domingo, 10 de julho de 2011

EXPLOSÃO DE VIDA

Como lágrimas de anjos a chuva cai
refrescando docemente a alma da cidade
cujo suave gesto feminino se sobressai
parecendo de algo sentir muita saudade

Os milhões de respingos assim diluídos
formando gigantesca cascata celeste
são lençóis plúmbeos constituídos
que a cidade nua no momento veste

Pássaros voam em bandos alegremente
porque a água que vem do céu é branda
alguns gorjeiam, outros carregam semente
a natureza embonecada sorri e canta

Quão linda é a vida sob esse belo prisma
é quando percebemos de Deus o Seu poder
e ainda que o descrente hesite em sua cisma
"há um Criador sim", ele diz sem perceber

quarta-feira, 15 de junho de 2011

DOCE VENENO

Meu último suspiro será por você, 
para que sorria e eu leve comigo 
a beleza do seu sorriso,
eu versejo e murmuro feliz
porque você é a minha poesia.
Sua voz é a bela música 
que o meu coração sempre 
desejou ouvir tantas vezes. 
Então, fala-me, murmura, 
canta para mim
Você é o veneno doce
que só faz bem a mim
você transformou o menino 
que havia em mim no homem 
que eu apenas aparentava ser 
antes de a conhecer.

Gilbamar de Oliveira Bezerra

sábado, 11 de junho de 2011

ALGUMAS COMIDAS NORDESTINAS

Como estamos vivenciando o período junino, achei de bom alvitre postar novamente um dos meus cordéis mais conhecidos, lidos e comentados. Divirtam-se e agucem o apetite lendo esses versos nascidos da inspiração oriunda das guloseimas degustadas no Nordeste.

A culinária nordestina
é modesta porém variada
agradando qualquer paladar
tem cuscus com leite, buchada,
a boa cocada de rapadura
além da gostosa panelada

O baião-de-dois, que petisco!
Arroz-d-leite, carne de bode,
manteiga da terra, chouriço,
desde que não engorde
mas se engordar, que fazer?
Come, balança e sacode

Carne-de-sol com farofa,
queijo de coalho e goiabada,
feijão verde, arroz da terra,
pamonha, café e coalhada,
bolacha preta, canjica,
tapioca doce e salgada

Caldo de cana e pão doce,
cocada feita com leite,
fuçura de bode cozida,
doce de banana, um deleite,
pé-de-moleque, espéce,
um docinho de caju, aceite!

Bolo de milho, doce de coco
manga, suco de maracujá
abacaxi quase açúcar,
sapoti, melão, mungunzá
seriguela e cajarana
mocotó com feijão e juá

Grude, cocorote, broa
mel de engenho, milho assado
sequilhos feito de goma
galinha guisada, guiné torrado,
sopa de feijão todos gostam,
e posta frita de Dourado

Sirvam-se de doce de jerimum,
de mamãe, banana ou caju,
goiaba em calda ou compota,
mangaba e batida de umbu,
arroz doce, um espetáculo,
que tal um melzinho de uruçu?

Claro que tem muito mais
não guardo tudo na cachola
há outras tantas variações
é só procurar, ora bolas!
Pelo menos podemos saber
que o Nordeste é da hora.


Twitter>>>> @Gilbamarpoeta

sábado, 4 de junho de 2011

AS ESTRELAS NO CÉU

Os astros celestiais sempre me fascinaram na universalidade da infância que vivi. Olhava-os admirado, fascinado e distraído, no entanto a um tempo temeroso e transbordando curiosidade, procurando ser revelado de alguma maneira pela transcedência metafísica de sua imensidão desconhecida. Eu queria saber o que fazia aquela imensidão transbordar num céu que cobria a vida, servia de teto ao Cosmos e não passava para mim de um insondável mistério. Tudo permanecia na incógnita, na densa escuridão da ignorância. Assim como havia os mares na Terra tomando conta de um espaço quase inimaginável e também deixando no ar o espírito do insondável, para mim o céu à noite se metamorfoseava num incomensurável oceano habitado por incontáveis milhares de estrelas brilhantes sob o comando severo da lua. 

Sim, em minhas divagações a lua estava à frente dessas miríades de pontinhos espantosos e ditava suas ordenanças consoante o próprio desejo místico. Por essa e tantas outras razões, mil indagações gigantescas me assolavam nesses interlúdios de ingenuidade, e entre todas elas a mais perturbadora deixava-me na perplexidade absoluta em virtude do silêncio como resposta: quem será que acendia todas aquelas estrelas e a lua ao anoitecer? Seria o mesmo querubim que apagava o sol quando a tarde acabava? Porque a escuridão noturna ficaria ainda mais aterradora caso não houvesse o luar à frente de seu grandioso exército estelar. Quantos questionamentos sem qualquer possibilidade de resposta permeavam meu cérebro infantil!

Confesso, eu não ousava contar as constelações, temia apontar as estrelas porque as pessoas afirmavam, por absoluta superstição, evidentemente, que nasceriam verrugas. Acreditem, eu tinha o maior respeito por essas afirmações, acreditava piamente tratar-se de uma verdade insofismável. Portanto, eu temia, mas era um temor de criança, esse medo característico das mentes ainda não amadurecidas pelos instantes do cotidiano. E não era somente eu a passar por esse sentimento de receio, como toda a minha geração e demais contemporâneos. Pela ingenuidade do nosso tempo, pela distância da globalização que ainda não havia chegado, pela mentalidade de outrora tão sabidamente diferente do que se preconiza hoje.

As superstições usuais desse período infantil, normalmente fomentadas por adultos igualmente ignorantes e famintos de conhecimentos, colaboravam para o incremento do meu espanto e sensibilidade diante de um céu pejado de tantos mistérios. Qualquer estrela mais brilhante, alguma por acaso cadente, o piscar de um avião sobrevoando a noite, tudo se tornava razão para quase extremo pavor. Temíamos sobremaneira que um repentino brilho no espaço pudesse significar o princípio do fim do mundo, e isso representava nosso maior medo, o mais pavoroso. Por isso o respeito, o fascínio e o temor com que eu olhava na direção do infinito aéreo e me emocionava com tantas icógnitas vivas desafiando-me quando o instante noturno cobria nossa cidade e eu me sentia o menor de todos os átomos diante da grandeza celestial.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OLHOS SEM CORAÇÃO

Somente olhos sem coração,
insensíveis, pejados de dor,
incapazes de sorrir
não contemplam flores.
São olhos apagados,
descoloridos, quase mortos,
turvos, sombrios, pobres,
que não se alegram.
Olhos órfãos da felicidade,
opacos, fósseis de tantas
e estranhas melancolias.
São olhos moribundos
que não derramam lágrimas,
olhos secos sem traços
ou sinais de vida.
Oh, céus, são tristes
olhos necessitados
de se deixar vencer
pelo poder catalizador
do pranto.