperada presença de um monge sentado no estreito recinto, as mãos cheias de santinhos, ao lado do busto de Tiago, circunspecto e todo cerimonioso. Ana olhou para ele meio assustada esboçando um sorriso decerto constrangido, mas o religioso endureceu o olhar e disse algo ríspido, eu entendi uma ou duas palavras do seu sotaque galego, ao contrário de Ana que olhou para os lados, tornou a sorrir - eu sorri também -, arrancando do religioso um suspiro de enraivecimento, tanto que prosseguimos túmulo adentro sem dele recebermos o santinho distribuído aos visitantes.

A enorme construção, com mais de oito séculos nos costados, dividia-se em diversos compartimentos, cada um com sua própria história e característica, destarte nada fácil de ser visitada em seu todo em tão pouco tempo. Vinha o momento do almoço, por outro lado, ademais ainda haveríamos de explorar as redondezas em busca de restaurantes, a chuva continuava a cair, não conhecíamos aquele labirinto, uau!, uma série de questões nos impeliram ao corredor de saída. A velhinha que esmolava à porta continuava lá entregue aos lamentos numa ladainha incompreensível, a mão estirada no indefectível gesto de pedir, completamente coberta da cabeça aos pés, de fora somente os espertos olhinhos.

A saga da procura por um restaurante ao nosso gosto, onde não fosse permitido fumar(em quase todos eles as pessoas podem fumar à vontade, há placas informando logo à entrada dos estabelecimentos) durou uma eternidade. Mormente por causa da chuvinha renitente e perturbadora. Sob o simples abrigo de uma sombrinha comprada à saída da Catedral, entrávamos em ruelas, descíamos e subíamos ruas com piso irregular, salpicados pelo toró interminável e nada de encontrar local para não fumantes. Optamos, ao depois de tanto perambular, por um onde não avistamos a malfadada plaquinha dando conta ser próprio para fumantes, o Casa de Xantar Burzo Enxebre, meio escondidinha na dobra de uma esquina. Provavelmente não seria permitida a presença dos fumantes com suas irritantes baforadas venenosas. No entanto, a vitória mostrou-se efêmera ao entrarmos, pois o tal aviso, bem maior e em destaque, fora colocado justamente no salão das refeições. Decepcionado, fiz menção de sair e continuar o périplo lá fora, mas como o lugar estava vazio e Ana sugeriu-me ficar ali mesmo por causa da hora e do mau tempo, acatei a sugestão e sentamos. Tratando-se de estabelecimento onde poderiam fumar à vontade, durante toda minha estadia fiquei tenso ante a possibilidade de alguém acender um cigarro e soltar baforadas a torto e a direito. Graças a Deus isso não aconteceu apesar das muitas pessoas que chegaram depois e de nós e quase encheram o restaurante. Deliciamo-nos saboreando um prato típico da região: Lubina à prancha.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - II




A catedral de Santiago de Compostela é suntuosa e envolvente e nos passa a nítida e quase palpável impressão de ter qualquer coisa de fenomenal, como se em seu interior houvesse algo de tal forma grandiloqüente que, como uma invisível mão afável, parece nos fazer gestos de carinho e afeto no rosto, nos deixando enlevar e sentir como se penetrássemos num mundo totalmente à parte do nosso cotidiano. Meio que na penumbra, velas acesas por todos os lugares, congestionada por uma verdadeira multidão de pessoas de várias nacionalidades e idiomas, as vetustas colunas ensebadas por dedos e mãos que ali pousaram em situações certamente as mais íntimas e misteriosas, deixava entrever, contudo, naquela babel onde o respeito predominava apesar de tudo, um belíssimo e fabuloso altar elaborado por hábeis artistas da arte religiosa e no qual, me pareceu, predominavam inúmeras peças de ouro amontoadas com precisão entre um sem número de objetos da fé católica formando um deslumbrante espetáculo para os olhos e para a alma.

A chegada de peregrinos que fizeram o caminho a pé


Embora o falatório, os murmúrios, o espocar das luzes oriundas das máquinas fotográficas, os risos e a mistura disso tudo como interminável explosão de som atordoante, dois padres, sentados um em frente ao outro nos bancos perpendiculares ao altar, liam a bíblia e rezavam metidos em seus paramentos e alheios a tudo. O local onde os dois permaneciam estava vetado à multidão por cordões de isolamento, assim não podíamos fotografar o altar senão apenas de ângulos tortos e incompletos. Eu olhava tudo atentamente tentando memorizar cada detalhe das centenas de detalhes existentes, pois o ar do ambiente me deslumbrava, o estilo antigo da arquitetura medieval mexia nas minhas emoções e, afinal de contas, caminhava por espaços ricos em história e mistérios.


Num dos restaurantes de Santiago


Na ânsia de guardar as lembranças em muitas instantâneos, para recordar depois todos os instantes daquele passeio único, sem perceber fiquei ao lado de um dos muitos confessionários enquanto Ana se posicionava para fotografar. Súbito, no entanto, notei alguém ajoelhando-se mas, por milésimos de segundo, ainda sem conseguir entender a realidade e o significado espiritual do gesto. Foi necessário Ana aproximar-se de mim e sussurrar-me ao ouvido: "tem um padre aí dentro e esse homem ajoelhado está se confessando". Nada ouvi do interlúdio entre os dois, claro, nem poderia porque o barulho não deixara. Além do mais, estou certo, não compreenderia a linguagem dos dois se lograsse ouví-los. Saí de fininho à procura de outro espaço.

O altar da Catedral


Vimos uma grande fila e para lá nos dirigimos apesar de não sabermos aonde levava, embora isso não importasse muito desde que se tantos a ela se juntavam é porque havia alguma coisa especial para ver. E como tínhamos ido a Santiago de Compostela dispostos a apreciar todas as atrações possíveis, enfrentamos a espera.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A CAMINHO DA ESPANHA



Chovia de forma intermitente e adejava no ar um frio cortante quando chegamos a Santiago de Compostela, na Espanha. Descemos do ônibus na Praça Xoan XXIII(João 23, na língua galega, na Galicia), onde seria nosso ponto de encontro para o regresso à cidade de Porto, em Portugal, e saímos a correr procurando abrigo. Resfriado em virtude do repentino sol que surge esbraseante em meio à baixa temperatura reinante, e devido também à constante chuva trazida pelas nuvens súbitas que cobriam os raios solares por instantes, depois se iam para novamente voltar, espirrando, o nariz escorrendo de tanta coriza, a garganta ardendo como se estivesse cheia de areia seca, eu precisava proteger-me das chicoteadas dos pingos a encharcar-me os cabelos e bater-me os costados antes de alcançar a Catedral onde estão os restos mortais do apóstolo de Jesus, Tiago, cognominado o maior.



Ainda sob as impressões impactantes dos relatos da nossa guia a respeito de como o corpo de Tiago chegou à Espanha, as peripécias passadas por seus amigos para esconder seu corpo, os sonhos sobrenaturais sobre onde o teriam sepultado às escondidas dos perseguidores, as histórias dos primeiros peregrinos a fazerem o caminho, a pé, saindo da França ou de Portugal, tomou conta de mim uma áurea de mistério e um clima de curiosidade.



Enquanto caminhávamos debaixo da chuva interminável e do frio gélido, algumas pessoas às portas de restaurantes, lanchonetes e lojinhas nos ofereciam pedaços de tarte de amêndoas, pães de nozes(excelentes!) e outras tantas guloseimas mais cujos nomes não consegui nem anotar ou memorizar, tudo com o claro intuito de nos arrebanhar para as compras nos seus estabelecimentos. Ainda assim, contudo, a atitude e a gentileza de suas palavras me faziam lembrar dos peregrinos cujas rações de carne seca, pão e água eram divididas entre os demais que pouco ou quase nada levavam enquanto, conduzidos por uma fé inabalável, atravessavam vales e montanhas, enfrentavam as intempéries do clima, os salteadores e as feras para, após meses caminhando(muitos deles andavam o ano inteiro), finalmente chegarem à Catedral(Sé, como lá eles chamam) e, ali, tocar a coluna e bater a cabeça por três vezes ao santo do croc, como faziam os estudantes para obter seus pedidos. E só então, por fim, adentrando ao sepulcro, abraçar a imagem de Santiago e dizer a seguinte frase: "amigo, recomenda-me a Deus."

Ainda longe da catedral e castigado pela queda d água que não queria parar, faltando um bom percurso até lá debaixo desse mundão de pingos intermitentes, ouvimos um lamentoso e alto som de gaita, escocesa oriundo de uma arcada que deveríamos atravessar. O barulho, altíssimo esconder o bater da chuva no chão e nos telhados, infernizava a vida de quem passava e era feito por um jovem anônimo que certamente ali estava como aventureiro a esperar que seu instrumento tocado fizesse condoer o coração dos turistas para ofertar-lhe algumas moedas de euro. A caixinha no chão com algumas delas deixava isso bem claro. Bem à sua frente, uma mulher segurando um cachorro grandão pela coleira apreciava a cantilena, mas o animal se mostrava inquieto e ansioso balançando a cabeçorra, engolindo em seco e fazendo menção de sair dali aos solavancos. Passamos pela arcada quase correndo e sem nos importarmos com a queda d água, pois metía-nos medo tanto o cão quanto o ensurdecedor barulho da gaita escocesa.

E lá fomos nós, já desgarrados do grupo que veio conosco, a perambular em busca da Catedral de Santiago e nos vimos rodeados por inúmeras entradas e saídas de todos os lados, espécie de labirinto estilo medieval desconcertante para quem ali se encontrava pela primeira vez, sem saber onde seria mesmo o lugar aonde estávamos indo, avistando diversas lojas de artesanato religioso, lanchonetes e restaurantes de um lado e de outro e a chuva apenas diminuindo de intensidade mas sem nos deixar, parecendo fazer-nos companhia, tudo isso contribuindo ainda mais para dificultar nosso objetivo. Foi necessário perguntar onde ficava a catedral para descobrí-la, enfim. E lá conseguimos entrar, por fim, após enfrentar a fila dos que entravam paralela à dos que saíam no alvoroço do momento. Começava, ali, para nós, a visita a um universo onde respiraríamos história, religião e espiritualidade.