Gilbamar - poesias e crônicas
quarta-feira, 9 de maio de 2012
DIA DAS MÃES - Não é fácil ser mãe
Ser mãe, sem dúvida, é dor e gozo de mãos dadas na estrada da vida, é ansiedade que perdura por toda existência, é temor que atormenta e alívio que se renova, é ter noites de sonhos e pesadelos que se prolongam sem hora para terminar, é a um só tempo a mistura inesperada de sorrisos e lágrimas, é força e fraqueza na indecisão e no instante, é ninar feliz pensando no futuro, mas também é chorar lembrando o inferno atual em que o mundo se encontra e no qual seu filho ou filha estará, sozinho enfrentando os demônios.
Ninguém queira estar na pele de uma mãe, primeiro porque esperou durante nove meses a chegada do seu filho, enjoando, vomitando, engordando e vendo seu corpo se transformar impetuosamente com a geração da vida em seu ventre; segundo, em virtude das inomináveis dores do parto, que homem nenhum conseguiria suportar; terceiro, porque a frágil criatura a quem ela deu a luz vai depender dos cuidados maternos por muitos anos, e isso, se analisarmos bem, não é nada fácil. Imaginem, acordar duas, três vezes durante a madrugada para dar de mamar, trocar fraldas inúmeras vezes ao dia, descobrir a causa dos choros da criança, cuidar, cuidar e cuidar vezes sem fim.
A mãe é vivente tão sublime, que faz do cansaço uma virtude do amor devotado ao filho. Além de tudo e muito mais, a mãe é capaz de permanecer horas diante do berço onde seu bebê dorme pensando, refletindo, analisando, sonhando, desejando um futuro brilhante para ele. Faz planos os mais inusitados,forma-o em medicina ou em física nuclear em dois ternos devaneios, casa-o com a moça mais linda do mundo e emprega-o na empresa multinacional ganhando salário de marajá. Enquanto ele serena tranquilo sob o mosquiteiro, a mãe suspira sorridente imaginando o quanto ele será feliz, rico e bem sucedido, casado e bem casado, com dois filhos no máximo e sendo feliz para sempre.
Qualquer mãe que assume realmente o seu papel com determinação é guerreira, é quixotesca, é rainha preparando seu príncipe para reinar e dominar, lutar e vencer, querer e conquistar, é espada de fogo defendendo sua cria, é voz solitária no deserto causticante a gritar poderosa, é mulher montada num alazão ou dirigindo um carrão para ir buscar o médico onde quer que ele esteja, ou para levar o mais urgente possível o filho ao primeiro pronto-socorro com que se deparar com vistas a curá-lo da dor do dente que nasce.
Pensa que é fácil ser mãe? Realmente não é mesmo. Um pai jamais saberá trilhar esse sentimento tão próprio da maternidade, nunca logrará amar com tamanha intensidade materna. Pois a mãe transporta em si mesma a vida em formação, nutre-a vinte e quatro ininterruptamente, faz as necessidades fisiológicas por ele através desse mistério maravilhoso que só Deus tem o poder de fazer, vive por e para ela. Complexo e difícil, não?
Portanto, compreenda os arroubos súbitos de uma mãe, entenda quando ela, ainda grávida, tece sapatinhos de lã cantando, aceite as garras que ela expõe caso alguém ameace seu filho de alguma maneira, nem que seja de brincadeira, e conclua sabiamente que, é verdade mesmo, não é fácil ser mãe.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O AMOR QUE EU VI
Eu vi o amor de uma forma como jamais antes vira! Presenciei-o se manifestando como outrora jamais compreendesse existir. E o vi em altas doses, em robustas ondas tsunâmicas altas como os mais estupendos edifícios. Eu assisti a esse sentimento de êxtase e fulgor que desafia o inesperado e se desloca no ar com o poder de um milhão de megatons fluindo deveras maravilhoso, empolgante, lírico, magnífico, sublime. E vendo-o em incomensurável tamanho, numa amplitude astronômica, mais que encantei-me, como que flutuei, minha alma entrou em orgasmo, meu coração quase explodiu de tanto gozo.
Sim, de fato meus olhos puderam vislumbrar não o simples brotar de algo comum, porque incomum é o amor, embora repentino, mas o continuar dum relampejar que já nascera oriundo do infinito e se enraizara, naquele instante se mostrando a mim da forma mais singela e próxima do divino. Mas estava ali em realidade, bem à minha frente, meu ser completamente atônito pelo misto de complexidade e simplicidade derivando dos gestos, dos sorrisos, do sussurrar de palavras só compreensíveis pelo alvo desse amor tão grandioso.
Eu vi o amor e, sorrindo, chorei, chorando, sorri, pois já não dava conta de mim mesmo nem de minhas atitudes nesse momento de glória, quis subir paredes, desejei ter asas para sobrevoar o céu de minha cidade, andei de um lado para o outro procurando dar vazão ao mar de emoção que jogava vagalhões em meu íntimo e sacolejava-me o corpo como se eu estivesse num turbilhão inexplicável, quiçá rodopiasse num redemoinho e me deixasse levar pela magnitude de sua extraordinária força.
Tamanho amor que me foi dado apreciar e dele usufruir esboçava-se no esmero e nos cuidados de uma jovem e seu denodo para com a criança hidrocefálica cuja boca não fechava, sem controle nos movimentos de sua frágil cabecinha, que não olhava porque não enxergava, não batia palmas em virtude de faltarem dedos na mão esquerda e não vivia por não saber-se vivo, não chorava em razão de desconhecer a emoção, e se deixava ficar inerte numa cadeira esperando o vazio, o nada, o desconhecido, as sombras da escuridão.
A jovem não desgrudava a atenção especial dele, beijava-o vezes seguida no rosto, nas mãos, inclusive naquela sem dedos, nos cabelos revoltos pelo vento fraco que com eles brincavam, nos olhinhos mortos, nas faces rosadas, na barriga envolta numa suéter. Beijava e falava com ele pronunciando carinhosas palavrinhas de dengo, nele despertando a chama da vivacidade, do bem-querer, desse misterioso prazer que as pessoas em desespero parecem sentir quando a mão amiga, a voz doce ou o carinho lhes perpassam o corpo e os tímpanos e alcançam seus delicados e mortiços corações.
´"E seu filho?", eu perguntei. A jovem olhou-me surpresa como se tivesse escutado uma grande barbaridade, mas respondeu toda sorrisos: "Não, não sou a mãe dele!" Surpreso, eu repliquei em êxtase: "Você o trata como se fosse a mãe dele!" E ela me provocou a maior das emoções ao responder com a simplicidade dos anjos: "Eu só cuido dele! A mãe não quer saber dele, inclusive quando ele ainda estava no ventre ela tentou abortá-lo três vezes tomando remédios. Mas ele foi muito forte, lutou contra as armas que tentavam matá-lo e conseguiu, ganhou a batalha, sobreviveu...assim...doentinho...precisando de atenção e cuidados." Sem minha autorização, de súbito, um soluço gritou-me garganta afora obrigando-me a recostar-me numa parede qualquer para deixar-me chorar.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
Sim, de fato meus olhos puderam vislumbrar não o simples brotar de algo comum, porque incomum é o amor, embora repentino, mas o continuar dum relampejar que já nascera oriundo do infinito e se enraizara, naquele instante se mostrando a mim da forma mais singela e próxima do divino. Mas estava ali em realidade, bem à minha frente, meu ser completamente atônito pelo misto de complexidade e simplicidade derivando dos gestos, dos sorrisos, do sussurrar de palavras só compreensíveis pelo alvo desse amor tão grandioso.
Eu vi o amor e, sorrindo, chorei, chorando, sorri, pois já não dava conta de mim mesmo nem de minhas atitudes nesse momento de glória, quis subir paredes, desejei ter asas para sobrevoar o céu de minha cidade, andei de um lado para o outro procurando dar vazão ao mar de emoção que jogava vagalhões em meu íntimo e sacolejava-me o corpo como se eu estivesse num turbilhão inexplicável, quiçá rodopiasse num redemoinho e me deixasse levar pela magnitude de sua extraordinária força.
Tamanho amor que me foi dado apreciar e dele usufruir esboçava-se no esmero e nos cuidados de uma jovem e seu denodo para com a criança hidrocefálica cuja boca não fechava, sem controle nos movimentos de sua frágil cabecinha, que não olhava porque não enxergava, não batia palmas em virtude de faltarem dedos na mão esquerda e não vivia por não saber-se vivo, não chorava em razão de desconhecer a emoção, e se deixava ficar inerte numa cadeira esperando o vazio, o nada, o desconhecido, as sombras da escuridão.
A jovem não desgrudava a atenção especial dele, beijava-o vezes seguida no rosto, nas mãos, inclusive naquela sem dedos, nos cabelos revoltos pelo vento fraco que com eles brincavam, nos olhinhos mortos, nas faces rosadas, na barriga envolta numa suéter. Beijava e falava com ele pronunciando carinhosas palavrinhas de dengo, nele despertando a chama da vivacidade, do bem-querer, desse misterioso prazer que as pessoas em desespero parecem sentir quando a mão amiga, a voz doce ou o carinho lhes perpassam o corpo e os tímpanos e alcançam seus delicados e mortiços corações.
´"E seu filho?", eu perguntei. A jovem olhou-me surpresa como se tivesse escutado uma grande barbaridade, mas respondeu toda sorrisos: "Não, não sou a mãe dele!" Surpreso, eu repliquei em êxtase: "Você o trata como se fosse a mãe dele!" E ela me provocou a maior das emoções ao responder com a simplicidade dos anjos: "Eu só cuido dele! A mãe não quer saber dele, inclusive quando ele ainda estava no ventre ela tentou abortá-lo três vezes tomando remédios. Mas ele foi muito forte, lutou contra as armas que tentavam matá-lo e conseguiu, ganhou a batalha, sobreviveu...assim...doentinho...precisando de atenção e cuidados." Sem minha autorização, de súbito, um soluço gritou-me garganta afora obrigando-me a recostar-me numa parede qualquer para deixar-me chorar.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
quinta-feira, 8 de março de 2012
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Qual flores dum lindo jardim, ou anjos descidos do céu, talvez fadas vindas do sol, ou santas cobertas com véu, vocês mulheres queridas são guerreiras destemidas cumprindo seu lindo papel. Neste mundo conturbado onde a maldade impera, basta que vocês sorriam com sua alma sincera para tudo ficar melhor, homem algum ficará só, no seu ventre o amor gera. Mulheres dão cores à vida, são egressas do paraíso, presentes do Deus bendito, espalham o belo sorriso onde quer que se encontrem, hoje, amanhã ou ontem, nos fazem perder o juízo. São êxtase, são bem-querer, oceanos de carinho, luz forte na escuridão, o doce pedaço do ninho, feitas de uma costela viraram a rima mais bela, ninguém mais fica sozinho.
Vocês trouxeram beleza, inventaram a elegância, botaram charme no mundo com toda exuberância, porém a garra do seu saber
construiu um novo viver bem além da aparência. Nós dependemos de vocês, do poder que se espalha, do amor que já transborda,
do sorriso que embala, da afeição inerente, esse seu olhar ardente, do fascínio que não falha. Eu queria ser ourives, mas sou apenas poeta, não lapido diamantes, versejo sem linha reta, quem dera tratar com ouro, se juntasse um tesouro eu lhes daria na certa.
No entanto, coitado de mim, não tenho tostões furados, nada mesmo para lhes dar, só olhos esbugalhados de grande admiração, mas afirmo de coração são olhos apaixonados. Porque mulheres fascinam na política, cultura, na ciência, no proceder, no caráter, na ternura, com seus cuidados maternos, com seus trejeitos modernos, por elas faço loucuras.
Não é só hoje o dia delas, são delas todos os dias, oito de março é só data, lindas, doces iguarias, mas isso no bom sentido, meu respeito é garantido. Parabéns belas Marias! Nos rabiscos desta prosa-poética, tão pobre na composição, quisera homenagear vocês todas de coração, mas sendo eu pequenino, vate ainda menino, pobre de mim, tem como não!
Contudo sou atrevido, no pingo d'água eu dou nó, das tripas faço coração, melaço flui do meu gogó, juntando estrelas do céu
dou parabéns nessa mensagem às mulheres num verso só. É muito pouco, reconheço, vocês merecem galardões, as melhores recompensas, a admiração dos varões, todos tesouros do mundo, um mar de rosas profundo, só as mais lindas emoções.
Todas vocês reverencio, para as mulheres tiro o chapéu, concedo-lhes todas honras, mas se pudesse daria o céu, porém só faço poesia, recebam com alegria o favo de flores com minhas palavras de mel!
Gilbamar de Oliveira Bezerra
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Que ninguém sofra em meu lugar
nem em lugar de ninguém mais,
desejo muito é que todos
vivamos nesse oceano
de imensa da felicidade,
juntos nos embebedando
desse oásis maravilhoso
que é ser feliz.
Hoje não, por favor, chega
de andar curvado
sob o peso da tristeza!
Esse fardo não carrego mais,
só quero saber de alegria
e lacrimejar sorrisos,
vários e lindos sorrisos.
Vim espalhar poesia
como quem espalha
as sementes do amor
nos corações.
A partir de agora,
chorar somente de alegria!
Gilbamar de Oliveira Bezerra
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A VIDA É UM SHOW DE ROCK
Hoje quero balbuciar abraços, sussurrar beijos, assobiar poesias, tartamudear minhas mais salientes emoções, fingir que sou feliz, cantar baixinho para mim mesmo as músicas mais românticas, dizer de meus desejos loucos que não podem ser expressos senão em ocasiões inoportunas. Tenho necessidade, hoje, de rasgar minhas mágoas, espantar para bem longe a melancolia, derramar rios de lágrimas, falar à toa coisas sem qualquer sentido, jogar pedras na lua, apagar o sol ao entardecer quando ele estiver se pondo e desenhar estrelas a noite inteira. Anseio riscar o céu e deixá-lo cinzento de nuvens carregados com chuva tempestuosas de desabafos amorosos, escarnecer dos orgulhosos, pintar o maior sete do mundo nos horizontes mais serenos.
Vou atabalhoadamente desenhar sorrisos nos rostos sisudos para que suavizem, distribuir doçura por todas as esquinas tristes, compartilhar meus melhores bemquereres, desiludir a tristeza e imediatamente jogá-la no caudaloso rio da amargura, vê-la desaparecendo nas profundezas do esquecimento me fará enorme bem, decidadamente. Que passem longe de mim os insensíveis e se fundam em estátuas silenciosas, para mim as ruas devem estar cheias de indivíduos transtornados de tanta alegria, de desvairados pelas transformações mágicas dos risos esplendorosos. Abracem-me quantos não me conhecem, demos ao mundo soturno o exemplo de deslumbrante solidariedade repentina, vamos todos sorrir juntos, em uníssono, a vida não pode nunca, jamais, passar em branco, não haverá de findar sem um último êxtase.
Abramos as janelas de nossas almas acabrunhadas e brinquemos de esconde-esconde com a felicidade, joguemos futebol de poeira ao lado da fraternidade deixando-a fazer todos os gols, milhões deles, para intensamente garantir a vitória da vida, esse estonteante momento que tanto pode ser um baile de amor quanto uma ardorosa festa de rock. Fora com as saudades que só deixam mágoas, longe de nós as inúmeras lembranças tristes capazes de apagar nossos sorrisos. Nosso quinhão de alegria está ali, bem ali nas praças engalanadas pelos gemidos dos enamorados ao cair da noite, nas nuvens formando desenhos que embelezam o firmamento, nas folhas farfalhando barulhentas nas copas das árvores frutíferas, nos jardins beijados por beija-flores, na chuva caindo de mansinho e engravidando a terra.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
Vou atabalhoadamente desenhar sorrisos nos rostos sisudos para que suavizem, distribuir doçura por todas as esquinas tristes, compartilhar meus melhores bemquereres, desiludir a tristeza e imediatamente jogá-la no caudaloso rio da amargura, vê-la desaparecendo nas profundezas do esquecimento me fará enorme bem, decidadamente. Que passem longe de mim os insensíveis e se fundam em estátuas silenciosas, para mim as ruas devem estar cheias de indivíduos transtornados de tanta alegria, de desvairados pelas transformações mágicas dos risos esplendorosos. Abracem-me quantos não me conhecem, demos ao mundo soturno o exemplo de deslumbrante solidariedade repentina, vamos todos sorrir juntos, em uníssono, a vida não pode nunca, jamais, passar em branco, não haverá de findar sem um último êxtase.
Abramos as janelas de nossas almas acabrunhadas e brinquemos de esconde-esconde com a felicidade, joguemos futebol de poeira ao lado da fraternidade deixando-a fazer todos os gols, milhões deles, para intensamente garantir a vitória da vida, esse estonteante momento que tanto pode ser um baile de amor quanto uma ardorosa festa de rock. Fora com as saudades que só deixam mágoas, longe de nós as inúmeras lembranças tristes capazes de apagar nossos sorrisos. Nosso quinhão de alegria está ali, bem ali nas praças engalanadas pelos gemidos dos enamorados ao cair da noite, nas nuvens formando desenhos que embelezam o firmamento, nas folhas farfalhando barulhentas nas copas das árvores frutíferas, nos jardins beijados por beija-flores, na chuva caindo de mansinho e engravidando a terra.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
SABEDORIA
A sabedoria não escolhe a cor da pele, nem pobreza nem riqueza e nem a região onde alguém nasceu para iluminar seu cérebro e torná-lo sábio. Ela não é idiota como o são todos os preconceituosos. De mansinho como lhe convém, desponta quase de súbito e se mostra nas palavras daqueles cuja simplicidade aflora na maneira de falar. Porque ser sábio é perceber quão frágil e insignificante é o viver humano, quão pobre de espírito é o que, imaginando saber algo e por isso se tornando petulante, não passa de um reles ignorante.
Conhecer para aprender, pesquisar para compreender, ler para saber são pilares da inteligência, um sábio não se forma nunca, está sempre e diariamente alcançando novos saberes, é um eterno aprendiz e consciencioso estudante dedicado à curiosidade a respeito do conhecimento. Da mesma forma que um diamante, cuja composição é por demais comum, vai sendo aprimorado ao longo dos anos até que, mesmo que ele mesmo jamais reconheça isso, se torne a pedra mais preciosa de todos os minerais. O sábio é assim mesmo, tem atitudes eivadas de humildade, repudia o egocentrismo, esconde-se dos holofotes e cultiva por onde passa as pérolas de sua sapiência.
É quase impossível reconhecer um sábio, a menos que o ouça falando ou agindo no seu cotidiano. Em meio ao povo ele se mistura e aprende, observa o vai e vem, o ruge-ruge, o suspirar e o sorriso dos circunstantes, entra nas livrarias e sorri apaixonado pelo ambiente onde a cultura impera, compra livros, visita as bibliotecas e se deleita em descobrir e imaginar, sonhar, viajar através do universo silencioso e quieto do aprendizado ali tão propício, tão amplo, tão conveniente. E quanto mais o sábio conhece, aprende e lê ainda mais percebe que realmente não sabe nada, não sabe tanto, precisa de muito mais sabedoria pois tudo é deveras dinâmico e as informações se mostram como correntezas de rios transbordantes seguindo apressadas rumo aos oceanos. Cabe a ele aproveitar a passagem dessas correntezas e dar o máximo de si para lograr absorver o que lhe for possível desse manancial.
Quer tornar-se um sábio? Então provavelmente você não é um deles, porque o sábio já vem à luz do mundo predisposto a essa condição assim como o ouro encontrado nas montanhas e nos rios, brota tal qual acontece com as flores repentinamente surgidas no asfalto quente, nasce à guisa de orquídea onde somente tulipas são semeadas, surpreende, provoca surpresa, deixa todos atônitos. O sábio não procura nem almeja ser um, já que isso realmente não tem querer, ele simplesmente já é e está em franco desenvolvimento com o passar dos anos, mas em hipótese nenhuma se reconhecerá como sábio, nunca se declarará como detentor desse título arrogante na voz de quem se autoproclama, porém aveludado e sutil no comportamento dos que se revelam por meio de seus gestos.
O sábio assobia e chupa cana ao mesmo tempo, ele sim guarda o segredo há milhões de anos perseguido de dar nó em pingo d'água, ordenha as pedras de onde flui leite, cutuca a onça até sem vara, coloca o guizo no gato, arruma as estrelas no céu deixando-as simétricas, desenha a trilha do infinito, mensura o incomensurável, acende o sol ao amanhecer apagando-o no crepúsculo para, em seguida, clicar no botão da lua para iluminar o firmamento com a beleza dum lindo luar. Tudo isso com uma mão só, a outra amarrada às costas, um olho fechado e o outro semicerrado.
Gilbamar de Oliveira Bezerra
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