sábado, 11 de junho de 2011

ALGUMAS COMIDAS NORDESTINAS

Como estamos vivenciando o período junino, achei de bom alvitre postar novamente um dos meus cordéis mais conhecidos, lidos e comentados. Divirtam-se e agucem o apetite lendo esses versos nascidos da inspiração oriunda das guloseimas degustadas no Nordeste.

A culinária nordestina
é modesta porém variada
agradando qualquer paladar
tem cuscus com leite, buchada,
a boa cocada de rapadura
além da gostosa panelada

O baião-de-dois, que petisco!
Arroz-d-leite, carne de bode,
manteiga da terra, chouriço,
desde que não engorde
mas se engordar, que fazer?
Come, balança e sacode

Carne-de-sol com farofa,
queijo de coalho e goiabada,
feijão verde, arroz da terra,
pamonha, café e coalhada,
bolacha preta, canjica,
tapioca doce e salgada

Caldo de cana e pão doce,
cocada feita com leite,
fuçura de bode cozida,
doce de banana, um deleite,
pé-de-moleque, espéce,
um docinho de caju, aceite!

Bolo de milho, doce de coco
manga, suco de maracujá
abacaxi quase açúcar,
sapoti, melão, mungunzá
seriguela e cajarana
mocotó com feijão e juá

Grude, cocorote, broa
mel de engenho, milho assado
sequilhos feito de goma
galinha guisada, guiné torrado,
sopa de feijão todos gostam,
e posta frita de Dourado

Sirvam-se de doce de jerimum,
de mamãe, banana ou caju,
goiaba em calda ou compota,
mangaba e batida de umbu,
arroz doce, um espetáculo,
que tal um melzinho de uruçu?

Claro que tem muito mais
não guardo tudo na cachola
há outras tantas variações
é só procurar, ora bolas!
Pelo menos podemos saber
que o Nordeste é da hora.


Twitter>>>> @Gilbamarpoeta

sábado, 4 de junho de 2011

AS ESTRELAS NO CÉU

Os astros celestiais sempre me fascinaram na universalidade da infância que vivi. Olhava-os admirado, fascinado e distraído, no entanto a um tempo temeroso e transbordando curiosidade, procurando ser revelado de alguma maneira pela transcedência metafísica de sua imensidão desconhecida. Eu queria saber o que fazia aquela imensidão transbordar num céu que cobria a vida, servia de teto ao Cosmos e não passava para mim de um insondável mistério. Tudo permanecia na incógnita, na densa escuridão da ignorância. Assim como havia os mares na Terra tomando conta de um espaço quase inimaginável e também deixando no ar o espírito do insondável, para mim o céu à noite se metamorfoseava num incomensurável oceano habitado por incontáveis milhares de estrelas brilhantes sob o comando severo da lua. 

Sim, em minhas divagações a lua estava à frente dessas miríades de pontinhos espantosos e ditava suas ordenanças consoante o próprio desejo místico. Por essa e tantas outras razões, mil indagações gigantescas me assolavam nesses interlúdios de ingenuidade, e entre todas elas a mais perturbadora deixava-me na perplexidade absoluta em virtude do silêncio como resposta: quem será que acendia todas aquelas estrelas e a lua ao anoitecer? Seria o mesmo querubim que apagava o sol quando a tarde acabava? Porque a escuridão noturna ficaria ainda mais aterradora caso não houvesse o luar à frente de seu grandioso exército estelar. Quantos questionamentos sem qualquer possibilidade de resposta permeavam meu cérebro infantil!

Confesso, eu não ousava contar as constelações, temia apontar as estrelas porque as pessoas afirmavam, por absoluta superstição, evidentemente, que nasceriam verrugas. Acreditem, eu tinha o maior respeito por essas afirmações, acreditava piamente tratar-se de uma verdade insofismável. Portanto, eu temia, mas era um temor de criança, esse medo característico das mentes ainda não amadurecidas pelos instantes do cotidiano. E não era somente eu a passar por esse sentimento de receio, como toda a minha geração e demais contemporâneos. Pela ingenuidade do nosso tempo, pela distância da globalização que ainda não havia chegado, pela mentalidade de outrora tão sabidamente diferente do que se preconiza hoje.

As superstições usuais desse período infantil, normalmente fomentadas por adultos igualmente ignorantes e famintos de conhecimentos, colaboravam para o incremento do meu espanto e sensibilidade diante de um céu pejado de tantos mistérios. Qualquer estrela mais brilhante, alguma por acaso cadente, o piscar de um avião sobrevoando a noite, tudo se tornava razão para quase extremo pavor. Temíamos sobremaneira que um repentino brilho no espaço pudesse significar o princípio do fim do mundo, e isso representava nosso maior medo, o mais pavoroso. Por isso o respeito, o fascínio e o temor com que eu olhava na direção do infinito aéreo e me emocionava com tantas icógnitas vivas desafiando-me quando o instante noturno cobria nossa cidade e eu me sentia o menor de todos os átomos diante da grandeza celestial.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OLHOS SEM CORAÇÃO

Somente olhos sem coração,
insensíveis, pejados de dor,
incapazes de sorrir
não contemplam flores.
São olhos apagados,
descoloridos, quase mortos,
turvos, sombrios, pobres,
que não se alegram.
Olhos órfãos da felicidade,
opacos, fósseis de tantas
e estranhas melancolias.
São olhos moribundos
que não derramam lágrimas,
olhos secos sem traços
ou sinais de vida.
Oh, céus, são tristes
olhos necessitados
de se deixar vencer
pelo poder catalizador
do pranto.

domingo, 15 de maio de 2011

NO CORAÇÃO DE PARIS








É cedo e está frio em Paris, temperatura em torno de sete graus, mas ela não se importa com isso, faz parte do seu viver o sofrimento cotidiano. Não tem atenção para a ostentação que se apresenta nas vitrines da Louis Vitton, tampouco da Chanel ou Rolex do outro lado da avenida. Nem ao menos dirige o olhar para as pessoas, não se acha à altura, surge no amanhecer e desaparece cabisbaixa quando o dia termina. Faz o que todos os dias habitou-se fazer, prostra-se completamente, sem cerimônia, sobre uma calçada da Avenue Champs Elysees, nas proximidades do Arco do Triunfo, em frente a uma luxuosa loja de artigos diversos, humilhada e arrebatada pela infâmia da vergonha. Sim, apesar de tudo o constrangimento enchia-lhe a alma envergonhada. Todos a olham atravessado(ela é empecilho no caminho), alguns enojados(será que tem mau cheiro?), outros penalizados(mas não dão esmola). Numa das ruas mais famosas de Paris e onde estão localizadas algumas das grifes mais caras da Europa. O luxo desafiando o contraste da pobreza mais contundente. Não é possível divisar o rosto dela, todo enterrado no chão da calçada. O medo da vergonha. E no entanto a mulher maltrapilha necessita desesperadamente assumir quão miserável e irrevogavelmente pobre é. Não somente para si, seu próprio auto reconhecimento, mas no intuito de mostrar aos que vão e vem essa condição que faz dela uma pária faminta e sem nada, sempre a pedir por extrema e inapelável precisão. Além do mais tudo nela e perceptível pauperrismo, pois a miséria está nos molambos que veste, na sua face melancólica escondida na dureza da terra vestida de pedras e cimento, na tristeza dos seus olhos, nas enrugadas mãos calosas e sujas, no seu olhar desamparado. Todo seu eu se encontra impregnado da imundície da pobreza. A coitada é uma insignificante mendiga deitada de bruços não numa avenida qualquer de um país do Terceiro Mundo, mas ali, bem no coração da Avenida Campos Elísios, em Paris.


A silenciosa posição adquirida pela mendiga é estranha. Ela não fala para pedir esmolas, nem vê os pés dos transeuntes, os olhos estão fechados. Permanece nessa imobilidade por horas. A mão esquerda está enfiada dabaixo do corpo, a direita esticada segurando um copo velho à espera que gestos caridosos joguem lá dentro moedas ou cédulas de euros. Pergunto-me como a indigitada mulher consegue controlar as necessidades fisiológicas, sede, fome, dores musculares, nas juntas, na coluna, no pescoço, nas pernas? Contudo, conjeturo a respeito dos pensamentos perambulando em sua mente e imagino mil coisas diferentes que naquele inusitado instante estariam lhe conturbando, mil desencontros de reflexões, uma tonelada de preocupações, montanhas de amarguras atormentando-lhe os neurônios. Ela é apenas ninguém que quase ninguém enxerga em sua passagem pela calçada onde deitou, indo ou vindo. Um ser humano vivo com todas as implicações que essa assertiva representa e implica. Voltará para seu casebre - ou viverá abrigada sob o piso de uma ou outra ponte alhures, bem longe da luxuosa avenida? - em algum lugar da mais longínqua periferia de Paris levando uns tantos trocados para tentar resolver o mais mínimo dos seus inúmeros problemas? Em qual grau de intensidade a sede e a fome corroem-lhe o debilitado organismo?

Transito apressado pelo local durante a manhã e a mendiga desconhecida já lá se encontra despojada no chão como um saco velho cheio de trastes esquecido por algum descuidado. Por óbvio, choca-me a cena e mexe com minha emoção. Inusitado ver aquilo no ponto mais nobre da capital francesa. À tarde, abismado, vejo-a tal qual estava antes, inalterada na sua inércia burlesca, parecendo um corpo adormecido numa posição imperturbável; à noite ela continua do mesmo jeito, sob a feérica iluminação da Avenue Champs Elysees e o ruge-ruge da multidão barulhenta. Embrulha-se-me o estômago, revolta-se-me o espírito, e algo dentro de mim chora inconsolável. Ninguém se importa, nem parece haver um ser humano de bruços numa calçada por onde centenas de homens e mulheres passam indiferentes. Não, eu não esperava isso em Paris. Pelo menos não dessa maneira tão palpável, visível e chocante. A cidade Luz não esconde a sombra negra da pobreza bem no cerne de seu coração, enorme chaga viva que pensa, fala, tem fome e sede e pede esmolas.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

FÉ E MENTIRA - Martelo agalopado

Aquela força do juiz Sansão
claro que não vinha do cabelo
mas de toda sua fé e desvelo
e isso vem direto do coração
é certo que nunca da musculação
de Deus procedia diretamente 
e se para Ele o homem não mente
se vê capaz de mover montanhas
então força e fé vem das entranhas
de quem na vida se mostra decente

Para o Pai não vale o exterior
é a beleza interna que retrata
de quem aquele homem se trata
expressão do rosto não diz amor
muitas vezes é a própria razão da dor
mentira que esconde ironia
porque de mentir alguns tem mania
como raposas dissimuladas
cobras de mordidas envenenadas
uns santos de barro em agonia

Um homem nazireu consagrado
não veria navalha sua cabeça 
desde criança até que cresça
para sempre ser abençoado
mas por Dalila foi enganado
e perdeu-se na sua sedução
por uma mulher danou o coração
perdeu a força pobre coitado
porque teve o cabelo cortado
isso é verdade divina, não ficção

Gilbamar de Oliveira Bezerra

domingo, 8 de maio de 2011

DIA DAS MÃES


FELIZ DIA DAS MÃES!




Ah mãezinha querida
que já o tempo envelheceu
quanta tristeza contida
mas seu amor nunca morreu

Nunca pediste presentes
só um pouco de atenção
inda que todos contentes
dessem sempre de coração

Tu só querias abraços
de teus filhos já crescidos
todos lá no teu regaço
sorrindo agradecidos

Por teu tempo e dedicação
pela dor de nos conceber
pelos calos de tua mão
tão feliz por nos ver nascer

Sei, nunca vou compreender
a sublime maternidade
sou homem, não sei entender
um grande amor de verdade

Pois de mãe sublime é o amor
além da realidade
além dos limites da dor
além da eternidade

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