Imagine só beija-flores voando
nalgum paraíso de jardins floridos
com borboletas perfumadas planando
num oceano de peixes coloridos
Mágico assim só teu lindo sorriso
deveras tão belo qual estrelas no céu
iluminado como o sol indiviso
destacando teus olhos de favos de mel
Nesse conjunto, teus lábios poéticos
realizam a fascinante fantasia
de meus versos reais e hipotéticos
e teu corpo, como se fosse esse jardim,
eu um simples beija-flor com alegria,
é o céu e tem flores perfumadas para mim
Gilbamar de Oliveira Bezerra (@Gilbamarpoeta)
sexta-feira, 7 de junho de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
MIL ANOS COM VOCÊ - DIA DOS NAMORADOS
Te conheci num momento triste e esquecido, quando o céu estava sombrio e desestrelado, também desprovido de luar, contudo tão melancólico quanto um olhar desiludido. Guardei nas lembranças o teu perfume afável, teus gestos de abandono e saudade, teus olhos nadando em lágrimas, tua voz perdida no desafino, talvez sonhando em fazer tantas coisas, em realizar tantos feitos. Nadavas nas doces e suaves ondas dos devaneios. Não, nada, nunca, só a brisa em desespero rasgando as ruas, levantando poeira, respirando sobre as folhas, roçando teu rosto cansado, revolvendo sem entusiasmo os teus cabelos finos e negros como uma noite apagada. À frente, tão-somente o vácuo amorfo.
Tua ias sem rumo à procura de quê? Do talvez, decerto, dos senões imiscuídos nas entranhas do porvir, do mutismo angustiante, de algo que provavelmente nem sabias o que fosse, e te perdias nos próprios passos trôpegos, parecias flutuar como se levada somente pelo pensamento solitário perdido no coração do teu cérebro eunuco. Choravas e sorrias ao mesmo tempo, cantavas até, e eram músicas mórbidas como chuva de granizo destruindo telhados e arrancando árvores, como fogueiras chamuscando o ar aparvalhado e devastando o oxigênio vital, como gangurus enlouquecidos saltando sobre brasas ardentes, como crianças inocentes gritando o clamor dos famintos por seios túrgidos, por carinhos inexistentes, por abraços que jamais seriam dados. Abraços que, certamente, nunca recebeste. Nem deste.
Quisera não ter sido assim o nosso encontro, tão imerso nesse amargurante poço sem fundo de incertezas, de inesperada falta de esperança, de repentino lufar de gélido suspiro de dor, de dolorosas lantejoulas flamejantes brilhando sinistras nos pingos lacrimejantes que caíam dos teus olhos e salpicavam o chão seco e empoeirado. Oh, quem dera, quem dera! Quem dera, sim, tivesse sido de outra maneira mais sublime esse nosso encontro desesperado, em que passasse por nós um rio de ternura e nos molhasse todo com seu ar celestial, gorjeassem pássaros felizes sobrevoando nossas cabeças, cantarolassem melodiosos os anjos em festa ao nosso derredor, dançassem as pessoas transbordando e distribuindo felicidade como se fora o primeiro dia de inesgotável paraíso se abrindo aos nossos corações.
Todavia não foi assim, não houve fascinação, não se viram gargalhadas de alegria, ninguém beijou ninguém, afagos não foram feitos, carinhos caíram por terra ressequidos pela falta de desejo, risos se transformaram em choro alucinante, afloraram temores e tremores, corpos não se fundiram na intensidade do gozo, mãos não se pegaram afáveis, não foram trocados cumprimentos afetuosos, a simpatia fugiu dos olhares e se transformou em pesar, em esgar, em incertezas, em loucos vislumbres de ódio destilado sem qualquer razão plausível. E todo mundo chorava, sorrindo um sorriso sórdido, se lamentava mesmo sem haver sentido para isso, corria sem saber aonde ia, abria os braços em cruz e gritava "engula-me solidão!", jogava-se ao chão e rastejava feito serpente famélica ansiando por uma vítima cujo coração estivesse latejando, assustado por causa dela.
Preferi não adentrar o céu da tua boca com um translúcido beijo de língua, não chegar nem perto de ti para não ser contaminado com o lúgubre estampado no teu rosto, afastar-me em desabalada carreira, chorar meu próprio lamento, subir nos telhados úmidos, tentar voar para ficar bem longe de ti. Pois eu também estava mergulhado num turbilhão de melancolia, num oceano de inimagináveis tristezas. Um Norte adequado anelava meu espírito. Por essas razões e em virtude da força da amargura, achei por bem não abrir as portas do meu coração ao apelo de tua lúgubre ansiedade, de teus loucos apelos. Fugi, ou ao menos tentei. E chorei, sim chorei muito, em demasia, como deveras clamam as crianças. Quiçá pelo desespero sobremodo intenso, ou minha incapacidade de sorrir. Sem forças, abatido, desejando o que não me seria justo querer. Minhas lágrimas regaram o travesseiro, a fronha e a cama. Eu me encontrava sozinho em minha angústia, que não se pode unir à tua.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
Tua ias sem rumo à procura de quê? Do talvez, decerto, dos senões imiscuídos nas entranhas do porvir, do mutismo angustiante, de algo que provavelmente nem sabias o que fosse, e te perdias nos próprios passos trôpegos, parecias flutuar como se levada somente pelo pensamento solitário perdido no coração do teu cérebro eunuco. Choravas e sorrias ao mesmo tempo, cantavas até, e eram músicas mórbidas como chuva de granizo destruindo telhados e arrancando árvores, como fogueiras chamuscando o ar aparvalhado e devastando o oxigênio vital, como gangurus enlouquecidos saltando sobre brasas ardentes, como crianças inocentes gritando o clamor dos famintos por seios túrgidos, por carinhos inexistentes, por abraços que jamais seriam dados. Abraços que, certamente, nunca recebeste. Nem deste.
Quisera não ter sido assim o nosso encontro, tão imerso nesse amargurante poço sem fundo de incertezas, de inesperada falta de esperança, de repentino lufar de gélido suspiro de dor, de dolorosas lantejoulas flamejantes brilhando sinistras nos pingos lacrimejantes que caíam dos teus olhos e salpicavam o chão seco e empoeirado. Oh, quem dera, quem dera! Quem dera, sim, tivesse sido de outra maneira mais sublime esse nosso encontro desesperado, em que passasse por nós um rio de ternura e nos molhasse todo com seu ar celestial, gorjeassem pássaros felizes sobrevoando nossas cabeças, cantarolassem melodiosos os anjos em festa ao nosso derredor, dançassem as pessoas transbordando e distribuindo felicidade como se fora o primeiro dia de inesgotável paraíso se abrindo aos nossos corações.
Todavia não foi assim, não houve fascinação, não se viram gargalhadas de alegria, ninguém beijou ninguém, afagos não foram feitos, carinhos caíram por terra ressequidos pela falta de desejo, risos se transformaram em choro alucinante, afloraram temores e tremores, corpos não se fundiram na intensidade do gozo, mãos não se pegaram afáveis, não foram trocados cumprimentos afetuosos, a simpatia fugiu dos olhares e se transformou em pesar, em esgar, em incertezas, em loucos vislumbres de ódio destilado sem qualquer razão plausível. E todo mundo chorava, sorrindo um sorriso sórdido, se lamentava mesmo sem haver sentido para isso, corria sem saber aonde ia, abria os braços em cruz e gritava "engula-me solidão!", jogava-se ao chão e rastejava feito serpente famélica ansiando por uma vítima cujo coração estivesse latejando, assustado por causa dela.
Preferi não adentrar o céu da tua boca com um translúcido beijo de língua, não chegar nem perto de ti para não ser contaminado com o lúgubre estampado no teu rosto, afastar-me em desabalada carreira, chorar meu próprio lamento, subir nos telhados úmidos, tentar voar para ficar bem longe de ti. Pois eu também estava mergulhado num turbilhão de melancolia, num oceano de inimagináveis tristezas. Um Norte adequado anelava meu espírito. Por essas razões e em virtude da força da amargura, achei por bem não abrir as portas do meu coração ao apelo de tua lúgubre ansiedade, de teus loucos apelos. Fugi, ou ao menos tentei. E chorei, sim chorei muito, em demasia, como deveras clamam as crianças. Quiçá pelo desespero sobremodo intenso, ou minha incapacidade de sorrir. Sem forças, abatido, desejando o que não me seria justo querer. Minhas lágrimas regaram o travesseiro, a fronha e a cama. Eu me encontrava sozinho em minha angústia, que não se pode unir à tua.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
MARCHANDO SOB A NEVE
Amanhecemos em Estocolmo, capital da Suécia, e vimos a noite continuar soberana com sua escuridão escondendo o sol e as nuvens jogando bilhões de flocos de neve sobre a cidade e seus habitantes, que despertavam para recomeçar as atividades cotidianas. Nós não queríamos perder a menor fração de tempo enquanto estivéssemos lá, por isso urgia conhecer depressa o que de mais lindo e turístico essa bela megalópolis poderia oferecer aos visitantes sequiosos de novas imagens e novas belezas. E nem bem a claridade do novo dia finalmente conseguiu derrotar a penumbra noturna, após tomarmos o desjejum às carreiras, nos apropriamos das indumentárias necessárias e saímos a conhecer tudo que o tempo permitisse e fosse possível da cidade, passeando sob os petardos inclementes e intermitentes dos flocos de neve, os ataques furiosos do trânsito, as investidas das bicicletas por sobre o chão escorregadio pela transformação da neve em gelo, as pessoas já apressadas em busca de seus empregos e de suas atividades que recomeçavam.
Atravessamos cuidadosamente as ruas molhadas e geladas onde o manto de neve enregelante formava um lamaçal escorregadio, cruzamos algumas pontes sob um frio intenso e cortante batendo no rosto, aqui e ali quase escorregávamos, e a neve aumentava de intensidade a cada momento que se seguiam os ponteiros dos relógios. Embora soubéssemos para onde queríamos ir, não conhecíamos o caminho, claro, então perguntei em inglês ao motorista de um enorme caminhão em plena atividade no meio de uma rua onde ficava o palácio real. Eu já sabia de antemão que praticamente todos os suecos falam inglês como pude comprovar ao longo desses dias de minha estada na Suécia. Ele, gentil e pressuroso, imediatamente indicou-me como chegar ao local por nós pretendido. Agradeci e lá fomos nós brigando com os farelos de gelo ousados que também atingiam nossos olhos, desciam pelo rosto e nos ensopavam nossa roupa, malgrado estarmos usando gorro, casaco, sobretudo, luvas e incontáveis camisas térmicas para nos proteger de nossa primeira chuva de neve.
Nós fomos mais que atrevidos adentrando ruelas estreitas, mas tão estreitas que abrindo os braços eu tocava ambos os lados com as pontas dos dedos, e eram ruas feito ladeiras, íngremes, molhadas, na iminência de nos levar ao chão porque escorregávamos em suas pedras lisas. Em pouco, assoberbado pela confiança demasiada, já não sabíamos onde estávamos, perdéramos nossa localização. A neve persistia caindo intensa, e nem por isso pais e mães deixavam de passear com os filhos recém-nascidos por essas ruas minimalistas, imagine só, como se tomassem o banho de neve de todos os dias como no Nordeste brasileiro nossas crianças tomam banho de sol diariamente. A uma dessas mães foi necessário perguntar a direção exata para chegarmos ao palácio real, alvo de nossa jornada. Gentilmente como tem ocorrido desde que chegamos à Suécia, ela nos explicou o caminho certo e, depois de agradecer tal amabilidade, saímos à procura do famoso paço que é ponto de encontro dos turistas do mundo inteiro.
Uma cena inesperada que nos deixou atônitos nos aguardava defronte ao palácio real. Havia um único guarda solitário guardando os portões de entrada do palácio. Hígido, em posição de sentido, calado, debaixo daquela enxurrada de neve sobre sua cabeça e todo o corpo, armado com um fuzil, olhava para frente como e nada visse. Aproximei-me dele e, através de gestos e frses em inglês, indaguei se podia me aproximar a fim de tirar uma foto, e ele respondeu que eu só poderia chegar até ao limite da linha demarcatória que separava o palácio da larga rua onde está situado o portentoso edifício. Minha esposa fotografou-nos duas vezes, agradeci, e ele perguntou-me de que país éramos. Quando disse, ele sorriu e afirmou "Brasil is ver hot!", fazendo-me sorrir e responder "Yes, while here it's so cold!"
Então algo impressionante aconteceu quando nos afastamos dele procurando ontros locais de interesse para conhecer e fotografar: sem mais nem menos, muito mais que de repente, o mencionado guarda do palácio começou a marchar sozinho para lá e para cá todo garboso, apesar da inclemência da nevasca castigando-o. Interessante, ele ia na direção esquerda, marchando com firmeza e imponência, lá na frente parava, apresentava armas, dava meia volta e refazia a marcha na direção contrária, lento, firme, cabeça erguida, fuzil ao ombro, indo até determinado ponto, novamente parando de forma estrtrégica, apresentando armas a alguma autoridade invisível e, logo e de novo, fazendo o retorno em marcha constante e lenta. Permaneceu nessa atividade o tempo todo em que nos dirigíamos a outro local nas proximidades, e certamente ficou marchando a manhã toda por razões inexplicáveis à minha perplexa alma.
Por um desses felizes acasos da vida vi-me bem em frente ao Museu Nobel, homenagem ao idealizador do prêmio Nobel anual que premia escritores, cientistas, pesquisadores, homens e mulheres dedicados à semeadura da paz. Ali, ao lado da foto de Alfred Nobel, todo sorridente, fui fotografado por minha esposa já não me importando com o vento gelado beijando meu rosto nem com os implacáveis flocos de neve enchendo minha roupa de gelo que se acumulava e formava em mim o aspecto dos esquimós habituados às agruras das temperaturas mortais.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
g
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
BEIJOS DE LÍNGUA
À espera pela chegada do trem que nos levaria de Estocolmo para Malmo, sob um frio de gelar a própria alma, ficávamos a observar as figuras humanas e seus trejeitos especiais, a maneira como sorriam, as malas que carregavam, o ar de silêncio presente em muitos, os animais que consigo levavam, pois existe um vagão especial para donos de animais de estimação e seus bichinhos se acomodarem. Um casal jovem e elegante, ela muito bem vestida com seu casaco charmoso, ele usando desenvolto sobretudo e levando nos braços, num aconchego carinhosamente especial, o seu cãozinho, prendeu-me a atenção pela maneira extremamente maternal com que cuidavam deste. Os olhares de ambos, pejados de amor, não desgrudavam do amado pet, a mulher afagando-o a todo instante, pressurosa, atenciosa, gentil, mãezona, e o safadinho do bem cuidado animal, sabendo-se alfa e rei da casa e manda-chuva do casal, quase chegava a ronronar de tão dengoso.
Só fui vê-los novamente já no interior do trem, no assento bem ao lado do nosso, pois sem perceber eu e minha esposa nos instalamos justamente no local destinado a pessoas com seus estimados bichinhos.
Havia à nossa frente um senhor enorme, alto e rechonchudo, é bem verdade, retirando dum saco algo semelhante ao espetinho brasileiro, o qual ele vorazmente devorou, porém minha toda atenção se fixou mesmo foi no casal e seu filhinho, isto é, seu cãozinho. É que em determinado momento da viagem o acompanhante da mulher entregou-lhe o animal e ela o aconchegou em seu imaculado colo, mimo especial provavelmente dedicado só para ele. Não demorou muito e o cachorrinho começou lânguidamente a lamber o rosto e, como se dono do galinheiro fosse, os lábios dela. Carinhosa e amorosamente. A mulher só faltava subir as paredes de tão feliz, e em determinado intervalo das lambidas ela abriu a boca e puxou a língua dele, beijando-o com beijos novelescos, cinematográficos, depois passou também a lamber o focinho ele, os dentes, os olhos, o pescoço... temi que descesse além do limite suportável, mas graças a Deus parou somente nas imediações.
Sério, achei aquilo bastante exagerado, uma desfaçatez, falta de higiene, asqueroso até, principalmente a coisa me impressionou ainda mais porque o namorado ou marido dela via tudo aquilo sorrindo satisfeito, em verdadeiro êxtase. Por fim, quando a mulher cansou ou talvez estivesse na mais serena paz do nirvana em seu apogeu, entregou o filhinho, digo, o cãozinho a ele e vi, horrorizado, o cara repetir a mesma cena protagonizada por ela. Beijou beijo de língua, abraçou-se ao animal, embalou-o, mimou-o e o encheu de dengos, agora sendo observado atentamente pela mulher em estado de expressa felicidade. Quando se sentiu completo, embrulhou o bichinho em seu próprio corpo e o fez dormir.
Fiquei com torcicolo de tanto assistir à cena, e perplexo, abobalhado, sem entender a razão daquela repentina explosão de amor. Somente o cãozinho percebeu minha indiscrição, contudo ele olhava para mim como se zombasse de meu interesse, talvez a imaginar que eu estivesse com inveja dele e quisesse estar em seu lugar, sabe lá o que esses bichos pensam! Minha esposa também viu tudo, atônita, surpreendida, não conseguindo entender tudo aquilo. Uma mulher sentada na cadeira em frente às deles fingiu dormir, creio, para não ser partícipe testemunhal da inesperada cena de filme. E, mesmo observada com especial atenção pelo bichinho de estimação do casal, minha esposa ousou discretamente tentar fotografar o cachorro e o viu abrir desmesurado os olhos, como a ameaçá-la com um súbito exibir dos enormes dentes. Pensou melhor, guardou a máquina fotográfica e fez de contas que não estava vendo nada.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
NEVE SOBRE OS TELHADOS
Despertei por encanto do silêncio profundo reinando no apartamento, à guisa de minha alma ouvir o som de si mesma e fazer-me abrir suas janelas em plena madrugada vazia de ruídos. Olhei displicente para a janela, de onde resplandecia uma claridade inesperada, quase um banho indiscreto de luz sobre o quarto, a seguir vislumbrei minha amada aconchegada sob nosso edredon aquecido. Ela dormia serenamente linda ao meu lado, o rosto angelical repousando tranquilo sobre o travesseiro macio, seus lábios bem desenhados convidando-me a beijos de amor. E eu aceitei o doce convite, beijando-a suavemente com um frêmito de prazer. Ela sorriu de maneira fascinante como se naquele precioso instante estivesse sonhando comigo a beijá-la e se remexeu graciosa em suas curvas sublimes.
Levantei-me sem fazer barulho e fui à janela olhar a madrugada, então, surpreso, vi a neve caindo em leves flocos que mais lembravam pedacinhos de papel caindo do céu, como se os anjos brincassem de jogar confete sobre a terra ou, sapecas, estivessem a fazer bolinhas de sabão com as nuvens cheias de espuma. Sorri embevecido, sentindo um frêmito de súbita alegria perpassar-me o rosto, feliz por estar ali assistindo ao belo espetáculo proporcionado pelas poderosas mãos de Deus. O chão se mostrava atapetado de branco, talvez com uma camada de neve próximo dos cinco centímetros, as árvores desfolhadas pelo outono prestes a terminar, as plantas, os telhados, os postes, os carros estacionados, tudo estava coberto pela brancura da neve. Dava para perceber que os carros eram realmente carros somente por seu formato de carro, embora deles não se visse nada além do alvo e grosso manto cobrindo-os inteiramente.
Notei alguns corvos encarapitados nos galhos nus de folhas, porém vestidos de neve, ao lado de outros pássaros para mim desconhecidos sem se mexer, parecendo criaturas mortas e contudo vivas, inertes e ainda assim latentes, pontos perdidos e desencontrados sob o gelo flutuando no espaço e descendo sobre seus corpinhos desagasalhados na proximidade do novo amanhecer. Quase todos os seres vivos dormitavam naquela hora, apenas a natureza e eu nos comunicávamos solenes, ela lá com sua força extraordinária cobrindo tudo com o ar gélido de sua respiração transformada em resquícios de gelo dançando no ar, eu cá atrás da vidraça hermeticamente fechada da janela, protegido do frio causticante através do efeito calefação distribuído por todo o apartamento, o gigante contra o grão de areia, a imensidão do céu contra o amedrontado serzinho escondido atrás da proteção artificial duma construção especialmente preparada para enfrentar e vencer essa diversidade anual tão comum aqui na Suécia.
Deitei meus olhos por sobre a distância das ruas desertas de vida adiante e deixei-me ficar a refletir a respeito da filosofia humana louca e sem desígnios, frágil e inútil, melancólica e desprovida de sentido, pequena e ambiciosa, atrevida como o são todos os que se julgam sábios quando não passam de aprendizes e ignorantes soberbos carentes de sabedoria. A neve lá fora gelada e torturante, eu atrás da janela do apartamento, pelo lado de dentro, aquecido e calmo, ciente de sua força mas zombando dela por me ver na fortaleza de cartas de papelão. A madrugada via-nos na constância de sua infinitude, entregue ao mutismo que lhe é peculiar, nem sendo contra nem a favor, todavia expressando torpe indiferença porque eu nesse cenário não era mais do que um simples risco a mercê do tempo, essa borracha capaz de apagar-me num mero piscar de olhos.
A neve continuou a despencar sobre Malmo, na Suécia, e seus telhados, árvores, carros, chão e bicicletas, eu porém, após gravar essa imagem inesquecível do brasileiro que vê pela primeira vez a neve caindo como se fosse chuva no seu país tropical, retornei ao leito, enfiei-me sob as cobertas, abracei minha amada e procurei dormir novamente à medida que o novo dia, embora escuro pelo inverno europeu, começava a se deixar ver nas horas lentamente passando.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
domingo, 20 de janeiro de 2013
CRÔNICAS DA EUROPA 2
Começaram hoje os festejos natalinos em Malmo. Fomos ver as feirinhas espalhadas numa das praças da cidade. Anoiteceu muito cedo, então quando saímos já as luzes dos postes estavam acesas iluminando a escuridão prematura. Uma multidão se arrastava para lá e para cá em meio às barracas onde se vendia de quase tudo, desde cachorro-quente (hot dog) com salsicha, chocolate quente e gelado, flores, enfeites de Natal, roupas, bijuterias, artesanato, até comida chinesa, café com leite e dezenas de outros itens que fazem a festa gastronômica dos suecos. As lojas, cafeterias, bares e outros estabelecimentos comerciais também se achavam de portas abertas ao público. Um fato interessante chamou minha atenção, como das outras vezes em que vimos a esse lugar a passeio: aqui e ali, em vários lugares e pontos estratégicos havia fogo e velas acesas para esquentar os transeuntes, visto que o frio congelava o ar.
Foi quando, de repente, ouvimos uma gritaria oriunda de grande multidão vindo em nossa direção. Eu imaginei, na hora, que se tratasse de alguns grupos entoando canções ou apresentando desfile de alguma espécie de folclore natalino. Nada disso, tratava-se de manifestação dos palestinos locais contra Israel, onde havia crianças, mulheres e homens novos e velhos, todos gritando contra Israel. Um carro da polícia ia à frente, outro, atrás. Muita gente fotografava e filmava o movimento, eu e Ana também fizemos isso enquanto a turma da gritaria se esgoelava furiosa no seu protesto.
Depois que os manifestantes se foram desaparecendo em alguma esquina adiante, tudo voltou ao normal, as pessoas retomaram seu passeio pelas ruas e o sorriso retornou aos lábios dos que conversavam. Um casal de jovens, ambos com uma placa nas costas em sueco, claro, distribuía mapa de Malmo aos turistas, já um senhor solitário tocava violão e cantava músicas estranhas aos meus ouvidos, o chapéu de boca aberta para cima esperando donativos de quem apreciasse sua arte. Estranhei muito esse tipo de acontecimento na Suécia, porém ainda mais chocado fiquei quando enxerguei um pobre-coitado sueco apoiado numa bengala e pedindo esmola. Fotografei-o sem querer acreditar que isso fosse realmente verdade, jamais imaginei encontrar mendigos num país tão desenvolvido, riquíssimo e de primeiro mundo como esse onde estamos. Recordo agora que antes de ontem eu já tinha visto outro mendigo sentado no batente duma loja segurando uma placa com frase em sueco, certamente também esmolando, pois seu chapéu igualmente se encontrava aberto no chão à espera de ajuda. Dupla perplexidade para mim. Vejo agora que a perfeição não existe onde há seres humanos, há sempre falhas em seus gestos e atitudes. Olhei para uma rica cafeteria, onde os preços são estratosféricos e me senti envergonhado, porque apesar de serem caros seus preços ela estava cheia, os usuários comendo à farta bem em frente ao mendigo que esmolava.
A temperatura caiu ainda mais e a sensação térmica causava desconforto quando resolvemos voltar para o apartamento. Como não chovia e não era muito longe, fomos a pé apreciando a paisagem noturna pelo caminho.
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